Na redação da Campos Sales

Por Elias Ribeiro Pinto – no DIÁRIO

1 Pode ser encontrada, nas boas casas do ramo, uma simpática e compacta edição (pela Cosac Naify) que reúne, em dois volumes, uma seleção de crônicas (que abordam temas de música popular, jornalismo e literatura) escritas por Ruy Castro e originalmente publicadas na coluna que ele assina quatro vezes por semana no jornal Folha de S.Paulo (reproduzidas aqui no DIÁRIO).
2 Numa dessas crônicas, Ruy fala de um tempo em que não havia, nos jornais, crachá, catraca eletrônica e nem recepcionista perguntando com quem quer falar. “Quem passasse pela porta do jornal, era entrar e subir. Donde as redações viviam cheias de gente que não se sabia direito o que faziam – leitores, vendedores de bilhete de loteria, bicheiros, punguistas e anônimos em geral.” O danado dessa visitação contumaz é que essa gente cismava de aparecer “sempre no pior horário – entre cinco e sete da tarde”, quando o jornal fervilha, com as reportagens sendo escritas e paginadas.
3 O texto do Ruy Castro me fez lembrar – e já assuntei sobre o tema – da portaria e subsequente escadaria que levava à redação da velha A Província do Pará, na Campos Sales. Até pouco tempo atrás, os jornais de Belém mantinham suas sedes no antigo centro comercial da cidade, para onde todos convergiam e cruzavam caminho: empregadores, empregados, fregueses e desocupados. A regra que serve para os cachorros, de entrar na igreja por encontrar a porta aberta, parecia também servir a essa espécie de frequentadores, os, digamos, sem-redação.
4 Eles eram choferes de táxi, ex-policiais (os encostados), bebuns doces & indóceis, tipos populares, aposentados e até mesmo batedores de carteira e ex-colunistas, que perderam o espaço mas não o costume de frequentar as redações.
5 Na Província, por exemplo, muitos tinham passagem livre entre os arremedos de porteiros, eram da casa, a ponto de manter uma assiduidade de quem fazia parte da folha de pagamento. Entravam, iam direto à garrafa térmica do cafezinho, serviam-se, sentavam como se estivessem na sala de suas casas e, com a desenvoltura de veteranos do ofício, comentavam a notícia do dia, para desespero, às vezes, do pobre do repórter, já pela hora da morte, ou seja, do fechamento de sua reportagem.
6 Lembro, entre os tipos populares, da professora Graziela, a Arara, que transmitiu à filha, Ararinha, o hábito de fazer poleiro das redações. E eu era, à revelia, o interlocutor preferido de outro visitante empedernido. Condenado pelo nome, minha penitência era ouvir, todo santo dia, uma exegese a respeito de meu xará bíblico. A homilia sempre terminava comigo, digo, com o profeta Elias elevado aos céus num redemoinho, numa carruagem com cavalos de fogo.
7 Não lembro do nome desse meu impertinente interlocutor de todos os dias. Trazia sempre, atravessada ao peito, uma bolsa. A mudança dos jornais para longe do centro contribuiu para a extinção dessa espécie nelsonrodrigueana, além do que o nosso personagem enfrentaria, hoje, portarias mais rigorosas no controle de entrada. Cá entre nós, ainda bem – e para o bem dos que atualmente mourejam na redação.

Bate-papo exclusivo com Roberval Davino

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Por Cláudio Santos, especial para o blog

Entrevista, feita via e-mail, com o técnico Roberval Davino (59 anos, alagoano de Maceió), campeão pelo Remo no Brasileiro da Série C em 2005 e que também dirigiu o Paissandu em 2012. Depois de jogar futebol entre 1970 e 1992, assumiu a profissão de treinador, tendo dirigido vários clubes brasileiros, como CRB, Juventude, Goiás, Vila Nova, São Caetano, Ituano, Guarani, Inter de Limeira e Brasiliense. É o primeiro bate-papo de uma série que faremos com treinadores de renome que tenham algum tipo de ligação com o futebol paraense.

REMO 2005

Qual a principal dificuldade que o sr. encontrou em sua passagem pelo Remo, em 2005?

RD – A estrutura física do clube e alguns vícios existentes dificultaram um pouco, porém a dedicação dos funcionários de vários setores, assim como os torcedores, superavam estas dificuldades e faziam com essa dedicação um local alegre de trabalhar.

