Escaramuças e trapaças

Por Gerson Nogueira

Não é segredo que o futebol paraense não anda bem das pernas há anos. Um dos últimos alentos era a celebrada gestão Novos Rumos no PSC. Tudo fazia crer que os caminhos adotados eram alinhados com o que há de mais moderno em gestão esportiva. Não é bem assim, como todos fomos informados nos últimos dias. Uma destemperada troca de golpes na cúpula dirigente bicolor resvalou dos muros da Curuzu para o terreno midiático.

A desavença entre Ulisses Sereni, ex-todo-poderoso presidente da Comissão de Futebol, e o gerente Fernando Leite acabou resultando na renúncia do primeiro e na abertura dos portais de baixaria envolvendo o clube, como não se via desde os broncos tempos de Geraldo Rabelo, Miguel Pinho & Cia.

DESENHOS-03

Em entrevista ao Bola, Sereni não aliviou nas críticas aos que comandam o clube. Expôs cruamente as profundas divisões e incompatibilidades entre os atuais dirigentes do Papão. Até então, as eventuais diferenças pouco vinham à tona. Eram assimiladas e sanadas internamente. O episódio do rompimento oficial do ex-presidente Alberto Maia, no final de agosto, serviu como primeiro sinal de racha no grupo.

Desta vez, a crise parece mais séria, pois envolve um dos mais destacados membros da Novos Rumos, responsável direto pelo lançamento da marca própria (Lobo), junto com Maia. Sereni assumiu o futebol profissional e promoveu uma limpeza no departamento, afastando o técnico Guilherme Alves e o executivo André Mazzuco, acusado de incompetência na contratação de jogadores.

Nas declarações ao repórter Nildo Lima, o ex-diretor citou até as ligações de Mazzuco com o clube, que sobrevivem ao seu afastamento. Segundo Sereni, Fernando Leite repassa informações ao executivo. Disse ter gastado dinheiro do próprio bolso (R$ 100 mil), o que remete às velhas práticas da cartolagem, tão negadas pelo atual grupo.

É impossível, porém, não associar o sincericídio praticado por Sereni ao momento dramático do Papão na Série B. A má campanha nos gramados acirra as diferenças nos gabinetes. É assim e sempre será, no PSC ou em qualquer outro clube de futebol. A lamentar que a ilusão de que novas práticas eram adotadas não resista aos maus passos em campo.

O Remo não fica atrás…

A eleição que se aproxima já sinaliza para as conhecidas escaramuças. A chapa encabeçada pelo eterno presidente Manoel Ribeiro, tendo o comandante da PM Hilton Benigno como vice, periga ser impugnada por denúncias bem fundamentadas.

Manoel é acusado de irregularidades referentes à sua passagem pelo Dnit, em 2013, o que o impediria de tentar a reeleição, segundo os estatutos do clube. Já o vice tem sua candidatura embaçada pelo fato de haver sido expulso do Conselho Deliberativo.

A chapa esgrime uma cláusula nos estatutos que assegura a prescrição das duas denúncias. Conselheiros e juristas do próprio Remo desmentem essa interpretação, que estaria sendo brandida por aliados do atual presidente.

O fato é que até o assalto de R$ 400 mil aos cofres azulinos, durante administração de Ribeiro, tem sido lembrado como fator impeditivo – por má gestão financeira – às pretensões do longevo cartola.

De concreto, a certeza de que o Remo marchará outra vez dividido e desunido para um novo processo eleitoral. Por ironia, seu mais experiente dirigente, que deveria assumir o papel de mediador, dispõe-se a abraçar duelos encarniçados em nome de um projeto de continuísmo.

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Das teorizações de Tite à sinceridade de Neymar

Neymar, exibindo a proverbial vocação para entrevistas inúteis e insossas, foi o eleito de ontem na Seleção para falar do amistoso com a Argentina, caça-dólar promovido pela CBF e justificado pelo técnico Tite com todas aquelas lorotas que já nos acostumamos a ouvir. Alguns até acreditam nas boas intenções. Eu, por dever de ofício, duvido cada vez mais.

O camisa 10 do escrete fez questão de comemorar a ausência de Messi no jogo. Gesto sincero, pois La Pulga certamente criaria sérios problemas para a titubeante linha de zaga nacional. Neymar citou apenas sobre o ex-companheiro de Barcelona, mas a Argentina está bastante desfalcada. Aguero, Di María e Higuaín também não estarão em campo.

Por tudo isso, espera-se um amistoso menos sonolento por parte da seleção de Tite, cada vez menos convincente em suas teorizações lazarônicas, que só encantam ainda alguns poucos devotos da crônica paulistana.

De minha parte, irei dedicar alguns minutos a ver a movimentação inicial. Caso a coisa lembre um jogo realmente competitivo, avaliarei a decisão de ficar plantado por 90 minutos em frente à tevê.

