Coluna: Ao sabor dos arranjos

Jogadores e dirigentes do Cruzeiro são injustos ao criticar o árbitro Sandro Ricci pela atuação desastrosa de sábado, no Pacaembu. Ele não pode ser acusado de único benfeitor corintiano no campeonato. Logo no começo, quando ninguém estava dando maior importância aos jogos, aconteceram alguns erros de arbitragem tão cabeludíssimos quando o de Ricci.

O mais escandaloso foi no jogo Corinthians x Atlético-PR, quando o carioca Marcelo de Lima Henrique inventou um pênalti sobre Ronaldo, dando um jeito de desempatar partida chata e difícil para o Timão dentro de casa. 

Seguiram-se outras falhas gritantes nas rodadas posteriores, mas sempre passava em brancas nuvens, quase ninguém chiava. Fui anotando e observando o quanto esses detalhes beneficiavam o Corinthians, cuja prioridade máxima é a conquista do título nacional no ano do centenário. Muito em função dessas ajudas, o alvinegro paulista liderou grande parte da competição.

Depois da Copa, quando todos os olhos se voltaram para o Brasileiro, as arbitragens melhoraram, diminuindo os erros grosseiros. Coincidência ou não, o Timão desabou e chegou a ficar de fora dos três primeiros lugares. 

No atual momento, quando o torneio se afunila, reaparecem os equívocos que muitos atribuem a falhas de interpretação. Curiosamente, o detalhe interpretativo só favorece o Corinthians. No primeiro tempo, num lance confuso na área, Tiago Ribeiro disputou bola com o goleiro Júlio César e foi ao chão. O árbitro não deu o penal, interpretando que o atacante não foi derrubado. Achei que ele acertou na avaliação.

Depois, aconteceram três marcações de impedimento que prejudicaram os cruzeirenses e duas inversões de falta junto à área corintiana. Mas o pênalti sobre Ronaldo foi desses lances que parecem escritos nas estrelas. Antes de Jorge Henrique cruzar a bola na área, comentando o jogo na Rádio Clube, fiquei pensando que um lance duvidoso qualquer podia acabar decidindo o clássico. Não deu outra. Sandro Ricci realmente decidiu a parada, dando ao campeonato tintas ainda mais turvas, principalmente pela histórico auxílio que o Corinthians recebe das arbitragens no Brasil.

Acontece que o Fluminense, prejudicado indiretamente pela marcação, não pode nem reclamar. Carlos Eugênio Simon (sempre ele) também arranjou um penal em favor do Tricolor. Rodriguinho enrolou as pernas e cavou a falta, evitando a derrota sobre o vice lanterna Goiás.   

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Tive o privilégio de trabalhar com Cláudio Guimarães, sábado, comemorando seu 50º ano de carreira no rádio paraense. Trata-se de uma vida dedicada ao ofício de narrar futebol, com competência e seriedade. Todas as honras a esse grande bragantino, que dignifica a profissão e empresta seu talento também ao nosso Bola, assinando prestigiada coluna na página 2 do caderno. Sou admirador de seu trabalho desde os tempos em que ouvia a PRC-5 lá em Baião. Tenho a sorte de poder dar agora o meu abraço de parabéns pessoalmente.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 15) 

Pênalti à moda Pacaembu beneficia o Flu

Por Mauro Cezar Pereira, da ESPN

No início do segundo tempo de Fluminense x Goiás, escrevi no twitter: “Fluminense se complicando. Será que teremos algum “pênalti à brasileira com molho à moda Pacaembu” no Engenhão?”. Tivemos. Rodriguinho sentiu que encostaram nele e… caiu, claro. Como fizera nos 2 a 1 sobre o Vitória, em Salvador. É um dos jogadores cai-cai que vão se criando na terra dos penais à brasileira. Jamais disse ou escrevi que pênaltis mal marcados são exclusividade do futebol jogado no Brasil, ou que na Europa isso não acontece. É claro que lá também são marcadas penalidades absurdas.

