Julián Fuks ao Guardian: “Nunca pensei que forças do mal me fizessem sair do Brasil”

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Por Julián Fucks, no Guardian

Venho de duas gerações consecutivas de exilados políticos. Avós que partiram da Romênia quando o antissemitismo ameaçava fulminar tudo o que tinham, como logo fulminou seus pais, irmãos, tios – desses avós herdei o sobrenome judeu, de seu destino ganhei meu nome argentino. Pais que partiram da Argentina quando o terror de Estado se fez sinistro, abatendo amigos, colegas, companheiros – deles herdei algum inconformismo, de seu destino ganhei a língua em que escrevo. Nunca na vida sequer cogitei que minha sina viesse a se parecer à deles, que forças obscuras pudessem me impelir a deixar o Brasil. Hoje, pela primeira vez em 36 anos, me pergunto se esse medo será tão disparatado assim.

De súbito, embora nada seja súbito quando se trata de história e de política, vejo se realizar no país onde nasci uma grande distopia. O Brasil elegeu como presidente um defensor da tortura, da milícia, do extermínio, que não se cansa de exaltar em seus discursos a letalidade da polícia e das forças armadas. Nessa não-ficção distópica, ele parece prestes a nos conduzir a uma viagem no tempo, mas, sintomaticamente, como em tantos lugares do mundo, o enredo dessa história nada tem de futurista. A viagem que Jair Bolsonaro propõe tem como destino um passado que nunca superamos, décadas sombrias que não nos abandonam nem nos pesadelos.

Esse futuro carregado de passado é feito de inúmeras promessas: de perseguição dos adversários políticos, extinção de todo ativismo, criminalização dos movimentos sociais como organizações terroristas. É feito de acenos autoritários: um vice-presidente que naturaliza autogolpes, um deputado eleito, filho de Bolsonaro, a afirmar que para fechar o Supremo Tribunal Federal basta um soldado e um cabo. Tão extremo é esse ímpeto que um fenômeno insólito se cria: milhões de eleitores convictos torcem para que seu candidato eleito nunca cumpra as suas promessas.

O futuro carregado de passado é feito também de opressões presentes, indiscretas e corriqueiras. Pessoas que temem sair de casa de camiseta vermelha, atentas a uma possível reação dos amarelos. Famílias que se rompem pelo radicalismo dos defensores da família. Homossexuais e transgêneros que disfarçam em espaços públicos sua voz, seus gestos de afeto, para que não se perceba a suposta inadequação, seus corpos desobedientes. Militantes, jornalistas, professores, ameaçados constantemente. Como meus pais em outro tempo, ouço com espanto os muitos amigos que não conseguem dormir, que choram ao ler notícias, que já se põem a contemplar longínquos horizontes.

Não vivemos, porém, o império do desalento. Contra a distopia que nos cerca, muitos compreendemos nestas últimas semanas que só existe um antídoto possível: a recuperação de alguma utopia. Depois de anos de relativa letargia, ou de imobilidade ante sucessivas crises, econômica, institucional, jurídica, articulam-se enfim diversos grupos de resistência. Assinam-se manifestos, organizam-se campanhas, criam-se redes de apoio a possíveis vítimas. Juntos vamos percebendo que não estamos tão vulneráveis, que não seremos os principais atingidos, que o assombro se espalha bem mais vívido nos bairros pobres, nas comunidades periféricas. Isso não nos tranquiliza e não nos detém: o movimento tem como cerne a solidariedade e a empatia.

As armas não nos interessam, as armas são os símbolos deles, os objetos em que Bolsonaro e seus mais radicais seguidores investem sua libido. A resistência será pacífica ou não será, será democrática ou não será. Em combate às armas, de forma inesperada e espontânea parece ter surgido um novo símbolo: os livros. Milhares foram às urnas no último domingo carregando livros dos mais diversos autores, Orwell, Woolf, Lispector, Drummond. Em oposição aos livros únicos que Bolsonaro incensa – a Bíblia e a autobiografia do torturador Brilhante Ustra –, o que valorizam seus críticos é a multiplicidade de discursos e perspectivas.

