Afastado pela Justiça por tortura em presídios, ex-coordenador participa de evento com Moro

Afastado do cargo de coordenador da intervenção federal nos presídios do Pará desde o último dia 2 de outubro, por uma decisão da Justiça Federal, o agente penitenciário Maycon Cesar Rottava participou de evento no estado ao lado do ministro da Justiça, Sergio Moro. O ministro esteve na região para acompanhar o trabalho da força-tarefa colocada sob a responsabilidade de Rottava.

Reportagem publicada pelo GLOBO nesta terça-feira revelou os detalhes da ação de improbidade movida pelo Ministério Público Federal (MPF), que aponta um amplo quadro de tortura nos presídios desde o início da intervenção federal. O documento estava sob sigilo até a decisão da Justiça Federal que determinou o afastamento do coordenador do grupo. Também nesta terça, o presidente Jair Bolsonaro chamou a denúncia de ‘besteira’.

Na ação de 158 páginas, assinada por 17 dos 28 procuradores da República no Pará, o MPF apontou um quadro generalizado de tortura nos presídios desde o início da intervenção autorizada por Moro.

O juiz federal Jorge Ferraz Júnior enxergou elementos suficientes para acatar o pedido do MPF de afastar Rottava do cargo de coordenador da força-tarefa de intervenção penitenciária. Mesmo assim, cinco dias depois da decisão, o agente participou do evento oficial com o ministro da Justiça.

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Talvez agora a Folha aprenda a lição

Por Leandro Fortes

No início de 2009, quando a corrida presidencial de então se anunciava com uma candidata escolhida por Lula – Dilma Rousseff – para sucedê-lo, a mídia brasileira havia se convertido em um esgoto de mentiras e meias verdades. 

Em abril daquele ano, a Folha de S.Paulo, disposta a superar os inenarráveis O Globo e Veja, publicou, na primeira página, uma ficha falsa de Dilma. Um pseudo documento do DOPS, alusivo à ditadura militar, dando conta de supostas atividade terroristas da candidata do PT.

Era lixo puro, roubado de um site de extrema direita frequentado pela turma de Bolsonaro, que já circulava pelas incipientes redes sociais de então. 

Mas a Folha bancou, na primeira página. 

Dilma reagiu com civilidade, a Folha reconheceu o erro de forma canalha, sem assumir a culpa pela divulgação, e ficou por isso mesmo. 

Eleita, Dilma ainda se deu ao desfrute de ir discursar no aniversário de 90 anos do jornal, em 2011 – um daqueles ataques de republicanismo que iriam ajudar a direita a moer os governos petistas. 

Ou seja, a Folha foi cruel, infame, mentirosa e cínica com Dilma, como já havia sido com Lula, mas jamais sofreu retaliação ou ameaça dos governos petistas. Seus jornalistas continuaram a ser tratados com respeito e consideração, no Palácio do Planalto. 

Uma década depois, ao fazer uma reportagem verdadeira sobre o presidente da República eleito no rastro de destruição nacional que a Folha, em nome do antipetismo, ajudou a construir, o jornal passou a ser tratado como inimigo da nação.

Bolsonaro insulta publicamente o jornal e seus jornalistas. O secretário de imprensa do governo, um zé-ninguém, insinua cortes de publicidade.

E, ironia do destino, a Folha é, tardiamente e pelos motivos errados, chamada de esgoto.

Talvez, agora, aprenda a lição. 

WhatsApp admite disparos em massa nas eleições para beneficiar Bolsonaro

O WhatsApp admitiu pela primeira vez que a eleição brasileira de 2018 teve uso de envios massivos de mensagens, com sistemas automatizados contratados de empresas. Campanha de Jair Bolsonaro beneficiou-se com o disparo de fake news contra o então candidato Fernando Haddad (PT). 

“Na eleição brasileira do ano passado houve a atuação de empresas fornecedoras de envios massivos de mensagens, que violaram nossos termos de uso para atingir um grande número de pessoas”, afirmou Ben Supple, gerente de políticas públicas e eleições globais do WhatsApp, em palestra no Festival Gabo, como informa reportagem do jornal Folha de S.Paulo. O TSE veda o uso de ferramentas de automatização, como os softwares de disparo em massa.

