Festival Facada Fest reage à tentativa de intimidação e censura

Em manifesto divulgado ontem, os músicos e produtores do Festival Facada Fest reagiram com indignação à intimação da Polícia Federal para prestarem esclarecimentos acerca de suposto crime contra a honra do presidente da República. Cabe lembrar que o festival de 2019 nem chegou a se realizar em função da repressão policial, que alegou irregularidades no pedido de licença para realização do evento, em Belém.

Abaixo, na íntegra, a nota emitida pelos responsáveis pelo festival:

NÃO NOS CALARÃO

O Facada Fest surgiu da união de bandas autorais de rock de Belém e
região metropolitana, além de alguns coletivos de produtores e
produtoras culturais independentes. O nome do evento e toda a
programação trata de questões nacionais a partir da sátira e do humor,
linguagens presentes na música, literatura e arte como um todo desde
sempre. O nosso direito é garantido pela Constituição de 1988, a
Constituição Cidadã, que assegura a todo brasileiro e brasileira o
direito à liberdade de expressão. Seja através do discurso político,
do debate público ou da arte em suas mais diversas expressões.

Por isso causa-nos surpresa e indignação saber que organização do
evento foi intimada a prestar esclarecimentos à Polícia Federal por
suposto crime contra a honra do presidente da república Jair Bolsonaro
(o qual vive arrotando ofensas a jornalistas, à classe artística, e a
opositores), em despacho assinado pelo ministro da Justiça Sergio
Moro; pelo Procurador Geral da República Augusto Aras, pela AGU e pelo
Ministério Público Federal do Pará, tudo a partir de uma representação
de um grupo de extrema direita que atua em nosso País.

Historicamente, a sátira a políticos, independentemente de sua posição
ideológica, é uma tradição na vida social brasileira. Das charges de
“O Malho” e dos textos do Barão de Itararé, ainda no início do século
XX, às caricaturas dos irmãos Caruso nos principais jornais do país –
passando por artistas como Juca Chaves, Ary Toledo, Angeli, Jô Soares,
Chico Anysio e Laerte, O jornal “O PASQUIM, e o jornal “Resistência”
aqui no Estado do Pará, retratam figuras públicas de maneira
humorística ou iconoclasta. Esse cultura se consolidou não apenas como
forma de protesto, mas também como um dos mais saudáveis exercícios de
democracia: a liberdade de criação artística e de opinião.

Criminalizar um cartaz e um festival de música, levando os seus
organizadores a prestar depoimento na Polícia Federal, não é só uma
postura antidemocrática, mas também um grave ataque à liberdade
artística. Um ato de censura. Uma retaliação intransigente que busca
não só calar as vozes contrárias ao atual governo, mas também
intimidar futuras e possíveis manifestações artísticas que ousem se
levantar como vozes discordantes no cenário político e social
brasileiros.

Nos perguntamos qual o real objetivo por trás deste evidente ato de
intimidação contra um festival pacífico, que não registrou nenhuma
ocorrência policial e que repercutiu positivamente em toda a capital
paraense e no Brasil como um dos eventos culturais mais importantes do
ano de 2019. E cujo objetivo principal da arte do seu cartaz era
retratar, de maneira satírica, na melhor tradição da charge
brasileira, o triunfo da educação sobre o obscurantismo, o combate à
idéias fascistas, homofóbicas e racistas. Ora, em um país de riqueza
cultural imensa como o Brasil, controlar a produção artística através
de censura, judicialização e intimidação, é uma clara ameaça à nossa
democracia. E também à uma rica tradição de sátira e humor que remonta
a mais de cem anos de história brasileira. Uma legado que não pode,
jamais, sucumbir às aspirações antidemocráticas de quem se arroga a
censurar quem transforma em arte seus questionamentos e insatisfações
em relação aos rumos da política em nosso país.

