Cony e a revolução dos caranguejos

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Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista que morreu neste sábado, aos 91 anos, escreveu um artigo no finado Correio da Manhã três dias depois do golpe de 64 que é particularmente brilhante.

O título: Revolução dos Caranguejos.

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Já que o Alto Comando Militar insiste em chamar isso que aí está de Revolução – sejamos generosos: aceitemos a classificação. Mas devemos completá-la: é uma Revolução, sim, mas de caranguejos. Revolução que anda para trás. Que ignora a época, a marcha da história, e tenta regredir ao governo Dutra, ou mais longe ainda, aos tempos da Velha República, quando a probidade dos velhacos era o esconderijo da incompetência e do servilismo. Quando até os vasos de nossos sanitários, as louças de nossos mictórios públicos tinham o consagrador made in England.

O Brasil foi para a frente, ganhou campeonatos do mundo, firmou uma presença industrial, subiu ao plano internacional – mas tudo isso é fruto do comunismo: há de regredir aos tempos da Baronesa, Leopoldina Railway, das tesourinhas Sollingen, do retrato do Santo Padre concedendo indulgências plenárias pendurado nas salas de visita.

Lembro o poema de Apollinaire sobre o caranguejo: “recuamos, recuamos”. E a sensação que predomina no País é esta: um recuo humilhante que deverá ser varrido muito mais cedo do que os medrosos e os imbecis pensam. Não se podia esperar caráter e patriotismo dos políticos: são coisas que a estrutura de um político não pode possuir, assim como a estrutura do concreto armado não pode possuir bolsões de ar. Mas dos militares – não há como negar, sente-se patriotismo e algum caráter. Um patriotismo adjetivado, sem substantivos, que se masturba com os gloriosos feitos históricos, feitos cada vez mais discutíveis. Um patriotismo estéril, que não leva a nada, que não constrói nada: lembro a patriotada do marechal Osvino mandando que os postos de gasolina hasteassem a bandeira nacional. É quase uma anedota, mas é típico da espécie deste patriotismo que rege nossas Forças Armadas.

Com algum caráter e algum patriotismo, é possível que os próprios militares compreendam o mau passo que estão dando, desmoralizando o Brasil perante o mundo inteiro, e, o que é pior, destruindo o que de melhor temos como Nação, e como povo: a vergonha.

Não se compreende que os militares, hoje no poder, em nome da ordem queiram impor tamanho retrocesso. Estúpida concepção da ordem essa, a de que a ordem se basta a si mesma. A ordem só é válida quando conduz a alguma coisa: ordo ducit. Mas a ordem que os militares desejam é uma ordem calhorda, feita de regulamentos disciplinares do Exército e de estagnação moral e material.

Até agora, essa chamada Revolução não disse a que veio. As necessidades do País, que levaram o governo inábil do Sr. João Goulart a atrelar-se à linha chinesa do comunismo internacional, não receberam uma só palavra do Alto Comando. Falam em hierarquia, em disciplina, e consideram a Pátria salva porque os generais continuarão a receber continência e medalhas de tempo de serviço – à falta de condecorações mais bravas.

Sabemos que o governo deposto, se realmente enveredou o País para o caminho do caos, em parte tinha real cobertura dos anseios populares que o Sr. João Goulart não soube interpretar nem zelar. Esses anseios não desaparecerão porque o general Fulano depôs o general Sicrano. Afinal, o Brasil – já o disse aqui – não é um quartel de oito milhões de quilômetros quadrados. Quadrados são os que desejam fazer do País um prolongamento do quartel.

Sem medo, e com coerência, continuo afirmando: isso não é uma revolução. É uma quartelada continuada, sem nenhum pudor, sem sequer os disfarces legalistas que outrora mascaravam os pronunciamentos militares. É o tacão. É a espora. A força bruta. O coice.