A cultura, então, ganha estranha centralidade nos tempos por vir. Nos termos da distopia existe, é claro, a promessa de abatê-la, extinguir o Ministério da Cultura, interromper fontes oficiais de financiamento, acabar com obras que afetem a suposta sensibilidade da maioria, que firam os valores da inefável família brasileira. O que parecem não entender é que, por importantes que sejam os financiamentos, a cultura não definha se um governo a combate, faz-se em vez disso urgente e incisiva.

Reunidos e alertas, escritores, cineastas, artistas, músicos brasileiros temos discutido a necessidade de uma arte pungente, que não ignore as brutalidades do tempo, que se faça discurso e intervenção no presente. Temos discutido também outra ideia indispensável: a necessidade de toda arte, de qualquer arte, sobre qualquer coisa, em qualquer forma. Arte bonita, também, lírica, poética, contra a feiura flagrante do discurso que enfrentamos. Vamos precisar de tudo nos anos por vir. Serão anos para escrever como nunca, produzir livros, peças, filmes, fazer festa, fazer sexo, fazer filhos. Anos para fazer vida. Contra a distopia, vamos precisar de tudo.

Pelo exemplo dos meus antepassados, eu poderia temer o pior para mim e para o país que acolheu meus pais e me emprestou sua alegria, sua disposição ao sorriso. Prefiro, no entanto, viver à luz dos meus antepassados, não sob a sua sombra, e me unir quanto puder aos que cercam, fundindo com o deles o meu próprio destino.

*Julián Fuks (São Paulo, 1981) é um escritor e crítico literário brasileiro, filho de pais argentinos. Em 2012, foi eleito pela revista Granta um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros. Em 2016, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria romance e foi 2º colocado do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa com o livro A Resistência.

Conta no Twitter divulga arrependimento de eleitores de Bolsonaro

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Uma conta no Twitter criada logo após o segundo turno das eleições, no último domingo (28), publica “arrependimentos diários de eleitores de Jair Bolsonaro”. perfil se chama “Jair me arrependi!”, tem como descrição “não adianta espumar pq só recebo notificação de quem sigo, aqui você não tem lugar de fala”, sua localização é “cansada em Paris” e já tem mais de 31 mil seguidores.

Na página, são repostados tuítes de pessoas que já estão reclamando das decisões da gestão de Jair Bolsonaro, que terá início em 2019.

“Não estou arrependido de ter votado em Bolsonaro, porque nada é pior ou mais corrupto que o PT, mas to puto por ele estar trazendo ao governo alguém corrupto como Alberto Fraga condenado por propina”, diz um usuário do Twitter. “Eu votei no Bolsonaro. No entanto, leigo sabe que essa junção de meio ambiente com agricultura vai dar merda”, diz outro.

 

A estranha história do juiz que beneficia time e ganha prêmio por isso

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O jornalista Juca Kfouri recorreu ao jogo tido como o mais roubado da história do futebol brasileiro, entre Flamengo e Atlético Mineiro, para explicar, de forma didática, o namoro entre Sergio Moro e Jair Bolsonaro. No futebol, o juiz José Roberto Wright expulsou praticamente todos os atleticanos para que, em 1981, o Flamengo vencesse a Libertadores. Kfouri então propõe uma hipótese: já pensou se logo depois Wright virasse diretor do Flamengo?
No Brasil de 2018, Lula foi condenado sem provas para ser impedido de disputar uma eleição presidencial que, segundo todas as pesquisas, venceria no primeiro turno, mesmo de dentro da cadeia. Sem Lula, Jair Bolsonaro vence a disputa e, num de seus primeiros gestos, convida Moro para chefiar a Justiça. E Moro parece propenso a aceitar o convite.
 
