Na pátria do futebol retrô

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Por Gerson Nogueira

Boa parte das agruras que se abatem sobre o futebol brasileiro pode ser explicada pela falta de criatividade dos clubes. Células fundamentais da engrenagem, cabe às agremiações todo e qualquer movimento no sentido de inovar ou revolucionar a estrutura. Ocorre que, pelos vícios acumulados há décadas, todos se comportam com extremo conservadorismo, a começar pela escolha dos técnicos.

Menos de três semanas depois de naufragar miseravelmente na Copa das Copas, Felipão surge como a grande esperança do Grêmio para tentar reencontrar o caminho das vitórias. É claro que Fábio Koff e seus pares não se basearam na campanha da Seleção Brasileira para propor um contrato a Felipão. Estão com o pensamento cravado no passado glorioso do treinador à frente do Tricolor gaúcho.

E são glórias inquestionáveis. No Olímpico, Felipão ganhou uma Copa Libertadores, um Brasileiro e uma Copa do Brasil. Virou um especialista em vencer o Gre-Nal, o duelo que divide o Rio Grande do Sul ao meio. A aposta gremista remete, portanto, muito mais ao antigo Felipão, ignorando o presente já não tão luminoso.

Na mesma linha, o Flamengo recorreu aos préstimos de Vanderlei Luxemburgo, depois de uma experiência atribulada com Ney Franco. Há cerca de três anos, Luxemburgo havia deixado o clube pela porta dos fundos, sob ataques da torcida e críticas raivosas dos dirigentes. É sua quarta passagem pelo Fla, sendo que esta ocorre no momento mais declinante de sua carreira.

As mudanças no comando dos dois clubes ocorreram quase que simultaneamente com o anúncio da volta de Dunga à Seleção. Não é uma simples coincidência. Reflete apenas a tendência que os dirigentes têm de abraçar a mesmice, evitando o risco de investir no novo.

Com a Seleção Brasileira não é diferente. Nos últimos 12 anos, ela girou sempre nas mãos de figuras manjadas. Felipão saiu e entregou para Dunga. Nomes e idades diferentes, métodos muito parecidos.

Diante desse quadro retrô, a esperança é que a experiência do Cruzeiro, dirigido por um técnico jovem e que conquista títulos jogando bonito, se consolide como prática e sirva de exemplo. Acreditar é o primeiro passo.

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Vica insiste com o mesmo time

O Papão encara uma nova pedreira na Copa do Brasil. Enfrenta o Coritiba hoje, em Curitiba, com previsão de baixa temperatura e a obrigação de apresentar um rendimento mais satisfatório ao seu torcedor. O time perdeu os três últimos jogos, sofrendo nove gols e fazendo apenas quatro.

Douglas continua firme no gol, apesar da boataria sobre sua saída. Pikachu segue no ataque, ao lado de Ruan. O técnico, pelo planejamento esboçado, decidiu prestigiar o time que entrou jogando e perdeu por 3 a 0 em Campina Grande. Deve ter sido o único a ficar satisfeito com o que viu.

Além das falhas pontuais do goleiro, as falhas de posicionamento da dupla de zaga, Charles e Reiniê, continuam a atormentar a equipe, mas aí não há muito o que fazer, pois os dois ainda são os melhores zagueiros existentes no elenco.

A partir da meia cancha, porém, o técnico parece ter decidido apostar em Marcos Paraná, Rafael, Pikachu e Ruan. Chama atenção sua insistência em utilizar Pikachu avançado, depois que reiteradas vezes o jogador já demonstrou que não é por ali que se sai melhor.

O papel de ala avançado sempre foi o preferido do próprio Pikachu. Depois que Lecheva começou a escalá-lo na frente, considerando que falhava na marcação, os demais treinadores seguiram a mesma linha de pensamento, afastando cada vez mais o atleta de sua posição de origem. Com a ausência de Djalma por contusão, Pikachu ficou ainda mais isolado. E o Papão só perdeu com isso.

Para hoje, contra um Coritiba que deve poupar suas principais peças (incluindo o meia Alex), imaginava-se um time fisicamente mais forte no ataque. Como Ruan e Pikachu jogam abertos, a tendência é que falte jogada pelo centro da área. Dênis, que vai na suplência, poderia ser uma boa opção.

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Um duro castigo para Roni

A novidade do Remo para o jogo de sábado contra o Interporto (TO) é a ausência do atacante Roni da lista de prioridades do técnico Roberto Fernandes. Titular nos dois primeiros jogos da Série D, falhando muito nas finalizações, o jogador foi rebaixado à condição de terceiro reserva.

