O esporte não pode se omitir

POR GERSON NOGUEIRA

Consciência política, informação e posicionamento são artigos completamente em desuso no meio futebolístico brasileiro. Refiro-me ao futebol por ser o esporte que movimenta milhões de reais e arrasta multidões em todo o país. Não pode, obviamente, ser ignorado como atividade popular e evento social.

Ainda assim, é nula a participação de jogadores em manifestações políticas engajadas. Não há notícia recente de qualquer posicionamento explícito de jogadores de futebol em meio ao barril de pólvora existente no Brasil, fato amplificado pela pandemia do novo coronavírus e suas duras consequências para a população.

Nenhum atleta de grande clube ousou se posicionar sobre a situação que levou a um total de mais de 29 mil perdas humanas (até ontem) por covid, 514 mil registros de contaminação (até ontem) e a dor das famílias pelos entes queridos sacrificados.

A alienação como postura diante da vida é marca histórica dos desportistas brasileiros, a ponto de a única exceção ao mutismo generalizado ter sido imediatamente rechaçada por outro ex-atleta e hoje comentarista. Caio Ribeiro teve a pachorra de patrulhar as críticas de Raí aos atos do governo federal em meio à crise da covid. Cabe ressaltar que Caio, como atleta, não chegava ao nível da trava das chuteiras de Raí.

O ex-craque e atual diretor do S. Paulo, como se sabe, é irmão de Sócrates, o mais politizado dos boleiros brasileiros em todos os tempos. Articulado, como havia sido o botafoguense Afonsinho, outro pioneiro, Doutor levou a cabo suas ideias e liderou um movimento ímpar, denominado Democracia Corintiana, ao lado de corajosos companheiros, como Casagrande e Wladimir, mas sem qualquer solidariedade de jogadores de outros clubes.

A Democracia Corintiana foi repudiada pelos outros clubes e até por jornalistas esportivos, incomodados com aquela rebeldia toda. Imagine só jogador dando pitacos sobre democracia… A arrogância elitista dos que não são originariamente “da elite”, mas aspiram vir a ser, é um dos traços inalienáveis da sociedade brasileira. O futebol não fica imune a isso.

Nos últimos tempos, além de Raí, apenas Juninho Pernambucano ousou desafiar o coro dos contentes. Viu, em consequência disso, seu espaço diminuir na área do jornalismo esportivo. Saiu do país para voltar a trabalhar no Lyon (França), onde brilhou como jogador.

Ontem, torcidas organizadas promoveram atos antifascistas e contra o racismo. Em S. Paulo, a Gaviões da Fiel ganhou aliados entre torcedores palmeirenses, santistas e são-paulinos. No Rio, a Democracia Rubro-Negra foi à rua contra racismo e intolerância. Uniram-se aos protestos que eclodiram nos EUA pelo assassinato do negro George Floyd, morto por um policial em Minneapolis.

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Na Europa, goleadores da Bundesliga, como Achraf (Borussia Dortmund, na foto) e Thuram (Borussia Mönchengladbach), se posicionaram em memória de Floyd. Neymar, negro como Floyd, não deu um pio até agora. Por sorte, o atacante Vinícius Junior, jovem revelado nas bases do Flamengo e jogador do Real Madrid, rompeu o silêncio.

Ele usou as redes sociais para apoiar as manifestações antirracistas. “Vidas negras importam”, escreveu Vinícius em seu perfil no Twitter. A postagem trouxe uma imagem que divide Floyd e João Pedro, o adolescente de 14 anos baleado em casa, no Rio.

É importante que as torcidas ganhem o apoio dos jogadores, artistas do espetáculo, até para que seus brados não sejam repelidos com a brutalidade vista ontem, em contraste com os afagos das forças policiais paulistas a manifestantes pró-governo.

Na esteira do engajamento de torcidas do Rio e S. Paulo, começam a surgir grupos antifascistas nas torcidas de Remo e PSC, para lutar contra o preconceito, a discriminação e o ódio. Atuavam separadamente, mas a inspiração e os objetivos levaram a uma aproximação natural. É um caminho. O futebol, mesmo que através de suas torcidas, tem o direito de se manifestar em momento tão grave da vida brasileira.

Com 16 contaminados, Vasco insiste em voltar a jogar

A pressa vascaína em retomar o Campeonato Carioca conflita com a realidade. O jornal O Globo informou ontem que 16 jogadores atestaram positivo para covid-19 no elenco do Vasco. Ao lado da diretoria do Flamengo, a presidência cruzmaltina é a mais engajada do país na campanha para que os campeonatos sejam reiniciados de imediato.

