Repórteres (da Folha SP) no pelourinho

Por Leandro Fortes

A direção da Folha de S.Paulo, simplesmente, autorizou a um elemento estranho à redação (mas não aos diretores), o sociólogo Demétrio Magnoli, a chamar de “delinquentes” dois repórteres do jornal, autores de matéria sobre a singular visão do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) da miscigenação racial no Brasil. Vocês, não sei, mas eu nunca vi isso na minha vida, nesses 24 anos de profissão. Nunca. Por tabela, também o colunista Elio Gaspari, que desceu a lenha no malfadado discurso racista de Demóstenes Torres, acabou no balaio da delinquencia jornalística montado por Magnoli.

Das duas uma: ou a Folha dá direito de resposta aos repórteres insultados (Laura Capiglione e Lucas Ferraz), como, imagino, deve prever o seu completíssimo manual de redação, ou encerra as atividades. Isso porque Magnoli, embora frequente os saraus do Instituto Milleniun, não entende absolutamente nada de jornalismo e confundiu reportagem com opinião. A matéria de Laura e Lucas nada tem de ideológica, nem muito menos é resultado de “jornalismo engajado” (contra o DEM, na Folha??). A impressão que se tem é que houve falha nos filtros internos da redação e deixaram passar, por descuido ou negligência, uma matéria cujas conseqüências aí estão: o senador Torres, sujeito oculto da farsa do grampo montada em consórcio entre a Veja e o STF, virou, também, o símbolo de um revisionismo histórico grotesco, no qual se estabelece como consensual o estupro de mulheres negras nas senzalas da Colônia e do Império do Brasil.

A reação interna à repercussão de uma matéria elaborada por dois repórteres da sucursal de Brasília, terceirizada por Demétrio Magnoli, é emblemática (e covarde), mas não diz respeito somente à Folha de S.Paulo. O artigo “Jornalismo delinquente”, publicado na edição de hoje (9 de março de 2010), na página de opinião do jornal, nada tem a ver com políticas de pluralidade de opiniões, mas com intimidação pura e simples voltada para o enquadramento de repórteres e editores, e não só da Folha, para os tempos de guerra que se aproximam. A recusa de Aécio Neves em ser vice de José Serra deverá jogar o DEM, outra vez, no vácuo dos tucanos, a reviver a dobradinha iniciada entre Fernando Henrique Cardoso e o PFL, de triste lembrança. O imenso mal estar causado pela fala de Demóstenes Torres na tribuna do Senado Federal, resultado do trabalho rotineiro de dois repórteres, acabou interpretado como inaceitável fogo amigo. Capaz, inclusive, agora, de a dupla de jornalistas correr perigo de empregabilidade, para usar um termo caro à equipe econômica tucana dos tempos de FHC.

Demétrio Magnoli, impunemente, chama a reportagem da Folha de S.Paulo de “panfleto disfarçado de reportagem”, afirmação que jamais faria, e muito menos a publicaria, sem autorização da direção do jornal, precedida de uma avaliação editorial e política bastante criteriosa. O fato de se ter permitido a Magnoli, um dos arautos da tese conceitualmente criminosa de que não há racismo no Brasil, insultar dois repórteres e o principal colunista da Folha, em espaço próprio dentro de uma edição do jornal, deixa a todos – jornalistas e leitores – perplexos com os rumos finais da velha mídia e de seu inexorável suicídio editorial em nome de uma vingança ideológica, ora baseada em doutrina, ora em puro estado de ódio racial e de classe.

9 comentários em “Repórteres (da Folha SP) no pelourinho

  1. Nada que vem da Chamada ” PIG” me surpreende !

    Todo mundo sabe que essa colocação foi proposital, com intenção de desqualificar a política social do governo federal!

    Cheguei a ler alguma coisa sobre isso:

    ” Só existiu escravidão porque existem negros”

    “A miscigenação brasileira não se consolidou por estupro e sim, consensual”

    Chega a ser ultrajante, essas frases!!

    Fico imaginando a postura de um Senador da República pensando dessa forma. Poderia até dizer que as palavras do parlamentar foram apenas infelizes…

    …..Não foram!!!

    Como em momento algum DEM, PSDB e seus vassalos tentam contribuir com a melhora do Brasil!…

    ….Não tentam!!!…

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    1. É, Alberto, e o tal Demóstenes é considerado a cabeça pensante do DEM, seja lá o que isso signifique dentro desse frankestein político herdeiro de ACM.

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  2. O senador Demóstenes até que provem ao contrário é um político íntegro, poucos na esfera da confiabilidade, portanto tudo não passa de armação ILTDA.

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    1. Inegro como o Arruda.

      O Serra até poderia repetira sua célebre frase:

      “Vote em um careca e leve dois!”

