Cirúrgico, Papão mata nos acréscimos

POR GERSON NOGUEIRA

Fiel às melhores tradições do clássico centenário, o PSC usou os acréscimos para vencer o Remo e garantir vaga na final da Copa Verde. A vitória veio em ações consistentes, produzidas por um time mais inteiro fisicamente e melhor organizado. Méritos também do atacante Nicolas, incansável dentro da área e participando diretamente de dois gols.

Nos primeiros 45 minutos, apesar de o Remo ter tomado a iniciativa e exibisse uma distribuição inteligente na meia-cancha, a melhor chance de gol pertenceu ao time bicolor, num lance que teve participação de Vinícius Leite, Nicolas e Hygor, com a bola batendo duas vezes na trave remista.

As dificuldades exibidas por Tomas Bastos na volta ao time, errando passes além da conta, fizeram Hélio dos Anjos optar por Tiago Primão aos 25 minutos de jogo. A mexida ajudou o Papão a equilibrar as ações.

Depois de ver o rival se movimentar melhor no começo do jogo, com a participação dos armadores Eduardo Ramo e Zotti, o PSC voltou mais armado na defesa, aumentando o combate no meio e disposto a explorar melhor a velocidade de Bruno Collaço pela esquerda.

Além disso, Hélio mexeu bem no meio, trocando Wellington Reis por Léo Baiano. Teve sorte, como costumam ter todos os vitoriosos, aproveitando bola alta na área do Remo após erro de Zotti em troca de passes na intermediária. O cruzamento foi desviado por Nicolas para a pequena área deixando Hygor em condições de bater e marcar, aos 13 minutos.

O Remo se perturbou – e seu técnico também. Eudes Pedro, cujo esquema inicial havia se mostrado bem ajustado, decidiu embaralhar as cartas e trocou, de uma só tacada, os dois meias. Zotti e Ramos saíram para a entrada de Djalma e Wesley.  

Com Djalma avançado, o Remo adquiriu força e ímpeto para ir à frente, mas continuou com problemas na saída de bola, até porque as jogadas passaram a ser iniciadas com os zagueiros e volantes. Wesley também deu oxigênio ao ataque, participando da manobra que levou ao empate.

O problema é que os volantes Yuri e Ramires ficaram sobrecarregados. Para piorar, Cesinha não participava do esforço pelo lado direito e Ronaell fazia uma de suas piores partidas.

No Papão, com a entrada de Léo Baiano, a armação ficou sólida e passou a ganhar todos os rebotes defensivos. Nicolas voltou a ocupar mais a faixa esquerda para abrir ainda mais a marcação.

Com mais compactação, os bicolores envolviam o novo meio-campo do adversário com trocas rápidas de passes, invertendo a situação do início do confronto. Mas, numa vacilação de Uchoa, que tentou driblar dentro da área, a bola foi e voltou até cair nos pés de Neto Baiano, que chutou para as redes, aos 37’. O gol levantou a galera e entusiasmou o Leão, que, por cinco minutos, insistiu com jogadas rasantes na área.

Depois que o Remo diminuiu a pressão, o cenário indicava que o clássico terminaria novamente empatado, caminhando para a decisão em cobranças de penalidades. Ocorre que o PSC, mais focado, mostrou-se pronto a aproveitar as brechas permitidas pelo rival.

No primeiro lance, houve uma saída errada de Ronaell permitindo que o PSC trocasse passes e a bola chegasse a Bruno Collaço. Ele cruzou na cabeça de Nicolas, que desviou no canto direito e no contrapé de Vinícius.  Detalhe: Nicolas subiu livre, acompanhado apenas por Ronaell e longe dos zagueiros mais altos do Remo, aos 45’.

Dois minutos depois, com a zaga remista aberta, Vinícius deu o passe que deixou Léo Baiano livre para romper a linha final de marcação e tocar na saída do goleiro azulino, fazendo 3 a 1 e liquidando a fatura.

Além de assegurar presença pela quinta vez na final no torneio regional, o escore de ontem coloca o Papão em 1º lugar na artilharia acumulada do clássico centenário pela primeira vez em mais de 40 anos. (Fotos: Jorge Luiz/Ascom PSC; Samara Miranda/Ascom Remo)

Hélio fecha ano com vantagem absoluta nos clássicos

Ao final da partida, Hélio dos Anjos disse que a vitória foi conquistada com emoção, cabeça fria e coração quente. Dado a rompantes poéticos – quando não encara perguntas incômodas –, ele resumiu bem o que foi a classificação à final da Copa Verde. Além disso, o PSC ostenta a marca de 21 partidas sem derrota, o que é um irrefutável atestado de maturidade.

