Pior para o mundo

Por Ruy Castro

Nas muitas entrevistas a que fui solicitado a dar sobre Nelson Rodrigues nas últimas semanas, algumas perguntas, de tão recorrentes, me fizeram pensar melhor. Uma delas, sobre se Nel-son seria universalmente reconhecido se tivesse escrito em inglês ou espanhol. A resposta, óbvia, é sim. Minha dúvida é se, escrevendo nessas línguas, ele seria o mesmo Nelson Rodrigues.

Se escrevesse nessas línguas, Nelson não seria brasileiro, mas americano, argentino, chileno ou guatemalteco, com outra formação, família, ambientes, talvez até outra história. Esse Nelson teria a mesma paixão e compaixão por seu universo de adúlteros, tarados, cínicos, virgens, prostitutas, grã-finos, cabeças de bagre e santos de vitral? E a cultura desses povos lhe permitiria a promiscuidade de alternar teatro, jornal, cinema, televisão e estádios de futebol?

Descartada a hipótese de um Nelson Rodericks ou Rodríguez, resta a alternativa: então, por que não o traduzem? Isso já foi tentado diversas vezes, com resultados duvidosos. Não por ser difícil verter “Eu não disse? Batata!”, “Nervoso, os colarinhos!” ou “Não dá bola, não dá pelota!” para outras línguas -na verdade, não é-, mas por Nelson ser tão escandalosamente brasileiro.

Seus personagens é que são intraduzíveis. Tuninho, o marido de “A Falecida”, talvez pudesse ter sido criado por Fellini, e Dr. Werneck, o pai de “Bonitinha, mas Ordinária”, por Buñuel -mas não teriam sido levados às últimas consequências, como o foram por Nelson. E quem mais teria concebido os seres que povoam “Álbum de Família”, “Dorotéia”, “Senhora dos Afogados”, “Anjo Negro”?

Se existe uma tragédia universal, estabelecida por Shakespeare, Ibsen, O’Neill, Nelson situou nela o homem brasileiro. E, se o mundo não entende português para se maravilhar com ele, pior para o mundo.

Papão vacila no fim e cede empate ao Icasa

Depois de perder uma grande quantidade de chances, principalmente no segundo tempo, o Paissandu acabou vacilando nos minutos finais e empatou com o Icasa, por 1 a 1, na tarde deste sábado, no estádio Mangueirão. A ausência de um atacante definidor atrapalhou a equipe ainda nos primeiros 45 minutos. O centroavante Rafael Oliveira, acionado várias vezes, perdeu boas chances antes que Tiago Potiguar fizesse o gol de abertura, aos 45 minutos. O Icasa jogava fechado e saía em contra-ataques perigosos, criando situações claras de gol. Depois do intervalo, o Paissandu voltou mais organizado, trabalhando mais a bola no meio-de-campo com Harisson e Alex William, mas o Icasa também ameaçava. Aos poucos, porém, o jogo foi ficando interessante para Potiguar e seus companheiros. Tendo que buscar o empate, o Icasa abria espaços, mas o Papão abusava de perder gols. No final, quando o jogo parecia definido, veio o castigo. Bismark, aos 43 minutos, decretou o empate em falha do goleiro Dalton. Logo em seguida, porém, o mesmo Dalton impediu que o Icasa virasse o placar. A renda no Mangueirão foi de R$ 138.810,00, com 9.920 pagantes. O público total chegou a 11.880 espectadores.

DIÁRIO, 30 anos

A redação do DIÁRIO viveu alguns momentos de pura confraternização, dando uma pausa no fechamento de sexta-feira. O motivo: a comemoração dos 30 anos do jornal, com a participação do super time de profissionais e gestores de outras áreas da empresa. Em nome da tropa de choque, agradeci pelo comprometimento de todos com o projeto gráfico-editorial e enfatizei a importância da equipe para as conquistas dos últimos oito anos. O decano Carlos Queiroz, editor e poeta dos bons, foi homenageado pelo diretor-presidente Jader Barbalho Filho e aplaudidíssimo pelos colegas. Queiroz, além do caráter especial que tem, é um dos fundadores do jornal, presente desde o primeiro dia de funcionamento, há três décadas. Jader destacou a luta para alcançar o topo e a responsabilidade junto aos leitores e parceiros. É importante destacar ainda o esforço e carinho do departamento de RH para proporcionar a festinha. No final, foi servido um alentado coquetel com fundo musical de uma dupla de talentosos músicos, Júnior & Eraldo Costa. As fotos são de Marco Santos e Alex Ribeiro

Regina Duarte também tem medo de índio

Por Leonardo Sakamoto

A atriz global e pecuarista Regina Duarte, em discurso na abertura da 45ª Expoagro, em Dourados (MS), disse que está solidária com os produtores e lideranças rurais quanto à questão de demarcação de terras indígenas e quilombolas no estado. “Confesso que em Dourados voltei a sentir medo”, afirmou a atriz, neste domingo (18), com referência à previsão de criação de novas reservas na região de Dourados. “O direito à propriedade é inalienável”, explicou ela, de forma curta, grossa e maravilhosamente elucidativa o que faz do BRASIL um brasil. Em verdade, ela deve estar sentindo medo desde a campanha presidencial de 2002…

(O deputado Ronaldo Caiado, principal defensor desses princípios, deveria cobrar royalties de Regina Duarte… Inalienáveis deveriam ser o direito à vida e à dignidade, mas terra vale mais que isso por aqui.)

“Podem contar comigo, da mesma forma que estive presentes nos momentos mais importantes da política brasileira.” Ela e o marido são criadores da raça Brahman em Barretos (SP). Dos 60 assassinatos de indígenas ocorridos no Brasil inteiro em 2008, 42 vítimas (70% do total) eram do povo Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, de acordo com dados Conselho Indígenista Missionário (Cimi). “Ninguém é condenado quando mata um índio. Na verdade, os condenados até hoje são os indígenas, não os assassinos”, afirma Anastácio Peralta, liderança do povo Guarani Kaiowá da região. “Nós estamos amontoados em pequenos acampamentos. A falta de espaço faz com que os conflitos fiquem mais acirrados, tanto por partes dos fazendeiros que querem nos massacrar, quanto entre os próprios indígenas que não tem alternativa de trabalho, de renda, de educação”, lamenta Anastácio Peralta.

A população Guarani Kaiowá é composta por mais de 44,5 mil. Desse total, mais de 23,3 mil estão concentrados em três terras indígenas (Dourados, Amambaí e Caarapó), demarcadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (criado em 1910 e extinto em 1967), que juntas atingem 9.498 hectares de terra. Enquanto os fazendeiros, muitos dos quais ocuparam irregularmente as terras, esparramam-se confortavelmente por centenas de milhares de hectares. O governo não tem sido competente para agilizar a demarcação de terras e vem sofrendo pressões até da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). Mesmo em áreas já homologadas, os fazendeiros-invasores se negam a sair – semelhante ao que ocorreu com a Raposa Serra do Sol.

É esse massacre lento que a pecuarista apóia, como se as vítimas fossem os pobres fazendeiros. Só espero que, na tentativa de apoiar a causa, ela não resolva levar isso para a tela da TV, em um épico sobre a conquista do Oeste brasileiro, nos quais os brancos civilizados finalmente livram as terras dos selvagens pagãos.