Metamorfose ambulante

Por Gerson Nogueira

Há quem busque explicações para derrotas na conjunção astral, nos mistérios do inconsciente ou até nos papiros esquecidos do Mar Vermelho. Quase sempre, porém, a resposta é bem simples. No caso específico do Remo, a campanha na Série D tem sofrido os efeitos maléficos da conspiração de dois fatores fundamentais: critério desvairado de contratações, mexidas constantes na equipe e apadrinhamento de jogadores importados.

O técnico anterior, Flávio Lopes, foi demitido depois de uma fragorosa derrota de 4 a 2 frente ao Vilhena, logo na abertura do campeonato. O comportamento errático do time naquela partida foi reproduzido, com outros personagens, no jogo de domingo em Itacoatiara contra o Penarol. Um time dispersivo, apático diante da disposição do adversário e conformado com o resultado trágico.

Foi um desempenho vergonhoso. Tudo o que um time do porte do Remo não tem o direito de fazer. Clubes de massa, com história e tradição, não se deixam derrotar de maneira tão passiva. Não é somente mais um jogo qualquer da Série D. É a história de uma agremiação importante, centenária e com uma legião de torcedores.

Acontece que os jogadores que vestem hoje a camisa do Remo estão de passagem. São temporários e sabem disso. Não têm um projeto de permanência. Só quem mantém alguma ligação sentimental são os garotos saídos da base, e olhe lá.

Edson Gaúcho tem muito a ver com a campanha errática do Remo. O maior problema é o da ausência de definição de um time titular. No futebol, entrosamento é fundamental. E, para entrosar, uma equipe precisa se acostumar a jogar junto.

O Remo atual é uma metamorfose ambulante. A cada jogo apresenta uma nova escalação e por isso tem comportamento tão instável. Contra o Penarol, Gaúcho trocou Ávalos por Marcelão, que estreava; sacou Aldivan e deu nova chance a Paulinho; e botou Márcio Tinga no lugar de André, suspenso. Das três opções, apenas Marcelão pode ser justificado, embora em campo tenha mostrado a mesma falta de categoria do ex-titular.

A apenas um jogo do fim da primeira fase do campeonato, o desentrosamento é flagrante. No meio-de-campo, setor crucial para o equilíbrio de um time, a saída do volante titular André desencadeou um ato que só o desespero explica: a escalação de Márcio Tinga, jogador de parcos recursos que já havia sido testado nos amistosos contra o Paragominas e o River Plate, sem mostrar qualidades.

No jogo anterior, contra o Náutico, os ventos da mudança atingiram Edu Chiquita, trocado por Laionel. Este, por seu turno, não agradou, pois entrou e saiu do time sem maiores explicações. E, como contratar parece ser uma vocação remista, mais dois volantes (Rudiero e Índio) acabaram de chegar – mesmo que haja apenas um jogo a cumprir.

Depois do vexame no Amazonas, os corneteiros habituais entraram logo em cena, pedindo a cabeça do técnico. Caso se renda a esse tipo de pressão, a diretoria passará recibo de despreparo para a missão. O trabalho de Gaúcho merece críticas, mas afastá-lo agora – depois de apenas uma derrota – seria uma aposta de alto risco, com consequências imprevisíveis. Ruim com, pior sem.

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Como futebol não é apenas bola rolando, o Remo levou outro drible da CBF. A entidade, indiferente ao próprio regulamento da competição (que prevê que a rodada final de cada fase seja disputada no mesmo dia e horário), confirmou ontem o jogo entre Vilhena x Atlético-AC para quarta-feira, 29 – ou seja, três dias depois de Remo x Vilhena que, oficialmente, vale pela rodada final.

Caso o jogo termine empatado em Belém, estará pavimentado o caminho para que Vilhena e Atlético façam um jogo de compadres, pois novo empate classificaria os dois. O fato é que, além de ruins de bola, nossos clubes tornaram-se raquíticos nos bastidores. Nem padrinhos  e sem padrinho, visto que a FPF nesses momentos sempre se recolhe ao silêncio obsequioso.

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O Paissandu agiu rapidamente para capturar o torcedor e garantir boa arrecadação no confronto de sábado contra o Icasa. Ingressos de arquibancada a R$ 15,00 e de cadeira a R$ 30,00 até amanhã. O bom resultado fora de casa diante do Salgueiro deve, naturalmente, atrair a massa bicolor, mas não custa criar atrativos. O negócio futebol exige agilidade e inteligência.

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Corintianos mostram-se enraivecidos com o erro triplo do bandeira no clássico contra o Santos, deixando de assinalar impedimentos em lance que terminou em gol. O incompetente merece punição cabível, mas o Corinthians – junto com o Flamengo – está naquele panteão especial de clubes que não pode reclamar de erros de arbitragem.

Tem um longo histórico de decisões polêmicas que lhe favoreceram nas mais diversas competições. Por isso, chiar contra o Santos é mais ou menos como se o roto falasse mal do esfarrapado.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 21)