
Capa do Bola – terça-feira, 23



George Weah, eleito melhor jogador do mundo em 1995 quando defendia o Milan, prestou juramento nesta segunda-feira (22/1) como presidente da Libéria diante de milhares de partidários, na primeira transferência de poderes entre dois presidentes eleitos neste país desde 1944.
Weah, de 51 anos, prestou juramento ao meio-dia diante do presidente da Suprema Corte, Francis Korkpor, no maior estádio da Monróvia, lotado, constataram jornalistas da AFP. A influente senadora Jewel Howard-Taylor, eleita vice-presidente de Weah, ex-esposa do chefe de guerra e presidente Charles Taylor (1997-2003), também prestou juramento.
Weah prometeu emprego e educação no país africano, 15 anos após atrozes guerras civis (1997-2003), que deixaram 250 mil mortos.
“Passei muitos anos da minha vida nos estádios, mas o que sinto hoje é incomparável”, disse ele depois de prestar juramento no estádio Samuel Kanyon Doe, nome do ex-presidente do país (1980-1990), o único que não pertencia à elite “americano-liberiana”, descendente de escravos libertos nos Estados Unidos e que dominou a vida política nacional por 170 anos.
“Unidos, temos a certeza de alcançar o sucesso como uma nação. Divididos, temos a certeza do fracasso”, advertiu, referindo-se à guerra civil. O ex-jogador de futebol sucede a Ellen Johnson Sirleaf, a primeira mulher eleita chefe de Estado na África em 2005, que deixa o poder após dois mandatos consecutivos de seis anos cada.
Vários chefes de Estado de países vizinhos participaram do evento, que também contou com a presença de amigos e ex-jogadores de futebol de Weah, ex-estrela do Monaco, Paris-Saint-Germain e Milan.
Weah conquistou o Bola de Ouro em 1995, sendo o único africano a vencer este prêmio que distingue todo o ano o melhor jogador do planeta. Depois de uma derrota durante sua primeira candidatura à Presidência em 2005 contra Sirleaf, ele conseguiu transferir sua popularidade para o cenário político e se tornou senador em 2014.

“Esta é a primeira vez que assisto a uma transferência pacífica de poder na Libéria”, disse Samuel Harmon, um vendedor de rua de 30 anos. “Toda a esperança deste povo depende dele (Weah). Todos pensam que, se ele falhar, a maioria das pessoas ficará desapontada com os políticos”, completou Harmon.
Pressão
Nos seus 12 anos à frente do país, Sirleaf conseguiu manter a paz após as guerras civis que deixaram cerca de 250 mil mortos entre 1989 e 2003. Em relação às reformas econômicas e sociais, porém, seu balanço é menos brilhante, e a pobreza extrema se espalhou no país, um dos piores Estados do mundo em termos de saúde, educação e desenvolvimento.
Durante uma missa realizada no domingo na Monróvia, Weah e Sirleaf mostraram sua unidade após uma campanha eleitoral difícil. Derrotado por Weah no segundo turno em 26 de dezembro, o vice-presidente em final de mandato, Joseph Boakai, denunciou em um primeiro momento fraudes nas eleições.
Seu recurso judicial adiou a realização do segundo turno e, portanto, reduziu o período de transição. O novo presidente teve apenas um mês para formar sua equipe de governo. A posse “implica continuidade e também uma resposta aos desafios da Libéria”, disse o ex-presidente Sirleaf à AFP no domingo.

Weah terá de impulsionar a transformação de uma economia deprimida e que depende, em grande medida, da borracha e do minério de ferro, além de tentar atender às expectativas dos jovens que o levaram ao poder.
“Eles querem me ver como um ex-jogador de futebol, mas sou um ser humano. Tento ser excelente e posso ter sucesso”, declarou no sábado (20/1), reafirmando que sua prioridade é manter a paz.
Alguns observadores duvidam, no entanto, de sua capacidade de combater a corrupção endêmica no país. “Ele está sob a pressão de vários círculos eleitorais, e é improvável que nomeie um pequeno governo de especialistas, como anunciou após sua vitória”, aponta o analista político Malte Liewerscheidt.
Os nomes que circulam “indicam claramente que vamos ver o pagamento de dívidas políticas, o que sugere a continuação de certas práticas, em vez de uma nova era política na Libéria”, acrescentou. (Do Chuteira F.C., com AFP)

