Dilma a Obama: Moro, cadê as provas?

POR PAULO HENRIQUE AMORIM

A GloboNews perguntou (em inglês) a Obama se ele considerava o Brasil uma potência regional ou mundial.
Obama foi taxativo: O Brasil é uma Potência Mundial!
E descreveu os vários setores em que o Brasil é uma potência mundial.
(Nesse ponto ouviu-se o cortar dos pulsos dos colonistas do Globo e do FHC… É só desligar a Globo e sair de São Paulo que o Brasil melhora.)
(Um repórter da Fel-lha – ver no ABC do C Af –  também tentou, em inglês, fazer o Obama comentar as ações que investidores americanos movem – inutilmente – contra a Petrobras, na Justiça americana. Obama mandou ele àquela devida parte: não ia comentar ação judicial em curso. Esperrrto esse repórter. Vai ser promovido a colonista…)
A Dilma fez uma defesa enfática da Petrobras.
Se dois funcionários cometeram erros têm que ser punidos, depois de cumprido o devido processo legal.
Mas, a empresa, uma das mais eficientes do mundo, com Oscar em Inovação, não pode nem vai ser prejudicada.
Aliás, disse ela, não se sabe de que são acusados.
E diretamente ao Juiz da Vara de Guantánamo: quero ver as acusações contra meus ministros !, disse, não exatamente nesses termos.
Que história é essa de delação e vazamento seletivos, Dr Moro ?
Quero saber de que o Edinho e o Mercadante são acusados.
(Ficou feio, na frente do Obama, do corpo de correspondentes da Casa Branca, Dr Moro, o senhor ficar com a fama de ditador, de praticar atos da Idade Media, como disse a Presidenta. Que vergonha !)
(E não esquecer que ela não respeita esses 1001 delatores de araque da Lava Jato, que dizem o que querem, depois dizem o que não tinham dito, para desespero do Ataulpho, que, se pudesse, teria sido aliado de Calabar e Silvério dos Reis.)
Quem tem que acusar é o acusador, disse ela a Obama.
Não é o acusado que tem que se defender, disse Dilma, ao lembrar que esse é um dos princípios da Civilização Ocidental, embora não seja respeitado na Vara de Guantánamo, nem pelos que aplaudiram Fleury e hoje endeusam o Moro.
Dilma começou a ir pra cima do Moro.
Demorou, mas está em tempo !
Chega de Golpe Paraguaio !

Paulo Henrique Amorim

Carta aberta à elite brasileira

POR GREGÓRIO DUVIVIER, na Folha SP

Cara elite,
sei que não é fácil ser você. Nasci de você, cresci com você, estudei com você, trabalho com você. Resumindo: sou você. (Vou fazer uma camisa: “Je suis elite”). Sei que você (a gente) quer o bem do país.
Sei que era por bem que você não queria abolir a escravidão. “Se a gente tiver que pagar pelo serviço que os negros faziam de graça, o país vai quebrar.” Você não queria que o Brasil quebrasse. Você não precisava ficar nervoso: o Brasil não quebrou.
Sei que era por bem que você pediu um golpe em 64. Você tinha medo do Jango, tinha medo da reforma agrária, tinha medo da União Soviética. Sei que depois você se arrependeu, quando os generais começaram a matar seus filhos. Mas já era tarde.
Sei que você achou que o Collor era honesto. Sei que você achou (acha?) que o Lula é um braço das Farc, que é um braço do Foro de São Paulo, que é um braço do Fidel, que é um braço da Coreia do Norte. Sei que você ainda tem medo de um golpe comunista -mesmo com Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Sei que você tem medo. E o seu medo faz sentido.
Não é fácil ser assaltado todo dia. Dá um ódio muito profundo (digo por experiência própria). A gente comprou um iPhone 6 com o suor do nosso rosto -e pagou muitos impostos. Sei que nessas horas dá uma vontade enorme de morar fora.
Você sabe que lá fora você pode abrir seu laptop na praça, pode deixar a porta aberta, a bicicleta sem cadeado. Mas lá fora, não esqueça, é você quem limpa a sua privada. Você já relacionou as duas coisas?
Nos países em que você lava a própria privada, ninguém mata por uma bicicleta. Nos países em que uma parte da população vive para lavar a privada de outra parte da população, a parte que tem sua privada lavada por outrem não pode abrir o laptop no metrô (quem disse isso foi o Daniel Duclos).
Não adianta intervenção militar, não adianta blindar todos os carros, não adianta reduzir a maioridade penal (SPOILER: isso nunca adiantou em lugar nenhum do mundo).
Sabe por que os milionários americanos doam tanto dinheiro? Não é por empatia pelos mais pobres. Tampouco tem a ver só com isenção fiscal. Doam porque sabem que, quanto mais gente rica no mundo, mais gente consumindo e menos gente esfaqueando por bens de consumo.
Um pobre menos pobre rende mais dinheiro para você e mais tranquilidade nos passeios de bicicleta. A gente quer o seu (o nosso) bem. É melhor ser a elite de um país rico do que a de um país pobre.
Ass.: Gregório Duvivier