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Adeus ao poeta e velho comunista

A coluna é dedicada ao amigo Carlos Queiroz, um velho comunista que nos deixou neste fim de semana, legando saudades e muitas histórias saborosas. O “Matador” rabugento, cheio de chistes, convivia com o poeta das madrugadas na redação do Diário. Convivemos durante mais de duas décadas. Saudades do texto afiado e das conversas futebolísticas. Queiroz era remista e flamenguista, bandeiras pelas quais sorria e chorava.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 16)

Congresso Internacional do Medo

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Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade

Haddad: “Temos 14 dias de trabalho pelo bem do Brasil”

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Por Flávia Marreiro e Talita Bedinelli, no El País

Fernando Haddad (São Paulo, 1963) chega à sala aparentando imensa exaustão. Senta em uma cadeira, de costas para uma janela enorme com vistas para um sobrado que, na fachada, exibe uma bandeira do Brasil desbotada e um cartaz que exalta seu oponente, Jair Bolsonaro. No local onde recebeu o EL PAÍS para uma entrevista, na tarde deste sábado, agora funciona seu sóbrio comitê de campanha, que não tem qualquer menção ao candidato petista do lado de fora. Antes, o prédio era parte da sede do Instituto Lula, de quem ainda se guarda um grande retrato em uma das paredes. Ao lado da foto, um cartaz anuncia a senha do Wi-Fi para os visitantes: #foratemer.

É daquele sobrado de dois andares no Ipiranga, um bairro de classe média paulistana, que o PT enfrenta sua mais difícil missão dos últimos 13 anos: tentar reverter nas próximas duas semanas a vantagem do candidato de extrema direita, que marcou na última pesquisa 58% dos votos válidos, contra os 42% de Haddad. O oponente, entretanto, é difícil. E lança mão de uma sólida campanha de WhatsApp baseada, muitas vezes, em notícias falsas. “Eu recebo cada coisa a meu respeito que quase desisto de votar em mim. É muita mentira, nossa senhora”, brinca o candidato petista. “Mas dele [Bolsonaro] não esperava outra coisa. Ele é o cara mais baixo que eu conheci na vida pública. Não é nem do baixo clero do Congresso, é do porão.”. O EL PAÍS também vem pedido uma entrevista para o candidato do PSL, mas ainda não obteve resposta de sua campanha.

Pergunta. Como avalia o crescimento de Bolsonaro, um candidato de extrema direita, no Brasil?

Resposta. Estamos vivendo a crise do neoliberalismo. Eu escrevi um texto no final dos anos 1990, auge do neoliberalismo, em que eu dizia que quando viesse a crise, que seria financeira, o mundo se dividiria, mas buscando soluções conservadoras. Quando viesse a crise financeira, o mundo desenvolvido protegeria sua riqueza e deixaria a periferia à deriva e à base da violência. Estamos vivendo esse momento, de desagregação pelo fim do neoliberalismo. A crise eclodiu em 2008 e seus efeitos estão sendo processados. O Brexit tem a ver com isso, o [Donald] Trump tem a ver com isso, assim como o fenômeno Bolsonaro. Só que é neonazismo lá e neofascismo aqui.

P. Há a percepção fora do país, e alguns intelectuais se manifestaram neste sentido, de que há um risco à democracia brasileira. Você concorda?

R. O Bolsonaro tem a vantagem de que ao longo de 28 anos como deputado não mentiu. Ele está mentindo agora. [Antes] ele falou que fecharia o Congresso se fosse presidente, que não precisaria impedir os filhos de casarem com uma afrodescendente porque ele os educou bem e o filho não se misturaria, que pessoas LGBT são desprezíveis e precisam ser jogadas no lixo. Ele nunca escondeu suas próprias opiniões. Agora, na campanha, ele está calibrando um pouco, mas ele é isso.

P. Mas isso significa que há risco para a democracia brasileira, na sua opinião?

R. Eu acredito que há.

P. E qual seria esse risco? De golpe militar?

R. Olha, as instituições não estão bem há cinco anos, pelo menos. Já não estão sólidas. E com uma figura como ele à frente do Executivo, tudo pode acontecer. Inclusive ele ser expelido do sistema. Nada disso está excluído.

P. Mas essa percepção, ainda que pareça mais consolidada no exterior, não parece ser a que há dentro do país. O próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não parece tão peremptório quanto você está sendo agora. Falou “Bolsonaro, não”, mas não apoiou você. Por que acha que essa percepção aqui é diferente?

