Coluna: Homenagem ao craque

Os jornais destacam a premiação de Lionel Messi como melhor jogador do planeta, notícia que já estava pronta desde o primeiro semestre, não só pela exuberante forma do dianteiro argentino como pela ausência de concorrência na temporada. Os prêmios e afagos são justíssimos, não há o que contestar, ainda mais para o craque de um time que ganhou simplesmente tudo em 2009.
Há, porém, uma questão que faz pensar: é que, justo na última peleja oficial do ano, outro jogador mostrou preparo técnico, categoria individual e envolvimento sanguíneo com o jogo em níveis incomparáveis. Falo de Juan Sebastian Verón, capitão e camisa 10 do Estudiantes de La Plata, que honrou cada centímetro da grama do estádio Zayed Sports City, em Abu Dhabi, jogando o fino da bola.
Tratou a pelota como os estilistas costumam fazer. Toques quase afetuosos, sempre com endereço certo, sem o menor perigo de extravio pelo caminho. Apossou-se daquele território normalmente congestionado em que se transformou o meio de campo. Descobriu atalhos em meio à marcação dura, ríspida até, de alguns catalães.
Uma atuação soberba, acachapante. Em condições normais de temperatura e pressão, o galardão de craque da final teria sido dado a ele. Mas, por essas convenções tão ao gosto dos idiotas da objetividade, a distinção foi para Messi. Sim, haverá de dizer o outro, justificando a glorificação com o inusitado gol de peito, que o baixinho fez como se fosse um clone de Renato Gaúcho, demonstrando arrojo e incrível tempo de bola.
Gol decisivo e fundamental, que garantiu o primeiro título mundial ao Barcelona. Acontece que sou de um tempo em que o viajar pode ser mais prazeroso que a própria viagem, como já registrou Herbert Vianna em poema inspirado. Longe de considerar o gol mero detalhe, como aquele tal professor-doutor da bola, entendo que os caminhos que levam às redes também são dignos de aplausos.
 
 
Em miúdos: La Brujita, apesar de não ter feito gol (aliás, faz pouquíssimos), foi um senhor arquiteto da contenda, esquadrinhando o espaço entre as quatro linhas e distribuindo passes milimétricos. Ordenava pausas que só ele entendia e organizava o caos reinante na apenas esforçada esquadra platense. Um monstro.
Merecia, mais que qualquer outro, as honras devidas ao melhor. Entendo como obrigatório um troféu para os goleadores vitoriosos, mas é inaceitável que não se conceda uma insígnia de igual valor aos craques que se sobrepõem à derrota. Precisava lavrar esse modesto desagravo ao craque derrotado. 

O escriba concede, a partir desta quinta-feira, breves férias a seus baluartes, prometendo voltar no dia 17 de janeiro, data de abertura do Parazão 2010.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 23)