O dia em que o Paysandu salvou a minha vida

Por Glauco Lima

Mais uma história pra festejar os 100 do Clube mais amado da Amazônia.

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Corria veloz a segunda metade da primeira década do século vinte e um. Depois de um dia de muito trabalho, fui em casa, tomei banho e sai para buscar minha namorada. Íamos jantar lá pela Cidade Velha. Eu morava em São Braz e ela na elegante e valorizada área de Belém, que se mistura ali entre o Umarizal e o Reduto. Poucos minutos depois de ela entrar no carro, o meu telefone celular tocou. Era uma pessoa do mundo do trabalho. Vi que a conversa não seria rápida, então encostei o carro para poder falar sem risco de ser multado por conduzir o auto usando o telefone. 

Quando estava falando com meu amigo baiano, que estava em Fortaleza, fui surpreendido por fortes porradas dados no vidro com um grande e reluzente revólver. Do outro lado, outro homem também batia violentamente na janela, os dois brutais, mandando abrir as portas. Nessa hora, a primeira constatação que vem a cabeça é: – morri!

Os sequestradores entraram. Um deles mandou eu pular para o banco de trás. Foram logo pedindo dinheiro, joias, relógios e tudo que tivesse de valor dentro ao automóvel. Fizeram algumas perguntas que devem ser de rotina neste tipo de crime, entre elas, uma para saber em que banco eu tinha conta. Seguimos na direção do banco. Sempre com muitas ameaças, palavrões e um revolver apertado no meu pescoço. Os bandidos mandavam manter a cabeça baixa e não esboçar qualquer reação. Neste momento aprendi que nestas situações o melhor comportamento é se portar como o mais perfeito covarde. Qualquer tentativa de heroísmo é quase um suicídio.

Quando chegamos ao banco, sabe-se lá por qual motivação, o bandido-chefe desistiu de descermos para fazer o saque. Disse que iríamos seguir rodando e logo eles iriam nos deixar. Mas a promessa não se cumpriu. Seguimos na direção da saída da cidade. Passamos pelo posto da polícia rodoviária federal na BR 316 e fomos em frente. Em certo momento, o bandido chefe pergunta com muita agressividade, o que eu tinha na mala do carro. Eu, sem levantar a cabeça, respondi que tinha umas roupas sujas e minha bandeirona do Paysandu.

O bandido comentou com revolta: – Puta que pariu!! Esse teu Paysandu deu porrada no meu Sampaio!

E eu, com medo, mas com uma ponta de orgulho vingativo em relação aos homens que em alguns momentos poderiam me apagar, respondi: – É… o Papão é foda!

No que o bandido auxiliar completou prontamente: – É mesmo!

Fez-se um silêncio no carro e continuamos rodando. O clima depois deste breve e inusitado diálogo sofre futebol em situação tão imprópria, parece ter ficado menos tenso.

Já estávamos na estrada da Alça Viária, escura, deserta, assustadora. O bandidão, torcedor do Sampaio Correa de São Luís do Maranhão, entrou com o carro um pouco na mata e mandou que eu descesse. Desci e perguntei se eles iriam liberar também a minha namorada. Ele mandou que eu não olhasse para trás e andasse pro mato. Ouvi o revólver engatilhar e logo depois o carro arrancar em disparada, com os dois meliantes levando minha namorada.

Eles não atiraram em mim e horas depois deixaram minha namorada em outra mata da cidade, sem mal tratos além do susto e ameaças. Foi um pavor devastador. Depois, pensando bem, nada me tira da cabeça que aquele papo sobre futebol, a vitória do Paysandu no Maranhão, partida que eu nem sei exatamente qual foi, uma conversa que por segundos uniu pessoas em posições tão antagônicas, aquela brisa azul e branca, quebrou a brutalidade que a pobreza impõe aos jovens e deixou falar mais alto a harmonia, a confraternização e o companheirismo que só o futebol é capaz de promover. É um palpite, mas quem é que pode dizer que o Paysandu não foi a razão de eu estar vivo aqui pra contar e festejar seu centenário?

11 comentários em “O dia em que o Paysandu salvou a minha vida

  1. Bandido percebeu que o amigo sofreria mais torcendo pelo Paysandu do que se ele fizesse qualquer outra coisa.
    Esses caras são maus mesmo. Puta que pariu…

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  2. Uma história arrepiante devido o sequestro e,ao mesmo tempo, fantástica e inusitada.

    Caro Glauco,Viva o Papão da Amazônia- O maior Campeão Paraense de todos os tempos; bi Campeão Brasileiro legítimo da Série B(doa a quem doer ou os cotovelos que doerem.rsrsrsrsrsrsrs); campeão do Norte; eternamente Campeão dos Campeões; único do Norte , neste século, a disputar uma Libertadores da América; o Nosso Papão da Curuzu : O MAIOR E MAIS AMADO CLUBE DO NORTE!

    PARABÉNS,PAYSANDU SPORT CLUB!!!!!!!!!!!!!!

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  3. Boa noite; Brincadeira.. Esses comentários do Thiago Corrêa ! E o amigo Gerson, com a sua moderação, para esses casos ? Outro exemplo, é o tal do Anônimo, não sabe se e REMORTO ou bicolor.. Um abraço, Glauco Lima..

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  4. Só quem já passou por uma dessas (eu já passei infelizmente) sabe que realmente a melhor forma de sobreviver é a covardia.

    Agora é fato, você fica um pouco (é pouco mesmo) mais tranquilo quando conversa um assunto que quebra o gelo com os bandidos na hora do sufoco.

    No meu caso, eles estavam com fome (e eu também), por isso. repartimos um queijo cuia que eu tinha acabado de comprar no mercado.

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