O tamanho do desespero

Ao confiar a poderosa Casa Civil a Ciro Nogueira, Jair Bolsonaro “mostra o tamanho de seu desespero”, diz o Estadão, em editorial.

“Impopular, sem partido e com uma base fiel muito precária, Bolsonaro está à mercê de forças que não tem a menor condição de controlar e que, por sua vez, sabem muito bem o que almejam: cargos, verbas e poder. Por ora, é o que Bolsonaro pode lhes proporcionar, mas nem isso lhe garante fidelidade ou, principalmente, apoio para a reeleição. Afinal, o Centrão, depois de parasitar os recursos estatais a que terá acesso, não hesitará em deixar o presidente no sereno se este não representar uma real perspectiva de poder.”

O tamanho do desespero de Bolsonaro

(Transcrito de O Antagonista)

Havia um pênalti no caminho

POR GERSON NOGUEIRA

Avaí venceu o Remo no estádio da Ressacada

Ainda não foi desta vez que o Remo conseguiu se reabilitar no Brasileiro da Série C. Depois da derrota para o Londrina, na sexta-feira, o time voltou a perder ontem, desta vez para o Avaí, em Florianópolis. Acabou vitimado por outra decisão polêmica da arbitragem, que viu pênalti em chute que bateu na mão do lateral Igor Fernandes, a 15 minutos do final.

É verdade que, ao longo do primeiro tempo, o Remo foi pouco produtivo nas ações de ataque. Pressionado em seu próprio campo pela marcação adiantada imposta pelo Avaí, encontrou muitas dificuldades para criar alternativas para ameaçar a defesa adversária.

Apesar do controle do jogo, o Avaí não criou chances claras de gol. Rondou a área do Remo, atacando com até seis jogadores, mas errava nas finalizações e esbarrava nas defesas de Vinícius. As melhores tentativas saíram dos pés de Valdívia.

O meio-campo remista, sobrecarregado pela marcação, tornou-se mais reativo do que preocupado com a transição. Por essa razão, Felipe Gedoz e Victor Andrade praticamente não receberam bolas em condições de finalização. Isolado na direita, Mateus Oliveira teve estreia apagada.

A melhor chegada remista ocorreu aos 23 minutos, quando Victor Andrade cabeceou para fora depois de cruzamento de Gedoz. Em seguida, o lateral João Lucas, que atuou quase como um ponta, bateu de fora da área para grande defesa de Vinícius.

Avaí venceu o Remo na Ressacada

O segundo tempo mostrou de cara um Remo bem mais organizado nas ações ofensivas. Os laterais conseguiram passar da linha de meio-campo e Gedoz se movimentava com desenvoltura, apesar de bem marcado. Logo aos 4 minutos, o próprio Gedoz invadiu a área e bateu rasteiro para boa defesa do goleiro Glédson.

Apesar de mais retraído, o Avaí também insistia com Valdívia, sempre acompanhando Renato e Vinícius Leite. O meia aproveitou uma chegada forte de Copete pela direita e chutou forte, mas Vinícius evitou o gol.

Aos 33’, veio o lance fatídico. O lateral Iury arriscou um cruzamento e a bola resvalou na mão de Igor Fernandes, que tinha o braço colado ao corpo. O árbitro marcou pênalti, que Junior Dutra converteu. Até aquele momento o Remo estava melhor na partida. A penalidade vem se juntar a outros seis lances que prejudicaram o time nesta Série B.  

Depois do gol, o cenário mudou por completo. Satisfeito com a vantagem, o Avaí se limitava a administrar o jogo, enquanto Felipe Conceição buscava reagir com mudanças que não acrescentaram nada ao rendimento do time. Wallace, Wellington Silva e Renan Gorne mal participaram das tentativas de reação. Lucas Tocantins não foi acionado.

Boa parte dos problemas enfrentados pelo Remo na fase inicial do jogo pode ser atribuída à incapacidade de sair do cerco armado pelo Avaí. Agravou o quadro a presença do estreante Mateus Oliveira, pouco entrosado com os companheiros. Como em Londrina, Victor Andrade saiu cedo demais e Tocantins custou a entrar.

