O núcleo da política do mensalão (parte 2)

Por Paulo Moreira Leite – Revista Época

Qualquer antropólogo  que já passou um fim de semana nos Estados Unidos sabe que ali se encontra um dos países mais desiguais do planeta, onde os ricos não pagam impostos, os pobres não têm direito a saúde e as garantias formais da maioria dos assalariados são exemplo do Estado mínimo.  A Justiça é uma mercadoria caríssima e as boas universidades estão reservadas para os gênios de qualquer origem e os milionários que podem pagar mensalidades imensas e ainda contribuem com uma minúscula fatia de suas fortunas para garantir um sistema em que o topo garante ingresso para seus filhos e netos – com aplauso de deslumbrados tropicais pelo sistema.

Quem se acha “europeu” poderia abrir as páginas de A Força da Tradição, onde o historiador Arno Meyer descreve a colonização da burguesia revolucionária – da liberdade e da igualdade – pela aristocracia que moderou  ímpetos mais generosos e democráticos, chamados fraternos, dos novos tempos. Fico pensando se os pensadores americanos acordam de manhã falando em sua meia-república depois de pensar na força Tea Party. E os europeus, incapazes de olhar para o horror e a miséria de sua crise contemporânea? Também acham que tem um problema em sua “cultura”?

Tudo isso para dizer que o problema não é cultura, não é passado, mas é a luta do presente. E aí não é possível deixar de notar uma grande coincidência. Vamos esquecer os banqueiros e publicitários dos “núcleos” operacional e financeiro da denúncia. Vamos para o principal, o “núcleo político.”

Há quatro décadas, José Dirceu foi preso sem julgamento e, mais tarde, iniciou uma longa jornada no exílio e na clandestinidade. Não lhe permitiam circular pelo país nem defender suas ideias em liberdade. O mesmo regime que o perseguia suprimiu eleições, transformou a justiça num simulacro, cassou ministros do Supremo, instalou a censura a imprensa e  convocou um admirador de Adolf Hitler, como Filinto Muller, para ser um de seus dirigentes políticos.

Civilizado, não? Meia-república? Ou o país deveria ser transformado numa ditadura porque lideres estudantis, como Dirceu, defendiam um regime como o comunismo cubano?

José Genoíno foi preso e torturado. Queria fazer uma guerrilha da escola maoísta – popular e prolongada. Imagine a farsa do tribunal militar que o condenou – com aqueles oficiais que cobriam o rosto, na foto inesquecível do julgamento da subversiva Dilma Rousseff, mas não deixavam de cumprir o figurino do regime, ilustrado por denuncias fantasiosas, de tom histérico.

Gushiken, a quem não forneceram provas na hora necessária, era do tempo em que a polícia vigiava sindicatos, perseguia dirigentes – achava civilizado dar porrada, desde que não ficassem marcas de choques elétricos.

Esta turma merece mesmo ser chamada de “núcleo político” do caso. Está no centro das coisas de seu tempo. É o centro do átomo.

Ninguém se importa com banqueiros do Rural, vamos combinar. Nem com publicitários. Se forem inocentados, terão direito a um chororô de fingida indignação e estamos conversados.

A questão está nos “políticos”.

Sabe por que? Porque dessa vez “os políticos” já não podem ser silenciados na porrada.

Quatro décadas depois, cidadãos como Genoíno, Dirceu, Gushiken, e seus descendentes políticos, não são conduzidos a tribunais militares. Podem apresentar sua versão, defender seus direitos. Resta saber se serão ouvidos e considerados. Ou se há provas e argumentos para condená-los, sem perseguição política.

Vídeo por vídeo, não há nada contra os réus que se compare a tentativa de suborno que serviu de prova da Operação Satiagraha – anulada pela Justiça. Também não há relação de contribuições a políticos tão clara como a Castelo de Areia, com dezenas de milhões desviados, nome após nome  – anulada pela Justiça. Para voltar a um passado um pouco mais distante. Nunca se viu um escândalo tão grande como o impeachment de Collor, com troca de favores e obras públicas registradas em computador – prova anulada pela Justiça.

Desta vez, os réus  têm uma chance. É isso que irrita a turma do linchamento. Imagine quantas provas de inocência não sumiram no passado. Quantos depoimentos não foram redigidos e alinhavados pela pancada e pela tortura.