Confira, abaixo, o post de Juca Kfouri:

Imagine se, pouco depois do Atlético Mineiro e Flamengo, disputado no Serra Dourada, pela Copa Libertadores de 1981, na decisão da única vaga da fase de grupos, quando cinco jogadores do Galo foram expulsos, o árbitro José Roberto Wright fosse convidado pelo Flamengo para assumir a Diretoria de Futebol do clube.

O que você acharia disso?

E mais.

E se ele aceitasse?

“Bohemian Rhapsody”: críticos apontam filme raso e homofóbico

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As primeiras críticas sobre “Bohemian Rhapsody”, cinebiografia do Queen sob a visão do vocalista Freddie Mercury, estão sendo divulgadas nesta semana. O filme estreia no Brasil nesta quinta-feira (1°) e, na sexta (2), chega aos cinemas dos Estados Unidos.

Scott Mendelson, da Forbes, disse que “Bohemian Rhapsody” tem um tom homofóbico. “O filme não consegue se libertar da fórmula de cinebiografia, especialmente nos desvios à vida pessoal de Mercury, que, inexplicavelmente, reformula sua história de vida para um ‘Afterschool Special’ sobre os perigos de farrear e sexo gay. Freddie é apresentado como bissexual, mas o film argumenta que ele teria ficado bem se ficasse em um relacionamento heterossexual e monogâmico com Mary Austin. Seja homofóbico ou slut-shaming, é nojento”, afirma.

Steve Rose, do The Guardian, destacou a interpretação de Rami Malek, mas deu apenas duas estrelas ao filme – para ele, o longa tem um “subtexto moralista problemático”. “O filme mostra os anos de selvageria de Mercury como um sintoma de sua homossexualidade. Nós vemos Mercury sozinho em Munique, viciado em drogas, sem seus amigos verdadeiros e explorados por seus novos amigos, que, em maioria, são homens farristas vestidos de couro. Isso reduz a homossexualidade de Mercury a algo como: ‘ele entrou para a turma errada'”, diz.

Segundo Owen Gleiberman, da Variety, “Bohemian Rhapsody” não consegue ser um filme melhor mesmo com um desempenho imponente de Rami Malek. “Apesar do assunto eletrizante, é uma cinebiografia convencional, meio-termo e recortada, que percorre por eventos em vez de se aprofundar neles. E trata a vida pessoal de Freddie – sua identidade sexual romântica, sua solidão, suas aventuras irresponsáveis em clubes gays – com a reticência de luvas infantis”, afirma.

Já faz algum tempo que o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor estão com o conceito de “Bohemian Rhapsody” finalizado – eles serão, inclusive, os produtores executivos do longa. Em entrevistas, afirmam que a ideia é fazer um filme mais “familiar”, que pode, de certa forma, ocultar detalhes sobre a vida pessoal de Freddie Mercury.

O cantor era bissexual, mas May e Taylor já revelaram, anteriormente, que a orientação sexual do vocalista não era conhecida por eles nos tempos de Queen. A ausência de menções à sexualidade de Mercury teriam feito, inclusive, com que o ator Sacha Baron Cohen – inicialmente cotado para interpretá-lo no filme – desistisse do papel.

O papel de Freddie Mercury acabou ficando com Rami Malek após Sacha Baron Cohen ter discordado do viés que o longa-metragem teria: Cohen queria que a história mostrasse a vida pessoal de Mercury, com direito a classificação indicativa para maiores de 18 anos, enquanto que o roteiro indicava foco na trajetória profissional do cantor.

Em 2016, Sacha Baron Cohen explicou a Howard Stern por que abandonou o elenco do filme: “Não deveria ter ficado tanto tempo envolvido, pois na primeira reunião, anos atrás, um dos membros da banda disse: ‘Esse filme será ótimo, porque o que acontece no meio é excelente’. Perguntei o que seria e ele respondeu: ‘Freddie morre, ué’. Deduzi que seria como ‘Pulp Fiction’, em que o meio é o fim, mas ele disse: ‘Não, será normal’. Perguntei o que teria na segunda metade e ele explicou: ‘Vamos mostrar como a banda seguiu em frente fazendo sucesso’. Eu falei: ‘Cara, ninguém vai querer ver um filme em que o protagonista morre de Aids no meio e a carreira de seu grupo continua'”.