CPI das fake news

O avanço da CPI da Fake News, que tramita no Senado,  tem preocupado o governo Bolsonaro, já que as convocações seguem na direção de marqueteiros e empresários suspeitos de financiar ataques virtuais que alteraram o resultado das urnas. 

E as convocações estão cada vez mais próximas do Planalto. Rebecca Félix da Silva Ribeiro Alves, que hoje é assessora do Palácio do Planalto, foi convocada para depor. Ela trabalhou durante a campanha na casa do empresário Paulo Marinho, apoiador de Bolsonaro, que admitiu em entrevista que atuou para o disparo de informações falsas.

Um amor que vai muito além da paixão clubística

Por Paulo Sampaio

O cão vira-lata do flamenguista carioca Danilo Mello, 32 anos, acaba de submeter seu dono a uma espécie de teste máximo do amor incondicional. Diagnosticado com câncer na mandíbula, o animal levou Mello a rifar o ingresso que havia comprado para assistir ao jogo contra o Grêmio, na semifinal da Taça Libertadores, dia 23 de outubro. “Voltamos do veterinário malucos com os valores do tratamento. Pensei em vender o único bem que eu tenho, um Fox 1.0 2010, mas um amigo me disse que não valeria a pena porque não está quitado, e ainda tem o IPVA deste ano e as multas”, lembra o torcedor, que é ator e está desempregado.

Descartada a hipótese de se desfazer do carro, ele pensou: “O que eu tenho de mais valioso?” A resposta pipocou rápido em sua mente: o ingresso para o jogo. Como sócio-torcedor do clube, Mello tem oportunidade de garantir a entrada com antecedência, por um valor mais em conta. “Já são mais de 150 mil sócios, e eles disponibilizam vários planos. O meu é o básico.”  No caso, ele e os três amigos que o acompanham em todas as partidas, “desde que o Flamengo era um time ruim”,  pagaram módicos R$ 80. Porém, ele lembra que agora os ingressos estão esgotados: “Quando abriram, já havia mais de 50 mil vendidos. É um jogo histórico, que as pessoas estão esperando há 35 anos.” O ingresso em um camarote “muito VIP” pode chegar a R$ 3 mil.

Duzentos amigos

O resultado da biópsia de Doze saiu na segunda-feira passada, por coincidência na semana em que se comemora o Dia Mundial dos Animais (4 de outubro). A princípio, o tratamento ficaria em R$ 7 mil. São oito sessões de quimioterapia e 4 de radio, só administráveis em uma clínica oncológica na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

Mello e a namorada, a publicitária Renata Ragi, 31, pensaram em promover uma vaquinha entre amigos. Eles calcularam: “Eu tenho uns 100 amigos, você também. Se cada um deles der R$ 30, já seria metade do que a gente precisa”. Vascaína desde criança, como o irmão, Renata disse que no primeiro apelo que mandou aos amigos para a vaquinha fez “uma brincadeira para aliviar a dor” (“Pelo Doze, eu viro flamenguista”), e quase arrumou briga feia:

“Alguns vascaínos ficaram ofendidos, tive que me retratar. Expliquei que sempre fui Vasco, não tinha como fingir que era Flamengo, quem me conhece saberia.” No entanto, Renata confessa que há sete anos, desde que começou a namorar Mello, torce pelo Flamengo “porque quando o time ganha ele fica feliz”.

Sorteio dia 18

A dada altura, sugeriram ao casal que fizesse uma vaquinha virtual. Eles acharam a ideia boa, mas não esperavam que chegariam aos R$ 7 mil. No desespero, Mello lançou mão do ingresso e informou aos colaboradores que o rifará em 18 de outubro, cinco dias antes do jogo. O ator se impressionou com a resposta a sua iniciativa: “São 114 pessoas até agora, e já temos mais de R$ 9 mil”, disse ele, ontem. Porém, a notícia boa foi sucedida por outra nem tanto.

Ao levar Doze para a primeira sessão de quimioterapia, o casal ouviu do veterinário que o cão está com outro caroço, agora no pescoço: “Pelo que ele disse, pode ser que a doença tenha se espalhado. O Doze tem um pouco de sangue de Sharpei, uma raça que tende a sofrer de câncer. O difícil é tomar as decisões sobre o que fazer. A gente não quer perdê-lo, mas também não vamos submetê-lo a um sofrimento insuportável.”