R. Quem está fora às vezes vê com mais clareza do que quem está dentro. Quem está dentro às vezes está pensando com o fígado e não com a cabeça e com o coração, que é o que devia pautar as eleições. Mas me estranha que pessoas que lutaram pela redemocratização fiquem neutras diante de uma pessoa que manifestadamente apoia a ditadura e a tortura. Uma pessoa que fala que não estupra uma colega porque ela não merece. O que isso simboliza? Que tem mulheres que merecem ser estupradas? Qual o sentido dessas expressões? É muito complicado o que está acontecendo no Brasil, mas o risco é evidente.

P. Você já falou que a sua candidatura não é uma candidatura do PT, e sim, pela democracia. Isso envolveria trazer outras forças políticas para dentro desta candidatura. Fez algum esforço para ter o apoio do Fernando Henrique, ligou para ele? Ligou para o Ciro Gomes, que viajou para a Europa após as eleições?

R. Essa semana eu me dediquei a compor a unidade do campo a que eu pertenço, que é o campo progressista: PDT, PSB, PSOL, centrais sindicais, líderes progressistas, movimentos da sociedade civil. Eu me importei menos neste momento com partidos políticos, sobretudo os de centro-direita. Inclusive esperando um posicionamento deles para saber qual é a expectativa que eles têm, mas a centro-direita preferiu ficar neutra.

P. E qual a expectativa deles? Isso chegou a você?

R. A declaração dele [Fernando Henrique] foi muito rápida no sentido de neutralidade, de que nenhum dos dois lados [da disputa presidencial] interessa. Não foi de que havia um risco ao país.

P. A mensagem que o bolsonarismo passa é a do medo do PT voltar ao poder, citando escândalos de corrupção e a crise econômica. Que parcela de culpa o PT tem na construção dessa mensagem, do anti-petismo?

R. Eu respondo por mim, neste caso. Em várias ocasiões eu falei de erros na política econômica no primeiro mandato da Dilma, por exemplo, das desonerações, do combate à inflação pela administração de preços públicos. Fiz menção a isso, mas não deixei de reconhecer que depois da sua reeleição, o seu Governo passou a ser sabotado. O que foi reconhecido por um ex-presidente do PSDB em entrevista pública [Tasso Jereissati afirmou ao Estado de S. Paulo que seu partido errou ao questionar o resultado eleitoral após a vitória de Dilma e ao votar contra princípios básicos do PSDB na economia “só para ser contra o PT”]. Ele disse que o PSDB passou a sabotar o Governo Dilma com vistas à sua substituição pelo Temer com uma agenda própria, que deu no que deu, no desmanche da economia nacional. Também deveríamos ter feito a reforma política em 2003, para evitar essas frestas que foram usadas por indivíduos para se locupletar. Não é o partido, são pessoas, que usaram para enriquecer aqui e ali. E de todos os partidos, porque essas frestas valiam para todos os partidos. Hoje a gente sabe que era muito mais sistêmico do que parecia.

P. Mas e a cota de responsabilidade do PT?

R. Estou dizendo: houve falha de condução da política econômica no final do primeiro mandato da Dilma seguido de sabotagem da oposição, do Eduardo Cunha e do Aécio Neves. Temos uma cota. Na reforma política, devíamos ter feito em 2003, para fechar as frestas que os indivíduos usam para financiar suas próprias campanhas e até de enriquecer, como aconteceu em alguns casos. Agora, o que eu defendo? Continuar fortalecendo os órgãos de combate à corrupção, porque foi isso que eu fiz no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo.

P. Faltou o PT pedir desculpa em relação ao envolvimento de seus membros com a corrupção?

R. Quem se locupletou está pagando. E está pagando por uma legislação que nós aprovamos. Por um fortalecimento das instituições que nós promovemos. Eu sempre gosto de olhar o todo porque senão as pessoas vão imaginar que hoje, por exemplo, não existe corrupção no Brasil. E não é verdade. Se você conversar em off com um empresário honesto ele vai dizer: tem mais corrupção hoje no Brasil do que dez anos atrás.

P. Se você chegar à presidência vai haver um indulto para o ex-presidente Lula?

R. O caso Lula é um caso específico, que até o [Comitê de Direitos Humanos da] ONU já se manifestou. Se você consultar vários juristas, criminalistas, você vai verificar que a maioria vê uma fragilidade enorme nesse processo… Mas eu confio nos recursos. Tem dois tramitando, um para o STF e um para o STJ. E eu confio que as cortes superiores, sobretudo depois da eleição, vão ter a serenidade de avaliar o processo com mais isenção, pelo menos.

P. Ou seja, você descarta o indulto?

R. Ele não pede. É engraçado vocês me pedirem para me posicionar sobre algo que o presidente não está pedindo. Ele está pedindo um julgamento justo.