Felizmente já existe um conjunto de advogados e advogadas, ligados
a cultura e à defesa dos direitos humanos, que voluntariamente estão
assumindo a defesa da organização do Facada Fest. Diversas entidades,
movimentos sociais, culturais, do rock paraense e nacional estão se
mobilizando em defesa da liberdade e expressão e contra tais
violações.

Não nos calarão. O direito ao protesto democrático e ao Rock resistirão.

Belém-PA 22 de fevereiro de 2020

PCdoB denuncia assassinato de líder sindical de Ourilândia

“Neste sábado (22), o PCdoB Pará recebeu a triste notícia do assassinato cruel e covarde do camarada Paulino, grande liderança rural de Ourilândia do Norte, Sul do Pará. Trabalhador Rural, líder sindical e ex-vereador de Ourilândia pelo Partido dos Trabalhadores, Raimundo Paulino da Silva Filho, o Paulino, atualmente somava a sua experiência militante aos quadros do Partido Comunista do Brasil.

Deixamos a nossa consternação com mais este crime bárbaro acontecido no campo e exigimos que as autoridades competentes apurem com rigor e descubram quem foram os executores e seus possíveis mandantes para que possam ser punidos com a aplicação justa da lei.

Nos solidarizamos com familiares, amigos (as) e apoiadores políticos de Paulino neste momento triste e difícil para todos nós.

Partido Comunista do Brasil – Pará”

Caos no Ceará é sintoma da bolsonarização das polícias

Por Murilo Cleto (*)

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, ainda não condenaram a paralisação de policiais por reajuste salarial no Ceará. Como se sabe, o movimento já é nascido inconstitucional, dado o caráter militar da corporação.

Nas redes sociais, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), filho do presidente, defendeu o motim e chamou de “legítima defesa” o disparo que atingiu Cid Gomes, senador pedetista que, no auge da crise, tentou furar o bloqueio policial com uma retroescavadeira e foi ali mesmo alvejado por dois tiros. 

Além de Flávio, os outros dois filhos do presidente, juntamente ao ministro Onyx Lorenzoni – este último em live nesta quinta (20) ao lado de Bolsonaro – , também justificaram os disparos.

O que o episódio escancara, na verdade, é um grave processo de bolsonarização das polícias no Brasil. Essa afirmação pode soar surpreendente para alguns, mas é um erro considerar que a eleição de Bolsonaro, em 2018, tenha significado simplesmente a ascensão dos militares ao poder.

As PMs brasileiras evidentemente têm muitos problemas, mas, especialmente num Estado Democrático de Direito, estão submetidas a órgãos de controle social que podem, ainda que minimamente, fiscalizar suas ações e coibir abusos.

Em 1997, o horripilante caso da favela Naval, em Diadema, na Grande São Paulo, mostrou que, com liberdade de imprensa, instituições independentes e órgãos do Poder Executivo sob o escrutínio da opinião pública, é possível tirar das ruas policiais que estão a serviço de outra coisa que não a garantia da lei.

Trata-se de uma excepcionalidade, claro – afinal é difícil que se registrem em áudio e vídeo todas as abordagens –, mas é possível. E é possível também melhorar. Em última instância, os comandantes das polícias estão subordinados a chefes de Estado, que, por sua vez, são chancelados pelo voto.

Mas o bolsonarismo é outra coisa. Jair Bolsonaro começou a carreira política justamente depois de se insurgir contra o exército. Seus heróis não são exatamente os grandes ditadores da direita, mas torturadores – aqueles que agiam nas sombras para adulá-los.

Numa elaboração muito precisa para pensar a estrutura de funcionamento do bolsonarismo, o jornalista Bruno Torturra recorreu sabiamente ao termo “capanguismo” para caracterizar esse organismo que está sempre à procura de um líder para seguir; indisposto a cumprir normas básicas sociais; e desafeito às mediações promovidas pela política institucional. É isso, diz Torturra, que o distingue de um fascista convencional. Nesse sentido, a relação umbilical da família Bolsonaro com as milícias é emblemática.