Que os caranguejos continuem andando para trás. Nós andaremos para a frente, apesar dos descaminhos e das ameaças. Pois é na frente que encontraremos a nossa missão, o nosso destino. É na frente que está a nossa glória.

Fim de novela: Phillipe Coutinho já é jogador do Barcelona

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Enfim, chegamos ao carimbo de fim da novela. Na tarde deste sábado, o Barcelona confirmou a recordista contratação de Philippe Coutinho, que chega do Liverpool por uma quantia na casa dos 160 milhões de euros (R$ 622 milhões) e como o jogador que mais custou aos cofres do clube – superando Dembélé, trazido junto ao Borussia Dortmund, também nesta temporada.

Coutinho vai assinar contrato de cinco anos com o Barcelona, mas não poderá atuar na Liga dos Campeões por já ter atuado pelo Liverpool na fase de grupos. Até o fim da temporada, o brasileiro será utilizado apenas no Campeonato Espanhol e na Copa do Rei.

Para acelerar a negociação, Coutinho decidiu pagar por contra própria 15 milhões de euros (R$ 58,2 milhões), segundo informou neste sábado o jornal “Mundo Deportivo”. As tratativas foram conduzidas pelo iraniano Kia Joorabchian e pelo brasileiro Giuliano Bertolucci, empresários do meia.

Coutinho será o terceiro brasileiro no elenco de Ernesto Valverde, que já conta com Paulinho, outro recrutado no início de 2017/18 e que está em ótima fase, e Rafinha – este lesionado e na iminência de deixar os Blaugranas. (Do Lance!)

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Papão faz festa de apresentação do elenco e anuncia novo reforço

 

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Com um público de cerca de cinco mil pessoas, os jogadores do elenco do Paissandu foram apresentados oficialmente à torcida na manhã deste sábado, no estádio da Curuzu. Os atletas também treinaram sob o comando do técnico Marquinhos Santos, como parte da preparação na pré-temporada.

A cerimônia de apresentação começou às 9h30. Um a um, os atletas entraram em campo, tendo seus nomes anunciados pelo sistema de som. O grupo ficou perfilado no centro do campo, recebendo os aplausos da Fiel. Por fim, Marquinhos e a comissão técnica também foram apresentados e foram saudados pelo público.

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Seis crianças entraram com bandeiras do Brasil, Colômbia e Paraguai, as duas últimas em homenagem aos jogadores Yilmar Filigrana, colombiano, e Cáceres, paraguaio.

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Durante a apresentação do elenco, a diretoria anunciou mais um reforço (o 15º): o atacante Moisés, ex-Vila Nova-GO, que assinou contrato por um ano com o Papão. O jogador tem 31 anos e chega para reforçar o setor ofensivo da equipe. Moisés atua próximo à grande área, posicionando-se pelos lados do campo. Neste domingo (7), ele será integrado ao grupo concentrado no hotel Antônio Couceiro, na própria Curuzu.

A incrível história do jogador que nunca jogou futebol

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O mundo do futebol está cheio de jogadores que mudam de time. A expansão do negócio permitiu que essas contratações sejam cada vez mais frequentes, e a globalização possibilitou que haja cada vez mais informações disponíveis e que os jogadores se tornem mercadoria valiosa. Um desses jogadores migratórios foi Carlos Henrique Raposo, que passou por vários clubes e neles teve uma trajetória singular: ainda que recebesse um salário, não disputou nenhum jogo.

Raposo é conhecido no mundo do futebol como o maior golpista que viveu desse esporte tão popular. As estatísticas são notáveis: atuou como jogador por 20 anos e esteve em 15 clubes diferentes, alguns tradicionais: Botafogo, Flamengo, Puebla, Bangu, América, Vasco da Gama, Fluminense e Independiente.

Pode-se dizer que soube aproveitar ao máximo seus dons. Alguém poderia pensar que tivesse um chute extraordinário ou faro de artilheiro. Não, sua maior virtude era a de fazer amizade com grandes jogadores para conseguir ser contratado.