Medalhas tiram do limbo os enjeitados surfe e skate

É mais comum e previsível do que a chuva nas tardes de Belém. Sempre que chega uma Olimpíada acontece de um atleta saído das periferias brasileiras obter destaque e, passo seguinte, seu esporte passa a ser reverenciado como nunca antes. Surfe e skate viraram, de repente, objeto de culto e adoração no Brasil.

Como se fosse possível apagar o histórico de desdém e preconceito em relação a esportes, até hoje estigmatizados por muita gente como “coisa de maconheiro e marginal”. Já cansei de ouvir isso. Recentemente, na gestão tucana em Belém, a Guarda Municipal escorraçou da praça do CAN garotos que brincavam de skate por ali.

A maranhense Rayssa Leal, conhecida como Fadinha, comoveu o país ao conquistar a medalha de prata no skate, esporte que estreia em Olimpíadas. Aos 13 anos, a menina magrinha e ágil fez acrobacias infernais, levantando a medalha. Ganhou fama instantânea e a honrosa condição de medalhista brasileira mais jovem em todos os tempos.

Sua vitória pode tirar o skate do gueto em que sempre esteve. É a chance de fazer com que a modalidade ganhe respeito e visibilidade, inspirando crianças e jovens a entenderem que o esporte não é coisa de bandido.

Belém não tem uma pista adequada para skate. O Skate Park, inaugurado por Edmilson Rodrigues em sua primeira gestão, foi extinto na reforma cara e demorada da avenida, levada a cabo por Duciomar Costa anos depois.

As pistas disponíveis (no conjunto Marex, na Sacramenta, Mosqueiro e Icoaraci) não atendem às necessidades do esporte, até porque foram construídas sem nenhuma participação dos atletas da modalidade.

Como reflexo da conquista de Rayssa, a Prefeitura de Belém promete fazer um levantamento técnico que permita implantar melhorias nas pistas já existentes. Há também a ideia de criar uma nova pista na capital, que contemple as necessidades de quem precisa praticar skate em segurança.

Já o surfe, cuja prática no Pará limita-se a um grupo reduzido de adeptos, conquistou a glória máxima com a vitória de Ítalo Ferreira nas águas japonesas. Foi a primeira medalha de ouro do Brasil na Olimpíada e logo na estreia do esporte na competição.

Como Rayssa, o potiguar Ítalo vem dos rincões do Nordeste e precisou lutar muito para alcançar o nível de competitividade que a modalidade exige em termos mundiais. Superou até mesmo a descrença geral quanto ao sucesso no Japão, visto que o favorito era Gabriel Medina. 

Talvez agora, através dele e de Rayssa, esses esportes tão pouco badalados ganhem a projeção merecida. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 29)

Missão: resgatar pontos

POR GERSON NOGUEIRA

Arthur mira um espaço no time titular do Remo — Foto: Samara Miranda

O Remo encara o Avaí, hoje à noite, na Ressacada, tentando a todo custo recuperar a cruzada vitoriosa iniciada contra o Brusque e que tirou o time da lanterna da competição. A oportunidade é preciosa, pois a partida é atrasada da 5ª rodada, o que vai permitir aos azulinos – em caso de vitória – recuperar a 11ª posição.

A última apresentação semeou dúvidas e incertezas. O time reviveu contra o Londrina os piores momentos do começo da competição, quando não conseguia acertar passos e nem propor ataques. Nenhum de seus principais esteve bem, a começar por Victor Andrade e Felipe Gedoz.

Como não soube jogar ofensivamente, o time sofreu bastante com os ataques do Londrina. Só no primeiro tempo foram oito finalizações do adversário contra apenas duas dos azulinos. O bombardeio resultou em gol já na reta final do jogo, quando o Remo estava ainda mais exposto.

A performance acendeu alertas na comissão técnica azulina. Escolhas que vinham sendo muito frequentes nas substituições tendem a ser repensadas. Wallace, primeira opção para o ataque, teve atuação fraca, assim como Renan Gorne, outro que costuma entrar no segundo tempo.

