Um grito contra o preconceito

POR GERSON NOGUEIRA

Dois técnicos de clubes da Série A, Roger Machado (Bahia) e Marcão (Fluminense), foram protagonistas de um gesto histórico, pela importância e pelo ineditismo. Apertaram as mãos e uniram forças vestindo camisas com a frase “Chega de preconceito” durante o jogo entre seus times no sábado à noite, no Maracanã.

Depois da partida, mesmo triste com a derrota por 2 a 0, Roger fez um discurso antológico no mundinho do futebol brasileiro reivindicando igualdade de oportunidades para profissionais negros, não só no campo esportivo, e refuta a ideia de democracia racial no país.

Roger, Marcão e Hemerson Maria, do Botafogo-SP, da Série B, são os únicos técnicos negros entre os 40 das duas principais divisões do Campeonato Brasileiro. O gesto político foi sugerido pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que fiscaliza episódios de racismo.

O técnico do Bahia entrou logo de sola na entrevista: “Negar e silenciar é confirmar o racismo”, disse, na histórica entrevista coletiva na Arena Fonte Nova. “O maior preconceito que senti não foi de injúria. Sinto que há racismo quando eu vou ao restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: ‘Não há racismo, está vendo? Você está aqui’. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui”, afirmou, categórico.

Falou mais: “A gente tem mais de 50% da população negra e a proporcionalidade (entre treinadores) não é igual. Temos de refletir e questionar. Se não há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos?”.

Roger, mostrando informação sobre o tema, questionou outras situações. “Por que 70% da população carcerária é negra? Por que os que mais morrem são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Por que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras? Há diversos tipos de preconceito. Se não há preconceito, qual a resposta? Para mim, nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado”.

Comentou que é ínfimo o contingente de mulheres negras comentando futebol. Citou, corajosamente, que nos últimos 15 anos as políticas públicas resgataram a autoestima e os direitos dessas populações excluídas. Mostrou coragem porque é óbvia a preocupação em esquecer os avanços sociais do período citado e as muitas perdas recentes.

Quem conhece o técnico, ex-jogador de Fluminense e Grêmio, sabe que ele é uma voz solitária no debate sobre racismo a partir do futebol. Nunca se omitiu, mas ganhou mais consistência desde que foi trabalhar no Bahia, clube pioneiro na criação de um núcleo de ações afirmativas, com inúmeras campanhas de responsabilidade social e combate à discriminação de raça e gênero. Que sua voz ganhe eco e respeitabilidade.

Seleção de Tite faz o que sabe: provocar sono

Já faz algum tempo que virou programa intragável ver amistosos da Seleção. Ontem, concorrendo com o horário do Círio, o time de Tite jogou com a Nigéria e voltou a castigar a bola. Segundo empate em 1 a 1 contra equipes africanas em amistosos realizados em Cingapura.

Fiquei olhando de vez em quando e, de novo, não vi nenhum resultado prático, embora Tite tenha proferido a farofada de sempre após o jogo, apontando coisas que ninguém vê em campo.

Neymar se lesionou cedo e saiu antes de poder carregar a Seleção nas costas, Coutinho entrou e não acrescentou muita coisa. A zaga, se não teve ontem pela frente o arisco senegalês Mané, passou um aperto danado com o rápido ataque nigeriano.

O lance do gol teve uma rápida tabelinha entre dois atacantes da Nigéria e uma finalização na pequena área. Fiquei com a impressão de que Tite ainda não aprendeu as lições daquele jogo com a Bélgica em 2018.

Fla supera Atlético e nada de braçada no Brasileiro

O Flamengo venceu o Atlético-PR (pela primeira vez) na Arena da Baixada e deu um passo expressivo para se consolidar de vez na liderança do Brasileiro. De quebra, ainda saiu com bons argumentos contra quem acusa o time de ser beneficiado pelo olhar eletrônico do VAR.

Mais: obrigou os comentaristas – os da Globo, principalmente – a se esfalfarem em busca de adjetivos para glorificar o time de Jorge Jesus. Teve até quem definisse o triunfo de ontem como “épico”. Menos, menos…

Os superlativos não diminuem os méritos do rubro-negro carioca e de seu comandante. Sem vários titulares – Arrascaeta, Filipe Luís, Rodrigo Caio, Gabigol –, o time se comportou com a mesma desenvoltura tática, impondo pressão e apostando na troca de passes em velocidade.