P. E qual o papel dele em um eventual Governo seu?

R. O presidente Lula, na minha opinião, foi o maior presidente da história do país. Neste sentido, a opinião dele importa pra mim. Como importa a opinião de outras figuras ilustres da República. Esses dias fui encontrar o [o ex-ministro do Supremo] Joaquim Barbosa [que condenou o PT no caso Mensalão], para perguntar para ele se o nosso plano de Governo poderia ser aperfeiçoado na questão de combate à corrupção. Ele tem 40 anos de serviço público nesta área, como promotor, procurador e ministro do Supremo. Talvez muita gente tenha ficado chateada que eu fui ouvi-lo. Mas eu fui pelo que reconheço nele. Isso significa que ele acertou em tudo na vida? Não. Significa que ele é uma figura importante, que ele pode ajudar o Brasil na próxima etapa. Eu considero ele um patriota, uma pessoa que quer o bem do país. Independentemente de uma opinião dele ser divergente da minha, eu reconheço nele uma autoridade na questão.

Qual o problema de consultar pessoas que têm experiência? Eu nunca vou negar o meu vínculo com o presidente Lula. Eu estou nessa eleição a convite dele. Não vou ficar iludindo o eleitor de que eu não tenho vínculo com o Lula. Eu tenho. Fui ministro dele. Vou ouvi-lo quando eu achar conveniente. É assim que se constrói um Governo: ouvindo. E ele é um interlocutor.

P. Mas neste momento da campanha vocês mudaram o slogan “Haddad é Lula”, o logo deixou de ser vermelho para ser verde e amarelo. Por que tomaram essa decisão?

R. No segundo turno tem que ampliar. Não tem como ganhar a eleição. Hoje o Congresso Nacional está ainda mais fragmentado. Como alguém vai dizer que vai fazer um Governo de um só partido com um país totalmente fragmentado como o Brasil hoje? Tem que apelar para questões gerais ou as pessoas não vão se unir em torno de um projeto.

P. Nesta semana se noticiou a morte de um vereador opositor do Governo Maduro em uma delegacia e o Governo venezuelano disse que foi suicídio. Há muitas evidências de problemas graves no regime da Venezuela e também na Nicarágua. A propaganda de Bolsonaro liga o PT a Maduro…

R. Isso é uma fantasia. O PT governou 13 anos este país, expandindo liberdades. Olha só, estou concorrendo com um cara que não só apoiou a ditadura como o estupro na ditadura. E sou eu que estou tendo que responder, com uma vida inteira dedicada à democracia?

P. Estamos perguntando sobre a posição do PT em relação à Venezuela.

R. Qual o sentido disso? Estou concorrendo possivelmente com o maior carrasco que esse país já teve. Ele verbaliza isso com a maior naturalidade e a imprensa agora naturalizou o Bolsonaro. É “Bolsonaro paz e amor”. O que está se passando na cabeça das pessoas? Com 26 anos, em 1989, lancei meu primeiro livro, que é uma crítica da primeira à última página aos regimes autoritários de esquerda. Faz quase 30 anos, não é de agora que eu resolvi assinar manifesto pela democracia. Bolsonaro é o contrário. Desde que ele se conhece por gente, defende a ditadura. Aí cria o fantasma Venezuela para virar o sinal do jogo. Eu não tenho compromisso com nenhum regime autoritário.

Agora, não vou declarar guerra à vizinho. Não vou permitir a instalação de base militar americana aqui. Os EUA estão pouco se lixando para a democracia no mundo. O foco deles é petróleo. Essa bagunça aqui tem muito a ver com a descoberta do pré-sal. Colocar o Brasil e a Venezuela em oposição, que são os dois países com maiores reservas petrolíferas do subcontinente? Você vai deixar criar conflito armado em dois países que podem se entender? Podemos ajudar a Venezuela a sair dessa confusão. Inclusive, se for necessário repreender, nós temos o Grupo do Mercosul que pode ser usado. Brasil e Argentina têm muito peso no subcontinente. Temos que ajudar a Argentina também, diga-se de passagem. O Brasil é líder. Lula evitou uma intervenção militar americana na Venezuela na época do Chávez. O próprio Fernando Henrique atuou no sentido, com os Amigos da Venezuela, de encontrar caminhos para sair da crise que não é de hoje. Nós temos liderança suficiente para tirar a Venezuela dessa situação econômica e política, mas não é tomando partido lá. Não é ingerindo nos assuntos internos. É partindo de uma perspectiva externa, com o apoio da ONU, da OEA, dos Amigos da Venezuela para organizar uma saída democrática.