POR FERNANDO BRITO, no Tijolaço
Se alguém contasse a você a história de um reino distante no tempo e no espaço onde cinco pessoas tivessem mais de que 102 milhões se súditos você pensaria em potentados árabes e escravos suando sob sol e chibata.
Mas esse reino é aqui e agora.
A Folha publica hoje dados da distribuição de renda no mundo e nada de novo há senão a aberração que muitos passaram a achar “normal”: 82% de toda riqueza gerada em 2017 ficou nas mãos do 1% mais rico do mundo”, enquanto a metade da humanidade – 3,7 bilhões de pessoas – ganhou, literalmente, nada, exceto ima vida miserável.
Mas não é possível deixar passar o recorte destacado pela repórter Fernanda Mena, informando que os cinco homens mais ricos do Brasil ficam com uma renda igual ao de 102 milhões de brasileiros. São os da fileira de cima da foto e, apesar de não ter os números, acho que com os cinco da fileira de baixo devemos chegar perto de representarem a mesma renda de 153 milhões de almas verde-amarelas.
Para ficar bem claro: cada um dos cinco “vale” por 20,5 milhões de pessoas.
Mas são eles, reza o mantra neoliberal, os que nos sustentam com seus impostos, não é? Eles é que dão dinheiro ao estado para filantropias como a Bolsa Família que, no dizer do rechonchudo Rodrigo Maia, “escraviza” os pobres.
Só que não. Diz o jornal que “os 10% mais pobres do país gastam 32% de sua renda em tributos, a maior parte deles indiretos (sobre bens e serviços), e os 10% mais ricos gastam 21%.” E eu duvido deste dados, porque é provável que se esteja somando aí impostos pagos por empresas e repassados aos consumidores.
Ah, mas os ricaços são ricaços porque trabalharam muito e com enorme talento. De novo, nem sempre: “O relatório global da Oxfam aponta que cerca de um terço das fortunas dos bilionários do mundo provém de heranças ou de relações entre empresários e governos.”
Um professo explica lá na matéria que “nossa desigualdade é mais ligada a problemas estruturais, como falta de educação pública de qualidade e o fato de os servidores públicos, ativos e inativos, ganharem muito mais que o restante da população”
Ah, “fessor”, desculpa aí, mas por mais que haja deformações inaceitáveis com alguns privilegiados – togados, fardados ou “paletozados” – o dinheiro que ganham não tamparia nem o buraco da cárie de turma que não é do andar de cima, é da cobertura. Isso se eles tivessem cáries.
Eles são nada, em matéria de dinheiro perto dos megarricos. Embora, é verdade, tenham uma importância imensa para eles. Afinal, são os feitores que os protegem, que os adulam, que lhes fazem as vontades na política e mantêm a ordem no porão.

A manhã da segunda-feira (22) começou com cerca de três mil manifestantes cruzando a Ponte do Guaíba, em Porto Alegre, em defesa do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. “Não vamos aceitar, o Brasil vai parar”, cantavam em caminhada para o Anfiteatro Pôr do Sol, nas imediações do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), onde um acampamento está sendo montado pelos movimentos sociais para acompanhar o julgamento de Lula.
“O fundamental de toda essa mobilização é que o povo brasileiro protagonize um processo de resgate da democracia que foi golpeada em 2016”, disse o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra. A marcha contou com o apoio de movimentos ligados à Frente Brasil Popular, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), Via Campesina, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Levante Popular da Juventude, entre outras organizações.

Pouco depois das 8h, os manifestantes cruzaram a Av. da Legalidade e da Democracia e chegaram à Avenida Mauá. Próximos da prefeitura, cantavam pela liberdade de Lula para que possa ser candidato nas próximas eleições e contra o governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori (MDB) e o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr. (PSDB). “Se a classe trabalhadora não tiver candidato, a eleição é uma hipocrisia”, defende João Pedro Stédile, membro da direção nacional do MST.
A caminhada seguiu pela Borges de Medeiros, com rumo à Ipiranga e com destino final no Acampamento pela Democracia e em Defesa do direito de Lula, montado no Anfiteatro Pôr do Sol.

