O que é a “nova” ultradireita?

Ela flerta com o fascismo, mas submete a nação aos poderes globais. É totalitária – mas não impõe a lógica do Estado, e sim a da Mercadoria, da Empresa, da Meritocracia, do Investidor. Contra tal distopia, a ideia de revolução social

Por Marilena Chauí, no A Terra é Redonda

Tornou-se corrente nas esquerdas o uso de termos fascismo e neofascismo para descrever criticamente nosso presente.

Estamos acostumados a identificar o fascismo com a presença do líder de massas como autocrata. É verdade que, hoje, embora os governantes não se alcem à figura do autocrata, operam com um dos instrumentos característico do líder fascista, qual seja, a relação direta com “o povo”, sem mediações institucionais e mesmo contra elas. Também, hoje, se encontram presentes outros elementos próprios do fascismo: o discurso de ódio ao outro – racismo, homofobia, misoginia; o uso das tecnologias de informação que levam a níveis impensáveis as práticas de vigilância, controle e censura; e o cinismo ou a recusa da distinção entre verdade e mentira como forma canônica da arte de governar.

No entanto, não emprego esse termo por três motivos: (a) porque o fascismo tem um cunho militarista que, apesar das ameaças de Trump à Venezuela ou ao Irã,  as ações de Nathanayu sobre a faixa de Gaza, ou a exibição da valentia do homem armado pelo governo Bolsonaro e suas ligações com as milícias de extermínio, não podem ser identificados com a ideia fascista do povo armado; (b) porque o fascismo propõe um nacionalismo extremado, porém a globalização, ao enfraquecer a ideia do Estado-nação como enclave territorial do capital, retira do nacionalismo o lugar de centro mobilizador da política e da sociedade; (c) porque o fascismo pratica o imperialismo sob a forma do colonialismo, mas a economia neoliberal dispensa esse procedimento usando a estratégia de ocupação militar de um espaço delimitado por um tempo delimitado para devastação econômica desse território, que é abandonado depois de completada a espoliação.

Em vez de fascismo, denomino o neoliberalismo com o termo totalitarismo, tomando como referência as análises da Escola de Frankfurt sobre os efeitos do surgimento da ideia de sociedade administrada.

O movimento do capital transforma toda e qualquer realidade em objeto do e para o capital, convertendo tudo em mercadoria, instituindo um sistema universal de equivalências próprio de uma formação social baseada na troca pela mediação de uma mercadoria universal abstrata, o dinheiro.

A isso corresponde o surgimento de uma prática, a da administração, que se sustenta sobre dois pilares: o de que toda dimensão da realidade social é equivalente a qualquer outra e por esse motivo é administrável de fato e de direito, e o de que os princípios administrativos são os mesmos em toda parte porque todas as manifestações sociais, sendo equivalentes, são regidas pelas mesmas regras. A administração é concebida e praticada segundo um conjunto de normas gerais desprovidas de conteúdo particular e que, por seu formalismo, são aplicáveis a todas as manifestações sociais. A prática administrada transforma uma instituição social numa organização.

Uma instituição social é uma prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, sendo estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos. Sua ação se realiza numa temporalidade aberta ou histórica porque sua prática a transforma segundo as circunstâncias e suas relações com outras instituições.

Em contrapartida, uma organização se define por sua instrumentalidade, fundada nos pressupostos administrativos da equivalência. Está referida ao conjunto de meios particulares para obtenção de um objetivo particular, ou seja, não está referida a ações articuladas às ideias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações, isto é, estratégias balizadas pelas ideias de eficácia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. É regida pelas ideias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito, por isso sua temporalidade é efêmera e não constitui uma história.

Por que designar o neoliberalismo como o novo totalitarismo?

Totalitarismo: por que em seu núcleo encontra-se o princípio fundamental da formação social totalitária, qual seja, a recusa da especificidade das diferentes instituições sociais e políticas que são consideradas homogêneas e indiferenciadas porque são concebidas como organizações. O totalitarismo é a afirmação da imagem de uma sociedade homogênea e, portanto, a recusa da heterogeneidade social, da existência de classes sociais, da pluralidade de modos de vida, de comportamentos, de crenças e opiniões, costumes, gostos e valores.

