A “biografia” de José Dirceu – parte I

Por Mario Sergio Conti, na revista Piauí

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O título do livro de Otávio Cabral é “Dirceu – A Biografia”. O autor poderia ter dispensado o artigo ou posto “uma biografia”. Mas tascou a biografia, o que indica a pretensão de ter feito o relato completo e fidedigno da vida de José Dirceu. Tarefa difícil porque o biografado não quis ser entrevistado pelo biógrafo.

Otávio Cabral diz no prólogo ter contado com a ajuda de dois pesquisadores para “vasculhar nove arquivos públicos”. Três linhas adiante repete o verbo: “Vasculhei os acervos de nove jornais e oito revistas nacionais, além de quatro publicações estrangeiras”, se bem que a BBC não seja uma publicação, e sim uma emissora e um site. Ele fez mais que pesquisar arquivos e órgão de imprensa: vasculhou-os, que os dicionários definem como investigar e esquadrinhar com minúcia.
O livro começa em 1968, com os pais de José Dirceu assistindo pela televisão à sua prisão no Congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna. Informa que a notícia da prisão de José Dirceu foi “transmitida em rede nacional de televisão”. Mas o Brasil só teria rede nacional de tevê no ano seguinte.
O autor diz e rediz que Passa Quatro, onde José Dirceu nasceu, tinha 11 mil habitantes. São Paulo contava com 4 milhões de moradores quando ele se mudou para lá. O autor faz o cálculo e conclui que a capital era “trezentas vezes maior do que a sua Passa Quatro natal”. Cálculo errado: São Paulo era 363 vezes maior. Dirceu estudou no Colégio Paulistano, “na rua Avanhandava, próximo à praça da Sé”. Não, a escola ficava na rua Taguá, na Liberdade. Preparou-se para o vestibular no curso “Di Túlio”, que se grafava “Di Tullio”.
Antes do golpe de 1964, segundo a biografia, José Dirceu conheceu o autor de novelas Vicente Sesso, “com quem foi trabalhar na TV Tupi, ajudando a redigir roteiros”. Sesso “acabara de escrever Minha Doce Namorada, que deu à atriz Regina Duarte o apelido de ‘a namoradinha do Brasil’”. E José Dirceu “foi praticamente adotado por Sesso, que o levou para morar na sua casa, no mesmo quarto de seu filho adotivo, o ator Marcos Paulo”.
José Dirceu não trabalhou na TV Tupi nem fez roteiros. Foi datilógrafo de Sesso. Nunca morou na casa do escritor. Sesso, isso sim, lhe emprestou uma casa que tinha na rua Treze de Maio. Ele só veio a escrever Minha Doce Namorada em 1971, às pressas, para substituir uma novela que obtivera pouca audiência. Essas informações foram dadas pelo próprio José Dirceu numa entrevista a Marília Gabriela que se encontra transcrita na internet. A data e a composição deMinha Doce Namorada podem ser achadas em histórias da teledramaturgia.
São erros tolos? Sem dúvida. Para a caracterização de José Dirceu, interessa pouco saber que em 1968 não havia rede nacional de televisão. Que estudou em tal rua, e não em outra. Que São Paulo era tantas vezes maior que Passa Quatro. Que não escreveu roteiros para a tv Tupi. Mas todos esses equívocos estão nas seis primeiras páginas do capítulo inicial. E a sexta página se encerra com um abuso: Otávio Cabral afirma que José Dirceu apoiava Jango “mais para se opor ao pai do que por ideologia”. Nada autoriza o biógrafo a insinuar o melodrama edipiano. Ainda mais porque, dois parágrafos adiante, é transcrita uma declaração na qual José Dirceu afirma que, no dia mesmo do golpe, se opôs à ditadura por “um problema de classe”.
O livro realça aspectos pessoais em detrimento dos políticos. Ele repete cinco vezes que nos anos 60 Dirceu tinha cabelos compridos, outras quatro que era cabeludo, e duas dizendo que deixava a “barba por fazer”. Caso o leitor não tenha percebido, o livro estampa ainda catorze fotos de Jose Dirceu de cabelos longos e a barba nascendo. A aparência não é anômala nem define o biografado. Muitíssimos jovens eram assim naquela época.
Em contrapartida, o biógrafo não analisa se nos anos 60 José Dirceu era reformista ou revolucionário. Se queria o socialismo ou não. Se considerava a luta de classes o motor da história. Não explica se acreditava mais na guerrilha, no terror ou na legalidade institucional. Ao “vasculhar” a vida de José Dirceu, Cabral se ateve a uma ideia prévia, que ele enuncia assim: “Encontrava na atividade política um prazer e vislumbrava nela uma chance de ascensão social e profissional.”
A afirmação, caída do céu, é oca e insensata. Oca porque não há nada de mais em se ter prazer fazendo política – ou medicina, malabarismo, jornalismo, o que for. Insensata porque, por dez anos, José Dirceu correu perigo real de ser preso (o que lhe aconteceu), torturado e assassinado (o que ocorreu com centenas de outros). Gramou dez anos de exílio e clandestinidade. Não queria subir na vida e sequer tinha profissão. Fazia política em tempo integral.
Com a anistia de 1979, ajudou a construir um partido, o PT, que não lhe garantia “ascensão” alguma. Como dezenas de outros políticos surgidos nos anos 60, poderia ter aderido ao PMDB, ao PDT ou ao PSDB, que logo chegaram ao poder. Dirceu e o PT fizeram política mais de duas décadas antes de entrar no Planalto. Por que não foi pragmático, imediatista? Talvez porque tivesse convicções, as quais Otávio Cabral despreza. O autor prefere se perder em minudências.
Vejamos como ele se perde. O biógrafo diz que Rui Falcão, hoje presidente do PT, foi colega de José Dirceu na Pontifícia Universidade Católica, onde estudou jornalismo. A PUC sequer tinha curso de jornalismo na época e Rui Falcão estudou direito, mas na Universidade de São Paulo. Relata que 5 mil estudantes se reuniram “nas arcadas do Grupo Escolar Caetano de Campos”, que não se chamava “Grupo Escolar” e não tem arcadas. Afirma que a Faculdade de Filosofia, na rua Maria Antônia, tem cinco andares, um a mais do que se vê em qualquer foto. Sustenta que uma das “ações ousadas” de José Dirceu foi a destruição do palanque do governador paulista, Abreu Sodré, no 1º de maio de 1968, na Praça da Sé. O ataque a Sodré foi feito por me-talúrgicos de Osasco, liderados por José Ibrahim. É isso que está dito na entrevista de Ibrahim a José Dirceu, no blog deste último. No Congresso da UNE em Ibiúna, José Dirceu ora é colocado num ônibus, ora num camburão, mas aparece numa foto numa Rural Willys. Depois de uma semana, é levado “para a Fortaleza de Itaipu, em São Vicente” – e a fortaleza fica no município de Praia Grande.