A possibilidade de mudanças afeta também os titulares. Dioguinho, Erick Flores e Marcos Jr., que iniciaram a partida no Estádio do Café, estiveram muito abaixo da média de atuações, o que explica a fraca produção do meio-campo e as falhas na transição ofensiva.

A chegada de Mateus Oliveira pode garantir mais qualidade ao setor de meia-cancha. O meia-atacante treinou com os companheiros e pode ser aproveitado no decorrer da partida de hoje. Outro que pede passagem é Lucas Tocantins, já recuperado e que atuou bem mesmo por poucos minutos na sexta-feira. Tem chance de entrar jogando.

Contra o Avaí, 7º colocado com 22 pontos, o Remo tentará voltar à 11ª posição, onde estava até a penúltima rodada. O adversário faz campanha consistente, com rendimento satisfatório dentro e fora de casa. Promessa de um duelo duríssimo, que vai exigir dos azulinos bem mais do que o jogo em Londrina exigiu.

Aposta de risco para salvar projeto do acesso

Após nove rodadas nas mãos de um técnico de ideias confusas e escolhas atrapalhadas, o PSC foi buscar Roberto Fonseca para tentar salvar o projeto prioritário do clube na temporada: o acesso à Série B. Os atropelos durante o primeiro turno da Série C determinaram a troca de técnico. No empate contra o Manaus, domingo, ficaram escancarados os principais problemas do time, incapaz de se impor e com claras fragilidades defensivas.

Roberto Fonseca chega para ficar até o fim do campeonato, até porque as normas do Campeonato Brasileiro limitam a duas as contratações de técnicos na temporada. Caso seja dispensado, o time terá que ser dirigido pelo auxiliar técnico.

Mesmo com campanha pouco confiável, o PSC é o melhor visitante do Grupo A, com três vitórias e dois empates, acumulando 13 pontos. O problema é que não venceu ainda como mandante. Foram quatro jogos, com duas derrotas e dois empates dentro de casa.

Apesar do nível técnico raso da Série C, o PSC não se sobressai no grupo. Liderou por três rodadas, mas caiu de rendimento e agora ocupa a quinta colocação. Para alcançar a pontuação que garante classificação à fase dos quadrangulares, será necessário somar pelo menos 16 pontos no returno da etapa classificatória.

Fazer o time reagir com as peças atuais do elenco será o desafio maior de Fonseca, um técnico cuja grande façanha foi a conquista da Copa do Nordeste 2018 com o Sampaio Corrêa. No Londrina, onde havia ido bem anteriormente, não teve êxito nesta Série B e acabou demitido. (Foto: Samara Miranda/Ascom Remo)

Defensores da volta de torcidas desafiam o perigo

A Prefeitura de Belo Horizonte deu o primeiro passo para endossar a agenda nacional de aprovação da volta das torcidas aos estádios. Sob a orientação da CBF, os clubes começam a pressionar federações e gestores municipais para tentar apressar a reabertura de bilheterias nas competições nacionais.

Os clubes estão sufocados, com contas para pagar e quase sem perspectivas de receita, principalmente os das Série C e D. Ocorre que as leis do bom senso e da ciência impõem cuidados redobrados e respeito aos protocolos de combate à pandemia, que está longe de ser controlada.

Corte rápido para o cenário atual da covid-19 no Brasil: a média móvel de mortes diárias está em 1.094, uma queda de 8,2% em relação aos últimos sete dias. Já a média móvel de casos está em 47.091, alta de 23,2% no mesmo período. Foram registradas 1.333 mortes nas últimas 24 horas. Em resumo: os riscos permanecem.

Até onde a doença já parecia controlada, como os Estados Unidos, o Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês), órgão responsável pelo combate à pandemia, recomendou ontem que mesmo pessoas já vacinadas voltem a usar máscaras em ambientes fechados. Nos EUA, 48,8% da população já está imunizada.

Efeito direto da propagação da variante delta, mais contagiosa e que infecta até quem já tomou duas doses da vacina. A preocupação é com a variante delta, que é mais contagiosa, e tem infectado aqueles que já receberam duas doses de vacina, de acordo com relatórios de saúde.

