Archive for julho, 2012

Cazuza, vítima de uma reportagem

Por Oswaldo Coimbra (*)

Há um episódio na biografia de Cazuza relacionado com Belém não reconstituído pelos pesquisadores que escreveram sobre o artista. Ocorreu antes da célebre entrevista concedida por ele à Marília Gabriela, durante a qual Cazuza admitiu publicamente que estava contaminado por AIDS. Naquele final dos anos de 1980, tal admissão se constituía numa atitude corajosa porque a doença ainda era cercada de muito preconceito.

Pouca gente sabe que antes da entrevista, num show em nossa capital, o cantor se feriu e começou a sangrar. Levado ao Incor, um hospital que já não existe mais, ele deixou impressionados e comovidos médicos e enfermeiras com sua preocupação em evitar o contato com o sangue dele, pois não queria que aqueles paraenses também se contaminassem. Estes profissionais de Belém puderam, assim, saber da doença de Cazuza, antes dos outros brasileiros.

Com cuidado semelhante o cantor não pôde contar quando, meses depois, num estágio já avançado da doença concordou em receber em seu apartamento os jornalistas da revista Veja. Àquela altura, ele se apegava à esperança de lançar um novo disco para não afundar no desânimo provocado por uma enfermidade ainda sem cura. E não resistiu à investida da revista que queria retratá-lo, feita através de uma ex-colega de sua mãe, Lucinha Araújo, a jornalista Ângela Abreu. Obtido o consentimento de Cazuza, Ângela compareceu ao encontro acompanhada de outro jornalista, a quem, de fato, Veja havia incumbido de produzir aquela matéria. Seu nome: Alessandro Porro.

A revista tampouco levou em conta os pedidos do pai do cantor, João Araújo, para que poupassem seu filho. Foi triplamente impiedosa. Do ponto de vista clínico, decretou a proximidade da morte do cantor já na manchete da capa da edição publicada no dia 26 de abril de 1989. “Cazuza, vítima da AIDS agoniza em praça pública”, noticiou Veja. No entanto, o cantor só viria a falecer um ano e dois meses depois. Do ponto de vista moral, Veja quase chegou a responsabilizá-lo por sua doença. Mostrou-o como um consumidor de drogas, de vida sexualmente promíscua. Embora os efeitos da AIDS, naquele período, fossem ampliados porque a Medicina ainda mal conhecesse a enfermidade. Do ponto de vista artístico, previu o esquecimento dele e de suas músicas, sustentando que Cazuza não tinha o talento de Noel Rosa, outro artista também abatido jovem, supostamente pela conjunção de vida desregrada com doença.

O efeito da impiedade de Veja foi devastador. Conta Lucinha Araújo, mãe do cantor, no livro “Cazuza, só as mães são felizes”: “Na tarde de domingo, estávamos tomando sol na piscina quando João chegou com sinais de preocupação no rosto e a revista nas mãos. Ele não sabia como entregá-la a Cazuza e sofreu muito ao perceber suas primeiras reações. Ao ver a Veja nas mãos do pai, meu filho a agarrou imediatamente e leu a reportagem inteirinha. Quando acabou, seus olhos estavam cheios de lágrimas: – Eu só não perdôo eles terem posto em dúvida a qualidade de meu trabalho!”

Lucinha prossegue: “Meu filho não agüentou. As lágrimas tristes se transformaram em choro convulsivo. A pressão baixou quase a zero. Não conseguimos controlar a crise em Petrópolis e decidimos levá-lo imediatamente para o Rio. Na estrada, com a enfermeira e Zélia, nossa caseira de Petrópolis, ao lado, Cazuza passou por momentos críticos. Meu desespero era tanto que temi por sua vida, imaginando que ele não resistisse às curvas da Rio-Petrópolis. Era uma hora da madrugada quando meu filho, já internado e medicado na Clínica São Vicente, saiu da crise e a pressão foi estabilizada.”.