Firme na defesa, o PSC teve alguns pecados no desenvolvimento do jogo, mas se estabilizou após a troca de Tomas por Tiago Primão e assumiu o protagonismo na segunda etapa. Só permitiu o empate numa falha individual de Uchoa, que oportunizou a chegada azulina.

Do lado azulino, Eudes pode argumentar que mexeu para tentar mudar a cara do jogo. Quase conseguiu o intento, mas teria feito melhor se mantivesse Ramos (ou Zotti) ao lado de Djalma, a fim de não expor tanto a retaguarda. Pecou também na escolha de Higor Félix, que nada produziu e parecia sem função. Hélio Borges, que havia atuado bem no Re-Pa anterior, seria a opção mais lógica.

O fato é que, pelo menos no universo do clássico, Hélio fecha a temporada em posição de vantagem absoluta. Disputou quatro partidas, venceu duas e empatou duas correndo poucos riscos nos confrontos.

Vale frisar que Hélio iniciou essa saga particular neutralizando os pontos mais positivos do Remo na era Márcio Fernandes: o toque de bola pelo meio como forma de imposição técnica e as jogadas aéreas para os zagueiros Marcão e Fredson. Ao contrário do colega de ofício, entendeu já naquele primeiro embate pela Série C que o jogo era um divisor de águas.

Contra Eudes, teve até mais dificuldades porque o time adversário mudou peças e sistema. Ainda assim, teve serenidade para segurar a pressão inicial ontem e foi pontual no uso de suas principais valências (entrosamento e aplicação tática) para triunfar nos instantes finais.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 07)

Futebol, lenda urbana

POR GERSON NOGUEIRA

Já vai longe o tempo em que o Brasil podia se orgulhar, bater no peito até, que tinha um campeonato nacional repleto de grandes times, capazes de produzir jogos eletrizantes e inesquecíveis. Infelizmente, os últimos anos – décadas talvez – mostram um cenário completamente diferente.

Ao contrário do que dizem os ‘pachequistas’ de sempre, o Brasil não tem um dos campeonatos mais difíceis do mundo. Tem, quase certamente, um dos certames mais difíceis de assistir. É duro parar por duas horas em frente à TV para acompanhar autênticas peladas a cada rodada.

E não há como se queixar do apoio das torcidas. O público até melhorou nos estádios. A média de 2019 é de 21.321 pagantes, com média de ocupação em 47%. Não chega a ser um colosso de popularidade, mas são números razoáveis e até espantosos para o nível das partidas.

Os bons resultados obtidos por times populares como Flamengo, Palmeiras e até o Corinthians, mesmo aos trancos e barrancos, ajudam a explicar o relativo êxito nas bilheterias. O problema é que o torcedor está pagando – muito caro, em média – por um produto que não é entregue nos gramados.

O futebol é paupérrimo, salvo exceções – Flamengo, Santos e Atlético-PR. Os demais 17 clubes praticam o feijão-com-arroz com condimentos variados. Os jogos se transformaram em desfile de chutões, caneladas, cruzamentos no padrão Muricybol, “faltas táticas” e retrancas mal disfarçadas juntam-se às maçantes interrupções causadas pelo VAR.

O Corinthians, citado algumas linhas acima, ostenta números que exemplificam bem a penúria técnica da Série A. Acumula nada menos que 17 vitórias por 1 x 0 desde 2017 até este ano. O recorde resulta do esquema “gol é mero detalhe” de Fábio Carille, o técnico da nova geração mais identificado com a filosofia defensivita de Carlos Alberto Parreira.

O Flamengo, de Jorge Jesus, empregou um bom dinheiro na contratação de boleiros qualificados – Bruno Henrique, Everton Ribeiro, Arrascaeta, Gerson, Rafinha, Filipe Luís e Gabriel – e colhe os frutos dessa estratégia.

Melhor de um campeonato fraco, o Fla busca (e alcança) vitórias jogando o suficiente para atropelar adversários tecnicamente inferiores, medrosos pela própria condição e pouco empenhados em adotar estratégias alternativas.

Na Libertadores, imprevisível pela própria natureza da disputa, o confronto mais aguardado resultou em brutal desperdício de expectativa, anteontem. O Grêmio, acovardado em boa parte do duelo, só resolveu jogar o que pode na 2ª etapa, mas ainda assim sofreu bastante para empatar.

