Futebol não é para amadores

POR GERSON NOGUEIRA

Em tempos de vazamentos que mudam a configuração política do país e ameaçam desnudar vacas sagradas, chamou atenção a divulgação nas redes sociais de um áudio atribuído ao técnico remista Eudes Pedro, que não fez qualquer desmentido a respeito.

A conversa, com alguém da comissão técnica ou um amigo próximo, é reveladora da inexperiência do treinador. Todo mundo sabe que a expansão de canais e plataformas de comunicação exige travas e cuidados redobrados para evitar que um diálogo privado se torne público.

Em tom confidencial, o papo expõe a posição pessoal de Eudes sobre a permanência dos jogadores Eduardo Ramos e Neto Baiano, atletas que já estavam no elenco quando ele chegou ao clube no mês passado.

Diante dos boatos de iminente dispensa do técnico, após o resultado negativo na semifinal da Copa Verde, a divulgação do áudio soou como a manjada tática de jogar no ventilador para ver o que acontece.

Ninguém pode fazer defesa prévia dos atletas, mas é no mínimo inadequado e antiético que o técnico expresse posicionamento tão negativo sem jamais ter criticado antes os jogadores em entrevistas ou em relatos à diretoria – pelo menos que se saiba.  

Pior ainda foi a afirmação de que só ficaria no cargo se ambos forem dispensados, colocando o próprio presidente Fábio Bentes contra a parede. A postura de emparedar não é recomendável em qualquer nível de relação profissional, mas no universo do futebol costuma ser fatal para quem aciona o botão.

Eudes, talvez pela pouca vivência no comando de um time que tem uma torcida imensa por trás, parece ter decidido pagar para ver. Aposta perigosa. Não apenas pela imagem antipática que fica, mas porque seu trabalho ainda é incipiente, sem resultados que respaldem arroubos mais radicais.

No áudio, o técnico diz, a certa altura, que não espera mesmo continuar no comando, o que soa ainda mais confuso. Se não pretende ficar no clube ou acha que não querem que permaneça, por que impor uma condição taxava à diretoria, conforme afirma ter feito?

Se Eudes tentou dar uma cartada decisiva, fez o lance errado. Primeiro, porque dificilmente a diretoria irá romper acordos com Ramos e Baiano. Depois, porque o tiro pode sair pela culatra: se a demissão não era certa, o áudio torna a situação praticamente insustentável. A diretoria, se não tomar atitude, passará imagem de banana e passiva. 

Quando até os milímetros jogam contra

Quando a fase é negativa tudo conspira contra. O Botafogo mandou uma bola na forquilha da trave do Goiás em cabeceio de Luís Fernando. Logo em seguida, teve anulado um gol de Cícero, de cabeça.

O VAR traçou a tal linha tridimensional e verificou que, por uma fração de centímetros, a chuteira do meia botafoguense aparece à frente do último zagueiro.

Como nem tudo é notícia ruim, o belíssimo gol de Michael para o Goiás foi anulado porque na construção do lance a bola resvalou (também milimetricamente) no braço de Malone.

Depois disso, o Botafogo se manteve firme e conseguiu sua primeira vitória no returno, marcando 3 a 1.

Luxa caiu no Real porque impôs a Lei Seca

Vanderlei Luxemburgo gosta de distribuir a versão de que rodou do comando do Real Madrid na metade da década de 2000 por divergências com a presidência do clube. Sempre me pareceu que faltava alguma verdade na história. Ontem, Roberto Carlos deu tintas mais realistas ao episódio. Sincerão, o lateral esquerdo dos galácticos explicou que o técnico caiu mesmo porque cortou o vinho e a cervejinha da rapaziada.

Zidane, Beckham, Figo, Ronaldo Fenômeno, Casillas e outras cobras criadas estavam habituados a uma sessão de relaxamento etílico de 20 minutos na concentração. Roberto Carlos ainda avisou o treinador para não mexer nas bebidas, mas Luxa resolveu impor lei seca.

Conta que Vicente Del Bosque, ao contrário, liberava geral e sempre colocava o treino à tarde. “Não colocava nunca às 11 da manhã porque sabia que quase ninguém chegava”. O próprio RC admite que a história não é lá muito edificante, mas arremata com um conselho irretorquível: “Não façam o que fizemos, mas ganhem o que ganhamos”.

