Muito sufoco, pouca inspiração

POR GERSON NOGUEIRA

Foi sofrido para a torcida (21 mil pessoas) que foi ao Mangueirão. O Remo só achou o gol aos 51 minutos, nos acréscimos. Vinícius fez lançamento para Rafael Jansen na direita do ataque e o lateral iniciou uma rota que parecia errática, mas conseguiu driblar três marcadores e cruzou na área. Wesley recebeu livre e bateu para o gol. A torcida recolheu os apupos que estavam engatilhados e fez a festa pela difícil vitória.  

Curiosamente, os aplausos finais não foram dirigidos a Wesley. O homenageado foi Vinícius, que minutos antes havia defendido a bola do jogo, salvando a lavoura azulina em chute rasteiro de Jefferson Monte Alegre. Os gritos de “Vinícius é paredão” ecoaram pelas arquibancadas do Mangueirão atestando que torcedor sabe como fazer justiça.

O jogo foi tecnicamente ruim. Favorito, o Remo esperava resolver a partida sem maiores problemas. A história foi bem diferente. Os azulinos erraram além da conta, mais que o Tapajós. Abusaram dos carrinhos e chutes tortos. Nenhum dos lados conseguia reter a bola com segurança.

Ainda assim, pelo menos na primeira meia hora, o Tapajós foi melhor no plano de jogo que levou a campo. Encolhido, preocupado mais em se defender, o time santareno chegava perigo quando agredia com Jefferson Monte Alegre, Andrezinho e Arian. Acertou dois chutes perigosos antes que o Remo criasse sua primeira chance, aos 34 minutos, com Gustavo Ermel disparando forte à direita da trave defendida por Jader.

No Remo, a falta de inspiração geral era acentuada pela apatia no meio-campo. Eduardo Ramos, responsável pela articulação, não achava espaço para trocar passes e lançar os companheiros. Sem a capacidade de arrancar na vertical, como fazia no passado, tocava para os lados e recuava para os zagueiros. Isso quando não perdia bolas fáceis.

Seus parceiros de meia cancha, Xaves e Lailson, contribuíam pouco para a dinâmica de jogo. Lukinha voltava para ajudar, mas se perdia na boa marcação do Tapajós, executada principalmente pelo volante Amaral. Apesar de tudo, Lukinha e Ermel eram os mais inquietos pelo lado remista. Geovane ficava isolado na frente, sem ser acionado.

O Remo, mesmo devendo em termos de qualidade, voltou para a etapa final sem mudanças. ER10 continuava sem criar, Geovane nulo na frente e Ermel exagerando nos dribles por falta de ter com quem dialogar. Aos 10 minutos, em lance de escanteio, Vinícius sofreu carga na área e a bola quase entrou. Mimica afastou quase em cima da linha.

Aos 17 minutos, Rafael Jaques finalmente resolveu mexer no time, substituindo Ramos por Wesley. Caio Simões tirou Marcelinho e lançou Igor Gabriel. De início, as mudanças não surtiram efeito. No Remo, o ataque ficou mais povoado com Wesley, mas não havia transição. Lukinha se esforçava, corria muito, mas faltava apuro e intensidade.

Jackson substituiu Geovane e melhorou a movimentação ofensiva. Na base do abafa, o Remo chegava com insistência e, aos 28’, Mimica quase marcou de cabeça. Robinho entrou aos 38’, no lugar de Lukinha, e com ele o ataque ficou mais agudo, com a participação de Jansen e Ermel.

Foi de Ermel a melhor chance antes do gol de Wesley. Aos 40’, ele driblou seu marcador e do bico da grande área mandou um chute alto que quase enganou o goleio Jader.

Aos 48’, Jefferson Monte Alegre recebeu livre na entrada da área, de frente pro crime. Dominou e chutou rasteiro na saída do goleiro Vinícius, que girou rapidamente e conseguiu defender. Foi a chance mais clara de gol até então. O castigo foi cruel com o Tapajós. Três minutos depois surgiu o lance fatal com participação de Vinícius, Jansen e Wesley. O placar magro mostra fielmente a dureza do jogo para os azulinos. (Foto: Samara Miranda/Ascom Remo)

Algumas decepções e quase nenhum destaque

Quem esperava que o modificado time do Remo fosse sufocar o Tapajós acabou se frustrando. Desde o início, o time de Rafael Jaques tropeçava na própria indecisão e não encaixava ataques com a força e a frequência que o jogo exigia. Isso entusiasmou o visitante, que marcava com disposição e exibia mais entendimento entre os setores.

Nesse aspecto, Andrezinho, Jefferson Monte Alegre, Amaral, Arian e Tiago Costa se saíram muito bem, com um posicionamento tático que se refletia positivamente tanto no bloqueio às tentativas do Remo quanto nas ações de contra-ataque. O ritmo diminuiu no segundo tempo em função do desgaste físico natural de início de temporada.

O Remo também sofreu com o cansaço e os efeitos do gramado pesado, mas seus maiores problemas foram mesmo de ordem técnica e de organização. Com um meio-campo confuso, sem liga, o ataque não existiu no primeiro tempo. Os laterais ficavam muito presos ao papel de marcação e não apoiavam com frequência.