Novo: por que, em lugar da forma do Estado absorver a sociedade, como acontecia nas formas totalitárias anteriores, vemos ocorrer o contrário, isto é, a forma da sociedade absorve o Estado. Nos totalitarismos anteriores, o Estado era o espelho e o modelo da sociedade, isto é, instituíam a estatização da sociedade; o totalitarismo neoliberal faz o inverso: a sociedade se torna o espelho para o Estado, definindo todas as esferas sociais e políticas não apenas como organizações, mas, tendo como referência central o mercado, como um tipo determinado de organização: a empresa – a escola é uma empresa, o hospital é uma empresa, o centro cultural é uma empresa, uma igreja é uma empresa e, evidentemente, o Estado é uma empresa.

Deixando de ser considerada uma instituição pública regida pelos princípios e valores republicano-democráticos, passa a ser considerado homogêneo ao mercado. Isto explica porque a política neoliberal se define pela eliminação de direitos econômicos, sociais e políticos garantidos pelo poder público, em proveito dos interesses privados, transformando-os em serviços definidos pela lógica do mercado, isto é, a privatização dos direitos, que aumenta todas as formas de desigualdade e exclusão.

O neoliberalismo vai além: encobre o desemprego estrutural por meio da chamada uberização do trabalho e por isso define o indivíduo não como membro de uma classe social, mas como um empreendimento, uma empresa individual ou “capital humano”, ou como empresário de si mesmo, destinado à competição mortal em todas as organizações, dominado pelo princípio universal da concorrência disfarçada sob o nome de meritocracia.

O salário não é visto como tal e sim como renda individual e a educação é considerada um investimento para que a criança e o jovem aprendam a desempenhar comportamentos competitivos. O indivíduo é treinado para ser um investimento bem sucedido e para interiorizar a culpa quando não vencer a competição, desencadeando ódios, ressentimentos e violências de todo tipo, destroçando a percepção de si como membro ou parte de uma classe social e de uma comunidade, destruindo formas de solidariedade e desencadeando práticas de extermínio.

Quais são as consequências do novo totalitarismo?

– social e economicamente, ao introduzir o desemprego estrutural e a terceirização toyotista do trabalho, dá origem a uma nova classe trabalhadora denominada por alguns estudiosos com o nome de precariado para indicar um novo trabalhador sem emprego estável, sem contrato de trabalho, sem sindicalização, sem seguridade social, e que não é simplesmente o trabalhador pobre, pois  sua identidade social não é dada pelo trabalho nem pela ocupação, e que, por não ser cidadão pleno, tem a mente alimentada e motivada pelo medo, pela perda da autoestima e da dignidade, pela insegurança;

– politicamente põe fim às duas formas democráticas existentes no modo de produção capitalista: (a) põe fim à social-democracia, com a privatização dos direitos sociais, o aumento da desigualdade e da exclusão; (b) põe fim à democracia liberal representativa, definindo a política como gestão e não mais como discussão e decisão públicas da vontade dos representados por seus representantes eleitos; os gestores criam a imagem de que são os representantes do verdadeiro povo, da maioria silenciosa com a qual se relacionam ininterruptamente e diretamente por meio do twitter, de blogs e redes sociais – isto é, por meio do digital party –, operando sem mediação institucional,pondo em dúvida a validade dos parlamentos políticos e das instituições jurídicas, promovendo manifestações contra eles; (c) introduz a judicialização da política, pois, numa empresa e entre empresas, os conflitos são resolvidos pela via jurídica e não pela via política propriamente dita. Em outras palavras, sendo o Estado uma empresa, os conflitos não são tratados  como questão pública e sim como questão jurídica, no melhor dos casos, e como questão de polícia, no pior dos casos; (d) os gestores operam como gangsters mafiosos que institucionalizam a corrupção, alimentam o clientelismo e forçam lealdades. Como o fazem? Por meio do medo. A gestão mafiosa opera por ameaça e oferece “proteção” aos ameaçados em troca de lealdades para manter todos em dependência mútua. Como os chefes mafiosos, os governantes também têm os consiglieri, conselheiros, isto é, supostos intelectuais que orientam ideologicamente as decisões e os discursos dos governantes, estimulando o ódio ao outro, ao diferente, aos socialmente vulneráveis (imigrantes, migrantes, refugiados, lgbtq+, sofredores mentais, negros, pobres, mulheres, idosos) e esse estímulo ideológico torna-se justificativa para práticas de extermínio; (e)transformam todos os adversários políticos em corruptos, embora a corrupção mafiosa seja, praticamente, a única regra de governo; (f) têm controle total sobre o judiciário por meio de dossiês sobre problemas pessoais, familiares e profissionais de magistrados aos quais oferecem “proteção” em troca de lealdade completa (e quando o magistrado não aceita o trato, sabe-se o que lhe acontece);

