Argentinos protestam em solidariedade aos chilenos

Por Joaquim de Carvalho, de Buenos Aires

Duas chilenas que encontrei hoje em Buenos Aires reagiram de maneira oposta aos protestos que sacodem o Chile. Uma delas, rica, dona de uma fábrica de sapatos, decidiu adiar seu retorno ao país. “Há saques e os distúrbios tornaram muito perigoso meu país. Vou ficar por aqui, que é mais seguro”, afirmou Francisca.

Mal ela sabia que, a 500 metros do restaurante onde se encontrava, manifestantes argentinos e chilenos realizavam protestos na cidade que ela vê como refúgio. A estudante Pilar, também chilena, fazia parte da multidão em frente ao Consulado do Chile.

Pilar segurava uma bandeira com a geometria do estandarte chileno, só que com outras cores. Em vez do azul que representa o céu, o vermelho que simboliza o sangue mapuche e o branco que remete à neve derramada dos Andes, ela era preta com o desenho de labaredas.

A estrela, símbolo da glória do povo chileno, foi mantida na bandeira levada para o protesto. Um brasileiro poderia associar a bandeira ao Botafogo, e faz sentido. Os protestos deixaram alguns lugares de Santiago em chamas.

“Estamos aqui em solidariedade aos que lutam hoje em meu país por melhores condições de vida. Não adianta ter pessoas muito ricas no Chile se continua havendo pobreza”, declarou.

Há algo novo acontecendo na América do Sul, um movimento que sacudiu o Equador e chegou ao Chile, mas ainda não inspirou brasileiros. “No Brasil, pessoas passam fome”, comentou Jose Carlos, o namorado da chilena rica.

O casal ocupava uma mesa de um restaurante no centro de Buenos Aires.

“No Chile, há pobreza, mas não como no Brasil”, comentou. “Nos dois países, há muita desigualdade social”, afirmou. Piloto de motociclismo, também rico, ele, no entanto, não apoia as manifestações e tem uma explicação curiosa para o que aconteceu no Equador e agora no Chile.

“O pessoal do Maduro (Venezuela) está por trás dessa agitação. Domingo, ele vai provocar agitação aqui em Buenos Aires”, disse ele, em referência à data das eleições presidenciais argentinas, em que o esquerdista Alberto Fernández desponta como favorito.

O resultado das urnas na Argentina se apresenta como antídoto para o veneno do receituário neoliberal implantado nos países sacudidos por grandes manifestações.

O piloto de motociclismo Jose Carlos fala do presidente da Venezuela como se desconhecesse que Maduro hoje trava uma luta contra a direita em seu país, alvo de um cerco econômico liderado pelos EUA. Nessa situação, é improvável que se ocupe de promover agitação em países do continente. Não tem forças para isso.

A manifestação de Jose Carlos reflete o discurso do presidente chileno, Sebastián Piñera, que hoje de manhã declarou o país em guerra. Não disse quem é o inimigo, mas sua fala estimula o discurso de que Nicolás Maduro estaria por trás de protestos.

“Maduro? Que delírio é esse?”, diz a estudante Pilar, rindo. “O que acontece é que esse modelo econômico que impuseram no Equador, no Chile, na Argentina e também no Brasil se esgotou, não atende às necessidades do povo”, acrescentou.

No protesto em frente ao Consulado chileno, cartazes pediam a renúncia de Piñera e a saída dos militares das ruas, depois que foi decretado estado de emergência em algumas cidades do país, com toque de recolher noturno.

Enquanto o protesto em frente ao Consulado era realizado, a CNN do Chile, transmitida também na Argentina, mostrava o presidente Piñera com discurso mais moderado do que o da manhã, quando falou em guerra.

Piñera, depois de congelar tarifas de transporte público, já fala em atuar para melhorar o serviço de saúde, para acabar com filas. Também prometeu preços mais baixos dos remédios e melhora nas aposentadorias.

Chamou os líderes da oposição para um acordo nacional.

A repressão ao protesto alto já provocou onze mortes e milhares de feridos. Há cerca de 700 pessoas detidas.

O discurso mais recente de Piñera vai na contramão das propostas de Paulo Guedes, o ministro da Economia do Brasil, que transfere para o lombo dos mais pobres o custo do ajuste fiscal, poupando os ricos.

Até agora, no entanto, os brasileiros continuam inexplicavelmente passivos diante do avanço selvagem do neoliberalismo.

Evo Morales é reeleito em primeiro turno na Bolívia

Da Telesur:

Evo Morales conseguiu a terceira reeleição e terá um quarto mandato na Bolívia. O atual presidente boliviano obteve 46,87% dos votos, contra 36,72% de Carlos Mesa, seu principal opositor, com 96% dos votos apurados. Pelas regras eleitorais do país vizinho, são necessários 50% dos votos válidos ou mais de 40% e 10% a mais que o segundo colocado.