As milícias são basicamente uma fase dos grupos de extermínio que surgiram no fim dos anos 1960 no Rio, ainda na esteira do golpe militar, com o apoio da ditadura e o financiamento de empresários locais, oferecendo os serviços de matadores de aluguel. Hoje, elas protegem negócios, empresários e propriedades, mas também extorquem moradores, grilam imóveis e traficam drogas. Amigo, empregador e homenageador de milicianos, Bolsonaro é a antítese do que significam – ou deveriam significar – as corporações militares.

O bolsonarismo não sabe o que é uma ouvidoria. Aliás, até sabe, mas rejeita. E rejeita porque quer ver na atividade policial um espelho do que tanto admira no jagunço. Até agora, a principal proposta de Bolsonaro para a segurança pública é dar carta branca para a polícia matar. Não tem outra, pode procurar.

Como mostra no Estadão o jornalista Marcelo Godoy, essa ideologia tem invadido os quartéis. Godoy usa como baliza o caso real de um manifestante que protestava contra a presença do presidente Bolsonaro num evento com um exemplar da Constituição na mão e, ameaçado pelos fãs do político que estavam no local, acabou detido.

Esses PMs, diz o jornalista baseado no depoimento de um oficial prestes a se aposentar, “veem em Bolsonaro o vingador de décadas de ‘infâmias’ que lhes foram lançadas por estudiosos de universidades, pela imprensa, por liberais e pela esquerda”. Distantes do que ensina a maioria dos manuais de formação, se inspiram em exemplos como o do sargento Fahur e do coronel Tadeu para ofender adversários, pessoalmente e nas redes sociais, e defender abertamente o extermínio de grupos marginalizados.

Números recentes têm revelado que esse processo está longe de ser apenas retórica para angariar votos e seguidores. A letalidade das polícias aumentou e em algumas regiões periféricas já é maior do que a marginal. Nem seria preciso dizer que essa lógica, algo próximo de um western trágico e sem nenhuma graça, também multiplica a produção de cadáveres fardados. Fora os demagogos de terno, ninguém ganha.

Nessa segunda (20) o repórter Rafael Soares revelou ao Extra que, antes de matar um PM na semana passada, um traficante foi libertado depois de sofrer extorsão de policiais do Bope – que não o levaram para delegacia – numa praia deserta na região dos Lagos, no Arraial do Cabo….

Do Ceará, cenas aterrorizantes chegam ao país de policiais encapuzados dando toque de recolher e exibindo armas em tom ameaçador. Elas lembram – e muito – o Rio de Janeiro durante algumas de suas mais graves crises. E não é muito simples distinguir nelas um oficial de um traficante qualquer. Segundo o jornal O Povo, um dos amotinados colocou fogo no carro de uma mulher porque ela criticou o movimento na internet.

Surpreendente mesmo seria se nessa crise o bolsonarismo se colocasse em defesa da institucionalidade. Bolsonaro não condena o motim porque esse é justamente o projeto. Em todas as oportunidades que teve, ele endossou movimentos similares, mesmo sabendo – e talvez sobretudo por saber – da sua flagrante ilegalidade.

Foi assim no Espírito Santo em 2017; tem sido assim agora; e vai ser assim até alguém perceber que na próxima pode ser tarde demais. Se quiser sobreviver enquanto instituição, não parece haver alternativa: ou as polícias se desbolsonarizam, ou simplesmente perdem a razão de ser.

  • Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural, mestre em Ciências Humanas: Cultura e Sociedade e pesquisador das novas direitas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná.

Governador aceita convite do PSC para um rachão

Arquivo Agência Pará

Ao responder, no Twitter, comentário de um usuário citando o repasse de verbas destinadas aos clubes paraenses, que neste ano chegou a R$ 4,6 milhões, o governador Helder Barbalho ganhou elogios do Paissandu. Torcedor do rival, Helder não se recusou a aceitar um convite inusitado.