Remo é patrimônio imaterial de Belém

Por projeto do vereador Rildo Pereira na Câmara Municipal de Belém, o Clube do Remo passa a ser Patrimônio Cultural e Imaterial do município de Belém. A vereador Marinor Brito saudou a iniciativa na sessão desta manhã na CMB, puxando da tribuna o hino do Leão, destacando o trecho “porque somos do Clube do Remo e do nosso amor diremos que não tem rival…”. A medida, que segue o exemplo de projetos que tornaram os três grandes clubes de Pernambuco (Santa Cruz, Sport e Náutico) patrimônios imateriais do povo mauriciano. Segundo Marinor, a medida faz do Remo definitivamente parte integrante do patrimônio cultural de natureza imaterial da cidade, dando-lhe a importância oficial que sempre teve nos seios do povo. Nessa condição, os bens imóveis do clube não poderão mais ser vendidos e transacionados sem a anuência da Prefeitura de Belém e outros órgãos públicos.

Governos do PT alimentam o inimigo

DO COMUNIQUE-SE

Jornalista do UOL, Fernando Rodrigues resolveu pedir, por meio da Lei de Acesso à Informação, dados sobre o investimento de publicidade do governo federal durante a gestão do Partido dos Trabalhadores (PT). Os números oficiais do Instituto para Acompanhamento da Publicidade, fornecidos pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, mostram que TV Globo, O Globo, Veja e UOL lideram as fatias nos mercados de televisão, jornal, revista e site, respectivamente.

Os números revelam que, sem contar as afiliadas, a Globo e suas cinco emissoras próprias (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Recife) foram responsáveis por arrecadar R$ 6,2 bilhões em publicidade estatal federal ao longo de 12 anos dos governos Lula (2003 a 2010) e Dilma (2011 a 2014). Segundo o UOL, até 2013 esses valores foram corrigidos pelo IGP-M, índice usado no mercado quando o assunto é publicidade. Os dados de 2014 são correntes.

No total, ressalta Rodrigues, os governos petistas investiram R$ 13,9 bilhões em publicidade para TV nesse período. Isso significa que quase a metade do valor foi destinada ao Grupo Globo, que veiculou comerciais estatais na TV aberta. A Record teve R$ 2 bilhões de verbas nos 12 anos, contra R$ 1,6 bilhão do SBT e R$ 1 bilhão da Band.

Na lista dos impressos, os jornais ganharam R$ 2,1 bilhões com a publicação de propagandas. O UOL mostra que, do total, R$ 730 milhões foram destinados a quatro publicações: O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Durante os governos Lula e Dilma, O Globo faturou R$ 213 milhões, contra R$ 199 milhões da Folha, R$ 186 milhões do Estadão e R$ 130 milhões do Valor Econômico.

Em revistas, a Veja, semanal da Editora Abril, ganhou R$ 370 milhões nos governos Lula e Dilma, seguida de Época (R$ 168 milhões), IstoÉ (R$ 145 milhões) e Carta Capital (R$ 61 milhões). No segmento online, que é, atualmente, o segundo meio que mais recebe publicidade estatal do governo federal, o UOL lidera o ranking com R$ 74,5 milhões. Em seguida, Terra (R$ 69,9 milhões), Globo.com/G1 (R$ 69,8 milhões) e R7 (R$ 23,9 milhões).

Os dados foram reunidos por meio de informações do IAP e abrange as seguintes empresas públicas e de economia mista: Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Banespa, Basa, BEA, Besc, BNDES, BR Petrobras, Caixa, Centro Cultural BB, Correios, Liquigás, Fundação BB, Nossa Caixa, Petrobras e Transpetro. Para acessar a íntegra dos dados, clique aqui.

