Futebol, lenda urbana

POR GERSON NOGUEIRA

Já vai longe o tempo em que o Brasil podia se orgulhar, bater no peito até, que tinha um campeonato nacional repleto de grandes times, capazes de produzir jogos eletrizantes e inesquecíveis. Infelizmente, os últimos anos – décadas talvez – mostram um cenário completamente diferente.

Ao contrário do que dizem os ‘pachequistas’ de sempre, o Brasil não tem um dos campeonatos mais difíceis do mundo. Tem, quase certamente, um dos certames mais difíceis de assistir. É duro parar por duas horas em frente à TV para acompanhar autênticas peladas a cada rodada.

E não há como se queixar do apoio das torcidas. O público até melhorou nos estádios. A média de 2019 é de 21.321 pagantes, com média de ocupação em 47%. Não chega a ser um colosso de popularidade, mas são números razoáveis e até espantosos para o nível das partidas.

Os bons resultados obtidos por times populares como Flamengo, Palmeiras e até o Corinthians, mesmo aos trancos e barrancos, ajudam a explicar o relativo êxito nas bilheterias. O problema é que o torcedor está pagando – muito caro, em média – por um produto que não é entregue nos gramados.

O futebol é paupérrimo, salvo exceções – Flamengo, Santos e Atlético-PR. Os demais 17 clubes praticam o feijão-com-arroz com condimentos variados. Os jogos se transformaram em desfile de chutões, caneladas, cruzamentos no padrão Muricybol, “faltas táticas” e retrancas mal disfarçadas juntam-se às maçantes interrupções causadas pelo VAR.

O Corinthians, citado algumas linhas acima, ostenta números que exemplificam bem a penúria técnica da Série A. Acumula nada menos que 17 vitórias por 1 x 0 desde 2017 até este ano. O recorde resulta do esquema “gol é mero detalhe” de Fábio Carille, o técnico da nova geração mais identificado com a filosofia defensivita de Carlos Alberto Parreira.

O Flamengo, de Jorge Jesus, empregou um bom dinheiro na contratação de boleiros qualificados – Bruno Henrique, Everton Ribeiro, Arrascaeta, Gerson, Rafinha, Filipe Luís e Gabriel – e colhe os frutos dessa estratégia.

Melhor de um campeonato fraco, o Fla busca (e alcança) vitórias jogando o suficiente para atropelar adversários tecnicamente inferiores, medrosos pela própria condição e pouco empenhados em adotar estratégias alternativas.

Na Libertadores, imprevisível pela própria natureza da disputa, o confronto mais aguardado resultou em brutal desperdício de expectativa, anteontem. O Grêmio, acovardado em boa parte do duelo, só resolveu jogar o que pode na 2ª etapa, mas ainda assim sofreu bastante para empatar.

Quando Jorge Jesus concedeu entrevista enaltecendo a Série A brasileira certamente exprimia a velha fidalguia lusitana, sendo gentil na chegada ao país. É improvável que hoje, diante dos arremedos de adversários que topou pelo caminho, ele veja as coisas do mesmo jeito.

Calendário da CBF segue esmagando estaduais

A CBF anunciou ontem o calendário do futebol para 2020, garantindo as 10 datas necessárias para o lucrativo negócio dos amistosos oficializados pela Fifa. Ao mesmo tempo, deu um passo a mais na redução de datas dos campeonatos estaduais (agora com 16). Esse esmagamento não chega a afetar torneios com menor quantidade de clubes como o do Pará, que usa 14 datas – 12 na fase classificatória, 2 na semifinal e 2 na final.

O novo calendário reabre a discussão sobre o futuro dos regionais. O problema vai recair sobre os Estados do Sul e do Sudeste, com necessidade maior de datas para contemplar vários clássicos. A redução de datas expressa a diminuição de importância das batalhas regionais, justamente onde estão as históricas rivalidades que alimentam grandes torcidas.

Ainda levará um tempo até a extinção dos estaduais, mas o ritmo da prosa indica que esse dia está cada vez mais próximo, em função do olho gordo da CBF nas datas que beneficiam suas jogadas mais lucrativas e pela subserviência histórica de suas filiais nos Estados.

A cúpula da CBF sabe que qualquer migalha, como aqueles convites para eventos fúteis, bancados em hotéis luxuosos com as mordomias conhecidas, já garante a anuência da cartolagem pé-de-chumbo, por mais lesivo que um projeto possa ser aos interesses dos clubes filiados.

O próprio exemplo das datas impostas aos clubes paraenses na fase decisiva da Copa Verde atesta o menosprezo com que a entidade olha para federações menos importantes. As datas das finais do torneio – 23 de outubro e 20 de novembro – desafiam a lógica e o bom senso.

Um absurdo que a FPF nem se deu ao trabalho de contestar. O finalista do Norte, que sai neste domingo (6), terá que se submeter ao critério injusto estabelecido pela CBF exclusivamente para não contrariar os interesses de Cuiabá e Goiás, que disputam as Séries B e A, respectivamente.

Em termos financeiros, isso irá custar muito alto ao clube paraense classificado para a decisão, pois terá que prorrogar contratos de vários atletas para manter time completo e competitivo para as finais.

Rony: grande chance e imensa responsabilidade

O lateral-direito Rony é hoje a mais valiosa revelação do Remo na temporada. É o jogador que mais se destacou entre os jovens atletas que compõem o elenco azulino, mostrando segurança e categoria quando foi lançado inicialmente contra o Atlético-AC no Baenão.

Desenvolto e ofensivo, como há muito não se via no clube, Rony impressionou de cara pelo bom passe e a precisão de seus cruzamentos. Tais atributos já lhe permitiram entrar no clássico que abriu a semifinal da Copa Verde e podem garantir a titularidade no próximo domingo.

A responsabilidade é grande, mas Rony encontrou em Eudes Pedro um comandante atento às suas qualidades e consciente dos riscos que uma jovem aposta corre em meio ao fervor de uma rivalidade centenária.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 04)