O internauta Thiago Ferrador postou no Twitter o seguinte comentário:

“Estou a mais de 20 anos em Belém, acho que esse é o pior momento do futebol paraense. Nosso governador deveria ajudar aos clubes, futebol é um grande negócio”.

A resposta do governador não tardou. “Estamos repassando aos clubes paraenses R$ 4,6 milhões só em 2020, o maior valor já ocorrido na história do Estado. Mais do que isto só se eu for jogar”, escreveu Helder.

O perfil oficial do PSC entrou na conversa comentando: “Que o menino Helder tá voando no governo, isso todo mundo sabe! São investimentos em todas as áreas, como no esporte, com o maior repasse da história do Parazão. Somos gratos! Seu apoio é fundamental! Mas e aí, @helderbarbalho? Que papo é esse de entrar em campo, gov?”.

Sem perder tempo, o PSC aproveitou a oportunidade para lançar um desafio para Helder: convidá-lo para um rachão. Bem humorado, o governador respondeu: “Combinado”.

Reforço do Palmeiras, Rony brilhou no Brasileirão com participações em gols

Atacante ex-Athletico foi confirmado hoje pelo Palmeiras - Divulgação

Dudu, Lucas Lima, Gabriel Veron, Raphael Veiga, Gustavo Scarpa, Zé Rafael e agora Rony. O setor de criação do Palmeiras ganhou hoje um novo reforço com a confirmação da chegada do atacante de 24 anos, um dos destaques do Athletico Paranaense nas últimas temporadas. Autor de nove gols em 2019, Rony foi apenas o terceiro principal goleador do time rubro-negro, ficando atrás de Marco Rubén e Marcelo Cirino. Porém, nem só de bolas na rede vive o atacante.

Jogador de lado de campo, o novo reforço palmeirense foi o quinto maior garçom do último Campeonato Brasileiro, com oito passes para gol – dez em toda a temporada. Dudu, com 11, foi o único do elenco alviverde a dar mais assistências.

Capaz de criar e também de concluir, Rony terminou a competição nacional como o 10º jogador com mais participações diretas em gols. O veloz atacante ficou empatado, por exemplo, com Soteldo, do Santos, e Michael, do Goiás, que cumpriam funções parecidas em suas equipes. Foram seis bolas na rede e oito passes, totalizando 14 interferências positivas em gols.

Nos últimos cinco Brasileiros, Dudu foi o maior garçom palmeirense e um dos principais do Brasil, com 46 assistências no total (6 em 2015, 10 em 2016, 5 em 2017, 14 em 2018 e 11 em 2019). Rony chega, muito provavelmente, para dividir essa responsabilidade com o camisa 7.

MAIORES GARÇONS DO BRASILEIRÃO 2019

Arrascaeta (Flamengo): 14 assistências

Dudu (Palmeiras): 11 assistências

Gabigol (Flamengo) e Carlos Sánchez (Santos): 9 assistências

Rony (Athletico): 8 assistências

Dados: Footstats

JOGADORES COM MAIS PARTICIPAÇÕES* EM GOLS NO BRASILEIRO 2019

Gabigol (Flamengo): 34 participações diretas

Arrascaeta (Flamengo): 27 participações diretas

Bruno Henrique (Flamengo): 25 participações diretas

Carlos Sánchez (Santos): 21 participações diretas

Dudu (Palmeiras): 20 participações diretas

Gilberto (Bahia) e Sasha (Santos): 17 participações diretas

Everton (Grêmio) e Wellington Paulista (Fortaleza): 16 participações

Rony (Athletico), Soteldo (Santos), Michael (Goiás) e Everaldo (Chapecoense): 14 participações diretas

Dados: OGol

Leão leva baile e dá vexame

POR GERSON NOGUEIRA

Foi um passeio do Brusque. Em determinado momento, parecia uma disputa entre um time com 13 jogadores contra outro com 11. O Remo levou de 5 a 1, mas foi até pouco. O placar podia ser ainda mais dilatado. E não se pode falar do jogo sem observar o nível baixíssimo do futebol  paraense atual. A vexatória derrota dos azulinos foi contra um time que até o ano passado disputava a Série D do Campeonato Brasileiro.