Lula investe em Cuba de Fidel e Gaddafi investiu na São Paulo de Serra e Alckmin?

serralibia

POR FERNANDO BRITO, no Tijolaço

A estupidez é tão ridícula quanto esta foto aí de José Serra em roupas de beduíno, como as que vestia o líbio Muammar Gaddafi.

Mas a postei porque contradiz tudo o que os tucanos e a coxinhada em geral invocaram para condenar os investimentos do Brasil na construção do Porto de Mariel, em Cuba, ganhando dinheiro não apenas no empréstimo e nas compras de bens e serviços no Brasil como, de quebra, posicionando o nosso país para usar, através de suas empresas, a ilha como plataforma de exportações para o Caribe e, se a distensão das relações cubano-estadunidenses seguir até o fim do embargo comercial.

Fui tornar a buscar, em 2009, o então  governador de São Paulo, José Serra, e seu secretário de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, cuidando de receber uma delegação enviada por Gaddafi e se esmerando em oferecer São Paulo para receber investimentos dos petrodólares daquele país.

Nem conversinha sobre direitos humanos, democracia, liberdade de imprensa. Negócios.

23769Aí do lado vai a foto de Serra com o vice de Gaddafi, Imbarek Ashamikh, como se vê na foto do governo paulista.

E Serra ainda fez o lobby – civilizado, ressalte-se – da Odebrecht, na presença do atualmente “preso de Moro”, segundo a nota da Assessoria do Palácio dos Bandeirantes reproduzida pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira:

“Serra ressaltou que, além da exportação de produtos industriais ou agrícolas, São Paulo pode fornecer serviços para a Líbia, citando como exemplo o trabalho já realizado pela construtora Norberto Odebrecht no país. A empresa está à frente da construção dos dois novos terminais do Aeroporto Internacional de Trípoli e da construção do terceiro anel viário da capital líbia. O presidente da companhia, Marcelo Odebrecht, participou da reunião no Palácio dos Bandeirantes e hoje o vice-premiê vai conhecer um projeto do grupo no ramo sucroalcooleiro.”

É claro que o ex-governador e o atual governador fizeram muito bem. É seu papel estimular negócios lucrativos para ambos os lados com qualquer nação, seja Líbia, Israel ou Cuba, sem que isso signifique endosso a todas as suas políticas.

O ridículo é achar que isso é heresia, como fizeram os tucanos.

E mais ridículo ainda é achar que elogiar e apoiar empresas brasileiras que conquistam contratos no exterior é lobismo corrupto.

Lobismo é procurar a direção de uma multinacional e se oferecer para retirar o controle brasileiro, através de sua empresa de petróleo, das jazidas brasileiras, como fez Serra com a Chevron.

Isso sim é vergonhoso e devia causar escândalo, não é, Senador?

Desafio da sustentabilidade online

POR CARLOS CASTILHO, no Observatório da Imprensa

As pesquisas sobre comportamento dos usuários de sites noticiosos na Web apontam dados que tornam cada vez mais difícil prever quais serão as prováveis estratégias financeiras capazes de garantir a sobrevivência econômica de páginas jornalísticas na internet.

Uma pesquisa do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, que ouviu 20 mil internautas em 12 países, indicou que a maioria deles não admite pagar pelo acesso a notícias online, o que põe em dúvida o sucesso futuro do recurso ao paywall (muro de pagamento) já adotado por jornais do calibre do The New York Times. Nos Estados Unidos apenas 11% dos usuários da internet pagam para acessar o site de jornais, um índice qumobile journalism celularese não registrou aumentos desde 2013. Aqui no Brasil, este percentual chega a 23%, um dos mais altos do mundo.

Para a revista Columbia Journalism Reviewtrata-se de um índice insuficiente para financiar as atuais redações de projetos online nos Estados Unidos. E como isto não bastasse, a mesma pesquisa mostrou que os internautas estão recorrendo cada vez mais ao uso de softwares bloqueadores de publicidade online, especialmente aqueles vinculados acookies, programas que associam anúncios aos hábitos de navegação do usuário. Nada menos que 47% dos norte-americanos e 39% dos ingleses já usam rotineiramente programas bloqueadores de anúncios online como o AdBlockPlus.org.