Ainda no domingo (20), Evo acreditava numa vitória ainda na primeira volta do processo eleitoral. A apuração de boca de urna dava 8 a 9% de vantagem para Morales. O presidente confiava que os votos nas províncias no oeste do país, com eleitorado majoritariamente indígena, fariam a diferença.

Os votos no exterior também deram uma grande vantagem para Morales. Entre os expatriados, o atual mandatário possui 60,35% dos votos, contra 26,73% do principal adversário. Dentre os votantes no Brasil, 70,58% chancelaram a reeleição do presidente boliviano.

Jesus não pensa em voltar a Portugal

Com todo o respeito à primeira página do jornal Record, que estampou “Jesus quer voltar”, não há nenhum indício de que isto possa acontecer antes do final de seu contrato, em junho do ano que vem. Não há nenhum depoimento que dê noção de que tenha qualquer tipo de insatisfação, saudade ou problema familiar que o leve de volta, antes do final de seu acordo com o Flamengo.

Além disso, na manhã desta segunda-feira, ao saber que a informação de seu possível retorno circulava em Portugal, Jesus foi aos dirigentes para tranquilizá-los e desmentir. Ao contrário.

Depois da vitória sobre o Fluminense, Jorge Jesus referiu-se ao período de três meses como técnico no Campeonato Brasileiro como se estivesse em casa. Também disse que o trabalho parece levar três anos.

A lua-de-mel continua.

Mesmo na semana em que houve o sequestro do ônibus da linha 2520, na ponte Rio-Niterói, em agosto, Jesus tinha curiosidade sobre onde havia acontecido o incidente. Queria saber o tamanho da ponte (13.290 metros) e a distância para o Ninho do Urubu (68 km).

Naquela semana, já se especulava sobre sua vontade de retornar. Jesus respondeu que não falaria sobre o que não disse. A situação só pode se alterar depois de junho do ano que vem, quando termina seu acordo com o Flamengo.

Hoje, Jesus não pensa em outro lugar, a não ser no Flamengo.

Ministros querem mais mordomia

Insatisfeitos por terem que voar de classe econômica, ministros convenceram o Palácio do Planalto a estudar mudanças que possam garantir mais conforto a integrantes do primeiro escalão nas viagens internacionais. A Controladoria-Geral da União (CGU), por sua vez, considera liberar carona a parentes de ministros nos aviões da Força Aérea Brasileira (FAB). O governo está analisando o impacto econômico e também político das medidas impopulares.

Ao Estado, o ministro da CGU, Wagner Rosário, afirmou que não considera haver ilegalidade nas caronas dadas por ministros a parentes, parlamentares e mesmo empresários nas aeronaves oficiais por não acarretarem despesas extras.

Rosário disse não ver irregularidade, por exemplo, na viagem em que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, transportou a mulher, Maria Eduarda de Seixas Corrêa, em maio para Paris. Ainda naquele mês, parentes do presidente Bolsonaro viajaram em helicóptero da Aeronáutica de São Paulo para o casamento, no Rio, do filho dele, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Papa inaugura mostra sobre Amazônia nos Museus do Vaticano

O papa Francisco inaugurou neste sábado (20) o Museu Etnológico Anima Mundi e uma exposição sobre a Amazônia, nos Museus do Vaticano, e afirmou que a beleza une e oferece aos povos capacidade de ultrapassar “barreiras e distâncias”.

cultura do ressentimento, do racismo, do nacionalismo, que estão sempre à espreita. São culturas seletivas, culturas de números fechados”, explicou. Durante a cerimônia, o Pontífice disse que o local precisa ser um “lar aberto a todos”, a todas as culturas e tradições, onde todos possam se “sentir representados, onde podem perceber concretamente que o olhar da Igreja não tem impedimentos”. O líder argentino ainda explicou que quem entra no museu precisa sentir que está em casa, onde todos têm lugar, o povo, tradição, cultura”, tanto “o europeu como o indiano, o chinês como o nativo da floresta amazônica ou congolesa, do ‘Alaska ou os desertos australianos ou as ilhas do Pacífico”.

Segundo Francisco, toda a arte, incluindo as peças etnológicas, tem o mesmo valor e “é cuidada e preservada com a mesma paixão”.

“As obras de arte são a expressão do espírito dos povos. A mensagem que recebemos é de que devemos sempre olhar para cada cultura, ao outro, com abertura de espírito e com benevolência”, afirmou. A inauguração da mostra sobre a Amazônia acontece em meio ao Sínodo dos Bispos para a floresta brasileira, que ocorre no Vaticano. “Que este Museu Etnológico preserve sua identidade específica ao longo do tempo e lembre a todos o valor da harmonia e da paz entre povos e nações”, concluiu o Santo Padre.(Ansa)

Bahia e Santos salvando a pátria

POR GERSON NOGUEIRA

O futebol brasileiro é tradicionalmente um reduto de alienação e falta de consciência política. Nesse quesito, uruguaios, argentinos e chilenos dão um banho de engajamento e ativismo quando o interesse coletivo está em jogo. O Bahia tornou-se nos últimos anos uma exceção nesse cenário, com campanhas de incentivo à inclusão social e luta inclemente contra o racismo e outras formas de discriminação.