Bom papo, simpático e comunicativo, conseguiu se relacionar bem com craques do calibre de Romário, Renato, Bebeto, Maurício, Gaúcho, Branco e Edmundo. O primeiro passo era tentar convencê-los, aproveitando-se da intimidade criada, a incluir sua participação nos contratos firmados com os clubes. Picaretagem pura e simples.

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Kaiser tinha várias maneiras de evitar encostar em uma bola de futebol, ato que desmascararia toda a sua farsa. O principal método era se fingir machucado nos treinos, por isso até pagava os mais jovens para dar uma entrada violenta (ou quase) nele. Ou então, inventava a suposta morte de sua avó, que devia ter pelo menos sete vidas, pois  “matou” a pobre senhora diversas vezes para não entrar no campo.

Raposo conta que, após 20 anos de carreira, nunca disputou jogos oficiais no Brasil. Fora do país, alcançou a impressionante marca de 30 jogos atuando pouquíssimos minutos em cada um deles. Conseguir a média de menos de um jogo por ano de “carreira”, coloca Kaiser na condição de autêntico recordista.

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MALANDRAGEM

Como era um gênio das mentiras, este falso jogador de futebol não deixava espaço para erros. Seus companheiros de equipe gostavam dele, fazia amigos nos bastidores e também conseguia conquistar o público. Algumas dessas pessoas foram pagas para gritar seu nome quando o presidente do clube estava perto, bem como repórteres para falar bem dele na mídia.

O próprio Raposo explica sua maneira de agir para se tornar amigo de jogadores consagrados. “A gente se encontrava num hotel e eu levava mulheres para eles”. E explica a técnica: “Alugava apartamentos com uma diferença de dois andares dos jogadores, assim ninguém precisava sair do hotel.”

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Além de oferecer facilidades aos amigos jogadores, Raposo cuidava para que não faltasse nada a eles no dia a dia, encarregando-se de pagamentos e pequenas compras pessoais. O problema é que, indicado por eles aos clubes, devia também mostrar serviço nos treinos. Sem a menor habilidade para o jogo, era o jeito caprichar na malandragem.

Sua alcunha no mundo do futebol devia-se ao único atributo que lhe permitia passar-se por jogador: o físico. Sua aparência era muito similar à do superastro alemão dos anos 70, Franz Beckenbauer, cujo apelido era Kaiser. A partir dessa semelhança com Beckenbauer, campeão do mundo em 1974, que se originou o apelido.

No final dos anos 80, Raposo conseguiu, no futebol, o seu primeiro contrato ou, o que muitos consideravam, seu primeiro golpe, já que foi convocado pelo simples fato de estar ligado a uma figura do meio. O atacante Maurício foi quem o levou ao Botafogo, onde era ídolo – marcaria o gol do título alvinegro de 1989. O vínculo entre eles tinha nascido na infância e ganhou importância nos anos seguintes.

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TRANSFERÊNCIAS

Assim como os comediantes quando sobem ao palco para iniciar seu monólogo num stand-up, Raposo tinha seu método para viver o dia a dia no clube: “Fazia algum movimento estranho, fingia dor, tocava minha coxa e ficava 20 dias no departamento médico”. Era assim que, numa época em que as ressonâncias magnéticas não existiam, esse atleta fictício se mantinha no clube.

Por mais que soe hilário, Raposo conseguiu concretizar sua primeira transferência, passando a jogar no Flamengo. Tudo graças a Renato Gaúcho, um de seus grandes amigos. Hoje, o atual técnico do Grêmio recorda as façanhas de Kaiser. “Eu sabia que o Kaiser era inimigo da bola, então combinava com um colega que batesse nele e, assim, o mandávamos para a enfermaria”.