A combinação da rejeição do pagamento e da visualização da publicidade online deixa os projetos jornalísticos na Web diante de opções muito complicadas e nada animadoras em matéria de faturamento na internet. As perspectivas são ainda mais desafiadoras quando os prognósticos feitos por institutos de monitoramento dos hábitos de consumidores apontam que até o final do ano, ou no primeiro semestre de 2016, os smartphones devem ultrapassar os tablets e notebooks como plataforma de acesso a noticias. Atualmente 26% dos norte-americanos já acessam notícias usando preferencialmente a telefonia móvel.

A enorme incerteza sobre o futuro das receitas online necessárias para sustentar projetos jornalísticos na Web está levando um número cada vez maior de empresas a apostar na chamadapublicidade nativa, ou textos patrocinados, formatados como se fossem noticias jornalísticas. Mas também aí os resultados da pesquisa sinalizam perspectivas pouco animadoras porque cerca de 40% dos entrevistados norte-americanos manifestaram irritação depois de constatar que o conteúdo lido era patrocinado.

O aumento constante do acesso a noticías por dispositivos móveis coloca em evidência umamudança radical no posicionamento dos consumidores de informações. Até agora os veículos estavam no controle da situação. Eles determinavam o que as pessoas iriam ler e consequentemente condicionavam a agenda pública de debates. Hoje isto está mudando rapidamente. É o leitor que passou a ter o poder de escolher o que vai ler, independente do veículo. É claro que ainda há uma forte influência dos jornais convencionais, especialmente em países como o Brasil, onde a cultura digital está dando os seus primeiros passos. Mas as perspectivas indicam que a mudança é uma questão de tempo.

A partir do momento em que o público passa a ter mais controle sobre o acesso à notícia, a agenda também muda e com isso o contexto político, social e econômico das audiências. Esta mudança já é visível nas redes sociais, especialmente nos segmentos com maior presença do público jovem, cujas preocupações são bastante distintas das que influenciam as manchetes de jornais e telejornais.

Tudo isso confere cada vez mais importância à preocupação com a sustentabilidade de projetos jornalísticos, sejam eles empresariais, iniciativas comunitárias, sem fins lucrativos ou vinculadas a interesses específicos. É um desafio que surge justo no momento em que mais precisamos de informação para poder lidar com a caótica avalanche de dados e notícias na internet. É um dilema complexo porque está cada vez mais claro que a solução não virá de patrocínios governamentais, dado o passivo de desconfiança acumulado ao longo dos anos em relação às políticas oficiais de comunicação. Embora em menor escala, o segmento empresarial privado também padece do mesmo mal.

Sobra assim o público como alternativa. A cada dia aumentam as esperanças de que a solução venha a participação dos indivíduos tanto na produção de informações como na sustentabilidade de projetos jornalísticos. Esta é também uma opção complexa e que ainda vai alimentar muitas discussões, mas não podemos adiá-las indefinidamente.

A utilidade da delação de Pessoa

Pessoa, aloisio Tiago Cedraz

Ao envolver tucanos e socialistas no recebimento de recursos da UTC, empreiteiro mostra — mais uma vez — a presença de todos partidos do universo cinzento das campanhas financeiras

POR PAULO MOREIRA LEITE, em seu blog 

O fato mais surpreendente na lista de políticos e autoridades beneficiadas pelas doações da empreiteira UTC, reveladas neste fim de semana, consiste na linha de defesa da oposição.

Como nós sabemos, a denúncia inclui vários políticos, de vários partidos e até mesmo o advogado Tiago Cedraz, filho de Aroldo Cedraz, presidente do Tribunal de Contas da União, o TCU. Tiago é acusado de receber R$ 50 000 mensais em troca de informações privilegiadas. Ricardo Pessoa também disse que ele negociou a compra uma sentença favorável em Angra 3 por R$ 1 milhão. Segundo a denúncia, o relator Raimundo Carreiro recebeu o dinheiro, intermediado pelo filho do presidente do tribunal.

Sim: estamos falando da mesma corte que ameaça questionar as contas de Dilma Rousseff por causa de operações contábeis conhecidas como pedaladas. Quanta credibilidade, não é mesmo? Gente séria, rigorosa. E agora?

O caso é que há beneficiados — em contribuições de campanha. Um deles é o senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, do PSDB. Sua campanha levou R$ 200 000 em 2010. Já a campanha do deputado mineiro Julio Delgado, do PSB, um dos mais ativos campeões da moralidade no Congresso — foi relator da cassação de José Dirceu em 2005 — recebeu R$ 150 000 em 2014.