Dez anos sem o dr. Roberto

Por Paulo Nogueira – do blog Diário do Centro do Mundo
Então são dez anos sem o Doutor Roberto Marinho, um homem nas próprias palavras “condenado ao êxito”, completados agora em agosto.
Lembremos sua jornada quase centenária sobre esta terra, contritos, e agradeçamos a ele por:
epoca_globo1) conspirar contra um governo democrático e abrir as portas para uma ditadura militar que matou, perseguiu e fez do Brasil um campeão mundial de desigualdade;
2) fazer um pacto com essa ditadura pelo qual em troca de receber uma rede de tevê a apoiaria incondicionalmente;
3) ocupar o Estado brasileiro, de tal forma que sucessivos governos o brindaram com empréstimos multimilionários a juros maternos ou pagáveis, eventualmente, até com anúncios;
4) ocupar também o legislativo nacional, de maneira que quando o Brasil se abriu à concorrência internacional a Globo permaneceu protegida por uma reserva de mercado que contraria o capitalismo de que nosso companheiro tanto falava;
5) criar, na captação de publicidade, uma propina chamada “BV”, pela qual a Globo mantém até hoje acorrentadas as agências de propaganda e com a qual mesmo com audiências cada vez menores a receita da empresa continua a aumentar;
6) levar ao estado da arte o merchandising, com o qual os brasileiros são estimulados subrepticiamente a tomar cerveja em todas as ocasiões em cenas de novela pelas quais os fabricantes de cervejas pagam um dinheiro muito além da propaganda normal;
7) montar uma programação à base de novelas que ao longo do tempo tanto ajudaram a entorpecer a alma e o espírito crítico de tantos brasileiros;
8) abduzir o judiciário nacional com relações promíscuas, com as quais a emissora pôde montar um esquema bilionário de sonegação sem risco de pagar por isso;
9) manter por tantos anos João Havelange e Ricardo Teixeira na CBF por causa das relações especiais, e com isso conseguir coisas como o pior horário de futebol do mundo, ainda hoje mantido por causa da novela;
10) criar uma cultura de jornalismo da qual derivariam, ao longo do tempo, figuras como Amaral Neto, Alberico Souza Cruz, Merval Pereira, Ali Kamel, William Wack e Arnaldo Jabor.
Por tudo isso, e muito mais, como Galvão e Faustão, Huck e Ana Maria Braga, Saia Justa e Manhattan Connection, Proconsult e Diretas Já, BBB e Jô Soares, nós lembramos o legado do companheiro Roberto Marinho e lhe rendemos graças.