O plantel que encontrou no Remo dava para ser campeão da Série C ou os reforços indicados foram imprescindíveis para a conquista?

RD – Acredito que o grupo era grande, foi preciso qualificá-lo com algumas dispensas e contratações, dentro das necessidades apresentadas. Chegaram Rafael (goleiro), Boleta, Carlinhos, Ailton, Maurílio e Capitão. Com esse pessoal que chegou, fizeram crescer a competitividade interna e a equipe cresceu. Definimos uma maneira de jogar e, com isso, nasceu a confiança dos torcedores na equipe.

Taticamente falando, qual jogador foi fundamental nessa caminhada?

RD – Taticamente, encontramos uma maneira de jogar que era repetida em cada jogo. Tinha uma boa posse de bola, transição ofensiva, com qualidade no meio de campo e muita velocidade ofensiva com Landu e bem concluída pelos atacantes (Capitão, Osni, Douglas). Um goleiro que passava segurança nas bolas difíceis (Rafael). Uma defesa que cresceu muito com a chegada do Carlinhos e a força do Marquinhos Belém. Enfim, foi um grupo que conseguiu um belo feito. Se tivesse que falar de um só atleta desta campanha, eu falaria do Landu, como peça decisiva por incomodar os sistemas defensivos de nossos oponentes.

O que pensa sobre a estrutura encontrada no Remo à época. O que encontrou de certo e o que encontrou de errado no clube?

RD – Em relação à estrutura, na época, tinha o básico para trabalhar. O CT do Japonês, que foi cedido para alguns treinos, foi importante. Outro problema eram os atrasos de pagamentos, que atrapalharam um pouco na contratação de atletas. No final, deu tudo certo e todos fizeram sua parte, dentro de seus limites.

Rafael Levy, presidente do Remo, à época, em uma entrevista, disse que um funcionário enchia o garrafão de água mineral com água da torneira e que, quando o sr. viu, cobrou e só aí eles passaram a fornecer água mineral à concentração. Isso procede? O que pensa de tudo isso?

RD – As dificuldades eram grandes, porém o ambiente de trabalho e a convivência entre os funcionários superavam tudo. Tivemos problemas com água, com bola, com concentração. A mais complicada era a falta de credibilidade. Como nos foi passado antes, tivemos a tranquilidade de administrá-las. Eu vim de uma equipe que tinha para treinamento, uma ambulância equipada, CT bem qualificado. Porém, a paixão pela bola não encontrei em nenhum lugar no Brasil (referindo-se aos torcedores remistas). O próprio Rafael Levy nos alertou pra tudo. Pra mim, é um grande orgulho esse meu segundo título brasileiro da Série C, pelo Remo.

O sr. senhor deu o único título nacional ao Remo: a Série C 2005. Sente-se magoado de nunca mais ter sido lembrado para comandar o clube?

RD – O que me chateia, até hoje, é que o Remo tem comigo um débito pelo título de 2005, no valor de R$ 15.000, que era a metade da premiação daquele título, e não cumpriram. Olhe, desde aquela época, falei com quase todos os dirigentes que me procuraram sobre atletas, e não falaram da dívida. Alguns, quando me faziam proposta para retornar ao clube, reconheciam e até juntavam essa dívida ao próximo contrato. Como não acertei…. É uma pena, mas a entidade onde prestei este relevante serviço tem esse débito até hoje. Vida que segue, lembro daquela temporada e tenho um grande carinho pelo clube.

Considero o sr. um dos técnicos mais estrategistas e conhecedores de futebol no Brasil. O que faltou para treinar um Flamengo, Corinthians ou outro clube de ponta no futebol brasileiro?

RD – Como profissional, recebi algumas oportunidades para trabalhar em equipes de maior tradição. Porém, por não ter um administrador do “meio” e não concordar com algumas situações fiquei nesse patamar de ser reconhecido como bom, mas sem alguns requisitos que fugiam aos que chegavam às grandes equipes. Em relação à minha carreira, não tenho o que reclamar, tenho consciência  de minha capacidade para o exercício da profissão. Aliás, hoje é que melhorei, e muito, e não por experiência, mas principalmente por estudar o futebol e estar bem atualizado sobre tudo que cerca este esporte emocionante.