Julgamento
Na quarta-feira (24), em Porto Alegre, a 8ª Turma do TRF-4 decidirá se mantém ou não a condenação a 9 anos e 6 meses de prisão imposta pelo juiz federal Sergio Moro em julho de 2017. Em 2016, o Ministério Público Federal denunciou Lula por ter recebido R$ 3,7 milhões em propinas por meio de um apartamento triplex.
Diversas mobilizações foram organizadas ao longo da semana para compor o calendário em apoio ao ex-presidente:
Segunda – 22 de janeiro
18h- Ato de Juristas e Intelectuais em defesa da Democracia, no auditório da Fetrafi-RS (Rua Fernando Machado, 820), no centro da Capital;
Terça – 23 de janeiro
9h – Plenária das Mulheres pela Democracia e pelo Direito de Luta ser Candidato, com as presenças da presidente deposta Dilma Rousseff e da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), dentre outras, no Teatro Dante Barone, na Assembleia Legislativa do RS.
14h – Ação Global AntiDavos, com a participação dos senadores Paulo Paim (PT-RS) e Roberto Requião (PMDB-PR), do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Edegar , dentre outros, no auditório Dante Barone na Assembleia Legislativa do RS
16h – Concentração para uma marcha na Esquina Democrática e Ato político cultural no acampamento da resistência
Quarta – 24 de janeiro
Vigília e ato público em frente ao TRF4

(Fotos: Joana Berwnager/Sul21)
Mais informações podem ser encontradas no site www.comlulaempoa.com.br

“Se o time tem defesa lenta, meio de campo que não cria e ataque que não chuta, não é melhor desfazer tudo e entrar com os da casa?”.
Edyr Augusto Proença, jornalista e escritor, sobre o jogo do Remo em Tucuruí
Por Mario Marona (*), no Facebook
“O Brasil não tem uma imprensa independente.
O Brasil não tem uma imprensa isenta que não seja pobre, alternativa, e feita com o sacrifício pessoal de uns poucos jornalistas que abrem mão do conforto que poderiam dar às suas famílias para suprir a carência de informação confiável na mídia tradicional.
Como fazia a Última Hora, nos anos 50, como fez a “imprensa nanica” durante a ditadura.
Já é assim há muito tempo.
A imprensa brasileira formal é facciosa, venal e criminosa.
Liderou, apoiou ou sustentou politicamente as piores tragédias políticas e econômicas da história contemporânea do Brasil.