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Durante sua passagem pelo Flamengo, seu modus operandi incluía um toque mais sofisticado. Raposo chegava aos treinos com um celular, o que, à época, demonstrava um status econômico superior. Diante dos companheiros, ele simulava uma conversa em inglês ao telefone fazendo crer que estava falando com dirigentes de equipes europeias interessadas em contratá-lo.

Em algum momento, a malandragem quase foi abaixo. Um médico do Fla, que havia morado na Inglaterra, o desmascarou. Apesar de toda a equipe, dos jogadores e da parte técnica acreditarem nas lorotas em inglês, o médico explicou que os diálogos que Raposo mantinha pelo celular não faziam sentido. Apesar do vexame, nosso herói não se abalou e seguiu na sua inusitada trajetória futeboleira.

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AVENTUREIRO

A vida o levou a fingir ser jogador por vários anos, mas antes ele se virou em diferentes tarefas. Foi quebra-galho, gigolô – homem mantido por mulher, muitas vezes em troca de sexo -, faz-tudo, manobrista e até planejador de festa.

Kaiser se compara a Jesus ao justificar suas ações: “Eu só queria ser um esportista e não queria jogar futebol”. E acrescenta: “Se todas as outras pessoas queriam que eu fosse um jogador de verdade, esse era um problema delas”. Para arrematar, sem pudor: “Mesmo Jesus não conseguiu agradar a todos, por que eu faria isso?”.

O futebol da América do Norte abriu as portas de maneira generosa para esse boleiro especial. Decidido a aplicar golpes além-fronteira, deixou o Brasil com a cara e a coragem, valendo-se da proximidade com amigos famosos, como Carlos Alberto Torres e Zico. Foi contratado pelo Puebla, do México, onde também não jogou. Depois, resolveu invadir os EUA: “Eu assinava o contrato de risco, o mais curto, normalmente de poucos meses e recebia as luvas do contrato”, conta.

Suas peripécias pelos Estados Unidos e pelo México duraram apenas dois anos. Voltou ao Brasil e foi então que, no Bangu, do bicheiro Castor de Andrade, protagonizou uma de suas grandes histórias.

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Certo dia, para seu pavor, foi escalado porque muitos jogadores estavam suspensos e contundidos. Quando aquecia à beira do campo, não teve dúvidas: inventou uma briga fictícia com um torcedor por causa de suposta ofensa gritada ao treinador. Tudo isso para que conseguisse ser expulso antes de entrar para “jogar”.

Minutos depois de ser expulso, ele teve que enfrentar o treinador no vestiário. Quando ele estava pronto para encará-lo e repreender sua atitude em campo, Raposo se adiantou: “Deus me deu um pai e depois me tirou. Agora que Deus me deu um segundo pai – referindo-se ao técnico – não deixarei que nenhum torcedor o xingue”.

Seu período no Ajaccio da França foi movimentada. Até jogou (por 20 minutos), mas não lembra detalhes da partida e nem o nome do clube adversário. Poucos minutos depois de entrar em campo, ele disparou a correr e os fãs deliravam porque, apesar de estar lesionado, Raposo não abandonava o campo pelo amor à camisa. Uma loucura!

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DOCUMENTÁRIO

Sua história de vida começou a se espalhar e se tornou famosa. Em 2015, uma empresa britânica comprou o direito exclusivo de lançar um documentário que inclui entrevistas com Carlos Alberto, Zico, Bebeto, Junior e Renato Gaúcho, além do depoimento do próprio astro. O documentário tem lançamento previsto para este ano.

Como muitas lendas que foram se estabelecendo ao longo do tempo, as circunstâncias de vida que Raposo viveu naqueles vinte anos de sua vida já parecem surreais. Anos já se passaram, mas em sua memória permanecem histórias com detalhes fantásticos. Embora tudo até pareça mentira, uma coisa que temos certeza: essa loucura toda realmente ocorreu devido aos variados testemunhos que a sustentam.

Renato Gaúcho, que era um dos jogadores de futebol brasileiro mais destacado da época, o chamou de “o maior jogador de futebol de todos os tempos”.