Hoje, os mesmos réus e seus descendentes políticos têm direito a ser ouvidos. Representam. Seu governo tem votos. O partido é o único que população reconhece.

Alguns acusados do núcleo contam com advogados que não cobram menos de R$ 100 000 só pela primeira consulta – sem qualquer compromisso posterior. Pois é. O justiça brasileira continua escandalosamente cara, exclusiva, desigual. É feita para brancos e muito ricos. Mas os  bons advogados deixaram de ser monopólio do pessoal de sempre. Tem gente nova no clube. O país não mudou muito. Só um pouquinho.

É isso que a turma do linchamento não suporta.

Lecheva abre espaço para os renegados

Sob o comando de Lecheva, o Paissandu entra em campo neste sábado, às 16h, no Mangueirão, contra o Cuiabá com escalação que reabilita alguns jogadores barrados por Roberval Davino. Depois de dois coletivos, o time mais provável do Papão é o seguinte: Dalton; Pikachu, Fábio Sanches, Tiago Costa e Régis; Vanderson, Leandrinho (foto), Lineker e Harisson; Rafael Oliveira e Héliton. Harisson, Vanderson e Héliton voltam à equipe e será a primeira participação de Lineker como titular. Lecheva só vai dirigir o time nesta partida. O novo técnico, Givanildo Oliveira, chega na manhã de sábado e vai acompanhar o jogo das tribunas do Mangueirão. (Foto: MÁRIO QUADROS/Arquivo Bola)

O núcleo da política do mensalão (parte 1)

Por Paulo Moreira Leite – Revista Época

A primeira notícia sobre mensalão é que a verdade de uma face só começa a perder credibilidade. A noção de que se trata do “maior escândalo da história” ficou mais difícil de sustentar depois da revelação de que, ouvidas mais de 300 testemunhas, da acusação e da defesa, não apareceu ninguém para descrever as célebres “compras de voto”, “mesadas” ou outras formas de comércio político que Roberto Jefferson descreveu em junho de 2005.

O mesmo Jefferson, na verdade,   deixou de sustentar essa versão em  depoimentos posteriores, menos barulhentos e mais consistentes, que prestou à Polícia e a Justiça nos anos seguintes. Num deles, o deputado do PTB refere-se ao mensalão como ” criação mental.“ Disse, explicitamente, que “não envolvia” troca de apoio entre o Planalto e o Congresso e se destinava a financiar a campanha municipal de 2004. A verdade é que depois do início do julgamento alguns casos se revelaram particularmente humilhantes para a acusação. Estou falando do ex-ministro, ex-deputado e  líder sindical bancário Luiz Gushiken. A acusação pede absovição de Gushiken por falta de provas.

Mas durante sete anos Gushiken frequentou os jornais e tele jornais como um dos suspeitos. Sua foto de cavanhaque e olhos puxados estava em toda parte, as acusações também. Em 2005, seu depoimento a CPI foi interrompido por comentários maliciosos de parlamentares da oposição, que dificultavam a conclusão de qualquer  raciocínio. Parte do plenário espumava de felicidade. Já se sabia que a acusação tinha decidido indiciar Gushiken em 2007 embora admitisse que só tinha indícios muito fracos para isso. Mas ela foi em frente, com o argumento de que, se não apurasse nada de novo, o acusado seria inocentado. Mas se era assim, por que não fazer o contrário e só indiciar em caso de indícios concretos?

Revelou-se, ontem, no Supremo, um detalhe especialmente cruel. Embora tivesse acesso a documentos oficiais que poderiam ser úteis a Gushiken, a acusação recusou-se a  fornecê-los a seus advogados em tempo hábil.  Com isso, o réu foi prejudicado no  direito de apresentar uma boa defesa. Feio, né? O fato é que o julgamento tem permitido a apresentação serena de mais de uma versão, interrompendo um ambiente de linchamento que acompanhou o caso desde o início.

E é para voltar ao linchamento que começam a circular novas versões e opiniões sobre o caso, sobre a Justiça brasileira, sobre a impunidade nacional e assim por diante. O raciocínio é simples: não importa o que for provado nem o que não for provado. Caso os 38 réus não sejam condenados de forma exemplar, quem sabe saindo algemados do tribunal, o país estará desmoralizado, nossa Justiça terá demonstrado, mais uma vez, que só atua a favor da impunidade, que todos queremos pizza e assim por diante.

