Sob cuidados paliativos, Pelé gera comoção e vigília na mídia global

Por Nelson de Sá, na Folha de SP

Jornais dos EUA à Rússia retratam o impacto da notícia de que o ex-jogador já não responde à quimioterapia

A revelação de que Pelé não responde mais à quimioterapia e está em cuidados paliativos levou a uma sequência de imagens em sua homenagem no Qatar e de relatos na cobertura da Copa, em tom de vigília pelo ex-jogador brasileiro. O New York Times destacou a imagem acima, de projeção no hotel The Torch Doha, com o enunciado “Do lado de fora do estádio, uma mensagem de melhoras para Pelé, de volta ao hospital”.

No texto, “ele não está mais respondendo aos tratamentos de quimioterapia e foi transferido para cuidados paliativos, sugerindo que não serão tomadas mais medidas agressivas para combater seu câncer”. Na também americana CNN, ouvindo fãs no Qatar e citando as mensagens de esportistas em mídia social, “O mundo do futebol deseja o melhor para Pelé enquanto a estrela brasileira segue no hospital”.

‘END-OF-LIFE’

Além de esportivos como o francês L’Équipe e o alemão SportBuzzer, veículos de cobertura geral como o italiano La Repubblica, o mexicano Excelsior, a russa Gazeta e o site da chinesa CCTV noticiam que Pelé já não reage ao tratamento. Os ingleses The Guardian e The Sun, entre outros, enfatizam que ele foi transferido para a ala de cuidados paliativos ou, nos títulos, “fim de vida” (end-of-life).

Outros, como o mexicano El Universal, reproduzem a projeção da camisa 10 na noite do Qatar, em cena veiculada em mídia social pela Fifa (abaixo), ou então a bandeira com Pelé no meio da torcida brasileira, do Washington Post ao argentino Olé.

A frase do dia

“Pelé faz com q o Brasil tenha um gênio no mesmo patamar que um Einstein, Chaplin, Marie Curie e Dostoiévski, para citar apenas dos maiores. A visão de Pelé em campo era igual ou superior a James Joyce na linguagem do romance. O país tem q agradecer a Pelé por ele ter nascido aqui”.

Xico Sá, escritor e jornalista

Missão Qatar: cortes de Gabriel Jesus e Telles agravam erros da convocação de Tite

Depois da derrota para Camarões na sexta-feira, 2, a Seleção Brasileira sofreu um novo abalo neste sábado (3): os cortes de Gabriel Jesus e Alex Telles. Os dois tiveram lesões detectadas nos exames de imagem feitos hoje (3) e não vão se recuperar a tempo de voltar a jogar no Mundial, que termina em 15 dias. O regulamento não permite que substitutos sejam convocados, então a seleção brasileira segue em busca do hexacampeonato com 24 jogadores à disposição de Tite.

São mais dois problemas para Tite, agravando um quadro relacionado com a defesa do Brasil na Copa. Além de ter convocado somente quatro zagueiros de área, o técnico ainda chamou Daniel Alves, um lateral de 39 anos cujas condições físicas não passam confiança para encarar uma Copa disputada em alta inensidade.

O atacante deixou o gramado ontem (2), na derrota por 1 a 0 para Camarões, reclamando de dores no joelho direito. Ele foi substituído por Pedro e comunicou o problema ao departamento médico da Seleção, que na hora fez um exame clínico e se preocupou com a situação.

Alex Telles (foto acima), por sua vez, deixou o gramado chorando. Ele tomou uma pancada em uma bola dividida pelo alto e, apesar de não ter o pé no chão, caiu na hora com dores. Ele ainda tentou voltar a jogar, mas não aguentou e foi substituído por Marquinhos. Ele pode precisar de cirurgia no joelho.

A CBF oficializou às 9h40 (de Brasília) a “impossibilidade de recuperação a tempo de participar da Copa” da dupla. “Acompanhados pelo médico da seleção brasileira, Rodrigo Lasmar, eles realizaram uma ressonância magnética no joelho direito que confirmou as lesões”, informou a entidade.

Os dois são considerados reservas, mas a situação do lateral-esquerdo preocupa a comissão técnica. Alex Sandro, o titular da posição, está com lesão muscular no quadril e tem data de retorno ao gramado incerta, enquanto Danilo, lateral-direito, se recupera bem de uma lesão de ligamentos no tornozelo esquerdo.