Tanto Aloysio como Delgado esclarecem que foram doações legais, registradas na Justiça Eleitoral. Não há razão para duvidar. Até que se prove o contrário, essa explicação deve ser vista como verdadeira e não deve ser questionada.

O problema é que as campanhas do PT também possuem documentos que permitem sustentar a legalidade das doações que o partido recebeu. As cifras, CPFs e todos os dados necessários estão lá.

A dificuldade política da oposição consiste numa questão essencial: manter o discurso da moralidade, que implica em rejeitar como mentira toda explicação apresentada pelos adversários e, ao mesmo tempo, tentar nos convencer que, no caso de seus aliados, a história é outra, ainda que os argumentos sejam os mesmos e a situação real seja igual.

“Estão querendo misturar o joio e o trigo,” reagiu Delgado. Aloysio foi defendido por Aécio Neves, de quem foi companheiro de chapa em 2014. Aécio declarou que a situação de Aloyzio é totalmente diferente daquela dos petistas investigados na Lava Jato.

A tese da oposição é que nossa turma é gente de bem e a outra parte não presta. Será possível? Talvez seja melhor acreditar na professora Maria Silvia de Carvalho Franco, autora de Homens Livres na Sociedade Escravocrata, colega de turma de Fernando Henrique, aluna de Florestan Fernandes. No livro, a mestra descreve um país onde “o Estado é visto e usado como ‘propriedade’ do grupo social que o controla.”Para a professora, o “aparelho governamental nada mais é do que parte do sistema de poder desse grupo, imediatamente submetido à sua influência, um elemento para o qual se volta e utiliza sempre que as circunstâncias o indiquem como o meio adequado. Só nesta qualidade se legitima a ação do Estado.”

Deu para entender a base real de quem procura estabelecer diferenças de natureza moral em política, certo? Ela explica mistérios de nossos paladinos da ética — a começar pelo mensalão PSDB-MG, que até hoje não foi sequer julgado.

Vivemos num país onde o dinheiro de empresas privadas tornou-se o principal combustível das campanhas eleitorais — de todos os partidos. É natural, portanto, que os recursos de empresas com interesses no Estado — como empreiteiras, por exemplo — sejam destinados a políticos e partidos que possam prestar serviços úteis.

E se você acreditou na lorota de que só o PT tem condições de retribuir pelos recursos que recebe, porque possui o cofre federal, é bom saber que a Constran, empresa do grupo UTC, é uma das rainhas de obras no Estado de São Paulo. Participou de quatro linhas do metrô — azul, vermelha, verde e lilás —, obra lendária por denuncias eternamente paralisadas.

Em 2013, o governador Geraldo Alckmin inaugurou uma penitenciária em Cerqueira Cezar, interior do Estado. Obra da Constran.

Nada disso torna Aloysio Nunes Ferreira nem Julio Delgado culpados de qualquer coisa. Da mesma forma que a revelação de que Aloizio Mercadante, que recebeu doações eleitorais da UTC em 2010, não pode ser vista como prova de mau comportamento.

Não custa lembrar que, entre 2007 e 2013, petistas e tucanos receberam a maior parte das contribuições financeiras das empresas denunciadas na Lava Jato.
Isso porque ambos atuam no mesmo jogo, com as mesmas regras.

Só é complicado querer aplicar uma espécie de seletividade moral entre uns e outros.

Quando a Câmara de Deputados teve a chance de modificar a legislação de financiamento de campanha, proibindo o pagamento de empresas privadas, a bancada inteira do PSDB apoiou o projeto de Eduardo Cunha que constitucionalizava doações de pessoas jurídicas. Numa primeira votação, a maior resistência foi exibida por dois parlamentares que se abstiveram. Na segunda votação, eles foram enquadrados e votaram com a maioria. (O mineiro Julio Delgado votou contra o financiamento de empresas).

Enquanto isso, ao lado do PSOL e do PC do B, bancada do PT liderou o esforço para tentar proibir contribuições privadas. Chegou a bater as portas do Supremo para tentar anular a segunda votação, favorável as empresas, mas que feria uma cláusula constitucional.

O episódio, ocorrido há exatamente um mês, mostra que, em vez de julgamentos morais, é mais produtivo perguntar: quem se colocou do lado certo quando surgiu uma oportunidade única para fechar a principal porta de entrada da corrupção em nosso sistema político?