– ideologicamente, com a expressão “marxismo cultural”, os gestores perseguem todas as formas e expressões do pensamento crítico e inventam a divisão da sociedade entre o bom povo, que os apoia, e os diabólicos, que os contestam. Por orientação dos consiglieri, pretendem fazer uma limpeza ideológica, social e política e para isso desenvolvem uma teoria da conspiração comunista, que seria liderada por intelectuais e artistas de esquerda. Os conselheiros são autodidatas que se formaram lendo manuais e odeiam cientistas, intelectuais e artistas, aproveitando-se do ressentimento que a extrema direita tem por essas figuras. Como tais conselheiros estão desprovidos de conhecimentos científicos, filosóficos e artísticos, empregam a palavra “comunista” sem qualquer sentido preciso: comunista significa todo pensamento e toda ação que questionem o status quo e o senso comum (por exemplo: que a terra é plana; que não há evolução das espécies; que a defesa do meio ambiente é mentirosa; que a teoria da relatividade não tem fundamento, etc.). São esses conselheiros que oferecem aos governantes os argumentos racistas, homofóbicos, machistas, religiosos, etc., isto é, transformam medos, ressentimentos e ódios sociais silenciosos em discurso do poder e justificativa para práticas de censura e de extermínio;

– a dimensão planetária da forma econômica neoliberal faz com que não exista um “fora” do capitalismo, uma alteridade possível, levando à ideia de “fim da história”, portanto à perda da ideia de transformação histórica e de um horizonte utópico. A crença na inexistência da alteridade é fortalecida pelas tecnologias de informação, que reduzem o espaço ao aqui, sem geografia e sem topologia (tudo se passa na tela plana como se fosse o mundo) e ao agora, sem passado e sem futuro, portanto sem história (tudo se reduz a um presente sem profundidade). Volátil e efêmera, nossa experiência desconhece qualquer sentido de continuidade e se esgota num presente vivido como instante fugaz;

– a fugacidade do presente, a ausência de laços com o passado objetivo e de esperança em um futuro emancipado, suscitam o reaparecimento de um imaginário da transcendência. Assim, a figura do empresário de si mesmo é sustentada e reforçada pela chamada teologia da prosperidade, desenvolvida pelo neopentecostalismo. Mais do que isso. Os fundamentalismos religiosos e a busca da autoridade decisionista na política são os casos que melhor ilustram o mergulho na contingência bruta e a construção de um imaginário que não a enfrenta nem a compreende, mas simplesmente se esforça por contorná-la apelando para duas formas inseparáveis de transcendência: a divina (à qual apela o fundamentalismo religioso) e a do governante (à qual apela o elogio da autoridade forte).

Diante dessa realidade, muitos afirmam que vivemos num mundo distópico, no qual as distopias são concebidas sob a forma da catástrofe planetária e do medo. Vale a pena, entretanto, mencionar brevemente a diferença entre utopia e distopia.

A utopia é a busca de uma sociedade totalmente outra que negue todos os aspectos da sociedade existente. É a visão do presente sob o modo da angústia, da crise, da injustiça, do mal, da corrupção e da rapina, do pauperismo e da fome, da força dos privilégios e das carências, ou seja, o presente como violência nua. Por isso mesmo é radical, buscando a liberdade, a fraternidade, a igualdade, a justiça e a felicidade individual e coletiva graças à reconciliação entre homem e natureza, indivíduo e sociedade, sociedade e poder, cultura e humanidade. Uma utopia não é um programa de ação, mas um projeto de futuro que pode inspirar ações que assumem o risco da história, fundando-se na ação humana como potência para transformar a realidade, tornando-se imanentes à história, graças à ideia de revolução social.