Assim, Tite vai precisar improvisar pela esquerda. Ontem, a opção foi por colocar o zagueiro Marquinhos jogando por ali. Se Danilo voltar a tempo de jogar na segunda-feira, contra a Coreia do Sul, ele pode ser deslocado para a função, com Militão aberto na direita. Além deles, ainda há o retorno incerto de Neymar.

O jogador vai passar por testes para saber se vai ter condições de jogar novamente já nas oitavas de final ou se precisará continuar em recuperação. Certo é que ele está longe de ficar em 100% das condições, mas pode ir para o sacrifício. Brasil e Coreia do Sul se enfrentam nas oitavas de final nesta segunda-feira (5), às 16h (de Brasília), no estádio 974.

O coordenador da Seleção Brasileira, Juninho Paulista, conversou na tarde deste sábado (03) com os jogadores Alex Telles e Gabriel Jesus e com os diretores esportivos de Sevilla e Arsenal. Gabriel Jesus retornará a Londres nos próximos dias, enquanto Alex Telles ficará em Doha até segunda-feira (5) para assistir ao jogo das oitavas de final contra a Coreia do Sul, viajando no dia seguinte para Sevilla.

Botafogo e Vasco se recusam a assinar acordo de transmissão do Campeonato Carioca

O Botafogo decidiu não assinar o modelo comercial proposto pela Ferj para a transmissão do Campeonato Carioca. A decisão foi tomada neste sábado, em Londres, com a presença do acionista majoritário John Textor (foto acima). Em nota oficial, o clube comunicou que não vai ” aceitar participar de um acordo em que há obscuridão nas negociações, privilégios individuais e a manutenção de um modelo histórico que tanto prejudica o futebol no país”.

O Botafogo não cita nomes no comunicado, mas tomou o mesmo caminho do Vasco, que se recusou a assinar após saber que o Flamengo receberia duas vezes mais do que os outros grandes do futebol carioca. O clube também confirmou que vai realizar pré-temporada nos Estados Unidos e deu a entender que perderá jogos do Campeonato Carioca por conta da viagem.

Abaixo, a nota divulgada pela diretoria do Botafogo:

Em reunião de diretoria com a presença do acionista majoritário John Textor, neste sábado (3), em Londres, o Botafogo decidiu não assinar o modelo comercial proposto pela FERJ para a transmissão do Campeonato Carioca de 2023 e vai oficializar a decisão à entidade nas próximas horas.

1. O futebol brasileiro vive um momento de profundas discussões sobre a constituição de uma Liga sob um novo modelo e fórmula de distribuição de receitas que incentive a chegada de investidores, corrija distorções, gere o equilíbrio esportivo e aumento da competitividade – para benefício de todo o ecossitema.

2. O Botafogo não vai aceitar participar de um acordo em que há obscuridão nas negociações, privilégios individuais e a manutenção de um modelo histórico que tanto prejudica o futebol no país. É incoerente com o que pensamos para o futuro e certamente uma decisão que contraria as melhores práticas.

3. O Botafogo lamenta a condução do processo e defende que os clubes se unam em prol de interesses coletivos, e que seja sempre esse o pilar fundamental de todas as decisões.

4. Diante disso, o Botafogo planeja o início de temporada visando administrar a utilização do elenco da maneira mais benéfica com foco na preparação para a Sul-Americana, Copa do Brasil e Brasileiro. Isso significa que o Botafogo vai disputar o Carioca e também viajar aos Estados Unidos para importantes jogos preparatórios contra times da MLS e da América do Sul.

VASCO SE POSICIONA

O Vasco da Gama adotou a mesma posição e se manifestou através de nota oficial:

“Depois de confirmar a veracidade de notícias veiculadas nos últimos dias, o Vasco da Gama informa que não assinará o contrato de transmissão do Campeonato Carioca 2023 nos termos apresentados pela Ferj e sua empresa parceira. Não aceitaremos acordos em que não haja justa e correta distribuição de valores e tomaremos todas as medidas cabíveis, nos âmbitos esportivo e jurídico, para garantir nossos direitos.

O Vasco lamenta profundamente a postura da diretoria do Clube de Regatas do Flamengo, que parece ainda não ter entendido que futebol não se joga sozinho. Não é a primeira vez que o rival recebe vantagens indevidas nos bastidores. Foi assim, por exemplo, nas inusitadas, seguidas e inexplicáveis prorrogações do acordo temporário de permissão de uso do Maracanã.