O passado é uma parada…

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Haroldo Maranhão, um dos maiores escritores paraenses de todos os tempos, autografa seu livro “Cabelos no Coração”, nos salões do Museu da UFPA, em 1990.

A tribo nem-nem

Por Ana Diniz (Jornalista)
 
A tribo nem-nem vive mal, tanto de corpo como de alma. Vive somente o presente e não pensa e nem quer saber de futuro. Nem por isso, tem filhos, que cuida mal ou entrega para adoção. Esmolam, trocam favores, furtam e odeiam qualquer disciplina, mesmo a brandíssima disciplina colegial de hoje. Literalmente desperdiçam a sua vida.
 
Alguns estudiosos chamam de geração nem-nem. Acho a palavra “geração” muito ampla e muito injusta: a grande maioria de nossa geração de jovens está em outra. Chamo de tribo: a tribo nem-nem, composta de jovens com idades entre 16 e 24 anos, que não estudam nem trabalham. Estima-se que entre 15% e 20% dos jovens nessa faixa de idade participe da tribo.
Suas condições de vida são diversas: mães precoces cuidando dos filhos; jovens com algum tipo de deficiência, principalmente mental, entre outros casos específicos. Mas há uma grande quantidade de simples desocupados, que alguém mais rigoroso e desabrido poderia chamar de vagabundos.
Onde eles estão, é fácil saber: na rua. E em tudo o que se movimenta nela: torcidas, protestos, sereno de hotel de pop-star, praia, shows gratuitos. Eles moram geralmente na casa dos pais ou de um parente próximo. Não querem nada: largaram os estudos e, sob pressão, até arranjam algum trabalho ocasional. Falam de desemprego, mas jamais procuram sair dessa.
Nada demais – desde que o mundo é mundo que existem esses tipos e por causa deles que o sétimo pecado capital é a preguiça. O que me chamou atenção foi a quantidade: um quinto de toda uma geração se recusa a participar de qualquer tipo de produção. Evidentemente que na tribo nem-nem devem estar também delinquentes e bandidos – mas isso não é privilégio só dessa tribo. Qualquer professor pode confirmar isso.
Transição estrutural, talvez, como quer Wallerstein, cujo último artigo reproduzi na postagem passada. É verdade que há muitos registros históricos de, em épocas de crise econômica, jovens saem vagando sem rumo por seu país. Ou emigram. Mas o Brasil não está numa crise tal que ficar no mesmo lugar signifique morrer. Há oportunidades. Há mercado formal, há mercado informal. Há escolas, incentivos oficiais e privados. Eu penso que “transição estrutural” é um termo vasto demais para justificar isso aí.
A tribo nem-nem vive mal, tanto de corpo como de alma. Vive somente o presente e não pensa e nem quer saber de futuro. Nem por isso, tem filhos, que cuida mal ou entrega para adoção. Esmolam, trocam favores, furtam e odeiam qualquer disciplina, mesmo a brandíssima disciplina colegial de hoje. Literalmente desperdiçam a sua vida.
Ela está crescendo, essa tribo, segundo o IBGE, que tira os dados da Pesquisa Mensal de Emprego. Alguns dizem que a solução para eles está na educação, que me parece ser usada hoje como outra panaceia universal. O problema é que um membro da tribo nem-nem não quer saber de estudo. Aliás, não quer saber de nada que signifique esforçar-se por alguma coisa. É preguiça, mesmo.
E combater a preguiça é uma das coisas mais difíceis que existem. Tudo porque só a pessoa pode resolver esse problema. É como se livrar de qualquer outro vício: a primeira coisa necessária é querer. O que, para a tribo nem-nem, é complicado demais. 
 
(Transcrito do blog de Manuel Dutra)