A distopia tem um significado crítico inegável ao descrever o presente como um mundo intolerável, porém corre o risco de transformá-lo em fantasma e rumar para o fatalismo, a imobilidade e  o desalento do fim da história. A utopia também parte da constatação de um mundo intolerável, mas em lugar de curvar-se a ele, trabalha para colocá-lo em tensão consigo mesmo para que dessa tensão surjam contradições que possam ser trabalhadas pela práxis humana. A imobilidade distópica decorre de sua estrutura fantasmática: nela, o intolerável não é o ponto de partida e sim o ponto de chegada. Ao contrário, a mobilidade utópica provém de sua energia como projeto e práxis, como trabalho do pensamento, da imaginação e da vontade para destruir o intolerável: o intolerável é seu ponto de partida e não o de chegada.

Se a utopia é a visão do presente sob o modo da angústia, da crise, da injustiça, do mal, da corrupção e da rapina, do pauperismo e da fome, da força dos privilégios e das carências, do presente como violência intolerável, não podemos abrir mão da perspectiva utópica nas condições de nosso presente.

Bill Russell, maior vencedor da NBA, aceita entrar no Hall da Fama 44 anos anos depois

Por Fábio Balassiano

Foi com um singelo tuíte que Bill Russell, maior vencedor da história da NBA com 11 títulos, todos pelo Boston Celtics, anunciou que enfim decidiu aceitar entrar no Hall da Fama. Ele foi indicado para a honraria máxima do basquete em 1975, mas naquele ano ele recusou porque seria o primeiro negro a entrar no Hall, algo que não concordava.

No Twitter, Russell escreveu: “Em uma cerimônia privada com minha esposa e amigos próximos, aceitei meu anel de Hall da Fama. Em 1975, recusei ser o primeiro jogador negro a entrar no Hall da Fama do basquete, pois sentia que outros antes de mim deveriam ter essa honra. Bom por ver o progresso, Chuck Cooper”, disse no microblog.

A mudança de opinião de Bill Russell se explica. Chuck Cooper (1926-1984), citado no tuíte de Bill, foi o primeiro negro a ser draftado por um time da NBA, exatamente o Boston Celtics, em 1950. Cooper, porém, demorou até setembro deste ano para, em uma honraria póstuma, ser reconhecido ao entrar no Hall da Fama.

Com a porta aberta por Chuck, Bill Russell, atualmente com 85 anos, se viu “livre” para enfim colocar seu anel de imortal do Hall da Fama na mão em uma cerimônia íntima que contou com seus amigos Bill Walton e Alonzo Mourning.

Quarenta e quatro anos depois, dá pra dizer que o Hall da Fama está completo com uma de suas mais importantes figuras.

Jesus desafia o corporativismo

POR GERSON NOGUEIRA

A presença vitoriosa de Jorge Jesus no futebol brasileiro tem incomodado a maioria dos técnicos da Série A. De vez em quando, surge um comentário enviesado ou uma observação que visa desmerecer os resultados obtidos pelo comandante rubro-negro.

Os números estão com Jesus, o desempenho do Flamengo também. Os títulos (Brasileiro e Libertadores) ainda não chegaram, mas não há hoje no país um técnico mais bem sucedido que ele. Fato.

Nenhum técnico estrangeiro fez tanto sucesso no Brasil, o que ajuda a explicar o desconforto dos treinadores, até pela falta de hábito em dividir holofotes com um profissional de fora.

O incômodo é maior ainda porque Jesus não refresca ninguém. Não é lá muito chegado a palavras amáveis e costuma ser ácido nas declarações, batendo forte quando acha que o adversário não queria jogar futebol ou quando seu time sofre marcação desleal.

Atacou publicamente Alberto Valentim, do Botafogo, pelo que considerou uma atuação de “caça ao homem” no clássico da semana passada. Em resposta, o botafoguense deu um jeito de mencionar que “aqui é assim”, bairrismo tolo no futebol globalizado de hoje.

Antes, o retranqueiro Fábio Carille, ex-Corinthians, num acesso de puro delírio, disse que seu time não jogava tão diferente do Flamengo de Jesus. Renato Gaúcho, que ontem perdeu de novo para o português, já questionou o currículo e a idade do colega de profissão.

Na entrevista concedida após o jogo com o Grêmio, Jesus botou o dedo na ferida. Afirmou que não é melhor e nem pior que os demais treinadores. Falou que veio trabalhar, não para tirar o lugar de ninguém e nem ensinar.

