Coluna: Das panacéias azulinas

Clubes de futebol não têm proprietários particulares. Pertencem a seus sócios e torcedores. Por isso, devem ser geridos como entidades de interesse público, cujos destinos interessam a milhares de pessoas. É justamente o caso dos dois rivais paraenses, Remo e Paissandu, assolados por dívidas de difícil comprovação – e compreensão. Talvez por isso, os dirigentes se apeguem a qualquer fuga de idéia para operar o milagre do saneamento das contas. 
No cenário mais desesperador, como se não houvesse amanhã, o Remo ensaia há três anos a venda de parte de seu patrimônio, construído ao longo de um século. No ano passado, tentou retalhar a sede social de Nazaré e aceitou até o estranho leilão da sede campestre, obtendo pífios resultados com o dinheiro auferido.
Nem essa má experiência arrefeceu a compulsão vendedora dos atuais dirigentes – que, aliás, somente depois de eleitos anunciaram a intenção de vender o estádio Evandro Almeida, tradicional praça de esportes localizada no coração da cidade. Hoje, sem qualquer constrangimento, a iniciativa é alardeada como panacéia para todos os males. Nenhuma menção, mesmo superficial, ao valor afetivo que a praça de esportes tem para a torcida.
A diretoria trombeteia que vender o estádio vai transformar, da noite para o dia, o Remo em nova potência nortista. Menos, menos. Com sorte, as dívidas possivelmente serão quitadas, mas o clube vai continuar sua marcha inglória em meio aos desmandos e à falta de juízo no gerenciamento de suas contas – já sem seu mais valioso patrimônio físico.
O dinheiro obtido deve prover dois ou três anos de bonança, talvez nem isso, mas logo novos débitos brotarão como erva daninha. O novo estádio – a “moderníssima Arena do Leão” – deverá ser erguido fora da área urbana de Belém, talvez em Marituba ou Icoaraci, num espantoso esforço de favelização de patrimônio aplaudida pelos conselheiros.
Até o leãozinho de pedra de Antônio Baena sabe que não há chance de happy-end. Quem vê futebol com olhos atentos sabe que o torcedor, refratário a estádios distantes (o Mangueirão é bom exemplo disso), vai abandonar o clube. Não por desamor, mas por conveniência e conforto. Sem torcida a apoiar, logo o clube também desistirá da tal arena.
Alguém precisa explicar claramente o que será feito para destrinchar esse nó, caso o propósito de vender o Baenão à Igreja Universal do Reino de Deus se concretize. Talvez invocar a providência divina seja um bom caminho, visto que a transação envolve singular grupo religioso. Afinal, como se sabe, só Jesus salva. 
 
 
De Júlio “Uri Gheller” César, preciso e definitivo, sobre Andrade (que será campeão daqui a pouco): “Era um craque no meio-campo, roubava bola com pinça. E é bom que ganhe o título porque estamos cheios de técnicos falastrões e que se acham melhores que todo mundo”. Na mosca.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 6)

8 comentários em “Coluna: Das panacéias azulinas

  1. Quanto saudosismo, meu amigo Gerson, mas pode confiar, com o Amaro, a administração do Remo vai pra frente. Pense: até hoje, se diz, que o maior Presidente que o Remo já teve, foi Manoel Ribeiro. Eu discordo, penso que ele foi sim, o maior Diretor de Futebol que o Remo já teve, pois qual obra foi feita, na sua gestão, para o engrandecimento do Remo? o Amaro, Gerson, é o melhor Presidente do Remo, dos últimos tempos, mas Administrativamente, como sempre falo. Gostaria de vê-lo, mais 4 anos( mais 2 mandatos) a frente do Remo, para o total engrandecimento do mesmo, só que com o Tonhão de Diretor de Futebol. Seria muita felicidade no meio azul.

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    1. Como você sabe, respeito opinião. Quanto à questão de venda de patrimônio dos nossos clubes mais tradicionais, sou contra, por princípio – embora o histórico da nossa cartolagem seja o maior motivo de minha oposição natural a esse tipo de transação. Não duvido das boas intenções da atual diretoria, nem tenho motivo para tal, mas desconfio da aplicação dos recursos advindos do negócio. Enfim, tomara que você esteja certo.

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  2. Caro Gerson,

    Entendo suas razões (ou emoções), mas qual seria o caminho? Não acho que há outra aposta a fazer senão a que está sendo feita no momento. No meu entender, é preciso dar este passo arriscadíssimo, sim, ou sumir do mapa e levar ao túmulo a memória afetiva do clube outrora “filho da glória e do triunfo”. A nós, azulinos, resta cuidar para que esta atitude (a venda) não seja tomada como a tábua de salvação do Clube do Remo. É preciso isso e muito mais para nos salvar. E se houver outras idéias, que sejam colocadas em debate juntamente com as críticas.

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    1. Eriko,
      Apresentarei, no decorrer da semana, pelo menos duas ideias em consonância com as críticas à proposta radical de venda. Ainda bem que você, pelo menos, admite que o “passo é arriscadíssimo”. O que parece ruim agora pode ficar muito pior: no futuro próximo, depois de vender estádio e sede (o próximo e inevitável alvo da sanha tucana de vender tudo), só restarão novas dívidas. E aí? Meu alerta (solitário, aliás) é justamente contra esse cenário.

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  3. Amigo Gerson,
    Em parte sou a favor de sua opinião,mas o Remo
    na situação que se encontra não pode ficar parado no tempo, por mais que nada seja feito as dívidas irão continuar e cada mais vez maiores, então eu e muitos torcedores estamos juntos nessa, e tenho certeza que o Amaro está fazendo o melhor pelo Remo, entendo que muitos devem estar preocupados com o que vai acontecer, mas temos que inovar e sair desse atraso e mostrar que o Remo tem valor, apesar das críticas temos que confiar e não sermos tão pessímistas, pois, na situação que se encontra o
    futebol paraense temos que deixar de lado o
    pessímismo e lutarmos juntos por grandes
    conquistas em nosso futebol.

    abraço…

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  4. O Andrade foi craque, mas o proprio Fla tem exemplo de tecnico que foi campeao – Carpegiani – e nao se firmou na carreira. Quanto a venda do Baenao, provavelmente dara errado, nao pelo negocio em si, mas pelos dirigentes que a administrarao, ou seja, politicos (pte. e vice).

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  5. Gérson, soube que alguns conselheiros remistas se movimentam nos bastidores para obter o tombamento do Baenão, o que evitaria a sua venda. O que você sabe sobre isso?

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    1. Ouvi falar também, mas como boato. Acho que a tendência é pró-venda. O presidente tem o apoio da maioria e deve ser autorizado a fechar o negócio.

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