Coluna: Milionários endividados

Os números já não surpreendem, embora se tenha sempre a vã esperança de que a qualquer momento comecem a diminuir, talvez pela força do pensamento, se as preces não forem ouvidas. Mas, confirmando levantamentos recentes – inclusive um bem substanciado, publicado na edição de setembro da revista Placar –, a consultoria Crowne Horwath RCS informa que o Corinthians encabeça o time dos clubes que mais faturaram no futebol brasileiro em 2009.

O centenário clube paulista arrecadou R$ 181 milhões. O Internacional, vice nesse ranking, movimentou R$ 176,2 milhões. O São Paulo chegou perto: R$ 174 milhões. Bem mais abaixo aparecem Palmeiras, com R$ 125 milhões; Cruzeiro, com R$ 121 milhões; Flamengo, R$ 120 milhões; e Grêmio, R$ 110 milhões. Abaixo da linha dos R$ 100 milhões, Vasco, Santos e Atlético-MG completam o top 10.

Essa dinheirama – que, somada, ultrapassa a casa de R$ 1,3 bilhão – é oriunda basicamente da venda de jogadores, programas de sócio-torcedor e projetos de marketing. No caso corintiano, a Operação Ronaldo responde quase que inteiramente por todo o dinheiro obtido na temporada.  

Bem mais ilustrativo da situação do negócio futebol é o ranking dos endividados. Os cariocas dominam as quatro primeiras posições, evidenciando décadas de caos administrativo e sururus fiscais de toda ordem. Fluminense (R$ 329 milhões), Vasco (R$ 327 mi), Botafogo (R$ 317 mi) e Flamengo (R$ 308 mi).
Em seguida, fechando a lista deste top 10 da amargura, vêm Atlético-MG (R$ 285 mi), Santos (R$ 181 mi), Internacional (R$ 147 mi), Grêmio (R$ 137 mi), Palmeiras (R$ 117 mi) e Portuguesa (R$ 116 mi).

A consultoria não lavrou – e nem precisava – diagnóstico do estado de saúde do futebol no Brasil. Os números são eloqüentes demais e sinalizam para um estado de pré-falência. Como observei na coluna de domingo, “No reino do faz de conta”, os clubes sobrevivem da condição de instituições sociais, praticamente intocáveis pela importância cultural que detêm.

O descompasso entre o dinheiro arrecadado e as dívidas acumuladas seria menor se a gestão fosse profissional e séria. Um exemplo típico desse desequilíbrio: para os R$ 181 milhões que amealhou no ano, o Corinthians contraiu despesas superiores à sua capacidade de gerar dinheiro. Só a incrível folha salarial, calculada em R$ 61 milhões anuais, consome anualmente metade desse dinheiro. Só Inter e São Paulo, com administrações mais sóbrias, conseguem escapar do desastre absoluto.

Apesar de todos os papagaios e pendências judiciais, nenhum dos clubes acima citados admitiu, nem por descuido, a idéia de se desfazer de patrimônios para pagar dívidas. São caloteiros renitentes? Sob certo ponto de vista, sim. Mas, na realidade brasileira, agem com absoluta consciência de seu papel social, que permite blindá-los de aventuras imobiliárias de conseqüências imprevisíveis, como ora acontece com o Clube do Remo.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 29) 

8 comentários em “Coluna: Milionários endividados

  1. Lamentavelmente o título “milionários endividados” só pode ser aplicado a certos times, mas não a remo e paysandu, que nada tem de milionários. Não possuem a verba do clube dos 13, nem do sócio torcedor que os times do sul têm. Seus orçamentos são uma ínfima parcela do que arrecadam os gigantes do futebol brasileiro. Sendo assim, a dupla re-pa não tem margem de manobra alguma ao negociar na justiça, ao contrário de um clube que arrecada quase 200 milhões por ano. Com dez por cento desse valor os times do sul já conseguem empurrar tudo com a barriga.

    De forma intencional ou não, o Remo chegou a um ponto sem retorno. Vai perder seu imóvel simplesmente porque não tem sequer como parcelar as dívidas. Ou vende, ou o estádio vai a leilão.

    No outro extremo, vamos um Paysandu longe de estar em situação confortável. Pelo contrário: deve ainda mais que o Remo, cerca de 10 milhões entre TRT e TST. Vende uma imagem totalmente falsa sobre sua situação financeira, que na verdade é idêntica a do rival. Os discursos de que “o Paysandu jamais vai se desfazer da Curuzu” são lorota pura, bravata. Será obrigado a vender ou perderá em leilão.

    Uma coisa chama a atenção: todo mundo só se preocupa com a construção da Arena, do CT, do Centro de Excelência, mas não ouvi ninguém falar ainda da MANUTENÇÃO. É óbvio que sou a favor desses melhoramentos, que todo clube deveria ter. Mas de onde o Remo vai tirar recursos para bancar um elenco profissional e ao mesmo tempo essa estrutura toda (talvez de custo mais elevado que o time), principalmente instalada num terreno distante, de um bairro carente?

    Recordo que há quase vinte anos o Remo tinha em sua extinta sede campestre alguns campos de treinamento, embrião de um CT, mas tudo foi abandonado por absoluta falta de recursos e o capim tomou conta de tudo. Manter um empreendimento ainda mais arrojado parece ainda mais difícil. O Paysandu chegou a ter uma sede campestre também, mas a perdeu por não ter honrado o pagamento e os proprietários retomaram o imóvel. Vemos como a falta de recursos é um problema sério em nossos times, que vivem uma encruzilhada. Tento projetar um futuro para eles daqui a dez anos, mas tudo parece muito nebuloso.

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  2. É caro Gerson, a coisa anda feia para os lados remistas e bicolores. A coisa é, ou deveria ser, simples. Não se empenha mais do que se arrecada. Mas isso passa longe das cabeças dos dirigentes. Pelo que, acho, caso consigam (Águia e Pay) o acesso `Série B, terão contas muito mais altas a pagar e continuaremos o ciclo vicioso. Em 29.09.10, Marabá-pa.

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  3. Se a arena do Urubuzal realmente vier a ser uma realidade, não tardará sua venda para pagar outras dívidas. A justificativa está clara no texto acima. Quanto ao caldeirão bicolor não é descartavel uma futura negociata, embora não seja o desejo da nação alvi-celeste, mas com certeza com valores que correspondam seu valor.

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  4. Ontem ouvir comentários na clube que justificam a tese. O leão já está podre e por conta desta situação mais urubus se candidatam para administrar essa carniça. Por que não muda o mascote de leão azul para CARNIÇA? Só tome cuidados com os carcaras da vida.

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  5. Hoje estou impiedoso com os sem série e não poderia sair do circuito com mais esta. ” O sentimento de INQUILINATO nos futuros invasores do Aurá tende a se fortalecer com a móbida situação de SEM DIVISÃO. Apoio irrestrito a comunidade de CABOBRÓ se expande. Essa incomoda condição de estar abaixo da linha de pobreza faz recorrer a tudo. Antes que pensem em criar o estado do Aurá. FUI. T+

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  6. É isso mesmo!
    Em CABOBRÓ, vão passar o sal na mucura, impiedosamente!
    Aos ditos “impiedosos”, muita água nesse caldo de GÓ, para não saturar em sal.

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  7. Com o Paysandu, o buraco é mais embaixo, pois o LOP vem pagando seus acordos. Agora, ele saindo e entrando um Amaro Klautau da vida, com certeza, o paysandu seguirá o Remo, mas por enquanto, não.

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