Notícias de um cidadão antenado

Oito mil machos brancos suados de camiseta preta, batendo cabeça. E umas cem minas. E um preto careca e forte de camiseta vermelha do Death. E dois moleques de 15 anos. Meu filho e seu melhor amigo. E eu.  
By Forasta News (André Forastieri)
 O show do Slayer foi emocionante, exato, extremo. Meu primeiro. Meu último. Turnê de despedida. Tão na estrada desde 81, quase quarenta anos. Tá mais que bom. E tão mais que bem. Que pancada. Metal nunca foi meu som, muito menos thrash. Quando eles tavam lá lançando os discos que mudariam completamente o metal, eu só tinha ouvidos para a música nova, diversa, “moderna” da new wave em suas infinitas variedades, em especial se viesse do Reino Unido. Só fui prestar alguma atenção quando já trabalhava, e depois, editor da Bizz, tinha meio que obrigação de ouvir de tudo. Não cumpria. Mas tinha o Miranda ali perto que apresentava umas cascudices. Me mostrou o Sepultura, que me interessou mais como fenômeno antropológico que sonoro, e a influência máxima era thrash. (E essa semana a Fergs colocou no grupo do zap “Amigos do Miranda” a tatuagem no braço que ela fez, com as palavras “Só Alegria”, escritas com a letra do amigo. Apertou o coração…) Com o tempo fui me educando sobre metal. Thrash sempre achei tight demais, retentivo anal, darkóide de almanaque. Mais uma que eu devo ao meu filho. Quando ele começou a gostar de rock e tocar guitarra, fui mostrando umas coisas pra ele, ele foi mostrando umas pra mim. E nessa aprendi a ouvir e curtir thrasheiras, inclusive antiguices do Metallica (!). E o Slayer. Que agora ouvi direito. Que é meu favorito. E única banda dessas em que prestei atenção desde los antigamentes, por causa do Rick Rubin, produtor de rap, que contratou os caras, botou eles na sua gravadora, a Def Jam, e produziu eles um álbum com atitude ultrapunk: Reign In Blood. Essa semana fui ler as letras dos caras. São escuras como a meia-noite. Anti-religião, anti-opressão, anti-guerra, anti… e também cheias de massacres e nazistas e serial killers e morte, morte, morte. Não sei quantos dos seus fãs comungam (opa!) de seu desprezo por papas, padres, pastores. Espero que muitos. Nessas coisas, sou moderado. Vejo todas as religiões como crenças doidas e exóticas. Diferente do típico fiel, que acha a sua religião totalmente natural e normal, e todas as outras doidas e exóticas. Já me conformei que uma boa parte da humanidade vai sempre acreditar em coisas assim. Especialmente o ser humano que tá fudido, precisando de uma intervenção sobrenatural na sua vida. Quanto mais pobre e ignorante o país, maior a influência da religião. Vale para os estados dos EUA. Mas você pode inverter, e dizer que quanto mais religioso, mais pobre. Caso do brasileiro, claro. Donde que há que conviver, o que faço sem esforço. Gosto de pessoas católicas, evangélicas, espíritas, umbandistas, mezzo-calabresa e mezzo-mussarela, anything goes. Cada um na sua. Meu ateísmo é ecumênico. Que todas as fés sejam permitidas, e todas paguem imposto como as organizações “não-espirituais”, e tô de boas. Certo que há que construir e defender estados laicos, e propagar o ceticismo e o pensamento científico. Parece cada vez mais difícil, e não é só por causa da direita não. Tem um documentário do Richard Dawkins impressionante sobre o crescimento das escolas religiosas no Reino Unido. Com creacionismo, islamismo etc., o que é pauta da esquerda, “respeito às minorias” e esse papo todo. Dawkins, biólogo da pesada, militante do ateísmo, é linha dura, como era meu ídolo Christopher Hitchens, e outros caras admiráveis por aí, alguns com humor, Stephen Fry, Ricky Gervais (viu After Life?). Admiro a turma e leio o Skeptical Inquirer. Não tenho energia pra essa briga. Apoio e aplaudo, à distância, displicentemente, retuíto, espalho. Felizmente tirei a sorte grande com meu filho, que até me botou pra ouvir God Hates Us All, Christ Illusion, e outras porradas do Slayer. Sabe, como eu sei, que o radicalismo da banda, e de gente como Dawkins, aumentam nosso espaço de liberdade. Tem um vídeo no YouTube, feito pelo Smithsonian, sobre a origem do Thrash. O Kerry King, guitarrista e compositor do Slayer, explica a seriedade com que a banda trata seus fãs: “quando eles vão aos nossos shows, é como se fosse a igreja deles.” Essa semana foi a minha, a nossa igreja. E a missa foi NEGRA.  
DARKNESS FALLS Aproveita e lê esse bonito mini-ensaio sobre a escuridão. Na The Economist, sempre o inglês mais elegante da imprensa.  
OUVINDO Aquela turma do Native Tongues, o hip-hop jazzístico, experimental, supersampleado dos anos 90: De La Soul, A Tribe Called Quest, Jungle Brothers…   
VENDO Finalmente retomei The Deuce, a série sobre o começo do cinema pornô. Times Square, putas, cafetões, máfia, grana. Elenco maravilhoso, uma tapeçaria, tecida devagarinho, nada a ver com o esqueminha esquemático de série pra ver de uma vez só. Pela mesma turma que produziu o melhor seriado de todos os tempos, The Wire. Na HBO.   
LENDO 
Três mangás incríveis. Onde eu descubro tanto gibi bom? Fuçando, e no melhor blog de HQ do Brasil, o Vitralizado, do Ramón Vitral.  
TESTANDO Meu novo celular tem um botãozinho do lado esquerdo que ativa o Google Assistente. Você aperta, fala “OK Google, manda email para o Camilo Rocha” e o telefone obedece. Coisa de louco. Celular dos médio-baratos, aliás. Celular caro é acessório fashion. Estou sempre procurando soluções assim para facilitar, simplificar, automatizar. Menos complexidade, menos trampo, mais tempo livre, mais paz de espírito. Dá uma olhada nessa lista de truques pra turbinar seu Chrome.  
SIGA No Twitter o meu amigo @camilorocha, que está sempre compartilhando música boa e inesperada, sua inteligência e sensibilidade. Quem mais vai botar na roda uma coletânea de música de Madagascar?  
RELAX Essa vida, essa cidade, esse mundo está cheio de coisas super legais que eu não estou aproveitando. Nem você. No problem. Relaxei com isso. Relaxe você também. Agora tem nome: JOMO.  
OBRIGADO Por ler e espalhar essa cartinha semanal para os seus amigos.Até sexta!