Sente vontade de treinar o Remo ainda?

RD – Algumas vezes fui lembrado para retornar e nesses momentos estava empregado e não pude atender ao convite. Muitas vezes fui consultado pra saber sobre a qualidade de algum jogador que estava sendo sondado para jogar no Remo. Sempre atendia bem, e com informações firmes e conscientes, como faço pra muita gente e equipes que me procuram.

 

PSCPAYSANDU 2012

Por que não deu certo no Paysandu?

RD – No Paysandu, só não fui até o final, mas deixei uma equipe bem treinada e levei alguns atletas importantíssimos para conclusão do trabalho com o acesso.

O que pensa da estrutura encontrada no Paysandu?

RD – Em relação a estrutura, o Paysandu, como o Remo, tem o básico necessário para tocar o futebol.

Houve interferência no seu trabalho no Papão?

RD – Quanto à influência no meu trabalho, nunca existiu e não seria no Paysandu que aconteceria. Alguns vícios, não deixei acontecer, fiz a diretoria entrar em contato direto com atletas ou clubes para a contratação de jogadores. Dei noção do valor de salários para alguns atletas, o que diminuiu em muito os custos para o clube. No Paysandu, o que prevaleceu pra minha saída foi que um dia eu falei com o presidente (LOP), que elogiou meu trabalho e então lhe falei que era legal que o trabalho fosse bom, mas que no futebol o que vale é o resultado. O resultado negativo contra o Treze-PB, equipe que era considerada pela imprensa (paraense) como muito fraca, foi o causador de minha demissão. Logo após o acesso, recebi telefonemas de quase todos os dirigentes e atletas do Paysandu, agradecendo a participação que tive no trabalho.

 

LUVERDENSE 2013

Quem montou o time do Luverdense, que conquistou o acesso à série B em 2013?

RD – Cheguei ao clube em janeiro e já tinha uma base. Elaboramos um valor por posição para reforçarmos a equipe com atletas dentro da necessidade. Zagueiro, até 7 mil; lateral, até 8 mil; meias, até 10 mil, e atacantes até 12 mil. Porém, consegui levar o Tosin por 7 mil e o Marcelo Maciel por 6 mil (dois atacantes). Então montamos o complemento da equipe, com 7 atletas e ficou uma equipe legal e enxuta

Qual a importância de se ter um gerente de futebol? Sérgio Papelin, hoje, gerente de futebol do Paysandu, foi importante na montagem do elenco do LEC? Quantos e quais jogadores ele contratou?

RD – Acredito que é bom, para montar uma equipe, ter um gerente de futebol que conheça de atletas e tenha um bom relacionamento, como é o caso do Papelin. Outra maneira de trabalhar é quando a equipe tem uma filosofia de jogo e de jogador. Então, contrata-se o grupo ou o mantém dentro dos princípios dessa filosofia de trabalho. No final do campeonato, chegou a Copa do Brasil e veio o Papelin, que conseguiu trazer o Mizael e o zagueiro Luiz Eduardo. Após duas etapas da Copa do Brasil, que nós passamos de fase, eu tive um desencontro com o presidente, e saí.

 

OUTRAS QUESTÕES 

Sempre digo que todo técnico tem seu limite. Existe técnico de série A, B, C, D ou futebol pelada… O sr. concorda?

RD – Em relação a técnico, ou ele tem conteúdo ou não. Ou ele tem liderança ou não. E em equipes profissionais, como as de hoje, ou você demonstra seus conhecimentos ou é engolido pelos atletas. Mas, mesmo assim, cada qual tem sua área de atuação ou seu perfil que vai fluindo com o tempo. E os rótulos: “treinador de time pequeno”, “só trabalha com garoto”, “treinador copeiro” – enfim, são poucos os paus pra toda obra

Qual o tempo necessário para se montar um time, com condições de alcançar seus objetivos?

RD – Em relação a tempo, no nosso país, é complicado, mas hoje estou no CRB por 4 meses e foi mantida uma base. Se for dada uma sequência lógica, acredito que nas próximas 4 competições, os objetivos serão alcançados em pelo menos duas.

Existe alguma coisa que o sr. queria conquistar no futebol e não conquistou?