No fim das contas, Eduardo Ramos foi o menos produtivo, embora não tenha sido o único a destoar. Ronaell errou muitos passes, Geovane não conseguiu jogar. Lailson, voluntarioso, sofreu com o desentrosamento da meia cancha. Lukinha, rápido e inquieto, precisava de parceria para render mais, mesmo drama vivido por Ermel.

Wesley, Robinho e Jackson entraram no fim, mas deram outra dinâmica ao time. Vinícius, Mimica e Jansen foram os mais regulares da estreia.

Paragominas, Castanhal e Bragantino em alta

O Castanhal de Artur Oliveira e do jovem Dioguinho foi até Cametá encarar o Independente e venceu com autoridade. Chegou a construir um placar folgado (3 a 0), foi superior e relaxou no final, permitindo que o Galo descontasse.

Em Bragança, o time da casa mostrou diante do Águia porque foi o terceiro colocado no campeonato de 2019. Venceu bem e confirmou que é um dos legítimos aspirantes a brigar pelo título.

E, na Arena Verde, aconteceu a primeira grande goleada da competição. O Paragominas de Rogerinho Gameleira não tomou conhecimento do estreante Carajás e seu exótico presidente, metendo 5 a 0. Gols bonitos, bem elaborados. Uma atuação que gera expectativas maiores.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 20)

A triste história de um Macunaíma da política

Por Luis Nassif, no Jornal GGN

A “autocrítica” de Cristovam Buarque, falando em nome de uma suposta esquerda, é uma das peças mais hipócritas de uma crônica política intrinsecamente hipócrita como a brasileira.

Não que as esquerdas não mereçam críticas. Merecem, e pesadamente. Mas autocrítica tem que partir de quem está no mesmo campo. E Cristovam não pertence ao campo da esquerda.

Aliás, não pertence a campo algum. Sua história política é típica do caráter macunaímico do homem público brasileiro, de seguir a onda do momento, sem nenhum compromisso com valores, princípios, coerência.

Sua postura no impeachment foi reveladora.

Em pleno pré-impeachment, o então senador Cristovam Buarque se tornou um visitante habitual de dois ambientes: o Palácio do Planalto, de Dilma Rousseff, e o Palácio do Jaburu, do vice-presidente Michel Temer.

A luta de ambos era por cada voto no Senado sobre o impeachment. Com Dilma, Cristovam negociou várias vezes o cargo de embaixador na Unesco. A proposta era tentadora. Seu vice era o petista Wilmar Lacerda. Sendo indicado embaixador, Wilmar assumiria o cargo.

Fez mais. Em um momento de entusiasmo propôs a Dilma um livro a quatro mãos sobre o golpe do impeachment. Dilma lhe disse que iria pensar. Já desconfiava do jogo duplo de Cristovam.

De fato, no dia 19 de janeiro de 2016 vazou a informação de que ele negociava com Temer a criação de uma Ação da Cidadania pela Educação, que poderia relançá-lo politicamente, em troca de seu voto a favor do impeachment. No dia 6 de maio de 2016 dava entrevista sustentando que não houve golpe, mas apenas esgotamento do modelo PT. Foi além. Sendo alvo de uma enxurrada de protestos, inclusive do exterior, por sua posição a favor do impeachment, acusou Dilma de crime por ter divulgado no exterior que o impeachment era um golpe.

Sustentou que havia, sim, crime de responsabilidade nas pedaladas. Depois, disse estar em dúvidas. Finalmente declarou ter sido convencido pelos indícios.

Não ficou nisso. Votou a favor de todas as reformas que afetavam diretamente direitos sociais e trabalhistas.  Votou a favor da Lei do Teto, da reforma trabalhista. Na reforma trabalhista, não apenas votou a favor, como assinou uma representação contra as senadores Vanessa Graziottin e Gleize Hoffman por quebra de decoro, por terem ocupado a mesa do Senado em protesto.

Seu pior momento foi mais recentemente, quando se pronunciou a favor da revisão das cláusulas pétreas da Constituição – as que garantem os direitos fundamentais – com uma comparação infame: “Perguntas brasileiras: e se nossa primeira Constituição tivesse colocado a propriedade de escravos como cláusula pétrea, por sua importância fundamental na economia da época?”

A melhor resposta veio do advogado negro Silvio de Almeida: “Senador, sinto-me, como negro que sou, profundamente ofendido com sua comparação ridícula, sem sentido e desrespeitosa. O senhor tornou-se um homem triste e vulgar. Que a história trate de colocá-lo em seu devido lugar”.

Em 2016 pretendeu se candidatar a presidente da República pelo PDT. Foi preterido por Ciro Gomes e saiu atirando, acusando o PDT de ter “traído o povo” e aderindo ao PPS de Roberto Freire. Ambos saíram a campo apoiando o governo Temer. Não conseguindo nada de Temer, em junho de 2017 Cristovam mudava de posição novamente. Depois da denúncia do Procurador Geral da República contra Temer, apressou-se a declarar que o impeachment ficou incompleto, porque não incluiu Temer.