Quando Jorge Jesus concedeu entrevista enaltecendo a Série A brasileira certamente exprimia a velha fidalguia lusitana, sendo gentil na chegada ao país. É improvável que hoje, diante dos arremedos de adversários que topou pelo caminho, ele veja as coisas do mesmo jeito.

Calendário da CBF segue esmagando estaduais

A CBF anunciou ontem o calendário do futebol para 2020, garantindo as 10 datas necessárias para o lucrativo negócio dos amistosos oficializados pela Fifa. Ao mesmo tempo, deu um passo a mais na redução de datas dos campeonatos estaduais (agora com 16). Esse esmagamento não chega a afetar torneios com menor quantidade de clubes como o do Pará, que usa 14 datas – 12 na fase classificatória, 2 na semifinal e 2 na final.

O novo calendário reabre a discussão sobre o futuro dos regionais. O problema vai recair sobre os Estados do Sul e do Sudeste, com necessidade maior de datas para contemplar vários clássicos. A redução de datas expressa a diminuição de importância das batalhas regionais, justamente onde estão as históricas rivalidades que alimentam grandes torcidas.

Ainda levará um tempo até a extinção dos estaduais, mas o ritmo da prosa indica que esse dia está cada vez mais próximo, em função do olho gordo da CBF nas datas que beneficiam suas jogadas mais lucrativas e pela subserviência histórica de suas filiais nos Estados.

A cúpula da CBF sabe que qualquer migalha, como aqueles convites para eventos fúteis, bancados em hotéis luxuosos com as mordomias conhecidas, já garante a anuência da cartolagem pé-de-chumbo, por mais lesivo que um projeto possa ser aos interesses dos clubes filiados.

O próprio exemplo das datas impostas aos clubes paraenses na fase decisiva da Copa Verde atesta o menosprezo com que a entidade olha para federações menos importantes. As datas das finais do torneio – 23 de outubro e 20 de novembro – desafiam a lógica e o bom senso.

Um absurdo que a FPF nem se deu ao trabalho de contestar. O finalista do Norte, que sai neste domingo (6), terá que se submeter ao critério injusto estabelecido pela CBF exclusivamente para não contrariar os interesses de Cuiabá e Goiás, que disputam as Séries B e A, respectivamente.

Em termos financeiros, isso irá custar muito alto ao clube paraense classificado para a decisão, pois terá que prorrogar contratos de vários atletas para manter time completo e competitivo para as finais.

Rony: grande chance e imensa responsabilidade

O lateral-direito Rony é hoje a mais valiosa revelação do Remo na temporada. É o jogador que mais se destacou entre os jovens atletas que compõem o elenco azulino, mostrando segurança e categoria quando foi lançado inicialmente contra o Atlético-AC no Baenão.

Desenvolto e ofensivo, como há muito não se via no clube, Rony impressionou de cara pelo bom passe e a precisão de seus cruzamentos. Tais atributos já lhe permitiram entrar no clássico que abriu a semifinal da Copa Verde e podem garantir a titularidade no próximo domingo.

A responsabilidade é grande, mas Rony encontrou em Eudes Pedro um comandante atento às suas qualidades e consciente dos riscos que uma jovem aposta corre em meio ao fervor de uma rivalidade centenária.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 04) 

Camisas 10 estão devendo

POR GERSON NOGUEIRA

Quem viu o primeiro Re-Pa da semifinal da Copa Verde passado tem justas esperanças de que o clássico do próximo domingo seja mais vibrante e interessante. Nem precisa ser um primor de técnico, basta que não seja sonolento como foi o primeiro. Nesse sentido, a responsabilidade maior cabe aos jogadores mais categorizados, os homens que têm a incumbência de organizar e dar ritmo à movimentação das equipes.

Eduardo Ramos

Os carregadores de piano, encarregados de marcar e destruir, não têm responsabilidade com o jogo bonito. A tarefa deles é defender a qualquer custo, chutando de bico para manter protegidos seus sistemas de defesa.

No Remo, Eduardo Ramos é o camisa 10 e referência. Considerado o jogador mais habilidoso do time, é visto como um maestro capaz de organizar o jogo, fazer lançamentos, vislumbrar caminhos que ninguém vê e assumir a postura de desbravadores do campo inimigo quando isso se fizer necessário e possível.   

Tiago Luís é o meia-armador do PSC. Ao contrário de Ramos, não tem conseguido encaixar uma sequência de jogos, entrando eventualmente nos minutos finais. Atravessou um período complicado, com problemas de lesão e questões de natureza pessoal, como explicou depois do jogo de domingo. Mas dele sempre se espera a jogada cerebral e surpreendente.