Técnico vira o grande ídolo da Fiel Bicolor

Uma vitória no Re-Pa é algo às vezes mais relevante e duradouro que um título de campeonato. Hélio dos Anjos é prova viva desse fenômeno. De uma hora para outra, ele se transformou no grande ídolo da torcida do Papão depois da série invicta de quatro jogos sobre o maior rival.

É para nas ruas para autografar camisas, tira selfies com a torcida no aeroporto e distribui sorriso até para manequim de loja. Uma simpatia só.

Caso se candidatasse hoje, teria boas chances de se eleger a alguma coisa. Nos últimos dias, passeou pela Basílica e já deu até uns volteios no Ver-o-Peso para êxtase dos feirantes bicolores.

E não ganhou rigorosamente nada até agora. Imagine se fechar o ano conquistando a Copa Verde.

(Coluna publicada no Bola desta quinta-feira, 10)

Eudes na mira das cornetas

POR GERSON NOGUEIRA

Da surpresa inicial com o anúncio de um nome desconhecido, que nem técnico era ainda, o torcedor do Remo passou a uma clara desconfiança em relação a Eudes Pedro, o profissional escolhido pela diretoria para comandar o processo de reconstrução do time após a eliminação na Série C.

Auxiliar técnico de Cuca, embora pouco conhecido entre os integrantes da equipe pessoal do ex-técnico do São Paulo, Eudes chegou cercado da pior credencial que um treinador pode ter ao se apresentar para dirigir um time popular, dono de torcida exigente: a condição de iniciante.

Foi chamado de estagiário e aprendiz inúmeras vezes. Em meio a isso, teve pela frente o desafio extra de se impor junto aos jogadores do elenco, alguns com muito maior experiência profissional que ele.

Nada, porém, mais difícil do que conquistar o coração da torcida ainda frustrada com a desclassificação na Terceira Divisão, tendo o sonho de brigar pelo acesso interrompido pelo maior rival no jogo decisivo – mesmo que, verdade, o Remo tenha perdido a vaga para o Ypiranga, que obteve surpreendente vitória sobre o Juventude nos instantes finais.

Na Copa Verde, superou o baixo astral que assolava o time na primeira fase da competição e teve seu melhor momento na goleada aplicada sobre o Atlético-AC, no estádio Evandro Almeida, melhor apresentação do time na temporada.

Mas, como havia ocorrido com Márcio Fernandes, Eudes não conseguiu fazer a leitura correta do que é o Re-Pa. Em relação ao antecessor, ele tem em seu favor o fato de ser um novato e não conhecer as entranhas do futebol paraense.

Ambos foram colocados no bolso por Hélio dos Anjos, comandante do PSC e com experiência suficiente para saber que o clássico-rei da Amazônia não é para amadores e não pode ser olhado como um jogo qualquer. Hélio respeitou a história do jogo, por isso levou a melhor nos quatro confrontos que teve na temporada – 2 na Série C e 2 na CV.

A derrota de domingo recolocou o nome de Eudes na marca do pênalti. Irritada com outro revés frente ao maior rival, a torcida exige mudanças drásticas, a começar pelo comando técnico. Cobra dispensa de jogadores e exige reforços, como sempre.

Apesar da pressão das arquibancadas, é pouco provável que Eudes seja afastado agora, pois a diretoria ainda aposta nele para montar o time para o Parazão. No entanto, a decepção do torcedor azulino com o desfecho da temporada pode forçar uma mudança de rumos.

O clube obteve conquistas importantes em 2019. Ganhou o bicampeonato estadual e se manteve na Série C com campanha de razoável para boa – ficou a um ponto da classificação à 2ª fase. Fora de campo, a diretoria marcou um golaço ao entregar o estádio Baenão revitalizado.

Tudo isso está na memória do torcedor, mas a lembrança que fica é sempre a mais recente: a terceira eliminação consecutiva na Copa Verde, desta vez pelas mãos do PSC. E as mudanças no time antes e durante o jogo deixaram uma impressão negativa sobre o trabalho do treinador.

De certo modo, confirma-se aqui a máxima de que o campeonato mais importante ainda é o Re-Pa, pois dele pode resultar alegria e desconsolo.