Acreditamos que o futebol brasileiro só será sustentável economicamente quando houver clareza e justiça nas negociações, pilares que garantirão a igualdade de condições esportivas e que tornarão perene o interesse do público sobre o espetáculo”.

O pecado da imprudência

POR GERSON NOGUEIRA

Copa do Mundo é coisa séria. Tite desafiou regras não escritas do maior torneio de futebol do mundo. Colocar time reserva em campo é brincar com o perigo. A questão é óbvia: o que a Seleção ganharia com a escalação dos suplentes? Rigorosamente nada. O jogo era quase um amistoso para o Brasil, mas para Camarões valia a classificação. E os Leões Indomáveis entraram com vontade, embora respeitando e evitando se expor.

Com base na quantidade de gols perdidos nos dois tempos, o Brasil teve amplas chances de golear Camarões. Apesar do desentrosamento natural do time B, os ataques se sucediam em ritmo forte. Mais adiantado, Fred trabalhava bem a aproximação com Rodrygo, Antony e Gabriel Martinelli.

O problema era Gabriel Jesus, que não assume o papel de centroavante e sempre cai mais pelo lado direito. Perdeu quase todos os embates com a zaga de Camarões, ao contrário de Antony e Martinelli, principalmente este, que iniciavam ataques e arrancavam até o interior da área.

Melhor da equipe brasileira, Martinelli quase abriu o placar cabeceando junto ao travessão. Rodrygo ameaçou com um chute que tirou tinta da trave. Foram os momentos mais agudos da Seleção, que manobrava junto à área, mas travava quando precisava aprofundar jogadas com Jesus.

Outro problema sério: por excesso de firulas e troca de passes, o time foi ficando dispersivo e previsível. O jogo exigia minimalismo e os jogadores mais jovens resolveram exagerar no preciosismo. Esse erro facilitava a recomposição da defesa de Camarões, tornando mais difícil achar espaço para as finalizações.

O Brasil também finalizou pouco de fora da área, preferindo insistir nas jogadas de infiltração, sempre mais difíceis de executar. No segundo tempo, apesar de uma pressão inicial de Camarões, o time passou a jogar em velocidade, esticando bolas para Antony na direita e Martinelli na esquerda.

Três tentativas seguidas, em chutes de Rodrygo e Martinelli, quase levaram ao gol, que parecia estar amadurecendo. Aí vieram as mudanças. Everton Ribeiro, Marquinhos, Bruno Guimarães, Pedro e Raphinha entraram para dar mais força ofensiva à equipe.

De início, isso até aconteceu, mas aí surgiu um outro obstáculo: o desentrosamento de Pedro com os companheiros de ataque causou várias perdas de bola junto à área. Quando se acalmou, recebeu dois bons passes de Raphinha e Bruno Guimarães, mas mandou a bola longe.

Guimarães foi mais errático ainda, tentando resolver tudo sozinho. Martinelli, a melhor opção de ataque, ficava o tempo todo pedindo bola, mas os homens de meio insistiam em acionar Raphinha pelo lado direito.

A coisa foi para o vinagre aos 47 minutos. Com o time todo posicionado dentro do campo de defesa de Camarões, uma bola esticada para a direita do ataque pegou a zaga brasileira desarrumada. O cruzamento saiu certeiro para o cabeceio de Aboubakar no contrapé de Ederson.

Não havia muito tempo para reagir, mas o Brasil chegava com tanta facilidade ao ataque que ainda teve duas chances, mas Guimarães arrematou muito mal.

Camarões não é o problema maior. A Coreia do Sul, sim, pois vem fortalecida pela vitória sobre Portugal e empolgada com a perspectiva de aprontar para cima do Brasil. Tite, o teimoso, terá 48 horas para preparar o time principal para o jogo eliminatório de segunda-feira. Podia ter feito isso nesta sexta-feira, treinando alternativas e ajustando a equipe.

Caminho do hexa ficou menos complicado

Nem tudo é notícia ruim em relação à Seleção Brasileira. A inesperada vitória da Coreia do Sul sobre Portugal, por 2 a 1, de virada, repaginou a rota que o Brasil terá que cumprir nas próximas fases. Ao invés de enfrentar um rival histórico, Uruguai, ou a impetuosa Gana, o time de Tite terá pela frente a pouco mais que ingênua seleção sul-coreana.

Zebras passeiam à vontade pelo Qatar, misturando-se aos camelos, mas o bom senso diz que elas tendem a se recolher na fase eliminatória. Em circunstâncias normais, o Brasil não deve ter maiores dificuldades em superar a Coreia na segunda-feira, 5, às 16h.

