![]()
POR GERSON NOGUEIRA
Da surpresa inicial com o anúncio de um nome desconhecido, que nem técnico era ainda, o torcedor do Remo passou a uma clara desconfiança em relação a Eudes Pedro, o profissional escolhido pela diretoria para comandar o processo de reconstrução do time após a eliminação na Série C.
Auxiliar técnico de Cuca, embora pouco conhecido entre os integrantes da equipe pessoal do ex-técnico do São Paulo, Eudes chegou cercado da pior credencial que um treinador pode ter ao se apresentar para dirigir um time popular, dono de torcida exigente: a condição de iniciante.

Foi chamado de estagiário e aprendiz inúmeras vezes. Em meio a isso, teve pela frente o desafio extra de se impor junto aos jogadores do elenco, alguns com muito maior experiência profissional que ele.
Nada, porém, mais difícil do que conquistar o coração da torcida ainda frustrada com a desclassificação na Terceira Divisão, tendo o sonho de brigar pelo acesso interrompido pelo maior rival no jogo decisivo – mesmo que, verdade, o Remo tenha perdido a vaga para o Ypiranga, que obteve surpreendente vitória sobre o Juventude nos instantes finais.
Na Copa Verde, superou o baixo astral que assolava o time na primeira fase da competição e teve seu melhor momento na goleada aplicada sobre o Atlético-AC, no estádio Evandro Almeida, melhor apresentação do time na temporada.
Mas, como havia ocorrido com Márcio Fernandes, Eudes não conseguiu fazer a leitura correta do que é o Re-Pa. Em relação ao antecessor, ele tem em seu favor o fato de ser um novato e não conhecer as entranhas do futebol paraense.
Ambos foram colocados no bolso por Hélio dos Anjos, comandante do PSC e com experiência suficiente para saber que o clássico-rei da Amazônia não é para amadores e não pode ser olhado como um jogo qualquer. Hélio respeitou a história do jogo, por isso levou a melhor nos quatro confrontos que teve na temporada – 2 na Série C e 2 na CV.
A derrota de domingo recolocou o nome de Eudes na marca do pênalti. Irritada com outro revés frente ao maior rival, a torcida exige mudanças drásticas, a começar pelo comando técnico. Cobra dispensa de jogadores e exige reforços, como sempre.
Apesar da pressão das arquibancadas, é pouco provável que Eudes seja afastado agora, pois a diretoria ainda aposta nele para montar o time para o Parazão. No entanto, a decepção do torcedor azulino com o desfecho da temporada pode forçar uma mudança de rumos.
O clube obteve conquistas importantes em 2019. Ganhou o bicampeonato estadual e se manteve na Série C com campanha de razoável para boa – ficou a um ponto da classificação à 2ª fase. Fora de campo, a diretoria marcou um golaço ao entregar o estádio Baenão revitalizado.
Tudo isso está na memória do torcedor, mas a lembrança que fica é sempre a mais recente: a terceira eliminação consecutiva na Copa Verde, desta vez pelas mãos do PSC. E as mudanças no time antes e durante o jogo deixaram uma impressão negativa sobre o trabalho do treinador.
De certo modo, confirma-se aqui a máxima de que o campeonato mais importante ainda é o Re-Pa, pois dele pode resultar alegria e desconsolo.
Mesmo sem competições a disputar até o Campeonato Paraense, o Remo continuará a ser agitado pelos corneteiros, que exigem sangue e cabeças. Eudes, por conta disso, corre riscos mesmo sem bola rolando.
Estilo minimalista confere pontos a Geovani
Reserva de Mota durante grande parte da Série C, o goleiro Geovani aproveitou muito bem as oportunidades surgidas na Copa Verde. Bem recomendado pela passagem no Atlético-MG, ele foi regular nos jogos iniciais contra o Manaus-AM e brilhou na disputa com o Bragantino, quando foi o herói da classificação agarrando três penalidades.
Nos clássicos da semifinal, demonstrou segurança, tranquilidade e uma virtude que é sempre apreciada nos goleiros: a contenção dos gestos. No jargão das arquibancadas, não é um goleiro dado a presepadas, fazendo o perfil minimalista.
Teve até um rasgo de ousadia no primeiro Re-Pa, saindo perigosamente com a bola dominada, mas deve ter sido orientado a evitar tais arroubos. No clássico de domingo, esteve quase impecável e ainda teve sorte no lance em que a bola passou por ele e por toda a zaga no final do 1º tempo.
Na disputa direta com Mota, titular durante toda a Série C, Geovani vem ganhando preciosos pontos pela performance na CV. Terá, ainda, as finais em novembro para consolidar prestígio e transformar a oportunidade do rodízio em titularidade.
Na era sombria da intolerância a qualquer preço
Um dos filhos do técnico Marcão, do Fluminense, foi importunado e chegou a ser agarrado pelo pescoço por integrantes de uma torcida organizada do Botafogo, domingo, após o jogo no estádio Nilton Santos, no Rio. O filho e o sobrinho de Marcão estavam com a esposa do técnico quando foram abordados.
O incidente não teve maiores consequências porque outros torcedores intercederam, mas é sintomático da violência gratuita que tomou conta do ambiente o futebol no Brasil. O simples fato de andar com a camisa de outro clube aciona o gatilho da intolerância estúpida e selvagem.
Não é um ato exclusivo da torcida botafoguense, mas é lamentável que o clube que já foi um dos mais pacíficos do país tenha também sua cota de brucutus. Definitivamente, este não é o Botafogo que eu conheço.
(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 08)
Deixe uma resposta