“Coisa do destino”

O nome do cão faz referência ao dia em que Mello e Renata se conheceram, 12 de dezembro de 2012. Doze tem 5 anos e mora com eles desde bebê. “Foi coisa do destino. Eu tinha pegado carona com a amiga de uma amiga, em uma viagem de fim de semana, e comentei com ela que queria um cachorro. Só que, na ocasião, eu e a Renata dividíamos um apartamento minúsculo com um amigo, não daria de jeito nenhum”, lembra o ator.

Renata: “Apesar de amaaaar cachorro, já ter tido quatro, a gente não contava com uma renda fixa, eu era estagiária, não havia a menor condição.” Porém, a tal amiga da amiga encaminhou para Danilo na segunda-feira seguinte o anúncio da adoção de Doze no facebook. Danilo encaminhou a foto para Renata. “Foi amor à primeira vista”, lembra ela. 

“Eu estava no estágio, fiquei muito nervosa, liguei para ele e perguntei: ‘O que a gente vai fazer?”‘. Segundo Renata, Danilo “deu uma desconversada”, enquanto ela “tentava ser racional”. Não adiantou: “Dois dias depois, quando eu cheguei em casa, ele estava com o Doze no colo, tipo Simba.  É inesquecível”.

Medo grande

O casal já suspeitava da doença de Doze: “Existia um medo grande, você nunca está preparado para uma notícia dessas”, diz Renata. “Eu tentava me acalmar, dizendo  que vira-latas não costumam ter problemas assim. Meu primeiro cachorro, o Apollo, viveu 16 anos, morreu na velhice. Era o que eu esperava do Doze. O resultado da biópsia foi assustador.”

O tumor é “extremamente agressivo”, diz ela. Está no grau 3 de 3. Segundo Mello, Doze reagiu com valentia à primeira quimio: “Como bom vira-lata, ele não está com enjoo nem passando mal’. O que me preocupa é o lado Sharpei”, diz.

A quem estiver interessado na recuperação de Doze, ou em assistir ao jogo Flamengo e Grêmio, o link da vaquinha/rifa é http://vaka.me/743847.

Eudes na mira das cornetas

POR GERSON NOGUEIRA

Da surpresa inicial com o anúncio de um nome desconhecido, que nem técnico era ainda, o torcedor do Remo passou a uma clara desconfiança em relação a Eudes Pedro, o profissional escolhido pela diretoria para comandar o processo de reconstrução do time após a eliminação na Série C.

Auxiliar técnico de Cuca, embora pouco conhecido entre os integrantes da equipe pessoal do ex-técnico do São Paulo, Eudes chegou cercado da pior credencial que um treinador pode ter ao se apresentar para dirigir um time popular, dono de torcida exigente: a condição de iniciante.

Foi chamado de estagiário e aprendiz inúmeras vezes. Em meio a isso, teve pela frente o desafio extra de se impor junto aos jogadores do elenco, alguns com muito maior experiência profissional que ele.

Nada, porém, mais difícil do que conquistar o coração da torcida ainda frustrada com a desclassificação na Terceira Divisão, tendo o sonho de brigar pelo acesso interrompido pelo maior rival no jogo decisivo – mesmo que, verdade, o Remo tenha perdido a vaga para o Ypiranga, que obteve surpreendente vitória sobre o Juventude nos instantes finais.

Na Copa Verde, superou o baixo astral que assolava o time na primeira fase da competição e teve seu melhor momento na goleada aplicada sobre o Atlético-AC, no estádio Evandro Almeida, melhor apresentação do time na temporada.

Mas, como havia ocorrido com Márcio Fernandes, Eudes não conseguiu fazer a leitura correta do que é o Re-Pa. Em relação ao antecessor, ele tem em seu favor o fato de ser um novato e não conhecer as entranhas do futebol paraense.

Ambos foram colocados no bolso por Hélio dos Anjos, comandante do PSC e com experiência suficiente para saber que o clássico-rei da Amazônia não é para amadores e não pode ser olhado como um jogo qualquer. Hélio respeitou a história do jogo, por isso levou a melhor nos quatro confrontos que teve na temporada – 2 na Série C e 2 na CV.

A derrota de domingo recolocou o nome de Eudes na marca do pênalti. Irritada com outro revés frente ao maior rival, a torcida exige mudanças drásticas, a começar pelo comando técnico. Cobra dispensa de jogadores e exige reforços, como sempre.