Marcou o primeiro gol numa bobeira do goleiro e da zaga paranaense. Só se atrapalhou um pouco no início da etapa final, quando Rony infernizou pelo lado esquerdo. Acontece que os atacantes do Furacão perderam as chances criadas e o goleiro Diego Alves apareceu bem em três situações.

Depois, no finalzinho, o Flamengo marcou o segundo gol em grande jogada de Bruno Henrique. O time está tão à vontade no campeonato que não faz muito sentido Jorge Jesus ficar resmungando contra a arbitragem, coisa que fica mais grave com aquele sotaque cheio de grunhidos.

O lance do pênalti, marcado pelo árbitro e anulado na consulta ao VAR, me pareceu forçado pelo atacante rubro-negro Lucas Silva. Os dirigentes e o técnico talvez reclamem porque viram o Flamengo ser beneficiado com pênaltis até mais mandrakes que o de ontem.

O certo é que quem lidera com tanta folga não deve perder tempo com queixumes. Jesus chora de barriga cheia. O Flamengo é, historicamente, beneficiado pelos apitadores. Aliás, contra o Botafogo no começo do campeonato três (Cuellar, Rafinha e Gabigol) de seus jogadores deveriam ter sido expulsos. O árbitro Rafael Clauss enfiou o cartão no bolso.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 14)

Entidades se solidarizam com jornalistas atacados por Ciro

Nota oficial da Fenaj e do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo em solidariedade aos jornalistas Paulo Moreira Leite e Kiko Nogueira, atacados pelo ex-candidato Ciro Gomes em entrevista ao UOL:

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) repudiam os ataques do ex-candidato à Presidência Ciro Gomes aos jornalistas Paulo Moreira Leite e Kiko Nogueira.

Numa sociedade democrática, qualquer cidadão tem o direito de criticar a imprensa e de se posicionar em relação a reportagens ou à linha editorial de veículos de comunicação. O que Ciro Gomes faz, em entrevista divulgada neste domingo (13), porém, é partir para agressões verbais sem fundamento e para acusações sem provas. Passa, assim, a atacar a liberdade de imprensa e a prática do jornalismo.

Kiko Nogueira nunca trabalhou na revista Época, nem Paulo Moreira Leite foi demitido da Editora Abril, diferentemente do que disse Ciro Gomes. Ao vincular de forma injustificada os jornalistas a “práticas corruptas” e “picaretagem”, Ciro expressa de fato é a vontade de calar o trabalho jornalístico.

Neste momento da vida nacional, em que a liberdade de imprensa está sob forte ameaça – e cuja defesa esteve na base de recente ato público que reuniu mais de 1.200 pessoas na Faculdade de Direito da USP, tendo o SJSP e a Fenaj entre os promotores –, condenamos mais uma agressão descabida contra o jornalismo e ressaltamos a importância da atividade jornalística como pilar de qualquer sociedade democrática.

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo

Federação Nacional dos Jornalistas

São Paulo, 13 de outubro de 2019

Kiko Nogueira, do DCM, responde a Ciro: “Não é melhor que Jair Bolsonaro”

Por Kiko Nogueira, no DCM

Eu fui surpreendido nas minhas férias em Carcassonne pela história de que Ciro Gomes me atacou e ao DCM. Um jornalista me avisou. Jornalistas adoram dar más notícias sobre jornalistas.

O mais importante já foi dito por Paulo Moreira Leite, do 247, o outro alvo do destempero do candidato, e por Renato Rovai, da Fórum. Luís Nassif, no GGN, apontou a “metralhadora giratória vesga” de Ciro.

A todos eles, e aos que não puder citar aqui, agradeço de coração em meu nome e no do DCM. Posso acrescentar que Ciro simplesmente errou tudo sobre mim, com exceção do meu nome.

O que me leva à seguinte reflexão: se o sujeito não consegue acertar coisas básicas sobre um repórter, imagine o que não faz com dados sobre economia, exportação ou segurança pública, por exemplo.

O cidadão vai desfiando um arsenal de mentiras numa boa, com a maior autoridade, naquele estilo clássico cirista de quem é senhor dos segredos do universo.

Fake news.

Ciro, ficou mais claro que nunca, não é melhor que Jair Bolsonaro. 

