A pequena-burguesia e o mito da classe média

Por Leonardo Coreicha

A pequena-burguesia é uma classe pré-capitalista. Ela surgiu na Idade Média, dos caixeiros-viajantes, dos artesãos e dos comerciantes das cidades portuárias. Mas foi sendo lentamente suplantada pelos grandes comerciantes, que se aproveitaram das cruzadas e, principalmente das grandes navegações.

A grande burguesia comercial alcançou o poder, mas não suprimiu a pequena burguesia, que ainda dominava o comércio varejista até a Revolução Industrial.

Durante a Idade Média, a pequena-burguesia se organizou em corporações de ofício, onde reuniam os artesãos e comerciantes das cidades (burgos). As corporações de ofício era uma organização de classe, garantindo à pequena-burguesia o domínio econômico sobre determinado setor e impedindo que os trabalhadores assalariados pudessem disputar espaço na economia autonomamente.

Assim, conforme crescia a pequena-burguesia, crescia junto com ela um proletariado, que ainda era pequeno e desorganizado. Porém, com a revolução industrial, a pequena-burguesia perde espaço para a grande burguesia e o número de proletários sobe numa progressão geométrica em relação ao avanço da industrialização da produção de mercadorias.

Com o avanço da manufatura, e ainda mais com a indústria, a pequena-burguesia perde o status de donos da cidade (os burgueses, por definição) e passam a ser periféricos, uma sombra da burguesia. Entretanto, ideologicamente, esta classe, já empobrecida e desprivilegiada, mantém a pompa e o orgulho burguês.

“O comércio e a manufaturara criaram a grande burguesia, enquanto nas corporações concentravam a pequena-burguesia. Que então já não dominava mais nas cidades como antes, mas tinha que se curvar ao domínio dos grandes comerciantes e manufatureitos.” (Marx;Engels, 2007. p. 57)

Durante a Revolução Francesa, a pequena-burguesia toma a vanguarda do movimento. Se torna revolucionária, radical, contra os desmandos da nobreza. Apoiam o partido jacobino, buscando alçar o poder através do domínio do Estado. Entretanto, acabam cedendo à burguesia e retomam seu papel periférico, disputando com o lumpemproletariado os espaços que restaram nas cidades.

Esta constante insegurança faz da pequena-burguesia um caldeirão ideológico, de onde saem os intelectuais da burguesia e, em número bem menor, também intelectuais comprometidos com o proletariado. Isto se deve ao fato da pequena-burguesia ser a fração mais letrada da sociedade, pois necessita de conhecimentos para manter seus negócios. Ao contrário do burguês que vive tão somente da mais-valia, muitos pequeno-burgueses têm que trabalhar, seja gerindo seus negócios, como sendo profissionais liberais (advogados, professores universitários, engenheiros, médicos, entre outros poucos ofícios que mantiveram o status de profissão liberal, ou seja, a condição econômica que permite que vivam como pequeno-burgueses.

Como membro de uma classe intermediária, o pequeno-burguês luta para alçar a posição de classe dominante (burguês, strito sensu), entretanto, vive sob o medo de tornar-se aquilo que mais abomina: o trabalhador assalariado (o proletário).

Em meio a crise economia, a pequena-burguesia tende a radicalizar-se, geralmente ao lado da burguesia, pois mais do que do dinheiro, o pequeno-burguês vive do status de ser superior aos trabalhadores, gabando-se da sua posição na divisão intelectual do trabalho. E pretende a todo custo manter os mais pobres em seu devido lugar.

Entretanto, desde a ascensão do capitalismo, a pequena-burguesia se proletarizou, como dizem Marx e Engels (2001):

A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então reputadas veneráveis e encaradas com piedoso respeito. Do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio fez seus servidores assalariados.

Logo, a grande maioria dos que se acham pequeno-burgueses vive apenas de um passado que nunca viveu. Vivem alienados em uma construção ideológica chamada de Classe Média.

Marilena Chauí define acertadamente a classe média como uma bobagem sociológica, pois não define nada. A classe média é um mito. Ela critica veementemente a propaganda governamental que impõe ideologicamente o conceito de nova classe média ao proletariado que alcançou níveis mais altos de consumo, se comparando à pequena-burguesia.

É a sociologia, sobretudo a de inspiração estadunidense, que introduz a noção de classe média para designar esse setor socioeconômico, empregando, como dissemos acima, os critérios de renda, escolaridade, profissão e consumo, a pirâmide das classes A, B, C, D e E, e a célebre ideia de mobilidade social para descrever a passagem de um indivíduo de uma classe para outra. (CHAUÍ, 2013)

Assim, segundo Chauí, o proletariado não estava entrando na classe média, estava sendo introduzido na sociedade de consumo, se misturando neste (único) ponto à pequena-burguesia, fruto da política social-democrata promovida pelos governos do PT. Para ela surge sim uma nova classe trabalhadora, ampliada através do alcance de direitos sociais.

A fala de Marilena Chauí no lançamento do livro sobre os 10 anos dos Governos Lula e Dilma foi criticada duramente pela direita, que postou diversas vezes uma fala descontextualizada e até por uma “esquerda” social-democrata, que se prendeu aos vídeos da direita e nem teve o trabalho de tentar entender o contexto (I). Pois, Marilena diz:

“Eu odeio a classe média. A classe média é atraso de vida. A classe média é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. (…) A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista. Ela é uma abominação ética, porque ela é violenta. E ela é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante.” (II)

Neste ponto, Marilena Chauí se remete ao conceito de pequena-burguesia como classe média, a pseudo-elite preconceituosa, empobrecida e ideologicamente mais próxima do lumpemproletariado do que, como acha, da burguesia.

Assim sendo, o conceito de classe média não nos serve. Apenas nos remete à confusão entre a definição da decadente pequena-burguesia (que se mistura com o lumpemproletariado, na proliferação ideológica de extrema direita) com a definição de proletariado (que abarca todos os trabalhadores assalariados, incluindo os trabalhadores improdutivos que antes eram profissionais liberais).

REFERÊNCIAS:

CHAUÍ, Marilena. Uma nova classe trabalhadora. In: SADER, Emir. (org.).10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma / — São Paulo, SP: Boitempo; Rio de Janeiro: FLACSO Brasil 2013.

MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia Alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feurbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. São Paulo: Boitempo, 2007.

MARX, K.; ENGEL, F. Manifesto Comunista. São Paulo: CPV, 2001.

(I) http://www.socialistamorena.com.br/marilena-chaui-errou-em-atacar-a-classe-media/

(II) https://www.youtube.com/watch?v=FeP4rWe0zdw

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