Dorsa na Caras, Bolsonaro no CQC

Por Maurício Stycer

Pouco antes de morrer, ao cair pela janela do sétimo andar do prédio onde morava, a atriz Cibele Dorsa enviou à revista “Caras” um longo bilhete de despedida. No texto, ela pede perdão aos filhos pelo gesto, critica o ex-marido, Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda, por ter levado as crianças para o exterior e fala da solidão que sentia desde que perdeu o noivo, Gilberto Scarpa, morto no final de janeiro de forma idêntica a ela.

Horas depois da morte da atriz, no sábado, 26, o site da revista “Caras” começou a publicar o bilhete de despedida que ela enviou. “EXCLUSIVO: Cibele Dorsa deixa carta antes de morrer”, estampou a revista. O texto foi dividido em vários trechos, como se fossem capítulos, publicados de tempos em tempos ao longo da tarde. Na segunda-feira, a Justiça determinou, atendendo a pedido de Doda, que todas as referências a ele fossem retiradas do site e da revista. A mídia brasileira, de um modo geral, noticia com muito comedimento suicídios. O temor de que o suicídio possa ocorrer por imitação, uma tese levantada ainda no século 19, orienta a discrição dos principais veículos de comunicação.

Suicídio só é notícia mesmo quando envolve figuras públicas. Ainda assim, creio, a revista “Caras” agiu de forma sensacionalista, sem nenhum cuidado ao publicar os principais trechos da carta de Cibele Dorsa. Faltou editar, contextualizar a noticia e ouvir as pessoas envolvidas, além de pesar os danos que esta publicação poderia causar aos filhos da atriz.

A entrevista do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) ao “CQC”, da Band, envolve problemas de outra natureza. Num quadro previamente gravado, como todos do programa, o político respondeu a provocações de diferentes espectadores. Foi uma oportunidade para repetir suas notórias posições conservadoras, com traços de homofobia e de nostalgia da ditadura militar que dirigiu o país entre 1964 e 1985.

No momento mais forte, foi questionado pela cantora Preta Gil sobre qual seria a sua reação se um filho seu namorasse uma mulher negra. “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”, respondeu. Antes de exibir a entrevista, Marcelo Tas apresentou Bolsonaro como “o deputado mais polêmico do Brasil”. Ao final, disse: “Eu prefiro acreditar que o Bolsonaro não entendeu a pergunta da nossa querida Preta Gil”.

O “CQC” tem o direito de entrevistar quem quiser e o deputado pode falar o que bem entender. A Justiça está aí para avaliar se ele cometeu algum crime, ou não. O que me espanta é o programa ter levado ao ar uma resposta tão grosseira havendo dúvidas, como manifestou Tas, que Bolsonaro pode ter entendido errado a pergunta. Se é verdade isso, o trecho da entrevista não deveria ter sido exibido sem que o deputado fosse consultado antes. Também caracteriza sensacionalismo.

5 comentários em “Dorsa na Caras, Bolsonaro no CQC

  1. Determinados setores da mídia sobrevivem de escândalos, fatos bizarros, grotescos ou sensacionais. Se tem gente que gosta, fazer o quê? Um sociedade democrática nos coloca, constantemente, diante dessas situações limite. A testar permantemente o exercício da tolerância social.
    No caso da Caras nos cabe, como leitor ou internauta, apenas a postura seletiva.
    Já no caso do Bolsonaro, tem gente (inclusive aqui no blog) que apoia e aplaude suas estapafúrdias “ideias” e posições. Também, fazer o quê? Felizmente, ainda são minoritárias na sociedade.

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  2. O Aqui Agora que mostrava o mundo cão das décadas de 80 e 90 e o Programa do Ratinho das décadas de 90 e a passada, comparados com as midias atuais que mostram o mundo cão de hoje eram programas de familia. Esse mundo cão dá muita audiência.
    Como já dizia o velho guerreiro: “na TV nada se cria tudo se copia”

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  3. Não compactuo com a postura de Caras (em geral, assuntos futeis, ligados às celebridades) nem com a de CQC nesse episódio, aliás nem deveria ser dado voz ao deputado em causa. Matérias sensacionalistas, que exploram em demasia a desgraça alheia, não me apetecem. Quanto a atitudes extremas como o suicídio, creio que seja muita falta de Deus. O materialismo exacerbado de hoje conduz muitos a esse desatino. Vejamos, p. ex., o caso de Adriano, o futebolista recém-contratado pelo Corinthians. Se ele se apegasse a Deus, já teria certamente saído dessa armadilha, o alcoolismo, em que caiu. Ora, quem nesse Brasil não gostaria de ter uma carreira de sucesso como a dele, estar numa condição financeira excepcional, além de ser uma celebridade? É só canalizar todas esses dons para o bem, agradecendo sempre a Deus por tudo. Alega que não conseguiu superar a perda do pai, por isso recorre a essa vida desenfreada. Eu, também recentemente perdi meu pai, e senti em demasia a perda, mas acredito em Deus e sei que essas coisas existem para que a gente cresça como ser humano e se supere a cada vez.
    Segundo as Sagradas Escrituras, a ventania e a tempestade dão sobre a casa de qualquer um de nós, basta que construamos a nossa casa (a nossa vida) sobre a rocha, e ela não desabará.
    Bom dia a todos.
    Pensamento de hoje: ‘Aquilo que os homens de fato querem não é o conhecimento, mas a certeza.’ Bertrand Russel

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  4. A existência de programas que trilha para o degolo d(o) a moral como é o CQC e Pânico na TV, como exemplos ( aí tem culpa o ministério da cultura que não se manifesta), situações vergonhosas como esta propiciada pelo Bolsanaro, que de certo só se aproveita a defesa dos tempos em que a imprensa não babujava mau gosto, serão frequentes. A pergunta da cantora considerando a pessoa indagada foi uma provocação. Não seria um preconceito contra a pessoa questionada? Então dente por dente, olho por olho. Gostei da resposta. Agora, a resposta foi consciente de quem entendeu a pergunta, assim penso.

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  5. Confesso que “passei batido” sobre o CQC haver explorado o fato sem o devido cuidado. Agora fica claro que foi isso mesmo: em busca de audiência, às favas com os escrúpulos. Aliás, Marcelo Tas nunca me enganou e a cada dia tem mostrado um viés dissimulado.
    Em relação ao programa em sí, ele voltou nesta temporada mais ácido, parecido com o “Pânico na TV” e praticando propaganda subliminar da Maçonaria. O que há por trás disso eu não sei.
    Mas tirando os apresentadores e aquele mala daquele Danilo Gentili, eu curto muito o restante da troupe de repórteres.

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