Depois, terá um duelo com o vencedor de Croácia e Japão. Caso avance à semifinal, o provável adversário será a Argentina ou a Holanda. Na hipótese de chegar à final, o adversário pode ser França, Inglaterra, Portugal ou Espanha.

Não há facilidades em Copa do Mundo, mas é inquestionável que o caminho ficou menos difícil – desde que Tite, a partir do tropeção de ontem, leve o Mundial a sério.

(Coluna publicada na edição do Bola deste sábado, 03)

Rock na madrugada – The Who, “Behind Blues Eyes”

Apresentação do Who com sua formação original em Kilburn, 1977. Roger Daltrey (voz), Pete Townshend (guitarra e voz), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria), os dois últimos já falecidos. O Who foi fundado em 1964, interrompeu a gravação de novos discos nos anos 1980, mas segue se reunindo para fazer shows.

Derrota brasileira começou na ideia torta de lançar um time reserva

POR GERSON NOGUEIRA

Para começo de conversa, até gostei da movimentação inicial do time B do Brasil. Foi bem no primeiro tempo, faltou apenas o gol. Mais de 20 tentativas de ataque, metade delas bem organizada, mas o excesso de firulas e toques desnecessários não permitiu abrir vantagem. Gabriel Martinelli foi disparadamente o melhor. Objetivo, tentou o gol duas vezes e quase acertou.

Rodrygo também jogou a sério, sempre buscando partir em direção à área. Antony dribla como poucos, mas por vezes se excede. No meio-campo, Fred e Fabinho funcionaram a contento, embora a responsabilidade pela criação de jogadas tenha atrapalhado a movimentação de Rodrygo. O resto do time disfarçou o desentrosamento com manobras rápidas e tentativas de triangulação. Quase deu certo.

Camarões só apareceu no ataque uma vez e deu um susto, com um cabeceio que tocou no chão e obrigou Ederson a uma defesa arrojada. Do lado brasileiro, Gabriel Jesus ficava sempre na intenção de ir, mas nunca completava jogadas.

Veio o segundo tempo e o cenário permaneceu favorável ao Brasil. Afinal, era o único time que atacava e propunha jogo. Camarões rebatia bolas e raramente arriscava um cruzamento na área. Nas mudanças, Tite resolveu atender a torcida e botou Pedro e Everton Ribeiro no time, junto com Bruno Guimarães e Raphinha. Everton foi razoável, mas Pedro se perdeu na afoiteza e na preocupação em acertar.

Ele e Bruno Guimarães acabaram desperdiçando boas chances, assim como Martinelli, que perdeu o tempo da bola na hora de finalizar para as redes por volta dos 40 minutos. De tanto insistir, o Brasil acabou afrouxando a marcação, mesmo com a vigilância de Marquinhos, que substituiu

Apareceu então a estrela de Aboubakar, aos 47 minutos. Ele desviou de cabeça um cruzamento para as redes de Ederson já nos acréscimos. Foi a única finalização correta de Camarões no segundo tempo. Por tirar a camisa na comemoração, ele recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso. Depois do gol, o Brasil ainda teve duas boas chances, mas o nervosismo e a afobação atrapalharam Pedro e Bruno Guimarães.

O Brasil não perdia na fase de grupos há 24 anos. Perdeu por 2 a 1 para a Noruega em 1998, na França. A partir daí, o Brasil não perdeu mais um jogo na fase de grupos da Copa. Apesar do placar, a Seleção ficou em 1º lugar no Grupo G, com 6 pontos, e se classificou para enfrentar a Coreia do Sul, segunda-feira, 5, às 16h (de Brasília), valendo pelas oitavas de final.

A Seleção jamais jogou contra o rival asiático em eliminatórias da Copa. A Coreia derrotou Portugal, de virada, e conseguiu a segunda vaga no Grupo H. É um azarão, mas ganha confiança com a vitória e com o insucesso do Brasil frente a Camarões.

Tite terá dois dias para rearrumar o time titular, ainda sem Neymar e Danilo. Alguns dos reservas que estiveram em campo nesta sexta-feira podem ter chances. Casos específicos de Martinelli, Militão e Antony.

A ideia de poupar oos titulares se mostrou contraproducente. Ao prestigiar os reservas, Tite desperdiçou a oportunidade de fazer ajustes na Seleção principal, entrosar a equipe e aproveitar o jogo para testar alternativas emergenciais para o mata-mata.