P. A minha pergunta vai no sentido de que a sua posição é diferente da do PT.

R. Mas o presidente da República vou ser eu. Não fui escolhido à toa, por sorteio. Fui escolhido por causa do meu perfil. O Brasil está precisando de uma pessoa que converse, que saiba conciliar. Sou seguramente uma das pessoas do país mais bem relacionadas.. Converso na academia com todas as escolas de pensamento, eu sou respeitado pelos meus pares, na classe política eu sou uma pessoa que transita por todos os partidos. Eu tenho meu posicionamento. Sou uma pessoa de centro-esquerda. A minha missão de vida é combater a desigualdade no Brasil. Sou seguramente a pessoa que mais dialoga com as outras forças políticas democráticas.

Haddad durante a entrevista neste sábado.
Haddad durante a entrevista. VICTOR MORIYAMA

P. O senhor falou do fantasma que foi criado pelo bolsonarismo em relação à Venezuela. Às vezes os fantasmas crescem quando as comunicações não são precisas. Não falta clareza nas posições do PT? Dizer: a gente errou, se desculpa e vai reforçar o controle da corrupção, por exemplo?

R. Hoje [sábado] está no noticiário uma declaração minha sobre isso. Eu falei: Olha, nós criamos controles internos muito efetivos nos ministérios. Gerenciei cem bilhões de reais por ano sem problema nenhum. O ministro tem que ser honesto, mas os controles têm que funcionar. Se não, a corrupção acontece sem que ele saiba. Os mesmos controles internos a gente vai ter que adotar nas estatais, porque ali os controles não atuaram tão fortemente. Isso é uma maneira de dizer o que foi feito de errado, e apontar uma solução. Porque não adianta nada se eu não apontar a solução. Vou ser presidente para que? Para resolver os problemas.

P. Os cientistas políticos projetam uma superbancada do PSL de Bolsonaro. Como governar com um Congresso ainda mais fragmentado e conservador e com uma rua inflamada com sua eventual eleição? Especialmente em um clima de ensejar desconfiança das urnas eletrônicas. Bolsonaro repete isso o tempo todo…

R. Como ele não é um democrata, ele diz que só aceita a vitória, não aceita a derrota [Bolsonaro depois voltou atrás nesta declaração]. Ele não é um democrata, simples assim. Na cidade de São Paulo eu tinha 55 vereadores na Câmara e só 11 votavam comigo. Aprovei até o Plano Diretor da cidade com 42 votos, um plano duríssimo contra a especulação imobiliária, reconhecido pela ONU como o melhor das Américas. Como eu consegui isso? Você ouviu falar de algum toma lá, dá cá na minha gestão? Zero. Só com base no diálogo e mobilização social. Contei muito com o movimento de moradia. Não é verdade que você não consiga aprovar bons projetos. Você precisa explicar para a sociedade e dialogar olho no olho com as lideranças do Congresso. Se tivermos um bom projeto de reforma tributária, que seja mais justo, por que não vamos aprovar? Um bom projeto de reforma bancária: alguém concorda em pagar 100% de juros ao ano no cheque especial? Todo mundo é contra. A bancada evangélica vai ser a favor [do projeto]. Eles não gostam de juros extorsivos para a população.

P. A reforma da Previdência é prioritária? Qual é o modelo de Previdência que você defende e qual o prazo para fazer a reforma?

R. Nós fizemos duas reformas da Previdência. Aliás, as mais profundas. Não foi ninguém de direita. Quem fez reforma da Previdência no Brasil? Lula e Dilma. Só que fizeram de forma pactuada. É isso que eu pretendo. Sempre disse que os regimes próprios inspiram cuidados imediatos, porque os Estados não vão ter condições de pagar salário se continuarem com as contas do jeito que estão. Reforma da Previdência dos regimes próprios vamos enfrentar no primeiro ano. Depois, a convergência dos regimes público e privado. Minha posição é fazer a reforma dos servidores no primeiro ano do país todo e buscar convergência com o regime geral gradualmente. Quem quiser buscar Previdência complementar, é um direito. Mas o regime tem que ser um só. Isso é um ideal a ser construído. Vamos começar pelo mais importante e depois fazer a migração. Temos que sentar à mesa e ver qual é o arranjo mais adequado, mas sem empurrar goela abaixo. Consenso não vai ter, mas você tem que ter uma boa base de apoio, para todo mundo se sentir confortável em dar esse passo. Alguém vai perder, os privilegiados vão perder.

P. Você tem dito que quem responde pela economia é você.

R. Até a nomeação do Ministro da Fazenda.

P. Que será…

R. Assim que eu tiver chegado à conclusão, eu anuncio. Sou da área, conheço economistas interessantes e estou conversando com eles. Mas perfil de ministro é outra coisa, é um líder também. Tem que ser uma liderança que entenda de economia.

P. Marcos Lisboa, Josué Alencar…

R. Não vou citar nomes, mas gostaria de alguém que tivesse a preocupação com geração de emprego. Um banqueiro não está no meu horizonte. Porque banqueiro está preocupado com outra coisa. Não está preocupado em geração de emprego.