Apesar da pressão das arquibancadas, é pouco provável que Eudes seja afastado agora, pois a diretoria ainda aposta nele para montar o time para o Parazão. No entanto, a decepção do torcedor azulino com o desfecho da temporada pode forçar uma mudança de rumos.

O clube obteve conquistas importantes em 2019. Ganhou o bicampeonato estadual e se manteve na Série C com campanha de razoável para boa – ficou a um ponto da classificação à 2ª fase. Fora de campo, a diretoria marcou um golaço ao entregar o estádio Baenão revitalizado.

Tudo isso está na memória do torcedor, mas a lembrança que fica é sempre a mais recente: a terceira eliminação consecutiva na Copa Verde, desta vez pelas mãos do PSC. E as mudanças no time antes e durante o jogo deixaram uma impressão negativa sobre o trabalho do treinador.

De certo modo, confirma-se aqui a máxima de que o campeonato mais importante ainda é o Re-Pa, pois dele pode resultar alegria e desconsolo.

Mesmo sem competições a disputar até o Campeonato Paraense, o Remo continuará a ser agitado pelos corneteiros, que exigem sangue e cabeças. Eudes, por conta disso, corre riscos mesmo sem bola rolando.

Estilo minimalista confere pontos a Geovani

Reserva de Mota durante grande parte da Série C, o goleiro Geovani aproveitou muito bem as oportunidades surgidas na Copa Verde. Bem recomendado pela passagem no Atlético-MG, ele foi regular nos jogos iniciais contra o Manaus-AM e brilhou na disputa com o Bragantino, quando foi o herói da classificação agarrando três penalidades.

Nos clássicos da semifinal, demonstrou segurança, tranquilidade e uma virtude que é sempre apreciada nos goleiros: a contenção dos gestos. No jargão das arquibancadas, não é um goleiro dado a presepadas, fazendo o perfil minimalista.

Teve até um rasgo de ousadia no primeiro Re-Pa, saindo perigosamente com a bola dominada, mas deve ter sido orientado a evitar tais arroubos. No clássico de domingo, esteve quase impecável e ainda teve sorte no lance em que a bola passou por ele e por toda a zaga no final do 1º tempo.

Na disputa direta com Mota, titular durante toda a Série C, Geovani vem ganhando preciosos pontos pela performance na CV. Terá, ainda, as finais em novembro para consolidar prestígio e transformar a oportunidade do rodízio em titularidade.   

Na era sombria da intolerância a qualquer preço

Um dos filhos do técnico Marcão, do Fluminense, foi importunado e chegou a ser agarrado pelo pescoço por integrantes de uma torcida organizada do Botafogo, domingo, após o jogo no estádio Nilton Santos, no Rio. O filho e o sobrinho de Marcão estavam com a esposa do técnico quando foram abordados.

O incidente não teve maiores consequências porque outros torcedores intercederam, mas é sintomático da violência gratuita que tomou conta do ambiente o futebol no Brasil. O simples fato de andar com a camisa de outro clube aciona o gatilho da intolerância estúpida e selvagem.

Não é um ato exclusivo da torcida botafoguense, mas é lamentável que o clube que já foi um dos mais pacíficos do país tenha também sua cota de brucutus. Definitivamente, este não é o Botafogo que eu conheço.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 08)

Direto do Twitter

“Esse é um ponto crucial: o Ministério Público está cheio de criminosos que vazam seletivamente as informações exigidas por lei serem mantidas sob sigilo, com o objetivo de destruir a reputação dos inocentes que são seus inimigos. Eles nunca são investigados, muito menos punidos”.

Glenn Greenwald

“O CNMP [Conselho Nacional do Ministério Público] até esses dias não fazia nada com os membros do Ministério Público. Tanto é que o Dallagnol faz o que faz”.

Gilmar Mendes, ministro do STF

Chile condena 22 ex-agentes por crimes durante a ditadura militar

Quase trinta anos após o fim da ditadura militar no Chile, a Corte Suprema do país condenou nesta segunda-feira (07/10) 22 ex-agentes da polícia secreta de Augusto Pinochet, pelo sequestro qualificado de dois opositores, que tiveram os nomes incluídos na Operação Colombo, montada pelo regime para encobrir o desaparecimento de 119 presos políticos.