Em defesa das liberdades democráticas

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Jair Bolsonaro (PSL) foi alvo de protestos nesta terça-feira (30), apenas dois dias depois de sua eleição para o cargo. Opositores convocaram manifestações em pelo menos seis capitais – São Paulo, Rio, Brasília, Porto Alegre, Fortaleza e Recife – com o mote de “resistência” ao futuro governo, que veem como um risco à democracia e à manutenção de direitos. Em São Paulo, o protesto foi convocado pela Frente Povo Sem Medo e pela Frente Brasil Popular, organizações formadas por movimentos sociais e centrais sindicais. O ato saiu do vão do Masp (Museu de Arte de São Paulo), na avenida Paulista, e ocupou uma faixa da via, rumo à praça Roosevelt, na região da Consolação. Segundo a organização do ato, 30 mil pessoas compareceram. A Polícia Militar não divulgou números.

Ao longo do protesto, os manifestantes gritaram palavras de ordem contra Bolsonaro, como “Ele não, ele nunca, ele jamais”, retomando o lema “Ele não” dos atos organizados por mulheres contra o presidente eleito durante a campanha eleitoral, além de frases como “Não tenho medo” e “Ninguém vai se render”. Apesar do “Ele não”, Guilherme Boulos, que disputou a Presidência pelo PSOL e discursou no ato, descartou que o protesto fosse uma contestação ao resultado da eleição.  “As eleições acabaram no domingo, mas as fake news continuam. Nós lançamos esse ato de resistência democrática e eles se apressaram em dizer que a gente não reconhecia o resultado das eleições, que nós éramos maus perdedores”, disse. “Nós reconhecemos, sim, o resultado das eleições. Nós não somos o Aécio Neves em 2014”.

Eleito deputado federal pelo PSDB mineiro este ano, Aécio perdeu a eleição presidencial para Dilma Rousseff (PT) em 2014, e seu partido pediu uma auditoria na votação. Um ano depois, o PSDB concluiu que não houve fraude na eleição. Boulos também afirmou que Bolsonaro “se elegeu presidente do Brasil, não imperador do Brasil, não dono do Brasil”, e que por isso tem que respeitar “as liberdades democráticas, a liberdade de manifestação, a de expressão.” O político do PSOL criticou diretamente a declaração do presidente eleito no sábado (28), de que “bandidos vermelhos” iriam “para fora ou para a cadeia”.

“Tem que respeitar as oposições, e não dizer que vão para a cadeia ou para o exílio. Nós não vamos para cadeia ou para o exílio, vamos para a rua, que é nosso lugar de lutar por direitos e pela democracia”, afirmou. Boulos também disse que a oposição não aceitaria uma reforma da Previdência “que retire aposentadoria do povo”, nem a criminalização dos movimentos sociais, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), do qual Boulos é um dos líderes. Bolsonaro já disse que todas as “ações” destes dois movimentos devem ser consideradas como “terrorismo”.

Bolsonaro vai à guerra pela reforma da Previdência, rejeitada por 71%

Por Paulo Moreira Leite

O esforço da equipe de Jair Bolsonaro para aprovar — antes da posse — as mudanças na Previdência Social e no controle sobre a venda de armas de fogo explica-se por uma questão elementar de estratégia política. São propostas importantes para o programa de governo mas rejeitadas por larga margem pela maioria dos brasileiros e brasileiras. O cálculo aqui é banal. Quanto mais tempo o país puder refletir sobre estes assuntos, mais fácil será organizar a mobilização para derrubar propostas que a população rejeita.

O caso do comércio de armas é típico. Embora tenha sido uma das bandeiras permanentes da campanha de  Bolsonaro, a liberação de venda de armas de fogo continua rejeitada pela maioria dos brasileiros e brasileiras.  Em pesquisa realizada pelo Data Folha três dias antes da votação em segundo turno, com 9.173 entrevistas em todo país, o eleitorado confirmou uma opinião conhecida.  Enquanto 41% se disseram a favoráveis à liberação, 55% ficaram contra.