A arma de sedução de Raposo era sua maneira de falar e o que ele expressava. Ele tinha uma maneira de se comunicar que era único. O atacante Bebeto, destaque brasileiro na Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, declarou: “Ter uma conversa com ele era tão bom que, se você o deixasse abrir a boca, ele iria pegar você e seduzi-lo. Você não conseguia evitar, era o fim”.

“Toda a minha vida girou em torno do sexo”, confessa. “Se eu fosse a uma boate, e passava 10 minutos com uma menina, eu tinha que a levar em algum lugar, fosse um banheiro, ou o primeiro cubículo que eu encontrava”, diz. Atualmente, e depois de ter desfrutado por anos de um salário de jogador que não merecia, ele passa seus dias na academia como “personal trainer” para mulheres. Com mais de 50 anos, já não consegue se passar como jogador, porém continua sendo um atleta, sem perder a velha lábia.

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Tranquilo, Kaiser diz não sentir qualquer remorso dos golpes que aplicou: “Não me arrependo de nada. Os clubes trapacearam e ainda trapaceiam muito os jogadores. Alguém tinha que se vingar deles”. Justiceiro ou um mero impostor?

(Com informações e fotos da ESPN e do site Desafio Mundial)

O atalho pra cinco séculos

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POR ALBERTO HELENA JR.

Tava aqui vendo e ouvindo na tv o garoto Caio, grande promessa do Flu, autor de um dos dois gols (o outro foi de Ramon, um pontinha esperto, hábil e igualmente de futuro), mandando um beijo pra sua mãe: “Uma guerreira!”, arrematou o menino.

Aliás, é recorrente nas Copinhas a molecada, ao marcar um gol, correr em direção à câmera da tv à beira do gramado e mandar um beijo às suas mães: “Mãe, eu te amo!”.

Pra muita gente pode parecer brega, sentimentaloide ou algo do gênero.

Mas, pare pra pensar, meu. Esses meninos, quase todos, vêm das periferias de onde moram a riqueza e o bem-estar, o acesso fácil à educação e à segurança pessoal. São fruto de quinhentos anos de pobreza, ignorância e submissão às incertezas da vida.

Suas mães, em geral, são solteiras, viúvas ou abandonadas por maridos irresponsáveis ou simplesmente infelizes. Carregam no colo uma ninhada que sustentam como podem, tentando mantê-la fora do alcance da violência que ronda seus lares todo o santo dia: faxineiras, quituteiras, verdureiras, empregadas domésticas, enfim, o emprego que estiver ao seu alcance, aquele que não exige diplomas ou conhecimentos específicos. Afinal, elas, como seus filhos, netos e bisnetos formam aquela legião imensa dessa gente bronzeada, como dizia o poeta baiano Assis Valente, cujos ancestrais chegaram ao Brasil nos porões dos navios negreiros e aqui se juntaram aos brancos degredados e aos nativos igualmente cativos.

A escravidão física foi abolida há mais de duzentos anos. Mas, o acesso à igualdade, ah, essa, nem pensar.

O atalho que lhes restou pra dar um salto de quinhentos anos numa só geração praticamente se restringe a esse caprichoso e encantador jogo da bola, em torno do qual giram milhões e milhões de dinheiros de todas as cores, denominações e valores por esse mundão afora.

Imagine só: são milhões de brasileirinhos sonhando em escapar do gueto da pobreza, quando não da miséria, correndo atrás de uma bola que, na sua ânsia, representa nada menos do que o mundo.

E, quando conseguem romper a barreira do espaço e do tempo, a renhida competição com tantos iguais a eles, e viram craques bem remunerados, alguns deles verdadeiros milionários, fruto tão-somente do seu esforço e talento, vêm os afortunados da sorte, aqueles que tiveram todas as oportunidades que esta sociedade injusta lhes oferece, e disparam: “Como é que esse negrinho analfabeto ganha muito mais do que eu apenas chutando uma bola?” Outro se junta a este: “Mercenários!” E assim por diante.

