“Marabá”, vem cá, segura o meu cachorro!

Por Manuel Dutra (*)
Lula agradou os banqueiros e os empresários de modo geral, numa espécie de negociação do tipo “ganhem o de vocês, mas deixem eu fazer o Fome Zero e propagar as conquistas sociais do Brasil pelo mundo afora, granjeando mais respeito ao nosso país”, etc. Mesmo isso é inaceitável para o barão que dá ordens a “Marabá”. A relação deve permanecer mesma da calçada da confeitaria! 
Marabá, aqui, não é o nome da cidade paraense, mas o apelido de um flanelinha, um guardador de carros de uma área chique do centro de Belém.

O barão, de cerca de 1 metro e 80 de estatura, meio obeso, vozeirão, vocifera da calçada da confeitaria na direção da rua e ordena: – Marabá, Marabá, vem cá; segura o meu cachorro enquanto eu vou comprar pão! E o típico lúmpen obedece de pronto. O cão de estimação estava em segurança enquanto o barão e a esposa se deliciavam dentro da confeitaria. No retorno, algumas moedas a Marabá… E paz de consciência! 

É essa forma de relação que deve permanecer intocada: esse é o recado daqueles que sempre vociferaram na direção dos sem-poder e que hoje, como historicamente foi, estão muito bem representados nos juízes do Supremo Tribunal Federal, que acabam de mandar para a cadeia os líderes do primeiro partido de trabalhadores do Brasil. 
O PT sequer tocou nessa forma relação, dado o volume de concessões que o partido fez em troca de sua chegada ao poder. Mas os governos Lula e Dilma deixaram cair uma gota de água fresca no inferno que é a vida do flanelinha “Marabá” e de milhões de outros brasileiros que sempre são deixados à porta da confeitaria, seja segurando o cachorro do barão ou lavando o seu belo automóvel, ou fazendo as duas coisas. 
O PT não é um partido revolucionário ou marxista. Sua gênese se dá em meio a trabalhadores que decidiram se organizar politicamente para lutar por seus direitos trabalhistas. Por outras vias e com propostas diferenciadas, outros já tinham tentado mudanças pela via trabalhista – Getúlio, que foi levado ao suicídio, e Jango, cujo corpo chega a Brasília no mesmo momento em que chegam à cadeia os líderes trabalhistas de hoje. 
Lula agradou os banqueiros e os empresários de modo geral, numa espécie de negociação do tipo “ganhem o de vocês, mas deixem eu fazer o Fome Zero e propagar as conquistas sociais do Brasil pelo mundo afora, granjeando mais respeito ao nosso país”, etc. Mesmo isso é, absolutamente, inaceitável para o barão que dá ordens a “Marabá”. A relação deve permanecer a mesma da calçada da confeitaria! 
Nem o barão nem Lula desejam rupturas. O primeiro se esforça para que tudo fique como sempre foi. O segundo acredita que pode “humanizar” a relação. Imagine-se qual será a reação dos barões da Casa Grande no dia em que um partido de massas chegar ao poder com a ideia de romper com esse passado trágico de humilhação da maioria por uma minoria gananciosa e agoísta, que vive às custas dos trabalhadores, composta de eternos vendilhões da pátria? Nesse dia pedirão a seus aliados externos que lhes emprestem uma bomba atômica de efeito limitado, de preferência programada tão somente para pulverizar, de vez, a massa pobre.
(*) Manuel Dutra é jornalista. 

5 comentários em ““Marabá”, vem cá, segura o meu cachorro!

  1. Esse pelo menos confessa qual a intenção do governo lullopetista e o que é o governo lullopetista. Um governo que não quer mudar nada, como realmente não mudou nada. E dentro do lullopetismo não é só ele que pensa assim.

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  2. Manuel, você que deve ler o que escrevi, com toda a atenção, que TALVEZ você entenda o que o articulista escreveu. Aliás, não só o que o articulista escreveu, mas o que tem sido o governo lulopetista desde seu início. Na verdade, desde antes de ganhar a eleição quando, aproximadamente quando o lulla assinou a “carta ao povo brasileiro”, se comprometendo com o capital.

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    1. Amigo Oliveira, sei de sua posição anti-petista, mas não distorça o verdadeiro sentido do artigo. Manuel Dutra é o jornalista autor do texto.

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  3. Amigo Gerson, como você sabe, o Brasil não é formado apenas do sub-proletariado e dos grandes capitalistas como a mídia lullopetista quer fazer crer.

    E eu não sou anti-petista. Eu sou a favor dos petistas que querem mudar a relação Barão/Guardador de carro.

    Ah, e quanto ao texto do artigo, ele tem uma matriz produzida bem antes das 15:18 h de 16/11/2013. Eis um exemplo de uma das primeiras replicações:

    “Se existe um momento específico que simboliza a irrupção da segunda alma do pt, acredito ter sido a divulgação da “Carta ao Povo Brasileiro”, em 22 de junho de 2002. É óbvio que veio longa gestação anterior, e seus fios podem ser rastreados, no mínimo, até a derrota de 1989, cujas histórias fogem aos objetivos deste capítulo. Mas, a silenciosa criatura veio à luz somente quando se iniciava a campanha de 2002 e, em nome da vitória, se impôs com facilidade surpreendente.
    (…)

    “Quando o comitê de lula decidiu comprometer-se com as exigências do capital, cujo pavor de suposto prejuízo a seus integrantes com a previsível vitória da esquerda levava à instabilidade nos mercados financeiros, foi dado o sinal de que o velho radicalismo petista tinha sido, no mínimo, suspenso. Mas, poucos foram os que entenderam o simbolismo do gesto. De início pareceu apenas uma decisão de campanha, mesmo que um mês depois o Diretório Nacional, reunido no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, tenha aprovado, contra o desejo de parcelas da esquerda partidária, as propostas antecipadas pela carta, transformando-as em orientações oficiais.
    (…)

    “Compromete-se com a “responsabilidade fiscal”, e com os “sólidos fundamentos macroeconômicos”. sustenta que não vai suspender contratos, nem revogar as regras estabelecidas”.

    (…)

    “Enquanto os meios de pagamento cresçam, cada fração de classe pode cultivar o seu lulismo de estimação. Responsável, apesar de algo populista, para os bancos. Nacionalista, ma non troppo, para os industriais.Promotor do emprego, embora precário, para o proletariado. Apoiador do crédito para a agricultura familiar, ainda que relutante quanto a enfrentar o latifúndio, para os trabalhadores rurais. Por isso, o presidente pode pronunciar, para cada uma delas, um discurso aceitável, usando conteúdos diferentes em lugares distintos e, sobretudo, tomando cuidado para que os conflitos não impliquem radicalização e mobilização. Porém, o entusiasmo, capaz de sustentá-lo nos momentos difíceis, como foi o “mensalão”, o lulismo só vai encontrar em meio ao subproletariado, o que está relacionado ao fato de que, como toda solução arbitral, tem como prioridade atender a própria base, a que garante a sua continuidade.”

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