RD – Gostaria de ter tido uma oportunidade de ter trabalhado em Portugal, aonde acho que os técnicos gostam de estudar o desporto. Gostaria, também, de ter trabalhado no Atlético Paranaense, que considero uma das equipes mais avançadas, em condições de trabalho, no país.

Qual o seu esquema preferido de jogo, caso tivesse tempo e condições de trabalho?

RD – Em relação a esquema eu levo muito em consideração o grupo que tenho ou encontro. Algumas equipes já têm uma filosofia de trabalho e até o sistema já está embutido. Mas, no Brasil, isso ainda vai demorar a acontecer.

Aqui em Belém as divisões de base são precárias, mas Remo e Paysandu, em início de trabalho, insistem em dizer que vão formar o time profissional com garotos da base e contratar 3 ou 4 reforços, profissionais, pontuais, pra conquistarem seus objetivos. O que o sr. pensa disso?

RD – Em relação a divisões de base do Norte e Nordeste, tirando Sport, Bahia, Vitória, Fortaleza e Ceará, os demais são verdadeiros milagres, pelas condições que dão e ainda aparecerem grandes jogadores. Mas acredito que um dia será diferente. Vamos torcer por isso.

Muito se fala do livro “O Rugido do Leão”, sobre a conquista remista de 2005. O sr. ganhou algum dinheiro com a venda do livro?

RD – Acredito que não, pois, só foi feita uma edição e aí em Belém. Acredito que pagou as despesas de publicações, de viagens e hospedagem minha e do Vinicius para o dia do lançamento. Após, deixei alguns livros em alguns locais e não chequei se vendeu ou não. Fiz um lançamento em Maceió e vendi uns 60 livros e depois, presenteava mais do que vendia. Acredito que atingiu meu objetivo que foi deixar editado um feito fantástico de minha carreira. Tenho certeza de que se eu tivesse tino comercial, teria tido lucro financeiro, porém meu objetivo foi alcançado e nada paga aquela história ali narrada. 

Considerações finais sobre o futebol paraense.

RD – O prazer e a paixão pela bola, por clubes de seguidores fanáticos, merecem um cuidado especial de quem os dirigem (Confederações, Federações e Dirigentes). Continuem lutando pelas melhoras dessas lendas do Norte e que seus seguidores continuem não só torcendo, mas cobrando e participando por melhores condições de trabalhos para os que fazem o clube. Que a credibilidade reine, e só assim essas equipes serão tão fortes, como seus fanáticos seguidores.

NOTA: Roberval Davino foi escolhido por já ter passado por Remo e Paysandu e ser considerado um dos dos mais competentes técnicos em atividade no futebol brasileiro. Espero que os amigos tenham gostado. Até a próxima, já com a marca inédita de 4 milhões de acessos no blog campeão.

Trevas, nunca mais

Por Clóvis Rossi – na Folha SP e no DIÁRIO

Passei a noite de 31 de março de 1964 para 1º de abril pulando, no DKW azul de meu pai, da sede do governo paulista, então no Palácio dos Campos Elíseos, para o QG do Exército, à época na rua Conselheiro Crispiniano, no centrão, cobrindo para o jornal carioca “Correio da Manhã” o que mal sabia que viria a ser o golpe que faz 50 anos logo mais. Após 50 anos, só um fanático negaria o quanto o país mudou para melhor em termos institucionais, por muito que falte para chegar a ser plenamente civilizado.

Para a grande maioria dos brasileiros, que não viveu aquela madrugada nem as trevas densas que a ela se seguiram, é difícil compreender o avanço que é os jornalistas já não precisarmos mais fazer plantão às portas dos quartéis. Ou ser obrigado a decodificar o Almanaque do Exército para tentar entender se a promoção a general de fulano ou beltrano podia significar mais fechamento ou alguma abertura.

Por falar em “Correio da Manhã”, meu primeiro emprego, acabou sufocado pela ditadura, mesmo tendo publicado dois dos três editoriais mais notórios de todos os tempos (“Basta” e “Fora”), cobrando a deposição do presidente João Goulart.

Depois se arrependeu e passou a ser crítico do novo regime, o que levou a uma implacável perseguição, incluída forte pressão sobre os anunciantes, até quebrar.

Um caso como esse, apenas uma entre as milhares de arbitrariedades e violências praticadas no período 1964/1985, torna até risível, hoje, achar que os governos do PT pretendem acabar com a liberdade de imprensa. Que gostariam de ter uma mídia domesticada, gostariam, como todos os governos, de qualquer signo.