A essência autoritária e intolerante é exatamente a mesma. O ímpeto descontrolado para assassinar reputações de quem o critica é igual à do presidente da República.

O DCM tira Ciro do sério. Muito, pelo jeito. Eu tenho algumas teorias a respeito disso. Amigos meus, que me prestaram solidariedade, também.

Há muita coisa sobre Ciro. Eu poderia fazer como ele e elencar metade, adjetivando, babando de ódio, sem critério, apenas para atingi-lo. 

Como não sou o Ciro ou o seu doppelgänger Bolsonaro, não o farei. Atenderei, obedientemente, meu advogado, Francisco Ramos, e verei esse caluniador nos tribunais.

Ato em defesa da libertação de Lula reúne milhares em SP

A avenida Paulista, em São Paulo (SP), foi palco de mais uma manifestação pela liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste domingo (13). O ato “Justiça para Lula” reuniu milhares de pessoas, como a cuidadora de idosos Micheline Fernandes de Araújo, que afirmou que a prisão de Lula é uma injustiça, que não há prova de crimes e que “isso foi jogo político, porque se não tivessem prendido o Lula, ele estaria hoje na Presidência”.

Com esse mesmo espírito de indignação diante da injustiça, lideranças de diversos partidos e de movimentos populares reafirmaram que a defesa da liberdade de Lula é a defesa da democracia.

“Eles inventaram um crime para botar na cadeia o cara que começou a transformação no Brasil”, disse o ex-ministro da Educação do governo Lula, Fernando Haddad. Isso se deu, segundo ele, porque “começaram a se incomodar porque chegavam no restaurante e tinha uma família de trabalhadores, chegavam na universidade e o filho do pedreiro estava lá”.

Em sua fala, Haddad destacou os dados de inclusão nas universidades da população que antes estava alijada da educação superior. Durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, o número de matrículas no ensino superior passou de 3,5 milhões em 2002 para mais de 7,1 milhões em 2014.

Também ex-candidato a presidente, pelo PSOL, Guilherme Boulos, liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) participou da mobilização e afirmou que ela manda para o Supremo Tribunal Federal (STF) o recado de que ele tem uma escolha a tomar: “se vai ser insistir na fraqueza, na covardia, em uma posição omissa ou se vai reparar e corrigir a injustiça em relação ao Lula”.

Para o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão, Lula é um símbolo da luta pela democracia em um momento de autoritarismo e perseguição. “Se não há respeito aos direitos individuais de um cidadão que é uma das maiores lideranças populares do mundo, que foi presidente da República, não haverá justiça para o povo pobre, para o povo negro, da periferia”, disse.

Trivial variado do país que não consegue se libertar da cretinice absoluta

“A campanha que resultou na eleição de Bolsonaro para a Presidência foi beneficiada por fraude das normas eleitorais A legitimidade da posse de Bolsonaro e do seu cargo presidencial é, portanto, no mínimo questionável e pode mesmo ser insustentável”. Folha de S. Paulo

“Quem é Bolsonaro? Ele nunca teve relevância nenhuma na política nacional e na sua primeira eleição pra presidente, vence? Considerar os atores e as forças envolvidas na sua ascensão é fundamental pra que a História não se repita! Depois dele, ficou a prova: qualquer um!”. Claudia Sarti

Sempre defendi Ciro Gomes como um quadro político progressista e de qualidade. Vejo neles mais virtudes do que defeitos, mas ele perdeu o rumo desde que foi derrotado em 2018. Suas verborragia já não é algo que se possa tratar apenas como excessos. Passou de todos os limites. Ele espalha fake news sobre colegas do mesmo campo político para que essas pessoas sejam perseguidas pelos seus seguidores e também por bolsominions“. Renato Rovai

“Se o Flamengo fosse referência, não pegava fogo em um contêiner e matava 10 pessoas.” Flávio Gomes

“Those who are busy planting love Don’t have time to throw stones (St. Dulce, first Brazilian saint, canonized today)”. Paulo Coelho

“Roger Machado, treinador do @ECBahia, acabou de dar uma entrevista histórica sobre todos os tipos de preconceito e, principalmente, o racismo. Ainda deixou claro que estão retirando agora as políticas públicas que tinha sido institucionalizadas nos últimos 15 anos”. Gustavo Afonso