Não é apenas porta-voz do atraso, é por si mesma parte e causa do atraso.
A imprensa brasileira levou Vargas ao suicídio.
Destruiu a reputação de JK.
Derrubou Jango.
Propiciou a radicalização do golpe militar com o AI-5.
Permitiu, escondendo e distorcendo fatos, a tortura de milhares de militantes políticos de oposição.
Escondeu os crimes cometidos pela ditadura militar.
Além de omitir ou fraudar informações sobre os crimes da ditadura, ofereceu apoio logístico e veículos para a polícia política.
Fez aprovar uma anistia que perdoou assassinos de presos que estavam sob a custódia do estado.
Impediu as eleições diretas, quando o país já estava pronto para elas.
Promoveu uma eleição indireta de caráter conservador.
Inventou e elegeu Fernando Collor, derrubando-o depois, quando ele já não interessava mais ao poder.
Mentiu e manipulou para enfraquecer politicamente Leonel Brizola e impedi-lo de se eleger presidente da República.
Fraudou a lisura da disputa entre Lula e Collor no segundo turno daquela eleição.
Apoiou todos os planos econômicos liberais que empobreceram a população.
Sabia da compra da emenda da reeleição por Fernando Henrique Cardoso e silenciou.
Reelegeu Fernando Henrique quando o Plano Real já havia cumprido seu papel e o país afundava economicamente.
Criou o medo do agravamento da crise econômica para tentar impedir a eleição de Lula em 2002.
Superdimensionou e deturpou o mensalão, e intimidou o STF para que o PT passasse a ser odiado pela população.
Tentou impedir a reeleição de Lula, apesar de sua enorme popularidade.
Mentiu, criou denúncias falsas e cobriu de maneira facciosa a campanha que elegeu Dilma Rousseff em 2010.
Em 2013, apoiou enquanto julgou necessário os atos de protesto violentos e manipulados pela direita contra um governo democrático.
Cometeu todas as fraudes de informação possíveis e sequer imagináveis para forçar a vitória de Aécio Neves na eleição de 2014.
Liderou com o PSDB e a oposição conservadora a maior sabotagem econômica e política já cometida contra um governo na história, comparável apenas ao que havia feito contra Vargas.
Criou, com o boicote ao governo no Congresso e no mercado, o ambiente propício a queda da popularidade e do apoio a Dilma.
Convocou, apoiou abertamente e amplificou as manifestações de protesto contra o governo em 2015.
Transformou Eduardo Cunha no homem poderoso que acabaria por liderar no Congresso o impeachment da presidenta, escondendo da população a sua verdadeira face corrupta e criminosa, que já conhecia.
Por meio de notícias, colunas e comentários, pressionou o STF a fugir covardemente do papel de garantidor do cumprimento da Constituição, que poderia ter impedido um impeachment sem crime de responsabilidade e por motivos fúteis.
Apoiou abertamente o golpe de estado e está enganando a população sobre os verdadeiros efeitos desastrosos de todas as medidas regressivas que tem coagido o governo ilegítimo a adotar.
Inventou, exaltou e sustentou as arbitrariedades cometidas pela operação Lava a Jato, pelos procuradores de Curitiba e pelo juiz Sérgio Moro.
Dedicou-se com persistência, todos os dias e sem qualquer concessão ao pluralismo de opinião, a atacar a reputação de Lula, destruir sua imagem pública e induzir o Judiciário a condená-lo por crime do qual não existem provas.
Neste momento, defende a confirmação da condenação de Lula e pressiona o TRF a sujeitar-se aos seus interesses.
Trata como verdade inquestionável qualquer notícia negativa para Lula e esconde de seus leitores, ouvintes e telespectadores informações que possam ser favoráveis ao ex-presidente em sua luta legítima por absolvição.
Prepara-se, em desesperada busca por um candidato, para interferir e vencer a eleição deste ano.
É a maior produtora e reprodutora de notícias mentirosas ou parciais que causem danos à imagem de governos progressistas do Brasil e de qualquer país.
Inspirou, pelo exemplo de seu vocabulário crescentemente grosseiro contra adversários, a linguagem de esgoto que se tornou corriqueira nas redes sociais.
Vale-se da ignorância, da truculência, do preconceito e de impunidade das redes sociais para dar credibilidade às suas próprias mentiras.
Enquanto o Brasil não tiver uma imprensa independente e isenta, que sirva de alternativa e contraponto, será governado por uma imprensa inescrupulosa e canalha.”
(*) Mario Marona é jornalista

Por Kennedy Alencar, em seu blog
Os três desembargadores que julgarão o recurso de Lula terão desafio inédito na Lava Jato, porque analisarão sentença extremamente contestada por boa parte dos juristas e advogados, algo diferente de outras condenações de Moro que chegaram a Porto Alegre.
Há margem jurídica para absolvição, o que não é o comum nas sentenças que saem de Curitiba e chegam a Porto Alegre. As sentenças de Moro normalmente chegam redondas a Porto Alegre e são confirmadas na sua grande maioria pelos três desembargadores da 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, sediado em Porto Alegre. Agora, os três desembargadores receberam uma bola quadrada.
Advogados criminalistas apontam fragilidades da sentença de Sérgio Moro, como inversão do ônus da prova, condenação por fato que não consta da denúncia e incapacidade de provar a ligação entre a reforma no apartamento com três contratos da OAS com a Petrobras.
A decisão do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, se confirmada ou não, terá forte influência no rumo político do Brasil. Isso aumenta muito a responsabilidade dos desembargadores. Como há fragilidade jurídica na sentença, o correto seria a absolvição.
Quem quer uma condenação política e moral de Lula pode fazer isso nas urnas. Portanto, os desembargadores terão de fundamentar melhor as suas decisões, caso optem pela condenação. Diferentemente de casos em que delatores assumiram culpas e apresentaram provas, Lula contesta com argumentos jurídicos consistentes a condenação de Moro.