Aproveitou para lembrar aos distraídos que “em Portugal já trabalhou um brasileiro, Scolari, um grande treinador, que foi acarinhado por todos os treinadores portugueses. Além dele, Lazaroni, Abel, René Simões, Autuori e outros trabalharam e nós tentamos aprender, tirar algo de positivo”.

Em seguida, deixou a sutileza de lado e entrou de sola reclamando da agressividade verbal que os treinadores do Brasil têm demonstrado em relação a ele, inclusive alguns que já estão aposentados.

“Não entendo estas mentes fechadas. Não me incomoda, quero é que eles cresçam, que percebam a globalização do mundo. A globalização ainda não chegou ao Brasil? Já chegou ao Brasil, eu estou aqui… Que não se fechem e que tirem estes fantasmas da cabeça porque o Brasil tem grandes treinadores”, observou, antes de citar Camões e o pecado da inveja.

Além da contribuição como técnico, Jesus presta um imenso serviço ao futebol brasileiro ao escancarar a vaidade excessiva dos treinadores nativos que se traduz no corporativismo radical e nas constantes críticas ao lusitano.  

Classe adulada excessivamente, a ponto de merecer a designação inadequada de “professor”, técnico no Brasil raramente se preocupa com atualização e aprendizado. Talvez por isso, Felipão seja o único que até agora se destacou no futebol europeu.

Vanderlei Luxemburgo teve uma oportunidade de ouro no Real Madrid dos galácticos, mas caiu pela inabilidade em lidar com astros de primeira grandeza (Zidane, Ronaldo, Beckham) e por não falar espanhol.

Ao invés de ruminar mágoas, os técnicos brasileiros têm com Jesus uma boa chance de sair da acomodação. Não que o português seja perfeito. Não é. Tem algumas manias bobas, como reclamar sempre que seus planos não se concretizam, mas tem coisas interessantes a transmitir, como a disciplina tática e a paixão pelo futebol ofensivo.

Papão deve anunciar renovação de Hygor e Tomaz

Na semana mais importante do ano, o Papão foca na decisão da Copa Verde com o Cuiabá, mas também negocia a renovação de contrato com jogadores importantes, como Hygor Silva e Tomaz Bastos, que têm o aval do técnico Hélio dos Anjos para permanecer no elenco.

Com entendimentos bem adiantados, ambos podem entrar em campo na quarta-feira garantidos para a próxima temporada, embora a prioridade no clube seja a conquista do torneio.

Caso os acordos sejam fechados, Hélio ganha peças importantes para formar uma base consistente para reformulação do time. Além de Hygor e Tomaz, o PSC já renovou com Micael, Bruno Collaço, Nicolas, Vinícius Leite, Uchoa e Leandro Lima. Elielton e Paulo Ricardo ainda negociam a renovação.

Sampaoli e o exemplo da coerência

O argentino Jorge Sampaoli, técnico do Santos, avisou de véspera que deixaria o clube se fosse obrigado a cumprimentar Bolsonaro durante o jogo contra o S. Paulo, na Vila Belmiro, que teve a presença do presidente da República. Não cumprimentou e ninguém ousou lhe pedir isso.

Politizado e declaradamente de esquerda, Sampaoli é um crítico do uso que a classe política adora fazer do futebol na América do Sul.

Tomou atitude que a muitos pode parecer arrogante, principalmente para os que estão acostumados com a postura tradicionalmente baba-ovo dos ídolos do futebol brasileiro.

O presidente já foi recebido com júbilo por Felipão, Neymar e Felipe Melo. Acaba de ser publicamente elogiado por Renato Gaúcho.

Sampaoli, além do belo trabalho no Peixe, se tornou voz solitária em contraposição aos que apoiam o atual governo no cenário do futebol brasileiro. Para isso, não precisou ser agressivo, gritar palavras de ordem ou segurar cartazes. Foi apenas educado e coerente. 

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 18)

Para Lula, os versos da ‘mãe pernambucana’: “Eu sabia que ia voltar para me abraçar”

Por Joaquim de Carvalho, no DCM

Lula terminou o discurso dele em Pernambuco na noite deste domingo com uma expressão leve, parecia de alma lavada. Os músicos do Estrela Brilhante, grupo de Maracatu, estavam bem afiados na rima:

“Já ficou público o registro que Moro prevaricou. Prendeu Lula e ajudou a eleger o sinistro. Se vendeu para ser ministro. Terá seu nome esquecido. Em vez de juiz, bandido e, além de playboy mané, vai ser condenado até o dia de ter nascido.”