Mesmo que se deva respeitar a avaliação do treinador, soa como punição rigorosa demais a barração de Roni. Grande destaque do time campeão estadual, com atuações empolgantes nos jogos decisivos contra o Papão, ele não desfrutou da mesma tolerância que já foi dada a jogadores bem mais experientes do elenco.

Roni não foi omisso nos dois jogos. Pelo contrário. Correu muito e se empenhou, mas teve a infelicidade de perder dois gols contra o Moto Clube e outro contra o River. Leandro Cearense passou a temporada passada desperdiçando gols e jamais teve o mesmo tratamento.

Seu afastamento terá finalidade prática se for aproveitado para repassar orientações quanto a posicionamento e definição de jogadas. Do contrário, será apenas uma medida excessivamente dura para um garoto que – como Leandro Carvalho, do Papão – ainda tem muito a aprender e crescer.

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A fé não pode falhar

O papa Francisco está virando um talismã do futebol argentino. A confirmar a convicção dos torcedores, o San Lorenzo, seu clube de coração, confirmou ontem à noite a classificação para disputar a final da Copa Libertadores. Perdeu por 1 a 0 para o Bolívar, mas havia vencido com folga (5 a 0) no jogo de idade. O certo é que El Ciclón disputará uma decisão continental pela primeira vez em sua história.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 31)

Barcos vai embora e Vica prestigia goleiro

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O goleiro Douglas foi confirmado pelo técnico Vica como titular no gol do Papão para a partida desta quinta-feira contra o Coritiba, em Curitiba, pela terceira fase da Copa do Brasil. O jogador tem sido muito questionado pelos torcedores, mas o treinador decidiu prestigiá-lo e descartou os rumores de afastamento do guardião por pressão da torcia.

Já o centroavante Gabriel Barcos rescindiu contrato com o clube e teve seu desligamento confirmado no site oficial do Papão. O atacante havia se destacado defendendo o Maringá-PR. Disputou como titular apenas um jogo sob o comando de Vica, chegando a marcar um gol contra o Cuiabá. Para deixar a Curuzu, Barcos alegou problemas de ordem pessoal, mas nos bastidores surgiu a história de que o centroavante não aceitou ter sido barrado por Vica na partida diante do Treze-PB, domingo passado. (Foto: MÁRIO QUADROS/Bola) 

Com nova virada, Papão já rivaliza com o Flu

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Por Adriano Wilkson, do UOL Esporte

O hino informal do Paysandu diz que o time “quando perde é por descuido, mas depois vem a virada”. O verso nunca fez tanto sentido nesse último ano, quando a equipe conseguiu reverter no tapetão duas derrotas inquestionáveis em campo. As vitórias fora de campo do Paysandu lembram a atuação do Fluminense, que no ano passado conseguiu evitar um rebaixamento à Série B nos tribunais.

A última conquista paraense, o título da Copa Verde e a vaga na Sul-americana de 2015, veio depois que o clube percebeu a escalação irregular de atletas do Brasília, notificou o tribunal desportivo e conseguiu a virada de mesa em primeira instância. O clube candango vai recorrer ao pleno do STJD, já que a própria CBF admitiu sua responsabilidade no caso.

No campo, no Estádio Mané Garrincha, o Paysandu havia perdido a final nos pênaltis.

O clube viveu situação semelhante no ano passado, quando foi eliminado em casa da Copa do Brasil pelo modesto Naviraiense (MS). Após a derrota, a diretoria paraense entrou na Justiça apontando, outra vez, a escalação irregular de jogadores rivais. Conseguiu voltar à competição.

O presidente Vandick Lima, que comandou as manobras jurídicas nos dois casos, explica que o clube está sempre atento a brechas legais que possam beneficiá-lo. “Temos três pessoas aqui que ficam de olho tanto na situação dos nossos jogadores como na dos nossos adversários. Se detectarem qualquer problema, eles nos avisam e nós vamos atrás de nossos direitos”, afirmou o cartola, que também estava no clube no episódio que iniciou essa tradição.

Foi em 2003, o ano dourado do Paysandu, logo após a participação na Libertadores e uma vitória sobre o Boca Juniors, na Bombonera. No Brasileiro que inaugurou a era dos pontos corridos, o time paraense foi um dos primeiros do país a serem punidos com a perda de pontos por escalação irregular de jogadores.

Foram ao todo oito pontos perdidos porque três atletas foram contratados e tiveram seus contratos assinados pelo então presidente do time, Arthur Tourinho, que estava suspenso do futebol por ter ofendido em público o chefe da federação paraense. Um dos beneficiados pela punição ao Paysandu foi, curiosamente, o Fluminense, que lutava contra o rebaixamento na ocasião. Onze anos depois, o tricolor se salvaria da queda pela virada de mesa do “caso Héverton”.

No fim do campeonato de 2003, Paysandu e Fluminense escaparam da degola.

