Existem duas modalidades de bad boys no futebol, os vitoriosos e os fracassados. Sobre os perdedores nem é preciso entrar em detalhes, pois as histórias são bem conhecidas. Por outro lado, quanto aos razoavelmente bem-sucedidos, a quantidade não chega a ser significativa.
Dá para enumerar rapidamente alguns poucos que alcançaram expressivo destaque, capaz de superar até a má fama. Heleno de Freitas, Paulo César Caju, Maradona, Gascoigne, Cantona, Marinho Chagas, Edmundo, Romário… e ficamos por aí.
Recentemente, o paraense Jobson, 22 anos, caiu nos exames de antidoping depois de marcante aparição com a camisa do Botafogo no Brasileiro 2009. Flagrado, confessou o uso de drogas e viu desmoronar um polpudo contrato com o Cruzeiro e a expectativa de expandir os horizontes profissionais.
Suspenso por dois anos, não se tem notícia do que Jóbson faz para enfrentar a dependência, lado mais preocupante do mergulho nas sombras provocado pela punição. O Botafogo abriu-lhe as portas para treinar e conviver com o grupo de jogadores, mas talvez seja necessário um acompanhamento mais específico.
Não cabe aqui estabelecer juízo de valor sobre as circunstâncias que direcionam um atleta para caminhos tortuosos. Resta aos de fora observar a repetição sistemática de histórias de fracassos envolvendo jovens boleiros, cujas carreiras são abreviadas pela ausência de estudo, orientação profissional ou mesmo de boas e verdadeiras amizades.
Fabrício, garoto bom de bola descoberto em amistoso mambembe do Paissandu pelo interior paraoara, em 2008, cumpriu rápida trajetória entre o anonimato e a súbita fama, só possível mesmo no universo imediatista e movediço do futebol.
Nem bem mostrou atributos para ser titular do time na Série C, virou esperança de redenção financeira para o clube. Vendido por cifra até hoje imprecisa (R$ 400 mil ou R$ 2,5 milhões?), Fabrício pulou do coração da Amazônia para um ponto qualquer da velha Europa, sem tempo para adaptação a hábitos e cultura.
Como era previsível, não se encontrou no novo endereço. Voltou, clandestino, para os braços de seu povo no interior paraense. Chegou a circular a história de que teria fugido da Turquia, rompendo contrato com o clube local.
Eis que, dois anos depois de sua aparição em Belém, o Paissandu consegue repatriá-lo para que ajude a transformar o caótico meio-campo atual num compartimento razoavelmente criativo e eficiente. Fabrício tem credenciais para isso. Sabe passar, driblar, chutar e fazer gol. Como é jovem, deve encarar a nova chance como o efetivo começo da carreira. Há tempo ainda. E esta é, felizmente, uma das grandes vantagens da juventude. A oportunidade, aparentemente inesgotável, de reiniciar e apagar antigos erros.
Toda sorte (e juízo) ao bom Fabrício.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 12)