Parafraseando Napoleão no Egito, tenta-se vender uma empulhação. Como se os 512 anos de nossa história contemplassem os 190 milhões de brasileiros a partir das estátuas de mármore da sede do Supremo em Brasília. Vamos deixar claro. Ninguém quer a impunidade. Todo mundo sabe que o abuso do poder econômico é um dos principais fatores de atraso de nosso regime democrático. Leva a corrupção e desvia os poderes públicos de seus deveres com a maioria da população.

Não é difícil reparar, porém, numa grande hipocrisia. As mesmas  forças que sempre se beneficiaram do poder econômico, da privatização da política e do aluguel dos governos são as primeiras a combater toda tentativa de reforma e de controle, com o argumento de que ameaçam as liberdades exclusivas de quem tem muito patrimônio para gastar em defesa de seus interesses. Denunciam o mensalão hoje mas fazem o possível para que seja possível criar sistemas semelhantes amanhã. Não por acaso, há dois mensalões com um duplo tratamento. O dos mineiros, que é tucano, já foi desmembrado e ninguém sabe quando será julgado. Já o do PT, que é mais novo, e deveria ceder passagem aos mais velhos, é o que se sabe.

Este ajuda a demonstrar  a tese tão cara à defesa de que a dificuldade principal não se encontra no mensalão  mas nos interesses políticos que os acusados defendem e representam. Interesses diferentes tem tratamento diferente,  concorda? O principal argumento para o linchamento é provocar uma parcela da elite brasileira em seu ponto fraco – o complexo de inferioridade em relação a países desenvolvidos. O truque é falar que sem uma pena severa nem condenações “exemplares” (exemplo de que mesmo?) vamos confirmar nossa vocação de  meia-republica, um regime de bananas, com uma semi-desigualdade entre os cidadãos, onde  a população não sabe a diferença entre público e privado.

Coisa de antropólogo colonial em visita a terras de Santa Cruz. Por este raciocínio, num país tropical como o nosso, não se deve perder tempo falando em “prova”, “justiça,” ”fatos”, “testemunhas”. Muito menos em “direitos humanos,” essa coisa que “só serve para bandidos”, não é mesmo. Somos atrasados demais para ter atingido esse ponto. Sofremos de um mal maior, de origem. O que existe, em nossa pequena aldeia brasileira,  é  uma “cultura” de país pobre, subdesenvolvido, sem instrução. É ela que a turma do linchamento acredita que precisa ser combatida e vencida. Por isso o julgamento do mensalão não é um “julgamento” nem os réus são apenas “réus.”

São arquétipos. São “símbolos” e não dispensam  verdades comprovadas para serem demonstrados. Mas se é assim, seria melhor chamar o Carl Young em vez de o Ayres Britto, não? No julgamento de símbolos, basta a linguagem, o verbo, a cultura, os poetas, ou em tempos atuais, a mídia  – é com ela que se constroem e se desfazem símbolos e mitos ao longo da história e mesmo nos dias de hoje,  não é mesmo? Dane-se se as provas não correspondem ao que se espera. Para que se preocupar com testemunhas que não repetem o texto mais conveniente ? O que importa é dar uma lição aos selvagens, aos incultos, aos despreparados.

Como se houvessem civilizados. E aqui é preciso refletir um pouco sobre essa visão do Brasil. É muito complexo para um país só.

(Continua…)

Brasil é um país muito perigoso para jornalistas

Do Comunique-se

De acordo com a pesquisa realizada pelo International News Safety Institute (INSI), pelo menos 70 jornalistas e outros profissionais de mídia morreram durante cobertura no primeiro semestre deste ano. Neste período, os piores países para jornalistas, segundo a pesquisa, foram Nigéria, Brasil, Somália, Indonésia e México. Diretor do INSI, Rodney Pinder, afirma que as armas e bombas continuam como método preferido de censura em muitos países. “Jornalistas estão mais do que nunca na mira dos inimigos da liberdade de expressão. Toda e qualquer morte sufoca o fluxo de informações, sem o qual nenhuma sociedade livre pode funcionar”, declara.