P. Para onde se vai na economia num eventual governo seu: Lula 1, com um aceno mais claro ao mercado ou ao centro, ou Dilma?

R. Eu não separo Lula 1 de Lula 2, mas separo Dilma, sobretudo depois de 2012. Nos dois últimos anos da Dilma foram tomadas medidas que eu não tomaria. As desonerações eu não faria, decisões sobre a conta petróleo eu não tomaria… Mas eu diria para você que de 2003 a 2012 houve uma política muito consistente que seguiria. Disse isso por escrito, inclusive, em ensaios publicados.

P. Mas isso não aparece no programa do PT.

R. O programa do PT é um programa, não é um balanço. O balanço eu mesmo fiz em entrevistas, na revista Piauí.

Violência

P. A escalada da violência é um clamor nacional, um problema que se agravou nos anos do PT no poder. Parte das pessoas que votam em Bolsonaro dizem buscar uma solução para a violência. Qual o seu plano?

R. Bolsonaro não tem nenhuma proposta de segurança pública. Absolutamente nenhuma. O que ele está querendo mudar é inconstitucional. O Supremo vai barrar. É cláusula pétrea. O que ele pode fazer é armar a população. Todos os estudos que eu conheço das mais respeitadas revistas científicas sobre segurança pública dizem que vai piorar a situação se você armar a população. Quem tem que prestar o serviço é o Estado. Se o Estado não está presentando o serviço, cabe ao presidente da República chamar à responsabilidade que hoje é exclusiva dos governadores. É o Estado que tem de prestar o serviço de segurança pública. Quem tem que estar armado é o policial bem treinado. Se o Estado não está dando conta, e eu concordo que não está, meu programa prevê que a Polícia Federal assuma parte das responsabilidades da segurança pública, sobretudo em relação ao crime organizado. Sempre defendi que os prefeitos tivessem atuação planejamento territorial da segurança. Hoje você vai na periferia e não passa viatura. Não tem policiamento. É assim que se faz no mundo: um planejamento territorial da segurança pública.

P. O senhor deu uma declaração dura chamando de “charlatão” Edir Macedo, dono da TV Record e líder da Igreja Universal, que também apoiou os Governos do PT, e agora apoiou publicamente Bolsonaro

R. Uma Igreja não pode ter pretensões de poder. O que ele está fazendo agora é uma coisa completamente diferente do que ele fez. Ele tem pretensões de poder. Talvez por ter eleito o sobrinho dele lá no Rio de Janeiro [Marcelo Crivella] acho que ele se animou e resolveu ter um projeto de poder. Um livro dele chama Plano de Poder. O Estado tem que cuidar de todas as crenças. O Estado não pode ser prisioneiro de uma igreja. O Estado tem que garantir a liberdade religiosa, o que significa dizer abraçar todos os brasileiros independentemente de sua crença: se é judeu, é judeu, se é de matriz afro bem, se é muçulmano bem, se é cristão… não importa a confissão. O Estado não pode ser tomado por uma visão de mundo. Se não, nós vamos estar comprometendo justamente o que eu defendo, que é a democracia. Democracia é dizer: alto lá, o Estado é de todo mundo. Quando a gente diz que o Estado é laico, as pessoas têm que entender: não é repudiar as religiões. O Estado que abraça todas as religiões é laico. O Estado que abraça uma é teocrático. Plano de poder, não…

P. Acredita que ainda é possível virar o cenário?

R. Eu saí de 4% para 42% em 30 dias. Não acho nada impossível a gente chegar em 50% em mais 15 dias. É possível, sobretudo se os brasileiros tiverem a percepção, e que nós temos a obrigação de comunicar, dos riscos de eleger uma pessoa com uma visão de mundo que a [política francesa de extrema direita] Marine Le Pen considerou extremista. A Marine Le Pen disse “Bolsonaro não dá”. E a pessoa mais extremista que eu conheço é Marine Le Pen. Ela achou um exagero o Brasil chegar a esse ponto. Temos 14 dias de trabalho pelo bem do Brasil.

Roger Waters: “Deveríamos lutar contra os poderosos, não entre nós”

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O cantor e compositor inglês Roger Waters, ex-integrante da banda Pink Floyd, afirma que ficou surpreso com a reação do público em seu show em São Paulo, no estádio Allianz Parque. Waters conta que, neste momento do show, no mundo todo, é o momento em que o público mais aplaude (o momento em que o telão projeta os nomes de líderes neofascistas espalhados pelo planeta). Ele diz: “Eles são os inimigos, eles são quem deveríamos lutar contra, não entre nós”.