O problema está na quantidade, de faltinhas e pênaltis, e especialmente na tolerância com esse tipo de marcação. E é essa tolerância que faz tais decisões dos árbitros se multiplicarem. O pênalti a favor do Fluminense só não foi tão revoltante quanto o dado para o Corinthians no dia anterior porque não era um jogo entre dois candidatos ao título. Nem por isso o valente Goiás deixou de ser castigado duramente. Os tricolores mereciam perder!

Mas o castigo maior foi dado ao Cruzeiro, que entre os três candidatos ao título foi o que melhor se apresentou no fim de semana. E o que se deu mal de verdade. Poderia, no mínimo, estar ao lado dos dois rivais em pontos ganhos. Mas agora se vê a dois dos tricolores e a três dos corintianos. Tudo por causa de pênaltis à brasileira. Penalidades máximas que aparecem no Engenhão, no Barradão, em Minas Gerais, contra e até a favor dos cruzeirenses. E um erro não justifica outros, claro. Mas que no estádio da capital paulista têm sido mais frequentes, como detalhei no post anterior – clique aqui e leia. E esse molho à moda Pacaembu é duro de engolir, causa indigestão. Ainda mais sábado e domingo. Haja antiácido para o torcedor Celeste.

Coluna: Sob o peso da suspeita

A lisura das competições vem sendo duramente questionada e o a justiça dos resultados está sempre sob ataque. Além da trapaça das drogas dopantes e anabolizantes, há truques mais prosaicos, como subornos e arranjos de gabinete. Boxe, ciclismo, atletismo, vôlei, automobilismo e futebol são os esportes sob maior grau de suspeita, embora rigorosamente nenhuma modalidade esteja a salvo de desconfianças.
O futebol, pelo nível de popularidade e alta taxa de paixão envolvida, é o que mais gera especulações, nem sempre comprovadas. Talvez pelos episódios polêmicos ocorridos na Copa do Mundo, principal evento futebolístico do planeta. Observado pelo mundo inteiro, o torneio de vez em quando contribui para reforçar antigas crenças.
As teorias conspiratórias, que sacudiram o mundial de 1978, na Argentina, encontraram eco 20 anos depois na edição francesa, quando o brasileiro Ronaldo viu-se no centro de um verdadeiro furacão. Convulsões, desmaios e até sonambulismo foram mencionados como causas do estranho apagão do maior atacante do planeta no jogo final. Prato cheio para os desconfiados de plantão, com efeito multiplicador sobre os demais campeonatos disputados em escala menor no planeta.
No Brasil, pátria da boataria, nenhuma disputa se encerra sem que alguma dúvida seja lançada. Em 2005, houve o célebre caso Edilson Pereira de Carvalho. Depois de vários jogos repetidos, o Corinthians sagrou-se campeão, com arbitragem extremamente favorável no confronto com o Internacional.
Há dois anos, um árbitro (Vagner Tardelli) foi substituído na véspera da decisão do Brasileiro porque circulou a informação de que teria sido subornado por um dos finalistas (o São Paulo). Coincidência ou não, o juiz antecipou a aposentadoria e de imediato virou consultor de arbitragem.
Em 2009, o Flamengo conquistou o título após sensacional arrancada no segundo turno. Nem assim sua façanha foi imune à controvérsia. Na reta final, superou um Corinthians claramente desinteressado, com direito até a goleiro se esquivando de defender cobrança de pênalti. Para coroar, enfrentou um time misto do Grêmio na última rodada.
Desta vez, surge a cisma de que rivais paulistas do Corinthians resolvam também se desinteressar em partidas cruciais diante do Fluminense, desequilibrando por completo a disputa e emprestando ao nosso futebol definitivamente a marca da suspeita.          
 
 
Por tradição, decisões do STJD costumam gerar mais confusão do que merecer aplausos. A lambança está instaurada na Série D com a punição aplicada ao América-AM, que perdeu três pontos e fica alijado do torneio. Quem deve lucrar é o Madureira (RJ), passando à condição de finalista. Mas, diante da brusca mudança, como fica o Guarani (CE), que conseguiu um empate fora de casa no primeiro jogo da final? O time baré perdeu os pontos por incluir um zagueiro na lista de relacionados para o jogo contra o Madureira. Detalhe: o jogador nem entrou em campo. 