No final do Festival Lula Livre, um poema emocionou o público, ao retratar Pernambuco e Lula como mãe e filho:

“Sonho, esse bicho poderoso, que cresce sem que ninguém possa controlar. É um perigo, é um perigo para quem não sonha. Esse perigo foi crescendo, porque eram tantos abraços, tantos sonhos, que isso é capaz de mudar o mundo inteiro, que dirá um país. E tentaram te privar disso, dos abraços… Te trancaram na gaiola, menino passarinho do agreste, que canta sonhos. Doeu tanto em mim, filho. Mas deixa eu te contar: Não teve um dia sequer que eu perdesse a esperança. Os sonhos… Eu sabia que tu ias voltar para me abraçar. Bem-vindo, filho. Estou aqui, estou aqui…”

Lula, nascido em Pernambuco, fez um discurso com referência histórica. Citou Frei Caneca, o mártir da revolução pela independência de brasileiros do jugo português, com o movimento de 1817 e a Confederação do Equador de 1824.

Ele falava sobre a sondagem que seus advogados receberam alguns meses depois de se entregar à Polícia Federal, no sentido de trocar o cárcere em Curitiba pela prisão domiciliar.

“A minha casa não é uma prisão, a minha casa é um lugar de liberdade. Segundo: minha canela não é canela de pombo, eu não sou pombo correio para colocar tornozeleira. Eu não aceito negociação, eu quero a minha inocência. Eu não quero privilégio. Eu quero que eles julguem meu processo. Eu quero que eles arrumem prova para dizer que eu sou culpado.

Por isso eu fui obrigado a dizer, como pernambucano que sou, como homem da terra de Frei Caneca, como homem da terra de lutadores que tiveram a coragem de, em 1824, fazer a Confederação do Equador, que tiveram a coragem de, em 1817, fazer a primeira luta pela independência deste país:

Eu, filho humilde de Garanhuns, criado por uma mãe analfabeta, um pai analfabeto, que nasceram e morreram analfabetos. Eles me deram uma coisa que a elite brasileira não aprendeu nos bancos da universidade: é ter caráter e dignidade.”

A fala de Lula pareceu o relato dos 580 dias em que esteve preso. Foi mais pessoal do que os discursos anteriores — na Vigília Lula Livre, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e na reunião da Executiva do PT em Salvador:

“Eu hoje sou um homem melhor do que aquele que entrou na cadeia. Eu sou um homem mais maduro. Eu sou um homem que aprendi que nada, nada, nada derrota as pessoas que se amam neste país. Nada.”

No final, voltou a falar do amor, depois de apresentar aos conterrâneos de Pernambuco a mulher que escolheu para casar, Rosângela Silva, a “Janginha”. O público pedia “beija, beija, beija”, e ele respondeu, como se estivesse entre amigos íntimo, em casa:

“Eu tenho vergonha, eu tenho vergonha, eu tenho vergonha”.

Mas Janja se aproximou, e os dois se beijaram.

Pouco depois, ao encerrar seu discurso, declarou:

“Nós não vendemos ódio, nos vendemos amor, paixão, e é muito coração nesta história”.

Lula beijou alguns músicos (Otto, Chico César) e saiu dançando.

Era o Lulinha Paz e Amor, neste ponto do discurso, porque, em outros, ele foi muito contundente, ao falar de Moro, Dallagnol, Globo e do governo de milicianos. Não mencionou o nome de Bolsonaro uma única vez.

“Eu estou vendo o país ser destruído. Eu estou vendo a nossa cultura ser destruída. Eu estou vendo a ciência e tecnologia ser destruída. Eu estou vendo as nossas universidades serem destruídas. Eu estou vendo os nossos empregos serem destruídos. Eu estou vendo a esperança da sociedade brasileira, sobretudo da juventude, ser destruída. Eu estou vendo os ataques aos LGBTs, aos negros, aos índios. Eu estou vendo o crescimento do feminicídio neste país, com uma violência bárbara contra as mulheres brasileiras. Eu estou vendo os salários desaparecerem. Eu estou vendo a aposentadoria ficar cada vez mais distante do povo trabalhador.  E eu estou vendo que nós estamos com dificuldade de reagir.”