Posse do Novo Presidente do Paysandu“O episódio nos ensinou uma lição e nós nunca mais descuidamos dessa questão dos regulamentos”, afirma Vandick, que era coordenador técnico na época. “O Paysandu foi beneficiado agora, mas prejudicado lá atrás. Isso faz parte das regras, é do jogo.”

O presidente não considera que tenha havido injustiça em relação ao Brasília, o campeão em campo da Copa Verde. O time renovou o contrato de seus jogadores no tempo regulamentar e foi prejudicado por uma falha no sistema de informática da CBF, que não publicou as renovações.

“Não vejo injustiça. O que vejo é que o clube tem obrigação de esperar o nome de todo jogador sair no BID [Boletim Informativo Diário, o documento eletrônico que oficializa a situação dos atletas]. Enquanto não sair, nenhum clube escala jogador. O Brasília escalou, não entendo por quê. Isso não pode, e nós fomos atrás do nosso direito.”

Ele também não acredita que a imagem do clube possa sair arranhada por ser associada a mais um episódio de virada de mesa.

“Existe o jogo para ser jogado, e existe um regulamento para ser cumprido. Quem não cumpre tem que ser punido, simples.”

Se fora de campo a diretoria jurídica está atenta, dentro dele o time não anda. No último domingo, o Paysandu completou uma sequência de três derrotas, com o revés para o Treze, na Paraíba, pela Série C. Recém-rebaixado da Série B, o clube está perto da zona da degola também da terceira divisão. Tudo isso, no ano de seu centenário.

O presidente Vandick, considerado por parte da torcida um ídolo (ele marcou três gols na final da Copa dos Campeões em 2002, contra o Cruzeiro, o maior título da história do clube), já enfrenta pressão para deixar o cargo. Ele não deve concorrer à reeleição.

O PAYSANDU NOS TRIBUNAIS

O presidente Arthur Tourinho pegou três meses de suspensão por ofender o presidente da federação local (Antônio Carlos Nunes, que continua no cargo). Mesmo suspenso, ele assinou o contrato de três reforços. Nunes alertou a Justiça desportiva sobre a irregularidade, o Paysandu perdeu oito pontos e ficou seriamente ameaçado de rebaixamento.

O curioso é que Tourinho, mesmo suspenso e sem poder assinar contratos, pôde votar na eleição que manteve Ricardo Teixeira à frente da CBF. Auditores do STJD disseram na ocasião que foi um caso de “dois pesos e duas medidas”. Tourinho alegou que seu clube só perdeu os pontos porque estaria havendo um complô dos times do Rio e de São Paulo para prejudicá-lo. O Fluminense e a Ponte Preta, por exemplo, estavam na disputa para fugir da degola.

No ano seguinte, o Paysandu foi novamente acusado de escalar irregularmente um atleta, no caso, o atacante Adrianinho. Mas conseguiu provar que não havia problemas, e o tribunal acabou arquivando a denúncia.

O CASO MARCELINHO PARAÍBA

Depois do trauma de 2003, a diretoria do clube contratou “especialistas em BID” e evitou ser punido por escalação irregular de atletas em algumas ocasiões. Na reta final da Série C de 2012, o atacante Marcelinho Paraíba foi contratado e apresentado com pompa para ser a grande arma do acesso.

Mas nas vésperas de sua estreia, a diretoria jurídica resolveu consultar a CBF sobre a situação do jogador e descobriu que poderia ser punida até com rebaixamento caso o escalasse. O motivo é que Paraíba já havia defendido dois outros clubes naquela temporada e não poderia jogar por um terceiro. O contrato foi rescindido, e o Paysandu subiria mesmo sem o atacante. “Escapamos por muito, muito pouco”, disse Fred Carvalho, então diretor de futebol do clube.

No ano seguinte, já na segunda divisão, os paraenses tentaram usar o mesmo argumento para tirar pontos do São Caetano, que teria posto em campo o lateral Renan de modo irregular. O clube paulista conseguiu provar que estava correto; o Paysandu acabaria rebaixado.

VOLTOU PARA A COPA DO BRASIL DEPOIS DE VEXAME EM CASA

Uma derrota de 2 a 0 para o Naviraiense (MS) em Belém foi revertida no tribunal depois que a diretoria descobriu dois jogadores rivais que jogaram sem contrato. Nas primeiras instâncias, o clube sul-mato-grossense venceu, alegando que o regulamento da CBF permite que contratos sejam renovados até 15 dias depois da realização da partida em que um atleta atuou.

Mas os auditores do pleno não compraram essa versão, e o Paysandu voltou à Copa do Brasil e ainda ganhou R$ 400 mil, o prêmio por avançar de fase.