No trecho que produziu maior dano em Cazuza, a matéria de Veja trouxe o seguinte: “Cazuza não é um gênio da música. É até discutível se sua obra irá perdurar, de tão colada que está no momento presente. Não vale, igualmente, o argumento de que sua obra tende a ser pequena devido à força do destino: quando morreu de tuberculose em 1937,Noel Rosa tinha 26 anos, cinco a menos que Cazuza, e deixou compostas nada menos que 213 músicas, dezenas delas obras-primas que entraram pela eternidade afora. Cazuza não é Noel, não é um gênio. É um grande artista, um homem cheio de qualidades e defeitos que tem a grandeza de alardeá-los em praça pública para chegar a algum tipo de verdade”.

Aos 31 anos de idade, Cazuza tinha gravado 126 músicas. Outras 34, criadas por ele, haviam sido gravadas por seus colegas cantores. Sua produção ainda incluía 60 músicas, então, inéditas. Tudo isto, com apenas oito anos de carreira, lembrou Lucinha.

(*) Oswaldo Coimbra escreve, aos sábados, a coluna Saga Brasileira no caderno Você, do DIÁRIO.

31 de julho de 2012 at 22:10 31 comentários

O adeus do Repórter Amarelinho

Homenagem do blog ao repórter Paulo Ferrer, que brilhou no rádio paraense ao longo de mais de duas décadas e morreu nesta segunda-feira. Trabalhou em praticamente todas as emissoras de Belém, notabilizando-se como o Repórter Amarelinho, da Super Marajoara, nos anos 80. Nos últimos anos da longa carreira, trabalhou na Rádio Cultura. Era um repórter versátil, capaz de cobrir com a mesma desenvoltura atos de protesto, passeatas, enterros, lançamentos de livros e transmissão de futebol. Um profissional das antigas, mas com ânimo de eterno iniciante. Homem simples e de muitos amigos, destacou-se também como um cruzmaltino emérito, manifestando publicamente seu amor incondicional pela Tuna Luso Brasileira. Uma grande perda para o jornalismo radiofônico paraense. (Foto postada por Toni Carapirá no Facebook)

31 de julho de 2012 at 19:34 9 comentários

Capa do DIÁRIO, edição de terça-feira, 31

31 de julho de 2012 at 3:24 3 comentários

Muito beque, nenhuma inspiração

Por Gerson Nogueira

É histórico. Paciência do torcedor paraense é quase inesgotável em relação a treinadores e jogadores importados. Digo isso logo em seguida à autêntica pelada que Paissandu e Águia disputaram no Mangueirão, que, justificadamente, terminou empatada em zero a zero. Pelo fraco futebol apresentado, nenhum dos times merecia vencer. Na contabilidade, foi o terceiro jogo do Paissandu sem vitória, o segundo sem fazer gols jogando em casa e apenas dois pontos ganhos em nove disputados. O time volta ao G4, mas a torcida sente começa a cobrar mais qualidade.

Aos poucos, o torcedor vai caindo na real e percebendo que o alardeado bom elenco não passa de uma ilusão. No papel, alguns jogadores são realmente bons, à altura da Terceira Divisão, mas na prática não funcionam assim. Algumas certezas também começam a se desmanchar. Kiros, que chegou cotado como grande artilheiro, é a maior vítima de um meio-de-campo que não cria. Tiago Potiguar mantém a gangorra habitual – vai bem num jogo e some nos três seguintes.

Até Pikachu, uma dos poucos talentos óbvios desse time, começa a se contagiar pelo mau rendimento da equipe. Continua correndo como antes, buscando os lances individuais, mas o conjunto não ajuda e seu futebol vai minguando. Contra o Águia, reconhecidamente um time que sabe jogar fora de casa, o Paissandu teria que explorar a velocidade para fugir à forte marcação. Agarrado ao sistema de três zagueiros, Davino mostrou-se incapaz de resolver a lentidão na saída de bola.