Ele disse que superou a solidão da cadeia com a atenção voltada para as dificuldades que estavam (e estão) sendo impostas à população brasileira:

“Não foi fácil tirar de um cidadão de 74 anos 580 dias de liberdade. Não é uma coisa simples. Deixar um cidadão ficar 580 dias dentro de uma cela quando, na verdade, a quadrilha neste país foi montada pela Moro, foi montada pelo Dallagnol. E eu quero que vocês saibam: todo mundo que ia me visitar ficava com pena de mim.

— Ô Lula, você fala com quem?

Eu falava:

— Com ninguém, eu falo com os advogados, eu falo com o carcereiro.

— Ô Lula, como é que você dorme?

— Eu durmo bem.

— Ô Lula, como é que você almoça e janta?

— Eu almoço e janto bem.

Porque a minha referência não era o Lula, a minha referência era o povo brasileiro.”

E acrescentou:

“Eles estão destruindo o país em nome do quê? Eles estão destruindo os empregos em nome do quê? Eles estão destruindo a esperança em nome do quê? Eles estão fomentando a milícia neste país em nome do quê? Eles estão alimentando o ódio em nome do quê? A Globo alimenta a mentira em nome quê?”

Sobre seus algozes da Lava Jato, sinalizou que gostaria de participar de uma eleição em que eles também fossem candidatos, e para isso conta com a anulação de seus processos, para recuperar direitos políticos.

“A campanha Lula Livre tem que se transformar numa campanha muito maior, porque o que nós queremos é a anulação da safadeza dos processos contra nós. Apresentem provas contra mim e me condenem, e eu não virei mais fazer discursos para vocês. Mas, se não tiver provas, eu adoraria estar num palanque aqui, Morro aqui, Dallagnol aqui, para discutir com eles quem é safado neste país. Quem é que montou quadrilha neste país.”

Por fim, falou sobre seus planos:

“Depois de tanta gente se mobilizar pelo país, eu queria dizer: a luta não acabou, não há como acabar uma luta porque cada dia nós queremos mais. Quando eu resolvi me entregar, eu disse ao povo brasileiro: eu não sou o Lula, eu sou uma ideia já assumida pelo povo brasileiro. Esse povo do Nordeste aprendeu a comer três vezes ao dia. Esse povo aprendeu a ter água. Esse povo aprendeu a ter emprego. Eu sonhava: o Nordeste não poderia continuar passando para a história como o lugar que que tinha mais analfabeto. O Nordeste não poderia passar para a história como o Estado que tinha mais desnutrição e mais mortalidade infantil. O Nordeste não poderia passar para a história como a região que menos tinha mestres e que menos tinha doutores, O Nordeste não poderia passar mais para a história como exportador de miseráveis. Esse Nordeste é exportador de dignidade. E nós não somos inferiores a ninguém. Nós não queremos tirar nada de nenhum estado, mas nós queremos ser tratados em igualdade de condições. Nós não somos párias da sociedade. E eu posso dizer a vocês de coração: é possível ser assim, porque eu provei em oito anos no meu governo que é possível o nordestino sorrir, comer, estudar, se vestir. É possível o nordestino trocar um jegue por uma motocicleta sem deixar o jegue morrer de fome.”

No final, antes do maracatu, pediu desculpas. Ele se sentia em casa:

“Gente, ó, desculpem eu ter feito discurso. Eu não queria fazer discurso. Eu quero que vocês ouçam música. E vou terminar dizendo para vocês uma coisa: tenham certeza absoluta de que cada minuto de vida que eu terei pela frente será dedicada para libertar este país dessa quadrilha de milicianos.

Fim da política, era hora de abraçar e de beijar os músicos, com a bandeira de Pernambuco enrolada em seu corpo. Os pernambucanos que foram reencontrar Lula não esquecerão a noite em que o filho mais ilustre do estado voltou para dizer:

“Eu quero do fundo do coração agradecer as dezenas de comitês Lula Livre que estiveram na rua me defendendo. Eu não tenho como pagar vocês a não ser gratidão.”

Direto do Twitter

“Míriam Leitão apostou todas as fichas em FHC, à sombra de quem se consolidou na carreira como porta-voz informal dele. Aquele que promoveu a privataria, comprou a reeleição, quebrou o país. Apostou no golpe, em Temer, no Macri e, agora, em Guedes. Cadê a autocrítica da Míriam?”.

Palmério Dória, jornalista e escritor