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 14)

A frase certeira

“Você não está jogando uma partida comum. Era uma decisão. Eu votei nele [árbitro] como melhor do campeonato, mas vou pedir para rasgarem meu voto. Hoje eu tive a maior decepção no futebol. Não só pelo pênalti, que não existiu. 35 rodadas completadas e tudo jogado fora. Foi um jogo de seis pontos, quem ganhasse ficaria perto do título, mas a partida não foi decidida em campo. Colocaram o Corinthians com uma mão na taça. Eu vou falar para o Fluminense, para o pessoal do Rio de Janeiro, abrir o olho”.

Do técnico Cuca, do Cruzeiro, depois do jogo contra o Corinthians, no Pacaembu.

Alemão é o mais jovem campeão da F-1

Da Folha SP

O alemão Sebastian Vettel, da equipe Red Bull, fez o que dele se esperava no GP de Abu Dhabi: venceu. Além disso, contou com a sorte e com o fraco desempenho de seus concorrentes diretos ao título, e sagrou-se campeão do Mundial de F-1 em 2010, o mais jovem da história, com apenas 23 anos. Com a vitória, Vettel chegou aos 256 pontos, quatro a mais que o vice-campeão Fernando Alonso, da Ferrari, que ficou apenas em sétimo lugar. Foi a primeira vez que o jovem piloto alemão assumiu a liderança do campeonato. O companheiro de equipe de Vettel, o australiano Mark Webber, fez uma corrida discreta. Ficou com a oitava posição e terminou o campeonato em terceiro, com 242 pontos. Lewis Hamilton, da McLaren, o último piloto que ainda tinha chances de título, conseguiu uma boa segunda colocação na prova, mas não ameaçou a conquista de Vettel.

Vettel ingressou na categoria, em 2007, como piloto da Toro Rosso e chegou a ser comparado ao compatriota Michael Schumacher, heptacampeão da modalidade. “Não tenho ídolos tão grandes. O Michael [Schumacher] era meu ídolo, mas ele não é muito grande, tem só 1,75 m [risos]”, brincou. Vettel, nascido em 3 de julho de 1987, na cidade de Heppenheim, já era terceiro piloto da equipe BMW Sauber desde o GP da Turquia de 2006, quando se tornou o homem mais jovem a participar da F-1, mesmo que ainda não tivesse disputado uma corrida pela categoria. Em meados de 2008, Vettel foi oficialmente anunciado como novo piloto da Red Bull para 2009, em substituição ao escocês David Coulthard, que encerrou sua carreira no fim daquele ano. A primeira vitória do alemão veio ainda na Toro Rosso, no GP da Itália, quando se tornou, ao mesmo tempo, o piloto mais jovem a fazer uma pole position e a vencer uma corrida, na época ainda com 21 anos.

Recordista de pole positions em 2010, com dez, Vettel faz questão de não ter empresários gerenciando sua carreira. Classificação final da corrida em Abu Dhabi:

1. Sebastian Vettel – Red Bull
2. Lewis Hamilton – McLaren
3. Jenson Button – McLaren
4. Nico Rosberg – Mercedes
5. Robert Kubica – Renault
6. Vitaly Petrov – Renault
7. Fernando Alonso – Ferrari
8. Mark Webber – Red Bull
9. Jaime Alguersuari – Toro Rosso
10. Felipe Massa – Ferrari

Arbitragem amiga garante triunfo corintiano

Operaram a Raposa no Pacaembu. Não teve nem disfarce. Soprador de apito cumpriu sua missão e o Coringão segue firme na briga pelo título do centenário. Foi assim em quase todo o primeiro turno, com várias vitórias suspeitas. É assim ao longo da história.

