Genoíno, meu vizinho

Por Paulo Jonas de Lima Piva
Vila Indiana, Butantã, São Paulo, bem atrás da USP. Morei lá nos anos de 2001 e 2002, num quartinho alugado, de estudante, numa construção muito estranha, sem acabamento, feita às pressas. Eram quartos feitos um em cima do outro, para os lados, escadas apertadas em redemoinho, levando para um fundo que parecia não ter fim. Alguns quartos tinham banheiro dentro e eram minúsculos, outros eram espaçosos, mas sem banheiro. As portas e janelas eram de lata. A sensação era que tudo aquilo iria desmoronar a qualquer instante. Certamente, aquele labirinto jamais passou pelos olhos de um engenheiro ou pelo crivo de um fiscal da prefeitura. Havia uma cozinha coletiva que mais parecia um porão. Úmida e com cheiro de mofo, gordura e gás, havia lá muito a se fazer, e os pedreiros que trabalhavam naquele porão com fogão e geladeira não pareciam conhecer nada de alicerces. Na verdade, o local parecia mais um canteiro de obras irregular e perigoso, feito para enriquecer alguém rapidamente à custa dos alunos da USP que lá moravam, jovens de toda parte, calouros, mestrandos, doutorandos do Brasil e do mundo.
Eu morava bem no alto daquela mistura de torre de Pisa, de Babel e puxadinho mal-feito, num quarto espaçoso, logo, sem banheiro dentro. A pia ficava numa sacada com vista para a parte de baixo do bairro e para o quintal de uma personalidade bastante respeitada na época: o então candidato ao governo de São Paulo pelo PT, José Genoíno. Da minha sacada, com a boca cheia de pasta de dente, eu via toda manhã os fundos da Vila Indiana e o quintal da casa de um dos políticos mais respeitados daquele momento, um sobrado simples com garagem. Por cinco ou seis vezes pude ver daquele mirante Genoíno no seu quintal ou na sua garagem, sempre muito rápido e discretamente. Em algumas delas consegui cumprimentá-lo lá de cima.
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Genoíno ainda mora lá, naquele simples sobrado de classe média baixa, naquele bairro de classe média para baixo, depois de todo o sórdido e covarde espetáculo promovido pela máfia midiática no caso do “mensalão”, que linchou publicamente a sua reputação de político honesto e comprometido com as causas populares. Em nada sua única propriedade corresponde à versão da oligarquia midiática brasileira de que o mais famoso crime de caixa dois para financiamento de campanha política fora o “maior escândalo de corrupção da história do país”. Genoíno, o cara mais injustiçado da política brasileira, não mora numa mansão no Morumbi, não é vizinho de José Serra (peça chave da privataria tucana impune) ou do Maluf (estrela de vários escândalos), não tem apartamento em Higienópolis, no condomínio de Fernando Henrique (o príncipe da privataria tucana e da compra de votos para a reeleição de 1998), tampouco conta na Suíça. Mesmo assim, ao que tudo indica, ele terá de pagar uma multa à Justiça de Joaquim Barbosa sem ter nenhum recurso para pagá-la, a não ser com o dinheiro da venda do sobrado da Vila Indiana onde ainda mora, seu único teto. Mesmo com a venda do único patrimônio que ainda tem lhe faltará dinheiro para tal. Em suma, Genoíno foi sim guerrilheiro, preso político da ditadura militar, militante torturado, homem de partido que se sacrificou por um projeto, o qual, felizmente, se realizou e está sendo realizado: eleger Lula presidente e tirar milhões da miséria.

19 comentários em “Genoíno, meu vizinho

  1. ” …o sórdido e covarde espetáculo promovido pela máfia midiática no caso do “mensalão”, que linchou publicamente a sua reputação de político honesto e comprometido com as causas populares.”

    Assino em baixo.
    Genoíno vem sendo covardemente linchado.

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  2. O apartamento de Lula, em São Bernardo do Campo, é frequentemente mostrado em reportagens e até invadido nos seus mínimos detalhes, no documentário ‘Entreatos’. Talvez por isso, não ter o que mostrar, a direita fotografou um centro de pesquisa da UNICAMP e publicou como se fosse sede da fazenda do Lulinha. Paciência. Há quem acredite.

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    1. De fato, amigo Jorge, uma manipulação grosseira dos fatos em relação a Lula, que começou a processar seus detratores. Quanto a Genoíno, quem conhece sua história pessoal, sabe que é absurda sua condenação por desvio de dinheiro público. Enfim, como você diz, há quem acredite, infelizmente.