O Ministério Público do Rio de Janeiro desaconselha a retomada do campeonato estadual, opondo-se à federação de futebol e a vários clubes, encabeçados por Vasco e Flamengo. Há a preocupação com a possibilidade de contágio entre os jogadores, levando em conta o estágio da doença no Rio, o segundo Estado mais impactado pelo novo coronavírus.

Conselheiros rubro-negros já se manifestam contra a volta aos gramados. Denominado “Flamengo da Gente”, o grupo estimulou dezenas de sócios a enviarem aos órgãos competentes do clube pedido de esclarecimentos sobre o esforço pela retomada do futebol liderado pelo Flamengo.

Flu contrata Fred sonhando com as glórias do passado

Para alegria do veterano atacante, o Fluminense anuncia ter firmado acordo com Fred, antigo ídolo do clube, para voltar ao time. O contrato é válido por dois anos e os valores negociados não foram divulgados. No Cruzeiro, seu último clube, o centroavante ganhava em torno de R$ 1 milhão para jogar raras vezes e marcar pouquíssimos gols.

É improvável que chegue às Laranjeiras ganhando o mesmo salário, embora seja quase certo também que fará ainda menos gols do que no Cruzeiro. Fred tem 36 anos e carrega histórico de lesões que torna incerta a sua utilidade para o Flu ao longo de duas temporadas. A conferir.  

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 01)

Rock na madrugada – Beatles, Fixing A Hole

O icônico álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” foi lançado há 53 anos pelos Beatles. Foi o oitavo disco de estúdio, produzido pelo maestro George Martin e com concepção de Paul McCartney. É um dos discos mais influentes da história do rock e da música pop. O modelo conceitual até hoje é uma referência. Sargent Pepper’s também ficou célebre pela excepcional qualidade de som, revolucionário para a época.

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STF e TSE terão que acelerar a cassação de Bolsonaro

Por Luis Nassif

Premissa 1 – Bolsonaro não vai parar até dar o golpe ou ser deposto.

Premissa 2 – a cada dia que passar, sem reação, as milícias bolsonarianas se tornarão mais atrevidas. Ontem e hoje as manifestações em frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) foram de ameaças explícitas aos ministros, especialmente a Alexandre de Moraes. Ou seja, o inquérito para coibir os abusos digitais está sendo enfrentado com ampliação da violência presencial. No limite, haverá atentados por parte de grupos paramilitares. Há pelo menos três manifestações nesse sentido, o grupo de Sara Winter, os neonazistas reunidos ontem na Paulista e associações de defensores de armas.

Premissa 3 – até por efeito demonstração dos Estados Unidos, se ampliarão as manifestações anti-Bolsonaro. Por isso, aumentam as possibilidades de grandes conflitos de rua, com envolvimento cada vez maior dos batalhões de choque das Polícias Militares, criando uma simbiose preocupante com os movimentos de ultradireita.

Hoje foi o ensaio do que virá pela frente. Bolsonaro comparecendo às manifestações, o Terça Livre dobrando a aposta contra o Supremo, Sara Winter juntando milicianos na frente da corte.

Por tudo isso, o STF e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) terão que rever sua agenda. A demora em decidir sobre os destinos de Bolsonaro servirá para alimentar ainda mais a serpente da guerra civil.

A próxima semana mostrará essa mudança no ritmo dos trabalhos.

O dia do levante contra o fascismo em S. Paulo

Neste domingo (31), em São Paulo e em outras capitais, os bolsonaristas, intervencionistas, militaristas, ultranacionalistas e olavistas encontraram um contraponto para sua sandice. Na avenida Paulista, para onde tem se dirigido algumas centenas de bolsonaristas todos os domingos, contrariando as recomendações sanitárias e de isolamento em tempos de pandemia, um outro grupo se fez presente: os dos que se levantam contra pleitos antidemocráticos e contra o autoritarismo.

A Polícia Militar de São Paulo mostrou de que lado está – o que de resto não pode ser surpresa para ninguém -, atirando bombas nos antifascistas e deixando livres aqueles que carregavam bandeiras ultranacionalistas e pediam o fechamento do Congresso Nacional.

De qualquer maneira, a mensagem ficou clara. Há, no Brasil, com pandemia ou sem ela, quem se levante contra os que investem contra a democracia. Veja, abaixo, imagens deste domingo na avenida Paulista, da fotógrafa Thais Haliski.