Thiago Alagoano foi o grande destaque do jogo, com dois gols

A movimentação do Remo, ontem à noite, deixou claro desde o começo que a tarefa de superar o Busque era quase inatingível. Não pelo que o time catarinense apresentava, mas pelas fragilidades do Leão. Sem esquema, com erros primários de marcação e nenhuma inspiração, o time de Rafael Jaques mostrou-se pequeno ao longo dos dois tempos.

Erros pontuais tornaram o Remo um adversário fácil de ser batido. A falta de qualidade de boa parte da equipe foi amplificada pela desorganização tática. Não se sabe como o time joga, o que busca em campo e nem as alternativas possíveis contra um adversário solidamente estruturado.

Djalma, mesmo com uma perna só, não poderia ser reserva. Todo mundo que acompanha o Círio sabia disso, menos Jaques. Poderia ser lateral direito ou volante, no lugar de Xaves, novamente improdutivo e espantosamente mantido como titular.

O Remo levou um sufoco no primeiro tempo, sofreu um gol e Vinícius ainda defendeu um pênalti. No segundo tempo, porém, a porteira abriu de vez e o Brusque passeou em campo, sem que Jaques esboçasse reação. Era o confronto de um time organizado contra outro baratinado, sem qualquer noção de marcação e preenchimento de espaço.

Na etapa final, mesmo quando tentava sair jogando, o Remo se atrapalhava. Não encaixava um ataque mais elaborado. Aos 13’, Aírton bateu falta e fez 2 a 0. Giovane, que substituiu o nulo Xaves, diminuiu e passou a ideia de que era possível uma reação.

O adversário, porém, tinha mais consistência e logo ampliou, com dois gols em dois minutos, com participação do ex-remista Alex Sandro no gol de Edu. Tiago Alagoano passou a régua no final, fazendo 5 a 1. Vitória justa e representativa das facilidades que o Brusque teve em campo.

Choro rubro-negro não combina com projeto de grandeza

A discussão nacional, desde anteontem, foi a maneira polêmica com que o Flamengo empatou com o Independiente Del Valle (2 a 2), pelo primeiro jogo da Recopa Sul-Americana. Como virou rotina nos últimos tempos, a bronca com a arbitragem se tornou preponderante em relação ao que o time de Jorge Jesus produziu na partida.

Em primeiro plano, a explicação e as justificativas para a derrota. Depois, a análise técnica do embate. Desprezando o fato de que o jogo deve ser sempre o ponto mais importante da discussão, a imprensa esportiva se lançou a questionamentos sobe a postura da arbitragem.

Virou um aleijão. O país pentacampeão do mundo prefere sempre botar a culpa no árbitro a analisar as situações de uma partida. Nunca é responsabilidade de técnico ou jogadores. O problema maior sempre é a arbitragem, normalmente culpada pelos insucessos dos times brasileiros.

Fica cômodo para todos os envolvidos. De antemão, o vilão é sempre o árbitro. Quando o Corinthians deu vexame diante do Guaraní do Paraguai (na fase preliminar da Libertadores) foi porque o juiz meteu a mão. Aí, o Flamengo tropeça e a culpa, obviamwnte, é do árbitro.

O Independiente Del Valle comportou-se muito bem. Marcou com inteligência e método o rápido time rubro-negro. Não deu pancada, preferiu explorar as limitações da zaga brasileira e obteve um resultado justo. O lance do gol anulado de Bruno Henrique foi uma marcação acertada do árbitro, com base em norma da Fifa.

