“Ei, Bolsonaro, vai tomar no…”: o Brasil trocou as palavras de ordem pelos palavrões

Por Cynara Menezes

No dia 12 de junho de 2014, durante a abertura da Copa do Mundo no Itaquerão, em São Paulo, a presidenta Dilma Rousseff ouviu um gigantesco “vai tomar no cu” vindo das arquibancadas do estádio. Foi um “protesto” para o mundo inteiro ver. Aquilo jamais tinha acontecido com um presidente no Brasil. Em se tratando de uma mulher com mais de 60 anos, o xingamento soava ainda mais chocante. Disseram que até jornalistas, na área VIP, participaram do coro.

Em 30 anos como jornalista, eu nunca tinha visto nada igual. Cobri manifestações nos governos Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Não me lembro de ver nada parecido contra nenhum deles. Ouvi todos os tipos de palavras de ordem. Nos protestos dos caras-pintadas contra Collor, entoavam, de forma bem humorada: “Rosane, que coisa feia. Vai com Collor pra cadeia”, “Fora Collor já”, “PC, PC, vai pra cadeia e leva o Collor com você”, “Ai, ai, ai, empurra ele que ele cai”, “Ê Fernandinho/vê se te orienta/já sabem do teu furo/no imposto de renda” (no ritmo de Al Capone, de Raul Seixas).

Na Marcha dos 100 Mil, em Brasília, em agosto de 1999, os manifestantes gritavam “Fora FHC!”, “Basta de FHC!”, “você aí parado, também é explorado”, “Fora FMI!”. Um vendedor de água mineral bradava: “Olha a água mineral, Fernando Henrique sem moral!”. Criatividade, engajamento, politização. Ninguém mandou FHC tomar naquele lugar. 

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Os palavrões entraram na política na Copa do Mundo. Depois, durante os protestos verde-amarelos pelo impeachment de Dilma, não se viu outra coisa além de xingamentos. A primeira mulher presidenta da República, mãe e avó, era chamada de “puta”, “quenga”, “vaca”… Inclusive em cartazes: em vez de palavras de ordem, palavrões de ordem. Era só rolar a oportunidade que o coro ofensivo voltava. Deprê.

Passamos pelo que passamos, golpe, era Temer, prisão de Lula e agora o desastre Bolsonaro. A população, apática, como bois caminhando em direção ao matadouro, viu a aposentadoria e os direitos trabalhistas se esfumarem, as queimadas na Amazônia, a ameaça aos povos indígenas, o desaparecimento do Queiroz, a impunidade da morte de Marielle, o desemprego, os cortes na educação… Viu tudo isso numa inércia digna de estátua de sal bíblica –para ornar com a mescla nefasta entre Estado e governo patrocinada pela extrema direita.

Mas como assim sem reação? Gritamos “ei, Bolsonaro, vai tomar no cu” no Rock in Rio! Assim como havíamos feito com Temer em 2017… E do quê adiantou? A troca das palavras de ordem pelos palavrões funcionou para os verde-amarelos, é verdade. Mas, justiça seja feita, eles foram às ruas para isso. Nós, não. Estamos entrincheirados detrás de hashtags do twitter e memes nas redes sociais. Parecemos até… eles. Com a diferença, repito, de que os chamados “coxinhas” juntaram a ação virtual à real, em protestos multitudinários. Parecia até… nós. No passado.

Me dizem que os palavrões servem como uma catarse coletiva, um desabafo. Mandar Bolsonaro tomar naquele lugar seria como extravasar o grito que está preso na garganta. Mas é este mesmo o grito que queremos soltar? Eu preferia gritar “Lula Livre”, a palavra de ordem que tantos, até no campo progressista, cobram que se cale em nossas parcas manifestações. “Bolsonaro, safado, cadê minha bolsa de mestrado?”, “Bolsonaro, Michelle, quem matou Marielle?”, “Bolsonaro, mito, deixe os índios, maldito!”, “Bolsonaro, atroz, onde está o Queiroz?” Eram tantas as opções… “Bolsonaro, vai tomar no cu” é mais sonoro, mais rock and roll, entendo. Mas dá uma tristeza, não dá, não? Ver o debate político reduzido a xingamentos. 

Dizem que os palavrões funcionam como uma catarse coletiva, um desabafo. Mandar Bolsonaro tomar naquele lugar seria como extravasar o grito preso na garganta. Mas é este mesmo o grito que queremos soltar? Eu preferia gritar “Lula Livre”

Xingaram a Dilma, agora é o presidente quem xinga tudo e todos. Nem as árvores escapam do palavreado baixo nível do chefe da nação. Arthur Weintraub, irmão do ministro da Educação e assessor especial da presidência da República, dá o tom do “debate” que eles querem ter com os “comunistas”, em uma palestra de dezembro de 2018. “Quando um comunista ou socialista chegar pra você com um papo fronhoinhoin (sic), você manda ele para aquele lugar. Xinga. Faça o que o professor Olavo fala: xinga, xinga”, ele aconselha.