O ex-líder fundador da banda britânica Pink Floyd deu uma entrevista ao programa Fantástico da Rede Globo de Televisão. A reportagem explica que “a turnê é cheia de críticas políticas (..) [e que] incluiu crítica ao candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL), e foi respondido com aplausos e vaias. Ele exibiu #elenão no telão e colocou o nome de Bolsonaro em uma lista de líderes mundiais classificados por Waters como neo-fascistas”.

Waters afirmou: “É interessante porque… duas coisas aconteceram. Durante a música ‘Eclipse’ eles colocaram a hashtag que desagradou a todos. Aquilo foi um erro. Era para ter aparecido mais tarde durante a música ‘Mother’, durante a parte ‘Mother should I trust the government?‘ (mãe, devo confiar no governo?). Seria nessa parte que apareceria “Ele não”, aí faria sentido. Mas colocar no meio da eclipse foi um erro dos meu time. Aquela parte da música era para aparecer pirâmides, lasers coloridos. Estávamos amando uns aos outros. No fim é o clímax depois da jornada longa que atravessamos.”

O músico ainda disse: “Foi totalmente inapropriado, seu eu pudesse dizer. Na segunda noite em São Paulo nós não usamos hashtag, mas deixe-me terminar a história. Na primeira noite, eu não soube que tinha aparecido no telão. Achei que todos aplaudiriam, porque era isso que deveria acontecer. Naquele momento do show, em todos os lugares que tocamos no mundo todo, todos ficam tão contentes nessa parte, todos aplaudem. Aí me perguntei. O que está acontecendo?”

Segundo a matéria, “depois, ele disse que o que viu acontecer em seu show o fez lembrar de outros momentos na história de outros povos, como a Inglaterra antes da Segunda Guerra, quando comunistas e fascistas brigavam nas ruas. E disse que, no seu show, a luta não deveria ser entre as pessoas ali presentes, mas contra os poderosos”.

Waters fala que “eles são os inimigos, eles são quem deveríamos lutar contra, não entre nós. Isso é o que eles [poderosos] querem, que lutemos entre nós porque enquanto lutamos entre nós, não focamos no nosso verdadeiro problema”.

E comenta sobre seus fãs que não entendem sua luta contra o totalitarismo: “Se vocês, meus fãs, acharam que músicos devem apenas tocar suas músicas… É obviamente apenas errado. Não, não devemos. Nós temos responsabilidade como políticos e também como músicos. Eu acredito que todos os artistas, não interessa qual tipo de arte você faça, todos tem responsabilidades de usar a arte para expressar ideias políticas, e criar demandar em favor dos direitos humanos para todos”.

Ele ainda diz: “Francamente, para as pessoas que comentaram na minha página do Facebook ‘cala a boca e apenas toca a música’. Se você não gosta, não entre no meu facebook, não vá aos meus shows, ok? Se não gosta, não venha! Tudo isso é ridículo”.

A história vivida por Waters o ensinou que diante do autoritarismo a omissão é conivente com a morte. Assim, a tranquilidade do público se restringe aos 20 minutos introdutórios, em que o telão apresenta uma garota olhando para o mar, ao som de uma melodia relaxante, até que o céu fica vermelho e o cenário muda ao som de “Speak to me”.

Ao longo da primeira parte do show o conteúdo político se expressa por imagens, sobretudo de Donald Trump, e pelas letras que marcam a carreira e o posicionamento político de Roger Waters desde a década de 70.

No intervalo as projeções de mensagens contra as guerras geraram um espontâneo coro de “ele não”, que provocou a reação contrária de parte do público, logo antes de uma lista de neofascistas ser exposta no telão com a primeira menção a Bolsonaro.

A partir daí o conteúdo político ganhou força, até porque o show volta com as músicas Dogs e Pigs, que não falam de animais de estimação. O cenário político brasileiro ficou restrito ao público, que voltou a se acalmar com os clássicos de Dark Side of the Moon.

Roger parece por o estádio em transe com as músicas e o imenso prisma formado por luzes, até tomar partido e projetar #ELE NÃO, para delírio de uns e desespero de outros. A guerra de palavras de ordem, vaias, aplausos e assovios durou cerca de cinco minutos.

Em resposta às vaias, xingamentos e ofensas, o senhor de 75 anos, mais velho que a esmagadora maioria das pessoas no estádio, disse preferir a liberdade dos protestos que as ditaduras do passado.

Quem dedicou toda a carreira a uma causa pode ser lacônico, quem escolheu comprar ingresso e ir ao show pode protestar, enquanto reflete sobre as letras de Animals, The Wall e companhia. (Do Brasil247)

Forças Armadas podem “substituir” Bolsonaro

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Por Luis Nassif

Têm-se uma certeza: o pacto político pós-Constituinte acabou. O bipartidarismo esfacelou-se com o fim virtual do PSDB. O PT mantém-se como o maior partido do país, mas ilhado por uma enorme corrente de antipetismo que ameaça a eleição de Fernando Haddad e, muito mais ainda, um eventual governo, em caso de vitória.