Fazendo churrasco das vacas sagradas do cinema

Por André Barcinski

A revista inglesa “Uncut” tinha uma seção que eu adorava: “Sacred Cows”, ou “Vacas Sagradas”, em que eles faziam picadinho do trabalho de unanimidades da música, arte e literatura. Orson Welles, The Clash, Neil Young, Miles Davis, todos foram vítimas. Era sensacional. Mesmo que você não concordasse com uma palavra dos textos, era encorajador ler algo que fugia da idolatria cega. Fiquei pensando em fazer algo parecido por aqui. E começar pelo cinema.  Aí vai, portanto, uma listinha de sete vacas sagradas das telas que, na minha opinião, merecem virar churrasco. Faça sua lista e compare:

2001 – Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) – Perguntar não ofende, certo? Então aí vai uma pergunta para quem diz que “2001” é um dos maiores filmes já feitos: você realmente viu o filme, ou leu em algum lugar que era grandioso e resolveu abraçar a causa? Se assistiu, achou agradável os 100 minutos sem diálogos? Se emocionou com uma história que não vai a lugar nenhum e não tem clímax? Ou achou uma das experiências mais entediantes e pretensiosas? Se você não suporta “2001”, saiba que não está sozinho: Pauline Kael chamou-o de “o maior filme amador já feito”, e Renata Adler definiu com precisão: “em algum lugar entre hipnótico e imensamente entediante”.

“O Grande Ditador” (Charles Chaplin, 1940) – Fui rever “O Grande Ditador” há uns quatro anos, no cinema. Confesso que não agüentei meia hora. Perdeu totalmente a força e a graça. “Ah, mas não dá para analisar uma comédia dos anos 40 pela perspectiva de um espectador moderno”, dirão alguns. “OK, então alguém me explica por que ‘Em Busca do Ouro’ e ‘Luzes da Cidade’ não parecem ter envelhecido um dia sequer?

“Cinema Paradiso” (Giuseppe Tornatore, 1988) – Piegas, brega e previsível, apela aos sentimentos mais rasteiros com uma cara-de-pau digna de novela mexicana. Tudo – a música, as atuações histriônicas, o clima de realismo mágico, a nostalgia de cartão postal – é irritante.

Beleza Americana (Sam Mendes, 1999) – O filme mais careta, disfarçado de transgressor. A vida de Kevin Spacey é uma monotonia só, até que ele decide mandar tudo pro espaço e “enlouquece”: dá uma banana pro emprego, dá em cima da amiga da filha e – oh, o horror! – até fuma maconha. Mas, na melhor tradição fatalista de Hollywood, acaba levando uma bala na cabeça. Quem manda abandonar a vidinha classe média, Kevin?

“La Strada” (Federico Fellini, 1954) – Como “Cinema Paradiso”, é uma pieguice só, disfarçada de drama neorrealista. Giulieta Masina faz uma menina que é vendida pela mãe para um artista de circo (Anthony Quinn). O resto é só clichê de dramalhão: o maldoso explora a menina que, inocente, cura sua melancolia trabalhando de palhaça no circo. Diabetes a 24 quadros por segundo.

Blow Up – Depois Daquele Beijo (Michelangelo Antonioni, 1966) – Uma relíquia dos anos 60, que deveria ter ficado por lá. Na época, foi visto como um mergulho na loucura e hedonismo da “Swinging London”. Hoje, é puramente ridículo. Impossível não rir com os mímicos jogando tênis ou correndo pelas ruas fazendo algazarra. Difícil acreditar que “Blow Up” já foi considerado sexy e ousado. O que o tempo não faz…

Gran Torino (Clint Eastwood, 2008) – Um velho racista, misógino e fracassado destila seu veneno contra os imigrantes que infestam seu bairro, outrora um paraíso de tranqüilidade e eugenia. Já vimos esse filme antes: chamava-se “Desejo de Matar”, era estrelado por Charles Bronson e foi considerado uma apologia do fascismo. Corta para 2008: Clint Eastwood faz um filme igualzinho, com a diferença que, no fim, ele tem uma recaída moralista e se sacrifica como uma Joana D’Arc moderna. Pelo menos “Desejo de Matar” tinha um charme kitsch, que Clint disfarça como uma lição de humanismo. De doer.