Depois da criticada atuação na derrota para o Independente, sábado, em Tucuruí, o time do Remo deve mudar novamente para o jogo desta terça-feira contra o Águia, no Mangueirão. O primeiro revés azulino não foi bem absorvido pela torcida, que constatou as muitas vulnerabilidades do time. Na prática, em nenhum momento o ataque azulino ameaçou o gol defendido por Paulo Rafael, salvo uma chegada de Jayme no segundo tempo.
O técnico Ney da Matta assumiu a culpa pelos erros, prometendo mudanças imediatas. Admitiu ter se equivocado nas modificações implementadas no meio-campo. “A gente quer movimentar aquilo que temos para depois ajustar o time. Não quero cometer injustiça com jogador para dizer depois que não teve chance de jogar”, considerou.
Acha, porém, que a derrota não foi causada pelas mudanças que fez, mas pelo gol sofrido logo a 2 minutos. “Aquele gol no início do jogo complicou tudo, atrapalhou toda a equipe. Infelizmente, não tivemos como nos recuperar. Faltou marcação e mais agilidade na saída de bola. Fomos presa fácil para o adversário. O time não teve como sair jogando. Foi inerte, deixou o Independente tomar conta do campo”.
Para enfrentar o Águia, Da Matta deve fazer novas mudanças, talvez voltando à escalação da estreia contra o Bragantino, a fim de conseguir a reabilitação. “Vamos trabalhar. Se for para mudar esquema, mudamos. Estamos aqui pra fazer esse time mais forte”, disse. Com a boa atuação, Jayme deve ser efetivado, pois Isac ainda está em condicionamento abaixo do ideal e Marcelo não conseguiu se encaixar, mesmo sendo o titular desde o primeiro jogo.
Time mais provável do Remo para amanhã: Vinícius; Levy, Bruno Maia, Martony (Mimica) e Felipe Recife; Geandro, Leandro Brasília e Andrey; Elielton, Jayme e Felipe Marques.