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    2. Enquanto isso, numa das avenidas mais badaladas de Paris, FHC mantém alinhado apartamento e ninguém questiona absolutamente nada. Coisas do Brasil.

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  3. Não sou a favor do FHC, só pra constar. Foi um dos maiores hipócritas da história Brasileira. Mas também não aprecio o endeusamento de Lula. O patrimônio da família dele é incompatível com a de um ex sindicalista, o que já não me cheira bem.

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  4. Pô Gerson, sou leitor seu pela coluna de esporte de um jornal da terra, já o admirava muito por um craque das palavras, mas com seu senso de justiça, abre mais canal de admiração, pois sua opinião é como colocar a bola na gaveta. Parabéns!

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  5. Puta palhaçada!!!

    duvido que ele mora lá…tão tentando pintar ele de bonzinho agora (depois de roubar milhões), pra aliviar a dele!!!

    E digo mais…ta faltando por o Lula e cia na cadeia por envolvimento tambem!!!

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  6. Irmão de José Genoíno, José Nobre Guimarães, reconheceu ter recebído 100 mil DÓLARES do PT Nacional, do qual José Genoíno era presidente. A soma foi encontrada na cueca do assessor de José Nobre, José Adalberto Vieira da Silva ter sido preso, em São Paulo, durante prisão em flagrante efetuada em SP. Tudo gente humille, que vontade de chorar…

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  7. Com uma casinha tão humilde, foi ser avalista de emprestimos a Marcos Valério através dos bancos Riral e BMG… Mas como presidente do PT, o partido do Govenho e senhor da Ética e da transparência, afirmou que “assinacva sem ler”… então tá… Vou penduar minhas meias e esperar o Papai Noel.

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    1. Engraçado é que todo e qualquer ato dos réus do mensalão é interpretado como crime, mas o STF jamais se dignou a investigar provas concretas de compra de votos na reeleição de FHC, no escândalo das privatizações e no mensalão mineiro. Amigo, o que se espera da Corte é que faça Justiça de verdade, não pirotecnia.

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  8. Que dó… Milhões de brasileiros precisavam e precisam do dinheiro que esse ladrão desviou, juntamente com o Chefe Lula. Utilizaram da ignorância do povo para se locupletar e para fortalecer sua base eleitoral. Deveriam, no mínimo, pegar os 30 anos em regime fechado por financiar as drogas, assassinatos, mortes por fome e sede, falta de saneamento dentre outras indiretamente. A corrupção é o crime mais grave que um país pode sofrer

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  9. O Genoíno pode morar numa favela ou num palácio. Mas, nada , nada mesmo, tira o desmérito dele ter corrompido políticos, assim como toda a corja dos ptralhas. Quem maculou a dignidade do povo brasileiro, independente de partido político, principalmente aquele que se julga maior que o Brasil, que não é o caso, tem que pagar, não apenas com a cadeia, mas com a devolução de todos os desvios do erários perpetrados pela corja de todos os partidos que participaram desta maracutaia infame. Aqueles que discordam de tudo o que ocorreu que vão chorar num travesseiro quente e refletir se tem cabimento esta turba ser absolvida por causa da paixão irracional por um partido que desonrou o país. Por sinal, partido para mim não vale nada. Se fosse bom seria inteiro e, no , caso em questão, não são partidos, são triturados, sem escrúpulos, corruptos, ladrões, infames ou qualquer outro adjetivo que os coloque abaixo da linha da dignidade.

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  10. Sou a favor da justiça, justiça não significa perseguição, tem que haver amparo legal, imparcialidade, pois caso contrário não é justiça. Quem nunca teve vontade de fazer justiça com as próprias mãos em certos momentos? No entanto, por sermos “civilizados” obedecemos normas, regras, temos constituição e tudo mais. Talvez várias dessas regras já devam estar defasadas, antiquadas, porém, cabe a cada um de nós obedecer para não estarmos fora da lei. A ação penal 470, mais conhecida como mensalão, abriu precedentes perigosos, pergunta-se, a partir dela, o que é certo é o que é errado? Estou certo porq agrado A, B ou C e errado por desagradar fulano e beltrano. O fato é que regredimos, todos temos nossas opiniões acerca dos acusados, porém, nossas vontades não podem tornar “leis” do dia pra noite, mesmo que sejam vontades de magistrados, lembram!? Somos civilizados, obedecemos normas! E se por um acaso, vc ou eu fôssemos julgados? E se nós desagradássemos A ou B, por qual código penal seríamos julgados? façam essa pergunta a vcs , reflitam sobre o que poderá ocorrer e depois analise o que a AP 470 nos proporcionou.

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