Em seu novo álbum, ‘The Boys of Dungeon Lane’, Paul McCartney fornece um vigoroso atestado de vida artística – e se impõe um desafio

Um disco novo de Paul McCartney, por si só, já é motivo de celebração. O recém-lançado The Boys of Dungeon Lane, no entanto, chega carregado de significados especiais. O álbum não representa somente a continuidade da carreira de um ex-Beatle que nunca deixou de trabalhar (no estúdio e no palco), impondo a si mesmo a mesma barra alta criada lá atrás por ele e seus companheiros de banda, sempre disposto a colaborar, a se desafiar e a desbravar novos caminhos – fundando o Wings ou alternando-se entre o rock, o pop, a música eletrônica e a clássica. O disco é, sobretudo, um vigoroso atestado de vida artística. É, também, um auto-desafio.

Às vésperas de completar 84 anos de idade, uma vez entregue este que é seu 20º álbum de estúdio, Paul teria todo o direito de maneirar sua produtividade. Só que tudo contido nele indica que não.

Lançando mão de tudo de melhor que o artista é capaz de conjurar, The Boys of Dungeon Lane realça as qualidades e as características que pavimentaram a trajetória de McCartney até aqui e mostra o quanto ainda é capaz de encantar e surpreender – a nós e a ele mesmo.

Com sacações geniais e inúmeras referências às músicas dos Beatles, este talvez seja seu disco mais voltado para as lembranças da juventude (embora não seja um mero exercício de nostalgia), onde ele fala dos pais (em “Salesman Saint”, na qual enxerta os metais de uma banda de swing jazz que parece vinda de alguma transmissão de rádio do passado), de uma namoradinha adolescente (Jasmine, inspiração para a faixa de abertura do disco, “As You Lie There”, a primeira composição para o álbum, iniciada a partir de um acorde “estranho” que mostrou ao produtor Andrew Watt no dia em que se conheceram), de seus antigos amigos (“Down South” é sobre uma viagem de carona empreendida por ele e George Harrison, ainda adolescentes, antes de terem aprendido a “rebolar e gritar”, referência a “Twist and Shot”), onde ele saúda marcos da juventude (na agridoce “Days We Left Behind”, onde John Lennon, com quem estabeleceu um “código secreto”, está presente), e em dueto inédito com Ringo Starr, na beatlesca “Home To Us”) e até recupera a própria forma dos Beatles trabalharem, usando o mesmo modelo de gravador Studer, de apenas quatro canais, com o qual registraram o monumental Sgt. Pepper’s, em “We Too”, com direito a uma sobrinha proposital da fita analógica sendo rebobinada.

O álbum percorre detalhes e sonoridades da discografia anterior de Paul – as flautas e o solo de guitarra gravado ao contrário de “Never Know” transportam a “Fool On The Hill” e a “I’m Only Sleeping”, dos Beatles; “Come Inside” caberia muito bem em qualquer dos discos que ele lançou nos anos 1970; “Mountain Top” psicodeliza com harpsichord, como ele fez no passado, também, em “Fixing a Hole”.

Tem até um registro antigo, “Lost Horizon”, redescoberto e regravado como no cassete original, outra que não faria feio na discografia anterior de McCartney.

Bem ao estilo independente que tanto o apraz, Paul toca praticamente todos os instrumentos no disco, o que dá a ele unidade, apesar de ter sido gravado ao longo de cinco anos. A voz, mais desgastada, ainda atinge picos admiráveis, mas é capaz de adicionar fragilidade, humanidade e emoção apropriadas a canções como (olha ela aqui de novo) “Days We Left Behind”, um trunfo que sublinha o talento de McCartney como um dos melhores melodistas do pop.

The Boys of Dungeon Lane resulta em um disco feito com a sabedoria e a vivência de um mestre do pop e do rock, sublinhando, sobretudo, seu talento imenso como compositor – mas dotado da eterna curiosidade de um artista sempre disposto a buscar o desconhecido, o surpreendente, o ainda não descoberto.

Será o último de Paul? A ficha corrida de McCartney – um workaholic de carteirinha – arrisca cravar uma negativa enfática. Afinal, pelas contas dele mesmo, 25 novas canções estavam prontas antes de concluído o trabalho em The Boys of Dungeon Lane, e aqui ele utilizou apenas 14. Mas caso o destino, esse eterno trapaceiro, decida diferente, terá coroado com louvor uma trajetória legendária.

(Transcrito de Farol)

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