Mesmo sem competições a disputar até o Campeonato Paraense, o Remo continuará a ser agitado pelos corneteiros, que exigem sangue e cabeças. Eudes, por conta disso, corre riscos mesmo sem bola rolando.

Estilo minimalista confere pontos a Geovani

Reserva de Mota durante grande parte da Série C, o goleiro Geovani aproveitou muito bem as oportunidades surgidas na Copa Verde. Bem recomendado pela passagem no Atlético-MG, ele foi regular nos jogos iniciais contra o Manaus-AM e brilhou na disputa com o Bragantino, quando foi o herói da classificação agarrando três penalidades.

Nos clássicos da semifinal, demonstrou segurança, tranquilidade e uma virtude que é sempre apreciada nos goleiros: a contenção dos gestos. No jargão das arquibancadas, não é um goleiro dado a presepadas, fazendo o perfil minimalista.

Teve até um rasgo de ousadia no primeiro Re-Pa, saindo perigosamente com a bola dominada, mas deve ter sido orientado a evitar tais arroubos. No clássico de domingo, esteve quase impecável e ainda teve sorte no lance em que a bola passou por ele e por toda a zaga no final do 1º tempo.

Na disputa direta com Mota, titular durante toda a Série C, Geovani vem ganhando preciosos pontos pela performance na CV. Terá, ainda, as finais em novembro para consolidar prestígio e transformar a oportunidade do rodízio em titularidade.   

Na era sombria da intolerância a qualquer preço

Um dos filhos do técnico Marcão, do Fluminense, foi importunado e chegou a ser agarrado pelo pescoço por integrantes de uma torcida organizada do Botafogo, domingo, após o jogo no estádio Nilton Santos, no Rio. O filho e o sobrinho de Marcão estavam com a esposa do técnico quando foram abordados.

O incidente não teve maiores consequências porque outros torcedores intercederam, mas é sintomático da violência gratuita que tomou conta do ambiente o futebol no Brasil. O simples fato de andar com a camisa de outro clube aciona o gatilho da intolerância estúpida e selvagem.

Não é um ato exclusivo da torcida botafoguense, mas é lamentável que o clube que já foi um dos mais pacíficos do país tenha também sua cota de brucutus. Definitivamente, este não é o Botafogo que eu conheço.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 08)

Cirúrgico, Papão mata nos acréscimos

POR GERSON NOGUEIRA

Fiel às melhores tradições do clássico centenário, o PSC usou os acréscimos para vencer o Remo e garantir vaga na final da Copa Verde. A vitória veio em ações consistentes, produzidas por um time mais inteiro fisicamente e melhor organizado. Méritos também do atacante Nicolas, incansável dentro da área e participando diretamente de dois gols.

Nos primeiros 45 minutos, apesar de o Remo ter tomado a iniciativa e exibisse uma distribuição inteligente na meia-cancha, a melhor chance de gol pertenceu ao time bicolor, num lance que teve participação de Vinícius Leite, Nicolas e Hygor, com a bola batendo duas vezes na trave remista.

As dificuldades exibidas por Tomas Bastos na volta ao time, errando passes além da conta, fizeram Hélio dos Anjos optar por Tiago Primão aos 25 minutos de jogo. A mexida ajudou o Papão a equilibrar as ações.

Depois de ver o rival se movimentar melhor no começo do jogo, com a participação dos armadores Eduardo Ramo e Zotti, o PSC voltou mais armado na defesa, aumentando o combate no meio e disposto a explorar melhor a velocidade de Bruno Collaço pela esquerda.

Além disso, Hélio mexeu bem no meio, trocando Wellington Reis por Léo Baiano. Teve sorte, como costumam ter todos os vitoriosos, aproveitando bola alta na área do Remo após erro de Zotti em troca de passes na intermediária. O cruzamento foi desviado por Nicolas para a pequena área deixando Hygor em condições de bater e marcar, aos 13 minutos.

O Remo se perturbou – e seu técnico também. Eudes Pedro, cujo esquema inicial havia se mostrado bem ajustado, decidiu embaralhar as cartas e trocou, de uma só tacada, os dois meias. Zotti e Ramos saíram para a entrada de Djalma e Wesley.  