As sentenças envolvem os principais agentes da Direção de Inteligência Nacional (Dina), a polícia secreta de Pinochet. Na lista, estão nomes como o general Raúl Iturriaga Neumann e os brigadeiros Pedro Espinoza Bravo e Miguel Krassnoff Martchenko.

Todos eles já cumprem atualmente longas penas na prisão, pela participação em violações aos direitos humanos durante o período em que Pinochet esteve no poder, entre 1973 e 1990.

As vítimas do sequestro são Héctor Zúñiga Tapia e Bernardo de Castro López, militantes de esquerda que foram detidos em meados de setembro de 1974.

César Manríquez Bravo, Pedro Espinoza Bravo e Miguel Krassnoff Martchenko foram condenados a dez anos de prisão, por serem considerados autores do rapto e posterior desaparecimento de Tapia, integrante do Movimento de Esquerda Revolucionária. Outros cinco agentes foram sentenciados pelos crimes.

Já pelo sequestro de López, militante do Partido Socialista, o tribunal condenou a dez anos César Manríquez Bravo, Pedro Espinoza Bravo, Gerardo Urrich González, Manuel Carevic Cubillos e Raúl Iturriaga Neumann.

Em 1975, os nomes de Tapia e López foram incluídos entre as vítimas da Operação Colombo, uma ação forjada pela DINA para encobrir o desaparecimento de 119 prisioneiros políticos, com o apoio de agentes da Argentina e o Brasil.

Nos dois países, foram publicadas edições únicas de jornais inexistentes, em que era afirmado que ambos morreram em expurgos feitos pelo Movimento de Esquerda Revolucionária, em territórios argentino e brasileiro.

Durante a ditadura de Pinochet, cerca de 3,2 mil pessoas foram mortas por agentes do Estado, das quais mais de 1,1 mil ainda estão desaparecidas. Outras 40 mil foram presas e torturadas por razões políticas.

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. 