Essa diferença é equivalente a  14,4 milhões de pessoas, número superior  à diferença de votos entre  Bolsonaro e Haddad no segundo turno. Esse dado mostra que um número significativo de eleitores do próprio candidato do PSL também condena a mudança.  No Sudeste, onde Bolsonaro recebeu 49,2% milhões de votos, os favoráveis a liberação ficaram em 40% — os adversários somaram 57%. A liberação só é maioria nos Estados da região Sul — 58 contra 39 –, enquanto o Nordeste é o lugar onde a rejeição é mais alta: 65 a 30.

No caso da Previdência, a pressa de Bolsonaro equivale a realizar   uma  manobra às costas do eleitor. Até os tapetes do Congresso sabem que uma mudança dessa natureza jamais será aprovada em condições normais. Em 2017 a reforma planejada por Temer-Meirelles foi despachada para o mundo das causas perdidas quando ficou claro que nem um Congresso que  capaz de aprovar a reforma trabalhista teria estômago para mudar a Previdência. Um levantamento do Data Folha (02.05/2017) demonstrou que uma maioria gigantesca de 71% recusava a reforma. Entre a minoria de  21% a favor, a parcela maior eram os brasileiros mais endinheirados.

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Basta lembrar que Bolsonaro foi eleito por 39% para reconhecer a guerra que será aprovar uma proposta rejeitada por 71%.

Assim que assumiu seu lugar na campanha, o guru Paulo Guedes defendeu um acordo com o governo Temer e a liderança do Congresso para permitir a votação antes do fim do ano. O plano  é simples e volta a ganhar atualidade agora.

Já punidos pelo cidadão comum– 51% dos deputados foram aposentados pelo eleitor em 2018, grande parte como resposta à reforma trabalhista —  parlamentares em fim de mandato demonstram  menor resistência para apoiar projetos impopulares. Em busca de um novo rumo na vida após o percalço nas urnas, boa parte sequer disfarça a disposição de reforçar um projeto que é uma prioridade sagrada do mercado financeiro internacional, há décadas de olho num dos mais ricos e eficientes sistemas de Previdência pública do planeta.

A ideia também pode permitir um casamento de conveniências entre Bolsonaro e Temer, pois é um caso típico de interesses mútuos.

Multiplicando gestos de boa vontade em direção ao sucessor, Temer pode abrir caminho para uma aposentadoria menos tumultuada quando deixar o Planalto e perder as prerrogativas que mantém a Lava Jato provisoriamente longe de seus calcanhares.

Já Bolsonaro pode esconder-se atrás de um governo moribundo para aprovar um projeto que costuma deixar uma marca de ferro no mandato de todo presidente — como aconteceu até com Lula, que enfrentou protestos logo depois da posse, em 2003, quando deu sequência a uma mini reforma da previdência herdada de Fernando Henrique.

O detalhe é que Bolsonaro venceu a eleição em circunstâncias muito mais difíceis e não há garantia de unidade em torno de um projeto tão importante. Apontado como futuro chefe da Casa Civil, o deputado Onix Lorenzoni era contra a reforma de Temer em 2017 e faz reservas contra a ideia de Paulo Guedes de levar o tema a votos antes da posse.

Bolsonaro teve uma vitória magra no segundo turno, de 55% a 45% dos votos válidos. Por comparação, em 2002 Lula recebeu 61,2% dos votos válidos —  contra 38,7% para José Serra. Sua vitória abriu caminho a um novo pacto entre as forças políticas do país, coisa que Bolsonaro não quer e não demonstra  interesse em fazer,  empregando a postura bélica do Choque e Pavor, típica das guerras modernas levadas pelos EUA —  como deixou claro na resposta grosseira a uma mensagem bem-educada de Fernando Haddad.