Pois é, o guru da extrema direita, Olavo de Carvalho, adora xingar. É seu principal “argumento” nas redes sociais. “Cu” e “piroca” são termos tão presentes em sua “filosofia” quanto “foro de São Paulo”. O ideólogo do bolsonarismo já chamou ministros do governo de “filhos da puta” e disse que o general Santos Cruz é “um merda” e “uma bosta engomada”. O general acabou demitido da Secretaria de Governo.  

“Mandar certos sujeitos tomarem no(s) cu(s) é uma maneira de informar-lhes que frescura não entra”, diz Olavo. “Eu uso esses palavrões porque são necessários no contexto brasileiro para demolir essa linguagem polida que é uma camisa-de-força que prende as pessoas, obrigando-as a respeitar o que não merece respeito. Então, às vezes, quando você discorda de um sujeito, mas discorda respeitosamente, você tá dando força, está dando mais força pra ele do que se concordasse. Porque você está indo contra a ideia dele, mas você está reforçando a autoridade dele.”

Ao apelar para o xingamento em relação a Bolsonaro, a esquerda brasileira parece estar se rendendo aos “ensinamentos” de Olavo e seguindo o exemplo dos Bolsonaro e dos Weintraub da vida: adultos que agem como moleques mal educados. Daí os palavrões. O presidente já falou para um cidadão que lhe perguntou do Queiroz: “tá na casa da sua mãe”. Que ninguém se espante quando Bolsonaro der o dedo do meio para alguém. Eles são assim. 

Mas não éramos nós que tínhamos mais conteúdo? Não éramos nós que queríamos elevar o debate político? E agora nos encontramos chafurdando na lama da baixaria, da falta de argumentos, que nem aqueles que criticávamos? Xingar Bolsonaro para mim é como se tivéssemos nos dobrado às “estratégias” da extrema direita. É prova cabal de que também nós estamos sem consciência política, sem narrativa, sem estofo; é como se estivéssemos assumindo nossa incapacidade de mobilização, de tomar alguma atitude contra este governo fascista além de xingar. Qual o próximo passo? Fazer coreografias ridículas?

“Bolsonaro merece ser xingado”, explicam. Ele merece, sem dúvida. Nós é que não merecemos decair tanto. A esquerda é maior do que isso. A esquerda é melhor do que isso.

Talvez agora a Folha aprenda a lição

Por Leandro Fortes

No início de 2009, quando a corrida presidencial de então se anunciava com uma candidata escolhida por Lula – Dilma Rousseff – para sucedê-lo, a mídia brasileira havia se convertido em um esgoto de mentiras e meias verdades. 

Em abril daquele ano, a Folha de S.Paulo, disposta a superar os inenarráveis O Globo e Veja, publicou, na primeira página, uma ficha falsa de Dilma. Um pseudo documento do DOPS, alusivo à ditadura militar, dando conta de supostas atividade terroristas da candidata do PT.

Era lixo puro, roubado de um site de extrema direita frequentado pela turma de Bolsonaro, que já circulava pelas incipientes redes sociais de então. 

Mas a Folha bancou, na primeira página. 

Dilma reagiu com civilidade, a Folha reconheceu o erro de forma canalha, sem assumir a culpa pela divulgação, e ficou por isso mesmo. 

Eleita, Dilma ainda se deu ao desfrute de ir discursar no aniversário de 90 anos do jornal, em 2011 – um daqueles ataques de republicanismo que iriam ajudar a direita a moer os governos petistas. 

Ou seja, a Folha foi cruel, infame, mentirosa e cínica com Dilma, como já havia sido com Lula, mas jamais sofreu retaliação ou ameaça dos governos petistas. Seus jornalistas continuaram a ser tratados com respeito e consideração, no Palácio do Planalto. 

Uma década depois, ao fazer uma reportagem verdadeira sobre o presidente da República eleito no rastro de destruição nacional que a Folha, em nome do antipetismo, ajudou a construir, o jornal passou a ser tratado como inimigo da nação.

Bolsonaro insulta publicamente o jornal e seus jornalistas. O secretário de imprensa do governo, um zé-ninguém, insinua cortes de publicidade.

E, ironia do destino, a Folha é, tardiamente e pelos motivos errados, chamada de esgoto.

Talvez, agora, aprenda a lição.