Ambos têm extrema responsabilidade com seus times e a obrigação de fazer o jogo ficar menos feio. Parece carga excessiva nos ombros de dois homens, mas o cartaz de que desfrutam é o bônus de uma função que só é dada a quem sabe o que faz com a bola.

Muito da pobreza técnica do Re-Pa que abriu a semifinal da Copa Verde tem a ver com o baixo rendimento dos armadores. Tanto Ramos quanto Tiago Luís ficaram muito abaixo do que podem render. O primeiro jogou por 70 minutos, o segundo entrou por apenas 30 minutos.

Nem a diferença de tempo diminui a responsabilidade do meia bicolor. Apesar de entrar na reta final, substituindo a Tiago Primão, Tiago teve pela frente adversários desgastados fisicamente e mais espaço de manobra, o que deveria propiciar atuação menos discreta.

É claro que ambos não jogam sozinhos, dependem do sistema utilizado por seus times e da movimentação dos companheiros. No Remo, fica óbvio que Ramos não tem com Eudes Pedro a mesma liberdade que tinha no período de Márcio Fernandes. É visível também que não dispõe do mesmo fôlego mostrado quando chegou em meio à Série C.

A dificuldade se amplia com o esquema 4-2-3-1 utilizado por Eudes, que prioriza a movimentação pelos lados e faz com que a meia-cancha seja muito mais municiadora do ataque, sem tanta margem de movimentação. Quando o adversário fecha os caminhos, como fez o PSC, Ramos fica sem poder estabelecer profundidade.

Tiago vive situação diferente, embora não menos complexa. Precisa se adaptar a um modelo de jogo já consolidado, com volantes (Uchoa e Léo Baiano) que participam intensamente do esforço ofensivo, mas que tendem a afunilar jogadas. O meia que flutua junto ao ataque muitas vezes acaba sem função. Foi o que ocorreu no clássico quando Tiago entrou.

Caso Hélio dos Anjos não encontre lugar para ele, problema agravado pela falta de confiança no condicionamento físico do jogador, Tiago pode não ter a chance real de mostrar utilidade naquele que pode ser seu último jogo na temporada.

Papão avalia novo modelo de negócio da marca Lobo

O Conselho Deliberativo do Papão realiza reunião extraordinária na próxima quinta-feira, dia 10, para ouvir e submeter à aprovação o novo modelo de negócio desenvolvido para a marca Lobo. Depois do sucesso inicial do projeto de fabricação própria, o clube tem contabilizado números que estão abaixo da expectativa de lucratividade.

A convocação foi publicada ontem, pelo presidente do Condel bicolor, Edson Ortiz de Matos.

Flamengo superior em jogo abaixo das expectativas

A expectativa criada em torno do jogo Grêmio x Flamengo não foi atendida pelo nível mostrado em campo. Apesar de mandante, o time gaúcho se comportou com um surpreendente acanhamento. Pouco se atirava à frente e parecia recear a rapidez na troca de passes do adversário.

No fim das contas, o temor se justificou. Todas as bolas que o Flamengo trabalhava do meio para frente resultavam em lances agudos sobre área gremista. Dois gols rubro-negros foram corretamente anulados, enquanto o Grêmio nem isso conseguia produzir. As emoções ficaram para o final.

Na etapa final, quando o Grêmio mais se mostrava ofensivo, chegando a ameaçar em chegadas de Cebolinha e Tardelli, nasceu o gol que deu a vitória ao time de Jorge Jesus. Cruzamento alto para Bruno Henrique cabecear, certeiro. Simplicidade na armação e eficiência na execução.

A vantagem de 1 a 0 abria uma excepcional vantagem na disputa. Ocorre que o espírito copeiro do Grêmio se fez presente aos 43 minutos do 2º tempo. Luan tocou para o meio, a bola chegou a Cebolinha e este disparou um foguete para a pequena área, onde Pepê desviou para as redes.

No estilo desassombrado que Jorge Luís implantou, o Flamengo buscou mais o gol, conseguindo 59% de posse de bola e chutando 11 vezes ao gol. Não venceu por detalhes e porque teve pela frente o sempre respeitável espírito copeiro do Grêmio.

Esperanças renovadas para o confronto do próximo dia 23. Apesar da frustração pelo empate no apagar das luzes, o Flamengo leva a vantagem do 0 a 0 para a segunda partida. Decisão ainda em aberto. 

(Coluna publicada no Bola desta quinta-feira, 03)