Longe de reconhece os méritos do Independiente, a maioria da crônica brasileira impregnou-se do conhecido espírito patrioteiro, que vê perseguição sempre que um time brasileiro está em cena contra adversário sul-americano. Ofensivo e destemido, o Independiente encarou o Flamengo como aro times brasileiros se arriscam a fazer hoje.

Além de reclamar da anulação do gol de Bruno Henrique, os rubro-negros criticam o pênalti assinalado para os equatorianos nos minutos finais do jogo. O jogador do Del Valle é tocado por Rafinha na área e a penalidade foi marcada. No ano passado, diante do Emelec, na Libertadores, o mesmo Rafinha foi beneficiado em lance muito parecido. Forçou o contato, foi ao chão e o árbitro Néstor Pitana deu o penal.

Em resumo: quem com teatro fere, com teatro será ferido.

A bronca do torcedor

“Escrevo para lembrar fatos que ocorreram e que podem ser constatados. Basta que vejam os lances novamente. Sou Paysandu, amo meu clube e, apesar dos erros de diretorias passadas e atual, não vou crucificá-las pelos insucessos ocorridos nos últimos anos. O PSC está onde está por seus erros e por molecagem, safadeza e roubalheira de árbitros que atuaram em nossos jogos. E o que mais me entristece é que algumas destas arbitragens ocorreram quando o sr. Antônio Carlos Nunes era o presidente da CBF e hoje ainda ocupa um cargo de relevância, pois é um dos vice-presidentes. Pois bem, no jogo Paysandu 1 x  5 Atlético (GO) na Curuzu, em 2018, o assistente desmarcou um gol legal. No jogo CRB x Figueirense, resultado de 2 x 1 para os alagoanos, os dois gols foram de total impedimento e não foram anulados. Com esse resultado, o CRB se manteve na Série B e nós fomos rebaixados. Não quero aqui falar em teoria da conspiração contra meu clube e nem contra o futebol paraense, mas é muita coincidência pro meu gosto. Anteontem, mais uma vez, formos garfados com um gol mal anulado e um penal inexistente, e mais uma vez o todo-poderoso CRB no nosso caminho – e quando falo todo-poderoso, não é que eu ache que eles sejam um grande clube do futebol brasileiro, mas tem aquilo que nos falta: força política. Eu não quero que o sr. Antônio Carlos peça para ajudarem o Paysandu e nem o Remo. Eu só queria que ele não deixasse que nos roubem, mas esse senhor, que é conselheiro do Paysandu e já foi diretor do clube, simplesmente não está nem aí pra nós”.

Lúcio Mauro Arguelles Motta 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 21)

Repórter de TV xingada por Bolsonaro não ouviu um pio em solidariedade

Há 2 dias, depois de Luciano Huck ter declarado que Bolsonaro havia ultrapassado a fronteira da decência ao fazer insinuação de cunho sexual à jornalista Patrícia Campos Mello, ocorreu um movimento para lembrá-lo que esse limite tinha sido atropelado quando uma homenagem ao coronel Ustra foi proferida em pleno Congresso.

Bem, se ficarmos puxando o fio da meada eu diria que nossa decência foi estuprada quando a primeira caravela encostou.

A verdade é que Bolsonaro sempre foi “isso daí”, antes mesmo da homenagem ao torturador, sempre destratou jornalistas de forma brutal e ficamos assistindo passivamente. Ainda em 2017 chamou Miriam Leitão de porca e afirmou que ela iria lamber suas botas “como fez com todos que chegaram no poder”.

Em abril de 2014, durante entrevista sobre os 50 anos do golpe militar, Bolsonaro xingou a repórter Manuela Borges.

A jornalista, então na Rede TV, foi chamada de idiota, analfabeta e ignorante. O então deputado do baixo clero ainda perguntou, acreditem, se ela já tinha frequentado a biblioteca.

