A volta aos anos dourados?

POR GERSON NOGUEIRA

Jogo bonito é, em essência, o que todo fã de futebol gosta de ver em campo. É claro que, se o espetáculo resulta em vitória, a festa fica completa. O jeito como o Flamengo vem jogando, cujo ápice aconteceu na quarta-feira, frente ao Grêmio no Maracanã lotado, encanta justamente por aliar apuro estético e funcionalidade.

Coisa rara de ser obtida no futebol pragmático de hoje. A resistência à beleza do jogo começou ali no final dos anos 70. A revolucionária Holanda de Rinus Michels jogava magistralmente, impunha-se pelo domínio absoluto dos espaços do campo, mas ficou marcada pelo jejum de títulos, tanto em 1974 quanto em 1978. Bateu na trave nas duas ocasiões.

Quatro anos depois, o Brasil de Telê Santana fez furor na Copa do Mundo da Espanha. Goleada após goleada, show em cima dos argentinos, mas a glória ficou incompleta com o revés diante da Itália.

Times que se metiam a dar espetáculo passaram a carregar a pecha de pouco competitivos. Em 1986, nova chance para Telê, com um esquema menos apoteótico, resultou em novo fracasso, desta vez no México.

O triunfo em mundiais só aconteceria de novo em 1994, nos Estados Unidos. Apesar da diferença de 12 anos em relação à seleção de Sócrates, Zico, Junior, Falcão e Éder, a comparação foi imediata. O Brasil (ou grande parte dele) chegou à conclusão de que só era possível vencer jogando feio.

Até hoje é possível ouvir analistas fazendo revisionismo histórico para desencavar extrema qualidade no time fechado e pouco dado a dribles que Parreira comandou por gramados norte-americanos. Era o futebol possível, tendo Romário e Bebeto como exceções em meio a volantes e armadores.

O efeito foi imediato sobre o futebol nos clubes, espraiando-se pelo país e fomentando até um novo sentido para o verbo torcer. Dizia-se, até pouco tempo atrás, que o importante é ganhar títulos. O resto era detalhe.

Por isso, a principal contribuição do Flamengo de Jorge Jesus é promover o resgate do velho espírito boleiro, fiel à qualidade do jogo, herança deixada pela dinastia de craques da era de ouro do futebol brasileiro.

Curiosamente, Neymar pode vir a ser um dos maiores beneficiários deste futebol que flerta outra vez com a molecagem do drible, da finta fácil e das ações voltadas sempre para o ataque, sem medo ou hesitação.

O camisa 10 parece muitas vezes sofrer de solidão entre companheiros que se pautam pelas regras rígidas de posicionamento. É verdade também que pouco usa seu talento para as jogadas vistosas em função do time. Com um sistema que funcione de verdade, com aproximação e bom repertório de manobras ofensivas, Neymar pode renascer na Seleção.

Jorge Jesus em menos de quatro meses tem mostrado que é plenamente possível unir talento e eficiência num time de futebol. Seu Flamengo avança destemidamente obre os sistemas defensivos adversários, trocando passes, driblando e chutando muito – e sempre. Falando assim parece até simples, mas é produto de muito treino e orientação.

Em nenhum momento, desde as Eliminatórias da Copa 2018, a Seleção Brasileira mostrou destemor e inventividade quando tem a posse de bola. Tite gota de controlar o jogo, mas não é adepto de riscos.

Na Rússia, morreu abraçado a essas ideias ao topar com a apenas organizada Bélgica. Foi fulminado pela inversão de posicionamento dos belgas e não conseguiu deter a movimentação de Lukaku, um centroavante que não engraxaria as chuteiras do gigante Alcino.   

De certo modo, Jesus parece mais brasileiro, quanto à essência boleira, do que Tite. Talvez tenha vindo para permitir que o passado glorioso do país pentacampeão seja redescoberto. Basta de professores especialistas em retranca, como Felipão, Mano Menezes, Fábio Carille ou Abelão.

A qualidade do jogo praticado pelo Flamengo prova que há vida inteligente fora dos encaixotados esquemas movidos a cruzamentos na área. Ainda bem.

Bola na Torre

Giuseppe Tommaso comanda o programa, a partir das 22h30, na RBATV. Na bancada de debatedores, Valmir Rodrigues e este escriba de Baião. Em pauta, a Copa Verde e a Segundinha de acesso ao Parazão.

Quase extinto, drible ainda é um produto brasileiro

No futebol de marcação canina e pouco espaço para movimentação de jogadores habilidosos, o drible é recurso valioso para permitir que os ataques superem as defesas. Neymar é um dos expoentes desse tipo de jogada, embora nem sempre use a habilidade de forma prática.

Pois, mesmo com apenas cinco partidas disputadas na temporada de clubes 2019/2020 pelo PSG, o atacante lidera o quesito “dribles” entre os atletas das principais ligas nacionais da Europa.

Os dados envolvem times e jogadores da Premier League (Ingalterra), da Ligue 1 (França), Bundesliga (Alemanha), Série A (Itália) e de La Liga (Espanha). O site “WhoScored.com?”, especializado em estatísticas, destaca que Neymar dribla, em média, 4,8 vezes por jogo.

Os apontamentos do “WhoScored.com?” mostram que Neymar também se destaca quanto aos chutes em direção ao gol. É o segundo da lista, com média de 5,4 chutes por jogo, enquanto o português Cristiano Ronaldo, da Juventus (ITA), tem média de 6,0 no mesmo quesito.

Tributo ao Anjo Barroco

A coluna deste domingo é dedicada ao querido amigo Guilherme Augusto, um craque do jornalismo que partiu na sexta-feira. Fã de futebol, arguto observador da cena boleira, Guilherme não fazia feio nas discussões sobre a cena esportiva brasileira. Deixa muita saudade, um exército de amigos e um vazio difícil de ser preenchido no colunismo paraense. 

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 27)

2 comentários em “A volta aos anos dourados?

  1. O futebol brasileiro atual é de uma indigência técnica e tática tão grande que o futebol fácil, leve e solto do Flamengo evidencia isso de forma assustadora. Não vejo outro causa pra isso que não a mão do técnico Jesus. É só acompanhar com um mínimo de atenção pra ver que a performance do Flamengo em campo é similar aos dos clubes europeus das grandes ligas em intensidade de jogo e organização em campo. Não é à toa que lidera de longe o Campeonato Brasileiro e está na final da Libertadores.

    Curtir

  2. O Flamengo de hoje representa muito bem o Flamengo de ontem de Zico, o Botafogo de Garrincha e o Vasco de Dinamite. Futebol voltado para o ataque o tempo todo! Verdadeiro produto nacional!

    Que esse espírito do futebol arte contagie os citados clubes cariocas para que, nos anos seguintes, não tenhamos a mesmice de clubes paulistas de futebol força levantando a taça de campeão brasileiro e que a cor negra do Flamengo que também faz parte de tais agremiações possa brilhar na camisa da Gávea e sobreviver aos céticos de plantão provando que é possível ser campeão jogando bonito!

    Curtir

Deixar mensagem para Miguel Silva Cancelar resposta