Notícias de um cidadão antenado

Oito mil machos brancos suados de camiseta preta, batendo cabeça. E umas cem minas. E um preto careca e forte de camiseta vermelha do Death. E dois moleques de 15 anos. Meu filho e seu melhor amigo. E eu.  
By Forasta News (André Forastieri)
 O show do Slayer foi emocionante, exato, extremo. Meu primeiro. Meu último. Turnê de despedida. Tão na estrada desde 81, quase quarenta anos. Tá mais que bom. E tão mais que bem. Que pancada. Metal nunca foi meu som, muito menos thrash. Quando eles tavam lá lançando os discos que mudariam completamente o metal, eu só tinha ouvidos para a música nova, diversa, “moderna” da new wave em suas infinitas variedades, em especial se viesse do Reino Unido. Só fui prestar alguma atenção quando já trabalhava, e depois, editor da Bizz, tinha meio que obrigação de ouvir de tudo. Não cumpria. Mas tinha o Miranda ali perto que apresentava umas cascudices. Me mostrou o Sepultura, que me interessou mais como fenômeno antropológico que sonoro, e a influência máxima era thrash. (E essa semana a Fergs colocou no grupo do zap “Amigos do Miranda” a tatuagem no braço que ela fez, com as palavras “Só Alegria”, escritas com a letra do amigo. Apertou o coração…) Com o tempo fui me educando sobre metal. Thrash sempre achei tight demais, retentivo anal, darkóide de almanaque. Mais uma que eu devo ao meu filho. Quando ele começou a gostar de rock e tocar guitarra, fui mostrando umas coisas pra ele, ele foi mostrando umas pra mim. E nessa aprendi a ouvir e curtir thrasheiras, inclusive antiguices do Metallica (!). E o Slayer. Que agora ouvi direito. Que é meu favorito. E única banda dessas em que prestei atenção desde los antigamentes, por causa do Rick Rubin, produtor de rap, que contratou os caras, botou eles na sua gravadora, a Def Jam, e produziu eles um álbum com atitude ultrapunk: Reign In Blood. Essa semana fui ler as letras dos caras. São escuras como a meia-noite. Anti-religião, anti-opressão, anti-guerra, anti… e também cheias de massacres e nazistas e serial killers e morte, morte, morte. Não sei quantos dos seus fãs comungam (opa!) de seu desprezo por papas, padres, pastores. Espero que muitos. Nessas coisas, sou moderado. Vejo todas as religiões como crenças doidas e exóticas. Diferente do típico fiel, que acha a sua religião totalmente natural e normal, e todas as outras doidas e exóticas. Já me conformei que uma boa parte da humanidade vai sempre acreditar em coisas assim. Especialmente o ser humano que tá fudido, precisando de uma intervenção sobrenatural na sua vida. Quanto mais pobre e ignorante o país, maior a influência da religião. Vale para os estados dos EUA. Mas você pode inverter, e dizer que quanto mais religioso, mais pobre. Caso do brasileiro, claro. Donde que há que conviver, o que faço sem esforço. Gosto de pessoas católicas, evangélicas, espíritas, umbandistas, mezzo-calabresa e mezzo-mussarela, anything goes. Cada um na sua. Meu ateísmo é ecumênico. Que todas as fés sejam permitidas, e todas paguem imposto como as organizações “não-espirituais”, e tô de boas. Certo que há que construir e defender estados laicos, e propagar o ceticismo e o pensamento científico. Parece cada vez mais difícil, e não é só por causa da direita não. Tem um documentário do Richard Dawkins impressionante sobre o crescimento das escolas religiosas no Reino Unido. Com creacionismo, islamismo etc., o que é pauta da esquerda, “respeito às minorias” e esse papo todo. Dawkins, biólogo da pesada, militante do ateísmo, é linha dura, como era meu ídolo Christopher Hitchens, e outros caras admiráveis por aí, alguns com humor, Stephen Fry, Ricky Gervais (viu After Life?). Admiro a turma e leio o Skeptical Inquirer. Não tenho energia pra essa briga. Apoio e aplaudo, à distância, displicentemente, retuíto, espalho. Felizmente tirei a sorte grande com meu filho, que até me botou pra ouvir God Hates Us All, Christ Illusion, e outras porradas do Slayer. Sabe, como eu sei, que o radicalismo da banda, e de gente como Dawkins, aumentam nosso espaço de liberdade. Tem um vídeo no YouTube, feito pelo Smithsonian, sobre a origem do Thrash. O Kerry King, guitarrista e compositor do Slayer, explica a seriedade com que a banda trata seus fãs: “quando eles vão aos nossos shows, é como se fosse a igreja deles.” Essa semana foi a minha, a nossa igreja. E a missa foi NEGRA.  
DARKNESS FALLS Aproveita e lê esse bonito mini-ensaio sobre a escuridão. Na The Economist, sempre o inglês mais elegante da imprensa.  
OUVINDO Aquela turma do Native Tongues, o hip-hop jazzístico, experimental, supersampleado dos anos 90: De La Soul, A Tribe Called Quest, Jungle Brothers…   
VENDO Finalmente retomei The Deuce, a série sobre o começo do cinema pornô. Times Square, putas, cafetões, máfia, grana. Elenco maravilhoso, uma tapeçaria, tecida devagarinho, nada a ver com o esqueminha esquemático de série pra ver de uma vez só. Pela mesma turma que produziu o melhor seriado de todos os tempos, The Wire. Na HBO.   
LENDO 
Três mangás incríveis. Onde eu descubro tanto gibi bom? Fuçando, e no melhor blog de HQ do Brasil, o Vitralizado, do Ramón Vitral.  
TESTANDO Meu novo celular tem um botãozinho do lado esquerdo que ativa o Google Assistente. Você aperta, fala “OK Google, manda email para o Camilo Rocha” e o telefone obedece. Coisa de louco. Celular dos médio-baratos, aliás. Celular caro é acessório fashion. Estou sempre procurando soluções assim para facilitar, simplificar, automatizar. Menos complexidade, menos trampo, mais tempo livre, mais paz de espírito. Dá uma olhada nessa lista de truques pra turbinar seu Chrome.  
SIGA No Twitter o meu amigo @camilorocha, que está sempre compartilhando música boa e inesperada, sua inteligência e sensibilidade. Quem mais vai botar na roda uma coletânea de música de Madagascar?  
RELAX Essa vida, essa cidade, esse mundo está cheio de coisas super legais que eu não estou aproveitando. Nem você. No problem. Relaxei com isso. Relaxe você também. Agora tem nome: JOMO.  
OBRIGADO Por ler e espalhar essa cartinha semanal para os seus amigos.Até sexta!