Eles são os artistas, são eles que fazem a roda da fortuna girar arriscando suas cabeças e pernas duas ou três vezes por semana durante dez, quinze anos do melhor de  suas vidas, viajando daqui pra lá, enfurnados em concentrações, longe dos seus e expostos tanto à glorificação das pessoas nas ruas quanto ao escárnio delas, onde estejam.

Bem, de qualquer forma, as esperanças se renovam a cada ano que chega sob o aceno da Copinha, a primeira porta de entrada para o futuro desses meninos. E, para os bolsos já recheados dos empresários, claro.

Esse ano não vai ser igual aquele que passou?

POR EDYR AUGUSTO PROENÇA

O carnaval não me desperta a paixão. Talvez seja uma certa melancolia que me domina a maior parte do tempo.

Adolescente, participava de tudo, até mesmo do Bandalheira. Uma noite, Rosenildo Franco me levou a uma reunião em uma Lavanderia que ficava ao lado da Mesbla, onde hoje está o Pátio Belém. Eles começavam a reativar o Quem São Eles. Mas foi meu irmão que participou intensamente. Vai rolar um festival de samba enredo e eu quero participar. Faz uma letra e o pai faz a música. “Cobra Norato, Pesadelo Amazônico”. Ganhamos. Virei integrante da ala de compositores. Logo eu.

Estive ainda em mais um enredo, sobre o ilustre Comendador Raymundo Sobral. O carnaval foi sendo minado por confusões internas, prefeitos não muito simpáticos e teve uma reanimada com a Aldeia Cabana, de Edmilson Rodrigues. Ele teve a idéia correta. No começo de tudo, os desfiles eram no Boulevard Castilhos França. Depois, na Presidente Vargas e ainda, na Doca. Eram lugares importantes, embora ocupados por classes mais altas, indiferentes à festa local, preferindo viajar.

A falta de Cultura, durante mais de vinte anos, que estamos vivendo, afastou as pessoas. Os intelectuais, músicos, escritores, atores, que brilhavam nos desfiles e eram aplaudidos, reconhecidos, não passam mais, salvo alguns renitentes. Mais uma vez a onda negativa e política, deixou abandonada a Aldeia, seus projetos e crivou-a de críticas. Durante o segundo semestre, acho, a turma do carnaval reuniu pontualmente aos sábados, em uma livraria que também frequento. Tive vontade de ir lá dar uma ideia, mas sabe, os caras são do ramo, estão preocupados e fiquei intimidado em dar “pitaco”.

Hoje, a maioria das pessoas acha absurdo haver samba em Belém. Deviam fazer como em Manaus com os “bois”. Aqui é diferente. Os marinheiros que estavam em terra, durante Momo, a partir da Riachuelo, tocavam samba e foram formando platéia. Havia os “Boêmios da Campina”, maravilhosos. Criança, não me deixavam assistir ao desfile, por tarde da noite. Mas via aqueles ternos vermelhos e brilhantes, as calças e sapatos brancos, maravilhosos. Talvez essa noite negra que se abateu sobre a Cultura tenha apartado os mais jovens do samba. Talvez.

O Estado ou o Município também não se interessam em receber turistas. Então, quem é que se interessa pelo carnaval de Belém? O povão. Para essas pessoas ávidas por uma diversão, o carnaval é grande atração. Deixa o pessoal da Doca ir pra Salinas, sair em Escola do Rio de Janeiro, enfim. O povão precisa se divertir. Embora exista a Aldeia Cabana, ouso sugerir o entorno do Estádio Edgar Proença, o Mangueirão. As partes internas serviriam para oficinas e construção de carros. Arquibancadas do lado de fora ficariam lotadas por gente humilde, recebendo a festa da alegria genuína.