Por Marconi Severo*, no Pragmatismo Político
Em cada homem de ânimo fraco e não muito certo do êxito de sua tarefa surge uma necessidade torturante de se convencer, de se animar e acalmar. Ele começa até a acreditar em sinais propícios.
DOSTOIÉVSKI. Fiódor M. In: Notas de inverno sobre impressões de verão.
Atualmente encontramo-nos na Era da Informação. E nesta, através de redes virtuais de comunicação, é que assuntos da economia à política, da cultura à sociedade, e, não menos importante, da vida privada ao interesse público, ganham uma notoriedade ímpar (não entremos, todavia, no mérito da qualidade do debate). Assim como outros casos, o mundo virtual pode ser benéfico na mesma proporção que letal, dependendo unicamente de como é utilizado. A ambiguidade permanece, tanto mais que neste novo patamar impera uma frenética afetação de títeres made in Facebook.
Na sociedade atual, esta dubiedade virtual/real está de tal forma amalgamada que é impossível sequer cogitar uma distinção sociológica sem considerar a complexidade das relações sociais. Se o virtual d’outrora era alcançado, dentre outras opções, por meio de concentração espiritual (leia-se fé), hoje a tecnologia permite-nos que, em apenas um clique, um vasto leque de possibilidades se abra. E isto é excepcionalmente sublime, pois há uma comodidade ímpar para, dentro do conforto do lar, promover a insaciável busca pelo conhecimento e pelo prazer anímico.
No entanto, mesmo com esta relativa praticidade e, sob uma visão existencialista-filosófica, muitos atualmente fogem à introspeção reflexiva ou, em outras palavras, evitam de todas as formas possíveis o que erroneamente chamam de tédio. Sejamos mais práticos neste ponto, pois, salvo exceções, pode-se ao final do dia inferir o seguinte: o que acrescentei em minha vida, em meu conhecimento hoje? Se não houver uma resposta (e tanto pior se isto persistir), fora então diagnosticado o sintoma de um grave problema. Não obstante, o remorso causado pela negligência consciente tende a repercutir seriamente nas relações socais e psicológicas, individual e/ou familiar. Em outras palavras, uma hora a conta é cobrada…
Na sociedade atual, facilmente encontraremos uma pessoa alienada na mais pura abstração de “se fazer bem vista para os outros”. O exibicionismo sempre existiu, assim como sempre existirá; e também disto decorre a exponencial propagação de idiotas intelectualizados. Expliquemos: hoje a velocidade da informação é a mesma de um clique, ou seja, é de uma agilidade espectral, quase indescritível, com a qual podemos obter uma informação em qualquer parte dos seis continentes.
Esta mesma surpreendente agilidade é a razão da efemeridade e volatilidade com que muitos constroem não apenas o seu cotidiano, mas muitas vezes moldam sua vida. Por exemplo, hoje as redes sociais já cumprem amiúde uma brumosa função educativa que, em muitos casos, supera os responsáveis ad hoc desta função. São recursos educativos, sim; desde que não se confie unicamente nas capacidades, muitas vezes inexistentes, do autodidatismo.
Para as pessoas que sofrem de “preguiça mental”, ler e informar-se verdadeiramente de algo é tido por chato, por enfadonho. É melhor, na conjuntura atual, assistir um vídeo; é mais didático, não é? Didatismo exacerbado a tal ponto que infantiliza extremamente, formando seres relativamente incapazes em quase tudo, os quais carecem de eterna tutela. Se a era da informação, através de seus meios (celulares, smartphones, tablets, etc.), forneceu acesso imediato e sem pré-requisito, por parte do cidadão comum, ao mundo global como um todo, dando-lhe voz, é compreensível que condutas pessoais sejam facilmente induzidas e/ou manipuladas, especialmente em termos políticos. Vide, para todos os efeitos, os exemplos da praticidade consumista contida em one click.
Resulta desta conjuntura um hediondo exibicionismo generalizado, uma preocupação com a estética superficial, um “belo e sublime” negligenciado, sem profundidade. Muitos coetâneos querem opinar, querem demonstrar “notório saber”, especialmente quando se trata de política. É justamente por esta razão que não é raro encontrarmos analfabetos políticos vociferando em exaltada verborragia os mais cômicos delírios. É nas redes sociais que podemos ver um idiota intelectualizado que, geralmente por não gostar de ler, assiste vídeos, absorve abjetos chavões, vê imagens (não sabe se manipuladas ou não), e é com base neste risível e cômico modus operandi que contesta um especialista (não importando se este dedica/dedicou parcialmente ou integralmente sua vida à pesquisa deste ou daquele tema, seja em política ou em qualquer área do conhecimento humano).
Por esta razão que uma criança pode facilmente (e publicamente) contestar um douto, a qualquer momento. São no mínimo mentalmente infantis aqueles que aqui chamamos de idiotas intelectualizados, mas, em contrapartida, são deveras perigosos. Aliás, este comportamento foi magistralmente registrado por Quiroga, no seu conto A galinha degolada. Estes idiotas, é claro, estão conscientes de sua fragilidade, por isso que não são abertos ao diálogo (dialogar o quê?). Quanto maior a necessidade de alguém expressar seu fanatismo (seja religioso, político ou esportivo), maior será a propensão à intolerância de opiniões contrárias às suas. Aliás, é por meio da sua experiência de vida inigualável (no meu tempo não era assim) que eles sabem quem será o “mito” presidente em 2018 (sim, eles ainda creem em salvadores da pátria). Há sempre um problema perene e uma culpa em busca de um culpado; uma vítima sendo culpada pela violência que sofreu…