No plano racional, em um ponto qualquer do futuro, o PT ampliaria seu escopo, de representante de movimentos sociais e sindicatos, para um autêntico partido social-democrata, atraindo setores democráticos e progressistas órfãos do modelo atual – e até do PT atual. Na outra ponta, haveria um movimento em relação ao centro-direita, liderado por algum político mais capacitado que Bolsonaro.

Nesse quadro:
O PT pretende assumir a liderança da oposição no momento seguinte, sem que a Executiva precise abrir lugar à mesa a outras forças políticas democráticas, órfãs do bipartidarismo atual.
Ciro Gomes aposta em sua volta como uma espécie de Dom Sebastião, retornando para unificar e salvar o país da invasão bárbara.

FHC ficará onde sempre esteve e de lá não arredará pé. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, e Bolsonaro se tornar um democrata, do que FHC cometer um gesto digno sequer. O PSDB tradicional tentará juntar alguns fragmentos e se abrigar em algum barco no meio do oceano, aguardando alguma embarcação maior para se atracar.

Globo já alinhou todos seus comentaristas ao editorial de dias atrás, no qual finge que acredita que Bolsonaro acredita que se tornará um democrata. Com Bolsonaro eleito, não conseguirá se esconder atrás do estado de exceção judicial. Como mais influente agente do Sistema, provavelmente será tratada como um inimigo implícito, por sua arrogância e sua posição liberal nos costumes. Sem problema. Se necessário for, sua próxima estrela será Regina Duarte de burca.

Todas essas estratégias partem de um mesmo diagnóstico, uma espécie de auto-ilusão: depois de num breve período de caos, começará o novo tempo da política, no qual tudo será zerado, a democracia voltará a se impor e haverá o início de um novo ciclo democrático.

Nada indica esse final feliz.

O cenário mais provável será:

Movimento 1 – a demolição acelerada das instituições, finalizando o trabalho de Michel Temer, quebrando instrumentos centrais de política econômica, social, educacional, tecnológica.

Movimento 2 – a indicação de três novos Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), consolidando o movimento oportunista de direita radical iniciado por Luís Roberto Barroso, Luiz Edson Fachin e Luiz Fux e, agora, pelo novo brasilianista, Dias Toffoli. No Ministério Público Federal, em vez de um Procurador Geral apenas submisso aos radicais da base, colocará um líder autêntico que mobilizará as tropas contra os dissidentes da sociedade civil.

Movimento 3 – a indicação de militares para cargos-chave nos ministérios.

Movimento 4 – ataques indiscriminados a movimentos sociais, sindicatos, universidades, com a combinação de milícias públicas e privadas, procuradores e juízes ligados ao MBL.

Desfecho provável

Pelo nível do capitão, pelos aventureiros que se aproximaram dele, pela absoluta incapacidade de recuperação da economia com as propostas de Paulo Guedes, pela mediocridade absoluta de Bolsonaro para mediar os conflitos internos de seu governo, se seguirá um período de profundas turbulências.

No início, o governo Bolsonaro não será expressão do poder militar, mas apenas um celerado no poder. Com o caos, haverá razões de sobra para as Forças Armadas entrarem em cena, contendo as loucuras até o limite de substituir Bolsonaro por um governo militar autêntico, tocado pelo candidato a vice-presidente general Mourão.

Aí, a loucura ultradireitista será submetida a um modelo racional e inevitavelmente autoritário, expressão autêntica da racionalidade militar. No plano econômico, um bom exemplo é o que ocorreu recentemente. Antes de se verem na perspectiva de poder, o discurso dos generais era uma réplica do neoliberalismo fútil da Globonews.

Quando começaram a se debruçar sobre questões reais, caiu a ficha sobre o papel de estatais estratégicas. O próprio Bolsonaro veio a público declarar que jamais abrirá mão da Eletrobras como geradora de energia, e apontou o risco da invasão chinesa no Brasil. Certamente não chegou a tal conclusão amparado em seus próprios conhecimentos.

Não cometerão as barbaridades anunciadas por Bolsonaro. Manterão políticas sociais, mas despregadas de qualquer possibilidade de ativismo social. Por sua própria característica – de não abrir mão do controle sobre todas as variáveis, comportamento típico da disciplina e da estratégia militar – será um governo controlador na economia e, principalmente, na política.

O próprio fato do poder civil ter levado o país até o limite do caos, na figura de Bolsonaro, será o fator legitimador do próximo tempo.

Aí o país encontrará de novo a paz dos cemitérios. E todos aqueles que se auto-iludiram em um momento crucial para o país, terão o resto de suas existências para fazerem autocrítica.