O Japão, sede da Olimpíada, registrou ontem o maior número de casos de covid desde o início da pandemia. Diante de números alarmantes, soa quase como escárnio que no Brasil – país que está com vacinação atrasada e capenga – surja a proposta de volta das torcidas ao futebol. Prova de que os anormais seguem perigosamente à solta. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 28)

O adeus do “último dos marxistas”

Professor José Arthur Giannotti, em foto de 2014. — Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Morreu José Arthur Giannotti, professor titular emérito do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Autor de vasta obra, polêmico, admitiu certa vez que há quem o considere um traidor do pensamento marxista ou das posições e práticas da esquerda. Escreveu sobre Marx e vários outros pensadores, como Wittgenstein e chegou a se definir, com alguma ironia, como “o último dos marxistas”.
Tive alguns contatos com ele, o primeiro quando o convidei a escrever o prefácio do Livro I de O capital. Ficou surpreso com o convite, quis conversar, saber por que e o que pensariam meus outros autores e leitores, até que topou e foi incrivelmente pontual.
Depois, quando o convidei a participar do Salão do Livro Político, duas vezes, e quando decidimos reunir alguns dos intelectuais que participaram dos famosos grupos de estudo de O capital, nos anos sessenta (Nós que amávamos tanto O Capital). Tinha sempre uma resposta interessante, entre mal-humorada e simpática, pra qualquer questão. Concordâncias e discordâncias à parte, uma perda e tanto. (Por Ivana Jinkings, no Instagram)

O filósofo José Arthur Giannotti morreu na manhã desta terça-feira (27), aos 91 anos, em São Paulo. A causa da morte não foi divulgada. Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), Giannotti era um dos maiores nomes da filosofia brasileira e se dedicou ao estudo de autores como Karl Marx, Martin Heidegger e Ludwig Wittgenstein. A morte foi confirmada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que publicou um comunicado oficial.

Biodiversidade brasileira perde uma grande defensora, a jornalista Liana John

A especialista – que trabalhou no Jornal da Tarde, na Revista Terra da Gente e outros veículos – lutava contra um câncer no pâncreas há anos. Especialistas destacam o seu incrível legado

Por Roberto Villar Belmonte (*)

Apenas o consumidor de boa-fé que enfrenta a impossibilidade de quitar suas dívidas tem benefícios garantidos pela Lei 14.181/2021, que ficou conhecida como Lei do Superendividamento. Em vigor, a norma prevê práticas para evitar o endividamento excessivo e proteger o consumidor da oferta excessiva e irresponsável de crédito.

Segundo a advogada Lorrana Gomes, a lei veio em boa hora se for considerada a pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontando que 69,7% das famílias brasileiras estão endividadas e sem condições financeiras mínimas de pagar a totalidade de suas dívidas de consumo, exigíveis e vincendas, sem comprometer o mínimo existencial, para sua sobrevivência digna.

Mas cabe lembrar, destaca a advogada, que apenas é protegido pela lei o consumidor reconhecido de boa-fé. “Os benefícios não se aplicam a pessoas cujas dívidas tenham sido contraídas mediante fraude ou má-fé, oriundas de contratos celebrados dolosamente, que decorram da aquisição ou contratação de produtos e serviços de luxo e de alto valor”.

As empresas e instituições financeiras, como estabelece a lei, não poderão mais indicar que a operação de crédito poderá ser concluída sem consulta a serviços de proteção ao crédito, ou, sem avaliação da situação financeira do consumidor. Também fica proibido assédio e pressão para contratar o fornecimento de produtos, serviços ou créditos.

A advogada afirma que para o consumidor usufruir dos benefícios da lei é necessário buscar mecanismos extrajudiciais e judiciais que possibilitaram aos consumidores a repactuação das dívidas por meio de conciliação ou juízo, por meio da instauração de processo com vistas a realização de audiência conciliatória, com a presença obrigatória dos fornecedores, com a intenção de garantir benefícios para ambas as partes: o consumidor finda seu débito e o fornecedor recebe o que é lhe devido.

Confira clicando aqui a entrevista concedida em 2018.

(*) Jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)