Questionados, no sentido de como estes seres vegetativos detém tanto “saber”, certamente, não responderão. Conhecimento de causa, profundidade e humildade, além de adjetivos corretos, fogem à compreensão destas pessoas. Em resumo, caro leitor, porque são perigosos? Estas pessoas, na maioria das ocasiões, votam. E quem vota, elege. Além de que, direta ou indiretamente, fomentam a intolerância sociopolítica e (o que é pior), geralmente são favoráveis às relações opressivas de dominação, com o clássico e palpável caso da dominação masculina, como bem ressaltou Bourdieu. Agem mais por instinto. Aliás, um abjeto e asco instinto primitivo, inclusive sexual.
Os bares, restaurantes, pubs, etc., já incorporaram esta realidade virtualizada, pois sempre há um espaço alternativo para que sejam registradas as selfies. Não seria isto altamente sugestivo? Exemplo desta situação pode ser verificado no simples fato de alguém ficar por algumas horas (ou minutos), sem acesso à internet. Ela é dinheiro, é atrativo no comércio. Inclusive, há os que abrem mão dos familiares (esposas, maridos, filhos, etc.), por conta desta conjuntura; mas há também aqueles que os perdem por pura negligência. Isto não é mera crítica, é a percepção da conjuntura sociológica deste início de século, ou melhor, de toda uma era sem precedentes na Humanidade.
O problema consiste no fato de que a maior parte das iniciativas virtualizadas, inclusive as sentimentais, são superficiais e efêmeras, enquanto que pouco consiste em essência. Às vezes, podemos encontrar certo respeito ao verdadeiro conhecimento, mas tudo se limita ao curtir, uma vez que apropriar-se dele é considerado por este público como algo enfadonho, chato, cansativo – por isto, amigo leitor, se chegou até aqui, está de parabéns. Obviamente que focar na superficialidade é mais rápido, na mesma proporção em que é volátil.
Veja-se outro aspecto fundamental realçado, além dos idiotas intelectualizados, na necessidade de exibicionismo, e este, por sua vez, servindo debilmente como um instrumento de constante necessidade de autoafirmação. Na maioria destes casos, as publicações virtuais são de estilo autoajuda, o que é deveras motivo de preocupação, por dois motivos: (1) ausência de personalidade e, consequentemente, (2) fomento às doenças e abalos de viés depressivo. Não é necessário ser um profissional especializado para compreender os nocivos efeitos psicológicos presentes no virtualismo (neste caso, mais real do que nunca), com relação ao montante exponencial de pessoas socialmente inseguras, que buscam acreditar em quaisquer pífios sinais, seletivamente propícios.
Um exemplo vale mais do que a descrição a fundo do problema. Vamos lá: especialmente em grupos de WhatsApp, mas também nas redes sociais como um todo, qual seria a razão de ter uma mesa farta, com atavios diversos, de uma janta ou almoço, se a mesma não pudesse ser utilizada como motivo de exibição perante os demais? O “é o que temos pra hoje” demonstra gritantemente duas coisas: (1) a insegurança de quem age assim, por indiscutivelmente necessitar da opinião e legitimação alheia e, justamente por isto, (2) assegura a futilidade do esteticismo banal, no exato momento em que preocupa mais com “o bonito para os outros” do que aquilo que seria o bom para si. A simples tomada de consciência desta realidade já é, em si, uma proposição.
Percebe-se que há uma evolução nas formas de demonstrações de variados ethos. Os limites entre o útil e o fútil de um recurso virtual confundem-se no exato momento em que seu uso torna-se duvido: exibicionismo. Os mais conscientes sabem que estamos diante de um grave problema de nossa era, o qual não considera sexo, idade, cor ou classes sociais. O mundo virtual conquista o âmago de muitos com uma facilidade muitas vezes superior à educação advinda do ambiente familiar. Em outras palavras, algumas vezes observa-se uma colossal distância entre aquelas pessoas que estão fisicamente próximas, em prol de uma virtual aproximação.
Ademais, estar informado não é sinônimo de conhecimento ou mesmo de interpretação correta das informações disponíveis. Propaga-se hoje um público relativamente incapaz de raciocinar, de dialogar e compreender assuntos que, em muitas ocasiões, são demasiados simples. Este público perde sua razão de existir (ah, o existencialismo é algo caríssimo), no exato momento em que se vê fora do alcance virtual (por mais que não lhes falte os suprimentos básicos à vida, ainda que com relativo conforto). Em uma conjuntura como a atual, não seria o mundo virtual, ou melhor, o seu imprudente usufruto, tão nocivo quanto tantos outros vícios lícitos (ou ilícitos)? É de se pensar…
(*) Marconi Severo é Cientista Social & Político e colaborou para Pragmatismo Político
“Não repare, não! Os meninos da Lava Jato sofriam bullyng na escola, ‘empinavam pipa com ventilador’, ‘brincavam de bola de gude no carpete’ e hoje, quando terminam de obrar alguma coisa, ainda gritam: ‘Mãeee, acabei!’. Hoje descontam suas frustrações brincando de Torquemada.”
Palmério Dória, jornalista e escritor
À beira da extinção, informação e curtição sem perder o sinal do Wi-Fi.
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