Nos últimos dez anos, a taxa de impunidade dos assassinos se manteve constante no mundo em aproximadamente 90% das vezes. Sobre o Brasil, Pinder mencionou a cobrança da Asssociação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) na apuração do caso do jornalista Décio de Sá, assassinado em abril. Esses crimes silenciam os repórteres e “avisam” de que não se deve cobrir em certas áreas. Em diferentes países, os jornalistas deixam de registrar algumas questões. “Esses cantos obscuros da sociedade não estão sendo expostos como deveriam”, conclui.

A frase do dia

“Quando alguém paga €43 milhões por um rapaz de 19 anos, é preciso dizer que o futebol ficou louco”.

De Sir Alex Ferguson, técnico do Manchester United, assombrado com a dinheirama que o PSG vai pagar pelo atacante Lucas, ex-São Paulo.

Veterano Dodô é oferecido ao Paissandu

Por iniciativa de um empresário, o veterano atacante Dodô, de 38 anos, foi oferecido ao Paissandu para a disputa da Série C. Os dirigentes não chegaram a considerar a proposta. Dodô, conhecido como o artilheiro dos gols bonitos, defendeu grandes clubes brasileiros ao longo da carreira. Passou por Fluminense, São Paulo, Santos, Palmeiras, Botafogo e Vasco. Suspenso em 2007 por dois anos, em função de doping por uso de substância proibida quando defendia o Botafogo, voltou aos gramados em 2010 defendendo a Portuguesa de Desportos. Ultimamente, estava no Guaratinguetá.

A Ética e o espírito olímpico

Por André Luís Lopes Pereira (advogado) e Laurindo Garcia e Souza Neto (judoca, campeão sul-americano em 1999) 

Os Jogos Olímpicos começaram em 776 a.C. em Olímpia, na Grécia antiga, e duraram por mais de mil anos. Entretanto, o evento religioso que deu origem aos Jogos é bem mais antigo podendo datar do século 13 a.C. De lá pra cá muito se tem dito sobre os jogos, mas pouco enfoque é dado, e pouca reflexão é feita sobre a ética nas Olimpíadas.

Jugoro Kano, por exemplo, quando fundou o Judô, queria transformar os homens em cidadãos e educá-los através do respeito mútuo, para que assim houvesse unificação e paz entre os povos. Casos de doping nos esportes tem ficado a margem das discussões acerca dos esportes olímpicos, porém outras práticas (anti) éticas têm ocorrido, sem que, principalmente a mídia e profissionais ligados ao esporte tenham dado ênfase a elas.

Há um verdadeiro tráfico de talentos com relação aos competidores de tênis de mesa chineses. Virou comum no mundo naturalizar atletas daquele país. Ao não conseguirem vagas em sua seleção nacional, os chineses “excedentes” aceitam jogar por outros países para conseguir uma vaga nos Jogos Olímpicos. Há clássicos exemplos como o time de Cingapura que é composto apenas por chineses; o caso do “dominicano” Lin Ju; e do “argentino” Liu Song, podem ser citados.

A Espanha no basquete masculino, implodiu o espírito olímpico e por conseguinte a ética, ao perder para o Brasil, apenas para fugir da seleção norte americana, considerada o novo “dream team”. Para não deixar de citar, notemos que a patrocinadora oficial do evento olímpico em Londres é nada mais nada menos que a McDonald’s, e que tem como slogan “viver o espírito olímpico”, ou seja, a maior empresa do mundo em fast food, é a empresa que patrocina jogos, que tem como fim a saúde, ou deveria!!

Importante lembrar que esporte de alto rendimento por si só já é uma agressão à saúde, assim dizem os especialistas. Seria um parodoxo?!? Importante lembrar a derrota de Federer, em final contra o inglês Andy Murray. Vale lembrar que o tenista suíço já ganhou 07 (vezes) o Torneio de Wimbledon. Curioso, não?!?

Para finalizar não poderíamos deixar de citar a seleção brasileira masculina de futebol, que ao contrário das outras, levou à Londres o time profissional, com o técnico da seleção principal. Até aqui, tudo bem, é um direito que assiste à seleção tupiniquim, mesmo que outras apenas levem à Londres jogadores amadores.

A ética do futebol e somente a do futebol nacional porém guardava surpresas no final, quando anunciaram que cada jogador ao conquistarem a medalha de ouro seriam contemplados com R$180.000,00 (cento e oitenta mil reais).

É um verdadeiro espírito olímpico se comparados a outros atletas brasileiros, hein?!?