Após uma campanha na qual a distribuição de fake news foi a prioridade número 1, quando recusou todos os convites para participar de debates no segundo turno, coisa inédita na história das eleições após a democratização, Bolsonaro tem  pressa para tocar a Previdência. É a melhor forma de impedir a população de se organizar, como fez há dois anos, para impedir um golpe fatal no Estado de bem-estar social construído pelos brasileiros em quase um século de história.

Alguma dúvida?

Greta Van Fleet: salvação do rock ou Led Zeppelin cover?

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Por Régis Tadeu

Tem gente que adora Pelé, Xuxa, Roberto Carlos, Paulo Maluf, Raul Seixas e Sílvio Santos ao mesmo tempo. Normal. Cada maluco tem o direito de curtir quem quiser. Da mesma forma qualquer pessoa tem o direito de achar que a “salvação do rock” é um quarteto de moleques que se vestem horrivelmente e que imitam descaradamente o Led Zeppelin. Só não contem comigo para validar essa presepada. Porque o Greta Van Fleet é justamente isso: uma farsa para enganar “viúvos do rock do passado”.

Chegamos a um ponto de “vampirismo” musical que qualquer um que resolva retomar o som de um passado distante é chamado de “a nova esperança do rock”, assim como antigamente todo fã racista de boxe ansiava pela “grande esperança branca”, algum peso-pesado ariano que viesse a derrotar os poderosos lutadores negros que dominavam completamente os ringues.

Cada um constrói a sua própria biografia e arca suas consequências. Por isso, a trajetória de uma banda que sequer tem meia década de existência profissional e que vem sendo apontada como aquela que vai resgatar a paixão pelo rock por parte das novas gerações tem tudo para se transformar em um daqueles casos de ascensão tão fulminante quanto a sua queda. Já vi esse filme acontecer inúmeras vezes. Foi assim com os péssimos Strokes, com os fofinhos do Belle and Sebastian, com o intragável Bush, com o subestimado Jet, com o irregular Kaiser Chiefs, com o ótimo Oasis… Toda “salvação”, mais cedo ou mais tarde, acaba tragada por suas próprias presunções.

Quando você pensa nos dias de hoje no termo “classic rock”, o maior popstar da categoria é justamente um grupo de quatro garotos americanos de Michigan que imita descaradamente o Led Zeppelin e é saudado justamente por isso!

Lembro que um sentimento parecido chegou a atingir certas pessoas aqui no Brasil quando surgiu o The Darkness, que era uma tiração de sarro proposital aos exageros sonoros do Queen e de outras bandas gigantes da segunda metade dos anos 70. Teve muita gente que detestou e amou sem saber que aquilo era uma sátira, como o Massacration fazia com os fãs retardados de Manowar e outras bandas canastronas do heavy metal. Uma música como “I Believe in a Thing Called Love” era quase uma paródia! O Greta van Fleet não. Os moleques realmente se levam a sério na tarefa de “salvar o rock”. Que besteirada da porra!

São três irmãos metidos a hippies: o guitarrista Jake, o baixista Sam e vocalista Josh Kiszka, tão genuínos como uma nota de R$ 73. O vocalista parece o neto do cantor Marquinhos Moura – lembra do hit “Meu Mel”, de 1986? –, se veste com as roupas e chinelos – sim, chinelos! – mais ridículos da história do show business em todos os tempos e canta como se tivesse engolido 26 balões com hélio para conseguir imitar completamente o timbre que o Robert Plant tinha até o Led Zeppelin III.  Os outros se esmeram na arte de tentar tocar exatamente como faziam Jimmy Page e John Paul Jones, chegando ao cúmulo de reproduzir alguns dos timbres característicos de ambos. O baterista Danny Wagner, coitado, sem conseguir imitar a pegada ponderosa de John Bonham, se limita a acompanhar seus amigos do jeito que dá.