Primeiramente, Bolsonaro mencionar biblioteca já é de um cinismo avassalador. Em segundo lugar, um beócio como aquele xingar a repórter de analfabeta e ignorante (ela tem pós-graduação em Assessoria em Comunicação e mestrado em Ciência da Informação) já indicava o que deveríamos ter evitado com todas as forças.

Por que não ocorreu a mesma onda de revolta que vemos hoje sobre o caso envolvendo a jornalista da Folha de S.Paulo? Por que Luciano Huck ficou em silêncio? Por que parlamentares não tomaram medidas contra aquele zé-ninguém antes que ele ganhasse musculatura eleitoral?

Na ocasião, ali mesmo na entrevista, Manuela foi firme e afirmou que tomaria as medidas judiciais cabíveis contra aquela agressão. Bolsonaro foi irônico e disse que estava “cagando” para ela.

A jornalista até tinha intenção de processar o deputado, mas não teve nenhum apoio de seu empregador.

Ao contrário. A Rede TV deu ainda mais visibilidade benéfica a Bolsonaro. Hoje é primeira linha entre as emissoras alinhadas com o bolsonarismo e a que mais verba recebeu durante a fase de campanha da Previdência. Mais que o dobro: R$ 1,1 milhão enquanto as demais receberam abaixo de R$ 433 mil.

A emissora cedeu uma poltrona para Bolsonaro desfilar seus comentários machistas asquerosos no programa de Luciana Gimenez e nada fez em apoio a sua repórter Manuela Borges, tratada com insultos e covardia.

O episódio marcou a carreira de Manuela.

O DCM entrou em contato com a jornalista. Ela recusou conceder entrevista, preferiu “não mexer no que está quieto”. Afirmou não saber se arrepende-se de não ter ido adiante com o processo.

É compreensível. Quem não tem medo de mexer com milicianos?

Exalando justificada mágoa com a omissão e indiferença de vários setores frente ao que lhe aconteceu, a jornalista lembra que a única entidade a emitir uma nota de repúdio foi o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal.

Não teve grupo de artistas fazendo videozinho nem sinalizando que a linha da civilidade havia sido rompida. Não tinha sido ou acreditaram que aquilo era algo desprezível?

Não se flerta com o fascismo sem ser capturado por ele.

Todo esse alvoroço hoje faz lembrar de algo salientado durante o movimento golpista de deposição de Dilma Rousseff: a misoginia. Dilma foi xingada de todos os palavrões que se pode imaginar e boa parte das mulheres jornalistas da grande mídia fez pouco caso.

Desdenhamos do ataque sofrido por Manuela Borges, dos ataques a mulheres, negros, quilombolas e indígenas. Demos de ombros para quando ele afirmou que filho gay deve ser “curado” na base da porrada.

Por isso envergonha a todos que repórteres continuem obrigados ouvir, da boca de esgoto, coisas como “Oh rapaz, pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai” (para jornalista de O Globo), ou “Você é escroto” (para Rubens Valente, da Folha) ou “Você tem uma cara de homossexual terrível” (também para O Globo) e por aí afora.

O jornalista é um funcionário acuado. Submete-se a essas humilhações preso em um cercadinho (e ao lado de uma claque de jagunços que, incentivada pelo ‘líder’, também dispara impropérios). Levanta da cama rezando para que a reação do dia do ‘mito’ seja outra também habitual: abandonar a entrevista quando a pergunta não lhe agrada.

Os donos das empresas de comunicação é que são os responsáveis pelo espetáculo tétrico. Revoltante é ver os oportunistas de plantão, os mesmos que apoiaram o golpe e colaboraram para esse cenário, surgirem com cara de espanto dizendo-se ‘preocupados’ com o grau de escalada do autoritarismo.

A escalada começou faz 6 anos. Nós agora estamos na beira do abismo.