Do lado marabaense, João Galvão aposta muito nos volantes que tem e na regularidade de seus zagueiros. Sabia que o Paissandu padece de um crônico vazio na armação e fincou seu bloqueio ali. Suportou o sufoco dos primeiros minutos, mas depois manteve a situação sob controle e até teve algumas chances.

Cabe dizer que a meiúca que Galvão neutralizou dependia de Robinho, Leandrinho e até de Potiguar. Todos carregam a bola, mas nenhum sabe organizar. Esperava-se que Alex William, considerado “o” camisa 10, fosse usado para executar a tarefa. Davino, pelo visto, ainda não está totalmente confiante no condicionamento do jogador.

Os defensores do técnico começam a ressaltar a invencibilidade fora de casa. Esquecem que torneios encardidos como a Série C dependem da performance caseira. Time não que ganha em seus domínios costuma se dar mal. Desta vez, serão nove jogos em casa e o Paissandu já desperdiçou dois. Contra o Águia, teve novamente domínio ilusório, como contra o Fortaleza de Vica, mas errou muito nos arremates. Isso sempre faz falta no final.

Ah, sobre a proverbial boa vontade de nossas maiores torcidas com profissionais não-paraenses, exemplo cristalino aconteceu no fim do jogo: invocado com as vaias, Davino deixou o campo vociferando palavrões e fazendo gestos obscenos. Imagine se fosse um técnico papachibé. Cairia antes de descer para os vestiários. (Fotos: NEY MARCONDES/Bola)

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Direto do Twitter

“Paissandu tem problemas sérios no ataque. Agora, tem que falar baixo. Se escutarem, a diretoria e o Davino vão contratar mais 500 atacantes”.

Do jornalista Nilson Cortinhas.

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Na mesma proporção em que sobe o nível de irritação com o time, repetem-se as cenas de mau comportamento do torcedor no Mangueirão. Bombas, garrafas, tênis e pilhas foram atirados durante toda a partida. Não há mais limite para a ignorância absoluta de alguns.

Acima de tudo, representa uma contradição incompreensível: o torcedor, que se diz apaixonado, atenta voluntariamente contra o futuro de seu próprio time na competição. Afinal, todos sabem que atirar objetos no gramado acarreta a perda de mando.

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Na derrota do vôlei feminino, na Olimpíada, o comentarista do Sportv se esforçava para justificar à torcida brazuca o vexatório desempenho das meninas diante da fortíssima seleção americana. Veio então a costumeira cascata de expressões condescendentes: “Fabi não está num dia feliz”, “faltou sorte à Fernandinha”, “meninas vibram, mas o jogo não entra” etc. Só que o jogo é jogado e o lambari é pescado, como dizia o Juarez Soares.

Um dos problemas que atravancam o progresso do esporte olímpico (e não olímpico) no Brasil é essa nefasta mania de determinados jornalistas assumirem responsabilidade pelos resultados dos times e atletas nacionais. Jornalista não é técnico, nem preparador físico, muito menos psicólogo. Seu papel é informar da maneira mais fiel possível aos fatos.

Alguns batráquios, discípulos da velha escola global de torcer primeiro e informar depois, ficam à beira de um ataque de nervos nos ginásios, esgoelando-se como se isso fosse capaz de mudar a trajetória de um saque ou a eficiência de um bloqueio. Manejando o controle remoto como sabre jedi, passo a léguas desse histrionismo oportunista.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 31)

31 de julho de 2012 at 3:13 57 comentários

Capa do Bola, edição de terça-feira, 31

31 de julho de 2012 at 1:45 6 comentários

A sentença eterna

“O fim do amor, oh não. Alguma dor, talvez sim. Que a luz nasce na escuridão”. 

De Gilberto Gil.

31 de julho de 2012 at 1:44 13 comentários

Davino versus Galvão

Momentos distintos à beira da pugna. Roberval Davino de olho no relógio à medida que o jogo se aproximava do fim. João Galvão gesticula e orienta o time para segurar a pressão bicolor. (Fotos: MÁRIO QUADROS/Bola) 

31 de julho de 2012 at 0:33 3 comentários

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