Com Djalma avançado, o Remo adquiriu força e ímpeto para ir à frente, mas continuou com problemas na saída de bola, até porque as jogadas passaram a ser iniciadas com os zagueiros e volantes. Wesley também deu oxigênio ao ataque, participando da manobra que levou ao empate.

O problema é que os volantes Yuri e Ramires ficaram sobrecarregados. Para piorar, Cesinha não participava do esforço pelo lado direito e Ronaell fazia uma de suas piores partidas.

No Papão, com a entrada de Léo Baiano, a armação ficou sólida e passou a ganhar todos os rebotes defensivos. Nicolas voltou a ocupar mais a faixa esquerda para abrir ainda mais a marcação.

Com mais compactação, os bicolores envolviam o novo meio-campo do adversário com trocas rápidas de passes, invertendo a situação do início do confronto. Mas, numa vacilação de Uchoa, que tentou driblar dentro da área, a bola foi e voltou até cair nos pés de Neto Baiano, que chutou para as redes, aos 37’. O gol levantou a galera e entusiasmou o Leão, que, por cinco minutos, insistiu com jogadas rasantes na área.

Depois que o Remo diminuiu a pressão, o cenário indicava que o clássico terminaria novamente empatado, caminhando para a decisão em cobranças de penalidades. Ocorre que o PSC, mais focado, mostrou-se pronto a aproveitar as brechas permitidas pelo rival.

No primeiro lance, houve uma saída errada de Ronaell permitindo que o PSC trocasse passes e a bola chegasse a Bruno Collaço. Ele cruzou na cabeça de Nicolas, que desviou no canto direito e no contrapé de Vinícius.  Detalhe: Nicolas subiu livre, acompanhado apenas por Ronaell e longe dos zagueiros mais altos do Remo, aos 45’.

Dois minutos depois, com a zaga remista aberta, Vinícius deu o passe que deixou Léo Baiano livre para romper a linha final de marcação e tocar na saída do goleiro azulino, fazendo 3 a 1 e liquidando a fatura.

Além de assegurar presença pela quinta vez na final no torneio regional, o escore de ontem coloca o Papão em 1º lugar na artilharia acumulada do clássico centenário pela primeira vez em mais de 40 anos. (Fotos: Jorge Luiz/Ascom PSC; Samara Miranda/Ascom Remo)

Hélio fecha ano com vantagem absoluta nos clássicos

Ao final da partida, Hélio dos Anjos disse que a vitória foi conquistada com emoção, cabeça fria e coração quente. Dado a rompantes poéticos – quando não encara perguntas incômodas –, ele resumiu bem o que foi a classificação à final da Copa Verde. Além disso, o PSC ostenta a marca de 21 partidas sem derrota, o que é um irrefutável atestado de maturidade.

Firme na defesa, o PSC teve alguns pecados no desenvolvimento do jogo, mas se estabilizou após a troca de Tomas por Tiago Primão e assumiu o protagonismo na segunda etapa. Só permitiu o empate numa falha individual de Uchoa, que oportunizou a chegada azulina.

Do lado azulino, Eudes pode argumentar que mexeu para tentar mudar a cara do jogo. Quase conseguiu o intento, mas teria feito melhor se mantivesse Ramos (ou Zotti) ao lado de Djalma, a fim de não expor tanto a retaguarda. Pecou também na escolha de Higor Félix, que nada produziu e parecia sem função. Hélio Borges, que havia atuado bem no Re-Pa anterior, seria a opção mais lógica.

O fato é que, pelo menos no universo do clássico, Hélio fecha a temporada em posição de vantagem absoluta. Disputou quatro partidas, venceu duas e empatou duas correndo poucos riscos nos confrontos.

Vale frisar que Hélio iniciou essa saga particular neutralizando os pontos mais positivos do Remo na era Márcio Fernandes: o toque de bola pelo meio como forma de imposição técnica e as jogadas aéreas para os zagueiros Marcão e Fredson. Ao contrário do colega de ofício, entendeu já naquele primeiro embate pela Série C que o jogo era um divisor de águas.

Contra Eudes, teve até mais dificuldades porque o time adversário mudou peças e sistema. Ainda assim, teve serenidade para segurar a pressão inicial ontem e foi pontual no uso de suas principais valências (entrosamento e aplicação tática) para triunfar nos instantes finais.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 07)