Assim como o brega e o tecnobrega se espalham, é preciso começar cedo, pelas mídias alternativas. Enredos decididos, todos com prazo para apresentar o samba official. E então, divulgados os concorrentes, vamos para um concurso para decidir quem é o melhor, com a nota valendo para o desfile. Imaginem o local da festa, lotado com as torcidas de cada escola. Imaginem o concurso para a melhor sambista, passista, rumbeira (que havia no início) , enfim, de cada escola. Isso daria outro barulho.

Mais ainda, cada escola poderia realizer ensaio em espaços próximos ao Mangueirão, como forma de atrair mais simpatizantes. Isso renderia dinheiro, grana, para ficarem menos dependents das esmolas do governo. Devo ter outras idéias que não me ocorrem agora, mas finalizando, penso que os artesãos dos carros alegóricos precisam ser respeitados. Após o desfile, esses carros são deixados nas ruas, expostos a chuva e a ação de desocupados que os depredam impiedosamente. E, no entanto, quem não pôde comparecer ou assistir pela televisão, pode estar querendo conferir a riqueza e detalhes dos trabalhos. É preciso levar os carros para um espaço aberto, para que fiquem em exposição até a quarta feira de cinzas.

Será mais uma crônica na direção do “Sonhos, sonhos” e a música de Lennon, “You may say I’m a dreamer”? Que bom seria se algo assim fosse acatado e a festa voltasse a ser resplandecente, como já foi, agora com um público interessado, vibrante e agora, pleno de diversão.

(Publicado em O Diário do Pará, Caderno TDB, Coluna Cesta e opiniaonaosediscute.blogspot.com em 05.01.2018)

Firmino é acusado de racismo e federação pode abrir investigação

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A classificação do Liverpool, com vitória sobre o Everton na FA Cup, não trouxe apenas boas notícias para quem veste as cores dos Reds. Depois de uma confusão no decorrer da partida, o brasileiro Roberto Firmino foi citado na súmula por supostas ofensas raciais contra Holgate, defensor rival, e pode ser investigado pela Federação Inglesa (FA), que deve abrir um processo nos próximos dias.

O lance que envolveu toda a polêmica aconteceu aos 39 minutos do primeiro tempo, quando Firmino foi empurrado por Holgate para fora do gramado e acabou se chocando com os torcedores na arquibancada do Estádio de Anfield. Enfurecido, o brasileiro foi até o adversário e proferiu insultos em português. Porém, as palavras que possivelmente teriam sido de ofensas raciais ficaram encobertas na imagem, segundo publicação do jornal inglês The Guardian.

O lance foi citado pelo árbitro Bob Madley na súmula divulgada após a partida, mesmo sem nenhum dos atletas terem recebido cartão amarelo pela confusão, abrindo espaço para uma possível investigação por parte da Federação Inglesa contra o atacante brasileiro. Após a partida, a autoridade da partida voltou a conversar em particular com o jovem zagueiro do Everton.

Após a partida, Jurgen Klopp teve de comentar sobre o tema na entrevista coletiva, mas revelou não ter tido total conhecimento do fato, apesar dos comentários do árbitro na saída do campo. “Ouvi algo sobre isso, mas não posso dizer muito. O quarto árbitro disse alguma coisa para mim. Eu não ouvi as palavras, então achei que eles iriam investigar a falta do Holgate. É como eu havia entendido no início. Depois do jogo o quarto árbitro me informou, mas não foi o que eu tinha entendido”, disse o comandante do Liverpool.

As proporções que o lance polêmico ganhou na imprensa inglesa fizeram com que o Liverpool divulgasse, por meio de seu porta-voz, uma nota de esclarecimento relatando que ajudará na conclusão das suposições. “O clube e o jogador irão contribuir inteiramente com as autoridades relevantes para garantir que todas as conclusões sejam plenamente definidas e julgadas. Enquanto não houver um processo em andamento, não faremos mais comentários”, apontou o clube. (Da Gazeta Esportiva)