Mas, na democracia, não dá para fazer o que a ditadura pôde fazer com o “Correio da Manhã”.

Na democracia, quem quer grita “onde está Amarildo” –e os policiais responsáveis por seu desaparecimento acabam descobertos e punidos. Na ditadura, milhares de gritos similares foram silenciados e, mesmo depois de encerrado o ciclo, ainda não se chegou à verdade, do que dá prova a existências das “Comissões da Verdade”.

O golpe que faz 50 anos em 2014 inaugurou um ciclo nefando na América Latina. Primeiro, caiu a Argentina (1966, com uma recaída 10 anos depois), depois o Uruguai, o Chile –até que todos os países sul-americanos e a maioria dos latino-americanos se transformassem em ditaduras, exceção feita a Venezuela, Colômbia, México e Costa Rica.

Cinquenta anos depois, caiu na rotina a realização de eleições presidenciais. Serão sete só este ano (El Salvador, Costa Rica, Colômbia, Panamá, Bolívia, Uruguai e o próprio Brasil).

No Brasil, aliás, será a sétima consecutiva, santa rotina que marca um recorde, como lembrou ontem Fernando Rodrigues.

É tal a rotina que posso ter a certeza de que jamais voltarei a fazer plantão à porta dos quartéis, mas nem por isso dá para esquecer que levou 35 anos para que um presidente legitimamente eleito passasse a faixa para outro presidente eleito nas mesmas condições.

clóvis rossiClóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. É autor de obras como “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo” e “O Que é Jornalismo”. 

Carlos Dornelles, o “PJ” e a poderosa Globo

Por Paulo Nogueira, do Diário do Centro Mundo

A sociedade tem que saber mais sobre as práticas fiscais de corporações como a Globo. Carlos Dornelles é um verbete grande no espaço de memórias do site da Globo. Ali, ficamos sabendo que Dornelles, gaúcho de Cachoeira do Sul nascido em 1954, fez muitas coisas na Globo. Vou transcrever um trecho para conhecermos melhor Dornelles na Globo segundo a própria Globo:

Globo-Carlos-Dornelles-300x212Esteve à frente de importantes coberturas, tais como a do comício no Vale do Anhangabaú pela campanha das Diretas Já, em 1984. (…)Também integrou a equipe mobilizada para a cobertura da doença e, em seguida, do falecimento do então presidente eleito Tancredo Neves. Em abril de 1989, Dornelles foi transferido para o escritório da TV Globo em Londres, onde começou a trabalhar como correspondente. Durante os anos em que esteve na Inglaterra, realizou importantes coberturas jornalísticas sobre a crise do leste europeu. Na então Tchecoslováquia, cobriu a chamada Revolução de Veludo, em novembro de 1989. No mesmo período, esteve no Irã, onde foi responsável pela cobertura da morte do aiatolá Khomeini, cujo enterro reuniu cerca de dez milhões de iranianos; e na Alemanha, onde acompanhou o primeiro ano-novo após a queda do Muro de Berlim. Em outubro de 1990, recém-chegado de Londres, Carlos Dornelles foi convidado (…) para trabalhar como correspondente em Nova York. No ano seguinte, participou da equipe de cobertura da Guerra do Golfo, um dos momentos mais marcantes de sua carreira.  (…) Ainda como correspondente em Nova York, realizou a cobertura da prisão e da morte do traficante colombiano Pablo Escobar, em 1991 e 1993, e esteve diversas vezes no Peru cobrindo o governo e a queda do ex-presidente Alberto FujimoriAo longo de sua carreira, também participou de importantes coberturas esportivas, como a da Copa do Mundo de 1990, na Itália; a de 1994, nos Estados Unidos, em que o Brasil conquistou o tetracampeonato; e a de 1998, na França. Fez parte, ainda, da equipe que cobriu as Olimpíadas de Seul, na Coreia do Sul, em 1988, e de Sidney, na Austrália, em 2000. 