      Ele sempre acerta nas suas escolhas, né? …(ironic mode)

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  3. Houve casos de consensualidade sim. O mais emblemático foi protagonizado pelo honorável Thomaz Jefferson, iniciado em Monticello e continuado em Paris. Público mas não sacramentado.

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  4. Que esperar de um jornal que cedeu seus carros de reportagem para que esbirros da ditadura perseguissem desafetos do regime milico?
    Nada além do que ele oferece: racismo, direitismo, facciosismo, sectarismo e canalhice, pois não se tem notícia de outro jornal que tenha recorrido a alguém de fora do jornal para chamar seus repórteres de delinquentes.

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  5. Jornal do Brasil publica: Hoje

    Sociedade desfibrada

    Aristóteles Drummond

    A elite brasileira sempre soube cumprir com o seu papel perante a história. Defendeu posições coerentes com uma nação civilizada e compromissada com a ordem e o progresso, divisa de nossa Bandeira. Assim é que o movimento da Independência foi uma realidade tal que influenciou o príncipe regente dom Pedro I desde o chamado Dia do Fico, oito meses antes da proclamação do Ipiranga.

    A estabilidade obtida a duras penas, até a maioridade e ao longo de 49 anos do Segundo Reinado, nos deu progresso e uma respeitada presença internacional. O processo da abolição foi lento, gradual mas seguro e, por fim, reuniu a maioria do pensamento nacional. Joaquim Nabuco, o abolicionista maior, cujo centenário da morte está sendo lembrado, nunca deixou de respeitar e admirar a família imperial, a começar pelo seu chefe.

    Assim foi na Primeira República, com a conscientização da necessidade de se construir um grande país, nos sonhos dos jovens do 18 do Forte, dos movimentos de 24 e com a Revolução de 30. Neste último, assumimos a maioridade com Vargas, nos seus 15 anos de bom-senso e segurança, com as bases do progresso social e econômico que passamos a ter, entre as maiores taxas do mundo até 1985. Uma evolução permanente, com respaldo popular, no caso de Vargas confirmada em sua volta em 50.

    Os anos JK contaram com barulhenta oposição, mas tiveram o reconhecimento da história com grande velocidade. Quando estávamos na beira do caos, em 64, os civis, empresários, políticos e intelectuais, quase toda a imprensa , agiram fortemente no sentido de forçar a manifestação dos militares. Estes salvaram a ordem e promoveram o progresso, enfrentando, como tantos outros países, a oposição radical e sangrenta dos movimentos revolucionários além da crítica dos liberais que não entenderam a gravidade da ameaça de o país mergulhar na ingovernabilidade e interromper um processo de grande desenvolvimento econômico e social.

    O Brasil tornou-se moderno, competitivo, potência econômica no regime militar, com a orientação de talentosos brasileiros como Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen, Delfim Netto, Ernane Galveas, Hélio Beltrão, Mário Andreazza, César Cals, João Camilo Pena e outros tantos. O trabalhador teve o FGTS e o plano habitacional; o homem do campo, o Funrural; a estrutura de governo foi reformada; houve investimento em grandes obras nos setores de energia, transportes e telecomunicações. Tudo com participação da sociedade, apoio externo e austeridade.

    Agora, vivemos um momento grave, com investidas de inimigos da liberdade de imprensa, propostas que ferem o sentimento religioso (e, sobretudo, cristão) do povo brasileiro. Hostilidades aos nossos mais tradicionais aliados e gestos de generosidade com ditadores que fariam corar o velho Barão do Rio Branco. O cerco à livre iniciativa pela via fiscal, regulatória, ambiental e até a criação de áreas sem controle entregues a indígenas e não se sabe a quem… Isso tudo deveria provocar uma reação da elite, se ela ainda existisse.

    Estamos sem voz para alertar a sociedade e o próprio governo, no seu segmento mais responsável. Os políticos imaculados são cada vez mais raros, as penas vibrantes de indignação raras e o pensamento militar muito asfixiado, embora vivo nas palavras de oficiais como os generais Augusto Heleno e Santa Rosa. Mas é muito pouco perto da dimensão do que nos ameaça.

    Devemos procurar substitutos para Oscar Correa, Bilac Pinto, Silvio Heck, Odilo Denis, Eduardo Gomes, Rui Gomes de Almeida, Gilberto Huber… Políticos, militares e empresários que salvaram o Brasil quando este correu perigo.

    Aristóteles Drummond é jornalista.

    Berlli: Jorge as opiniões de divergem provando que a moeda tem dois lados.

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  6. Abstraímos do texto de Arístoteles Drumond, jornalista, que estamos sem voz e que politicos imaculados são cada vez mais raros e que sempre buscamos nossos valores na elite brasileira.
    Acho que a a maioria silenciosa ou a voz rouca das ruas está começando a ser o pendulo nessa era de aquario, onde a verdade começa a vir a tona intimorata desnudando a roupa invisível dos antigos reis e faraós.

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