Candidato a presidente de si próprio, se definiu como um político que tem “a tradição de não me vender no sentido mercadológico e de não me adaptar ao discurso da moda“. Defendeu o fim do ˆEstado expropriador dos meios de produção”, a reforma trabalhista e sustentou que eles (a esquerda) “não pedirão desculpas quando ficar provado que as reformas trabalhistas vão trazer uma modernização na relação entre o capital e o trabalho”.

Coerente na incoerência

A primeira vez que tratei pessoalmente com Cristovam foi atendendo a um convite de Lula para uma conversa no Instituto Cidadania, lá pelos idos dos anos 90. Montou-se uma mesa tendo, do lado dos jornalistas, Elio Gaspari, Clóvis Rossi e eu. Do lado do Instituto Lula e Cristovam.

Não me lembro dos demais. Cristovam chamou atenção pela absoluta superficialidade de mero repetidor de slogans.

Quando surgiram os programas de qualidade, eleito governador do Distrito Federal, proibiu o emprego da palavra qualidade em qualquer memorando da Secretaria da Saúde, por ser um vocábulo “burguês”.

Depois se fixou na bandeira da defesa da educação – e quem pode ser contra a educação? Como Ministro da Educação foi inócuo, incapaz de levar adiante qualquer política educacional. Ainda não sei os motivos da sua demissão sumária. Se o critério foi o da competência, foi perfeitamente justificável.

Ali começou o aggiornamento. Cristovam mudou de barco. Não foi apenas o desencanto com o PT ou o álibi da corrupção do partido. Fosse apenas isso, abdicaria do partido, não dos princípios políticos que ele, Cristovam, alardeou em toda sua  vida política.

Tornou-se um liberal radical, quando a moda era ser liberal radical. Agora, que o novo discurso é o do combate às desigualdades, vai mudando as declarações. Processo, aliás, que se acentuou graças à selvageria das reformas que ele apoiou intensamente, quando estavam na moda.

Ao lado de Luis Roberto Barroso, Luiz Edson Fachin, Carmen Lúcia e Ayres Brito, Cristovam é o personagem ideal para uma profunda análise sociológica sobre a vocação macunaímica das figuras públicas nacionais.

Livro revela que Bolsonaro quase demitiu Moro

Por Renato Janine Ribeiro

Terminei de ler “Tormenta”, o livro de Thais Oyama sobre Bolsonaro. Tem revelações importantes, quase todas elas já resumidas pela Folha. Só acho que a escolha de seguir uma ordem mais ou menos cronológica fez perder o impacto. Poderia ter separado em capítulos (que é o que o leitor fará mentalmente):

– Toffoli. Por que se tornou aliado preferencial de Bolsonaro? É verdade que torpedeou um golpe de Mourão, que fecharia o Congresso e o STF e tiraria Bolsonaro?
– Mourão. Pensou mesmo nesse golpe ou é conversa de Toffoli?
– Carlos, o filho. Tem mesmo transtornos de humor? Se sim, medica-se? Passou anos, no passado, e semanas, em 2019, sem falar com o pai. O pai se preocupa com ele, diz a autora. Por quê?
– Moro. A autora revela que Bolsonaro quase o demitiu, quando o ex-juiz não apoiou a proteção dada por Toffoli ao filho Flavio. Como ficaram Moro e turma? Dallagnol como se articula com o ministro?
– VazaJato. Podia ser mais comentada, bem como o silêncio da Globo e Estadão sobre ela.
– Guedes. Como uma pessoa assim controversa vira fiador da economia? Podia aprofundar o stress entre ele e a equipe dos grandes economistas tucanos.
– Paranoia. Bolsonaro tem muito medo de ser morto. Nem frequenta o jardim do Alvorada. É uma revelação importante. E também exige devoção canina, sinal de insegurança. Seria esplêndido um capítulo sobre esse tema, inclusive consultando psicólogos, talvez.

O livro vale a pena, mas uma divisão em capítulos temáticos teria dado mais impacto do que a narrativa cronológica.

Leão inicia caminhada em busca do tri estadual

O Remo inicia hoje, às 16h, no estádio Jornalista Edgar Proença, ua campanha em busca do tricampeonato estadual. Enfrenta o Tapajós de Santarém, na abertura do Campeonato Paraense 2020. A partida tem expectativa de público superior a 20 mil pagantes.

O time azulino foi o primeiro a se apresentar e realizou vários testes durante a pré-temporada, sob o comando do técnico Rafael Jaques. Foram dois empates e quatro vitórias de saldo, em três amistosos e três jogos-treino. O Remo marcou 12 gols e sofreu 2.

Com o desfalque de Djalma, que cumpre suspensão automática por ter sido expulso na última partida da Tuna na Segundinha, o Remo deve estrear com a seguinte formação: Vinícius (foto); Rafael Jansen, Fredson, Mimica e Ronaell; Xaves, Lailson, Eduardo Ramos e Lukinha; Gustavo Ermel e Geovane.