Lula recomenda calma e reafirma liderança de Haddad no PT

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Em seu primeiro recado ao PT depois do final das eleições, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao partido para ter calma, esperar a poeira baixar e não se precipitar na avaliação do cenário pós-eleição, e reafirmou a posição de liderança no partido que o presidenciável da sigla, Fernando Haddad, conquistou depois do segundo turno.

Convocada pela presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, a Executiva da sigla, acrescida de parlamentares e outros petistas graúdos, se reúne nesta terça-feira em São Paulo para fazer uma primeira avaliação de cenário. No entanto, embalada pelo recado de Lula, a tendência Construindo um Novo Brasil (CNB) —da qual o ex-presidente e Haddad fazem parte— ecoa a posição lulista.

“A maioria (da CNB) avaliou que a reunião de amanhã é precipitada. Vamos recomendar que não se tenha nenhuma avaliação. Precisamos ter calma”, defendeu o presidente do PT do Rio, Washington Quaquá. “Todo mundo que ganha uma eleição tem legitimidade democrática. Precisamos fazer oposição a coisas concretas.”

Um dos coordenadores da campanha de Haddad, o deputado Emídio de Souza esteve nesta segunda-feira com Lula em Curitiba e fez um relato aos membros da CNB em uma reunião nesta tarde. O recado do ex-presidente foi entendido.

Sua avaliação foi de que o resultado eleitoral não foi bom, obviamente, pela derrota, mas permitiu ao PT liderar um processo que reuniu gente para além dos partidos, em uma frente que envolveu a sociedade, e ir além do que se esperava em uma eleição em que Lula foi impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa.

Antes de definir um discurso de atuação, o partido tem que decidir como trabalhar para manter isso, contou uma fonte.

Haddad foi derrotado no segundo turno da eleição presidencial para Jair Bolsonaro (PSL), que teve 55,1 por cento dos votos válidos, contra 44,9 por cento do petista. Apesar da derrota, foram 47 milhões de votos.

O ex-presidente coloca Haddad, que foi seu substituto na chapa, no centro das discussões daqui para frente. Recomendou que o ex-prefeito de São Paulo seja consultado sobre seus planos e como planeja liderar essa frente de oposição ao governo Bolsonaro.

Alinhada com os desejos do ex-presidente, a CNB —e outros petistas aliados diretamente a Haddad— avaliam que o ex-candidato conquistou um espaço que precisa ser usado para que o PT possa continuar liderando essa frente de oposição.

“Haddad saiu como uma grande liderança, saiu com estatura para ser uma liderança nacional. Antes só tinha Lula”, disse Quaquá. “Haddad passa a ser um grande interlocutor com a sociedade e se credenciou para liderar uma frente democrática. Essa é a posição do Lula também.”

O tamanho e o papel que Haddad irá desempenhar nesse futuro PT está no centro das preocupações de Lula e do próprio partido. Seus defensores crêem que o tempo de resistências ao ex-prefeito acabou e reconhecem que foi a capacidade dele de conversar com diferentes setores que levou o partido a conseguir ampliar seu leque de apoios —além, claro, da rejeição a Bolsonaro.

Ainda assim, reconhecem fontes petistas, há setores no partido que temem a perda de liderança e de holofotes para um “novato”.

“A discussão é mais complexa que uma avaliação de cenário. Que papel Haddad terá? Isso terá que ser discutido mais profundamente. Que espaço tem? Para cumprir esse papel virá para a estrutura do partido?”, disse uma das fontes. “Precisa pensar o que vai ser feito… as coisas precisam ter um compasso.”

Em seu discurso depois do anúncio da eleição de Bolsonaro, Haddad se colocou à disposição para liderar uma oposição mas, lembra a fonte, não foi conversado com ele ainda até que ponto pretende colocar seu envolvimento.

Nesta segunda, o ex-prefeito não foi à reunião da CNB. Pela manhã, saiu de casa apenas para ir até o Insper, onde dá aulas, e perguntado sobre o que faria daqui para frente, disse que voltaria a trabalhar porque tinha apenas tirado uma licença de 90 dias para a campanha.