Bem, tanta coisa não foi suficiente para que Dornelles não fosse demitido, em 2008. Dornelles, algum tempo antes, tinha manifestado publicamente seu incômodo com a forma como a Globo vinha cobrindo política. Antes de ser mandado embora, passou pelo exílio jornalístico siberiano  do Globo Rural, encostado e visto por agricultores sem muito que fazer nos domingos pela manhã. Tanta coisa, também, não foi suficiente para que Dornelles, a partir de um determinado momento na Globo, desfrutasse dos direitos trabalhistas nacionais. Dornelles foi instado a se tornar, como tantos outros funcionários graduados da Globo, o chamado “PJ” – pessoa jurídica. É uma manobra comum entre as empresas jornalísticas, com raras e caras exceções como a Abril. Usar PJs é uma gambiarra de discutível legalidade e indiscutível imoralidade. O objetivo é simplesmente não pagar o imposto devido. A empresa simula que o funcionário presta serviços eventuais, e com isso economiza consideravelmente.

Dornelles era um PJ ao deixar a Globo, embora isso não esteja em seu verbete. Para os cofres públicos, a proliferação de PJs é uma calamidade. Falta dinheiro que poderia construir escolas, ou pontes, ou hospitais. Para o empregado, é nocivo. Fundo de garantia, 13º salário, férias etc simplesmente desaparecem. É bom apenas para os acionistas. O que leva uma empresa como a Globo a isso? Falta de dinheiro? Ora, a Globo – por causa de outro expediente de duvidosa ética, os chamados BVs, algo que mantém as agências de publicidade numa virtual dependência da empresa – fica, sozinha, com praticamente metade de toda a receita publicitária brasileira. (Os BVs — bonificações por volume — explicam em boa parte o milagre de a receita publicitária da Globo aumentar no ano em que teve a pior audiência de sua história. De Xuxa a Faustão, do Jornal Nacional ao Fantástico, o Ibope marcha soberbamente para trás.) Isso, para resumir, significa o seguinte: a Globo teria que ser administrativamente muito inepta para não ser muito lucrativa com tanto faturamento.

Por que, então, tornar PJs funcionários como Carlos Dornelles, se não é por sobrevivência? A melhor resposta é: por ganância, associada a um sentimento de impunidade comum em quem tem muito poder de retaliação e intimidação. E esperteza: fazendo este tipo de coisa, a empresa ganha vantagem competitiva sobre as rivais seus custos diminuem. A Abril, que não tem PJs, já foi maior que a Globo.  Hoje é algumas vezes menor. O risco para a empresa é que, em algum momento, em geral na saída, o PJ a processe. Foi o que Dornelles fez. Ele reivindica mais de 1 milhão de reais da Globo na Justiça.

Empresas jornalísticas deveriam ter um comportamento exemplar nas práticas administrativas, dado o seu papel fiscalizador.  Você não pode cobrar retidão de governos e políticos  se faz curvas. Isso se chama cinismo. Há que ter muita desfaçatez para dar lições de moral quando você agride o interesse público ao recolher menos imposto do que deveria. Em vários países, as autoridades estão trazendo à luz aberrações fiscais para que a sociedade se inteire de algo que é crítico para seu bom funcionamento. Na Inglaterra, vieram à luz os impostos pífios pagos por colossos como Google, Amazon e Starbucks com o propósito de embaraçar as empresas e forçá-las a pagar sua taxa justa. O caso Dornelles é uma lembrança oportuna de que o governo brasileiro deveria jogar luzes – o mais eficiente desinfetante —  nas práticas fiscais de empresas como a Globo com seus PJs de araque.

Reforços ausentes da apresentação do Leão

Remo Edson Cimento prep goleiros e Tec Charles-Mario Quadros

Com ausência quase completa dos reforços, o elenco do Remo se apresentou na manhã desta quinta-feira ao técnico Charles Guerreiro, no campinho do Ceju (vizinho ao Mangueirão). Somente o zagueiro Max Lélis compareceu, mas Charles mostrou-se satisfeito com a informação do diretor Henrique Custódio, segundo quem os jogadores recém-contratados chegam ainda hoje a Belém. É o caso dos meias Athos e Eduardo Ramos, dos atacantes Leandrão, Tiago Potiguar e Zé Soares, do zagueiro Rogélio e do volante Mael.

No próximo sábado, o elenco viaja para a pré-temporada em Salinas, de onde só retornará na véspera da estreia no Parazão, diante do Cametá, dia 13, no Mangueirão. (Foto: MÁRIO QUADROS/Arquivo Bola)