Felizmente, nesta semana a agremiação baiana teve a companhia de outro gigante do futebol brasileiro. O Santos divulgou na sexta-feira, 18, um duro comunicado contra o preconceito e o racismo. Tudo em função de injúrias raciais proferidas por um torcedor contra o volante Fabinho, do Ceará.

O Bahia abraçou a causa da defesa da natureza. Em face da poluição provocada por manchas de óleo nas praias do Nordeste, o clube anunciou que vai fazer no jogo desta segunda-feira contra o Ceará um protesto contra a negligência dos órgãos federais de proteção ao meio ambiente.  

O time treinado por Roger Machado usará camisas manchadas de preto para simbolizar as manchas de óleo que devastam o litoral nordestino, destruindo a vida marinha e afetando quase 200 localidades. O desastre, até agora não controlado, afeta diretamente a indústria turística da região.

O problema é seu. O problema é nosso. Quem derramou esse óleo? Quem será punido por tamanha irresponsabilidade? Será que esse assunto vai ficar esquecido? O Bahia é você, somos nós, cada ser humano”, diz o manifesto publicado ontem no site oficial.

É a forma como representamos o amor, o apego, o chamego, o sagrado, a justiça. O Bahia é a união de um povo que vibra na mesma direção, que respira o mesmo ar e que depende da mesma natureza para existir, para sobreviver. Jogaremos nesta segunda-feira (21), contra o Ceará, em Pituaçu, com a camisa do Esquadrão manchada de óleo”, acrescenta.

E faz um convite à reflexão: “O que faz um ser humano atacar e destruir espaços sagrados? O lucro a qualquer custo pode ser capaz de destruir a ética e as leis que regem e viabilizam a humanidade? A barbárie deve ser tratada como tal, não como algo natural.

Em tempo: o acidente ambiental tem consequências mais graves porque, em abril, foram extintos dois comitês que integravam o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água (PNC).

Volto à mensagem do Santos, tão importante e urgente quanto a atitude do Bahia, para trazer luz e comprometimento social ao mundinho do futebol.

Na mensagem postada nas redes sociais, o Peixe não deixa dúvidas quanto aos princípios que defende: “Se você é racista, preconceituoso ou xenófobo, por favor não compareça aos jogos do Santos FC, não seja Sócio Rei e não use nossos produto oficiais. Melhor ainda: deixe de torcer para o Santos. Você não merece esse clube e não é bem-vindo em nossa casa”.

É a mais firme posição assumida por um clube nacional contra todas as formas de discriminação. Um gesto histórico se lembrarmos em que país vivemos hoje. Parabéns a Bahia e Santos pelas corajosas iniciativas. Gestos assim reforçam a resistência contra as trevas da intolerância.

Ainda o debate sobre torcedores “mistos”

A propósito do tema abordado na coluna de ontem, recebi o seguinte comentário do amigo José Marcos (Marcão Fontelles) Araújo:

“Isso tem raiz na tradição cultural. Anos atrás, na minha infância, o meio de comunicação mais arraigado era o rádio e até o jornal escrito. E, lá no rádio, transmitido pelas rádios nacionais como Rádio Globo e Rádio Nacional, se acompanhava os jogos de Flamengo, Santos, Vasco, Palmeiras e outros, como se fossem de campeonatos locais. Era comum a molecada descer para as brincadeiras, nas domingueiras, com o radinho de pilha para não perder os lances do Pelé, do Fio Maravilha, Garrincha e outros.

Esse hábito levou ao crescimento de torcidas pelos times com que convivíamos. Hoje, com a explosão da tecnologia, em tempos em que quase todas as casas têm ao menos uma televisão, onde o celular está desde cedo nas mãos das pessoas, naturalmente vai haver (está havendo) uma mudança. Ou as paixões locais são destruídas, pela presença e domínio das equipes nacionais, ou as equipes locais se consolidam, reduzindo paulatinamente a expressão e poder dos clubes de Rio e São Paulo.

A manutenção da política de times de ‘bucaneiros’ que, em hordas, invadem o estado e, mesmo com qualidade técnica sofrível, envergam os mantos sagrados, de forma ridícula em detrimento de atletas de base e até de interioranos, que cada vez mais passam direto por cima de Belém e vão direto brilhar em outras praças, é o maior inimigo de clubes locais fortes. Além de que a falta de qualidade dos que vem para cá e do ato custo para manter esses ‘jogadores’ faz com que, a cada ano, nova leva de jogadores seja trazida, não criando empatia desses com a torcida. Não se tem mais ídolos dignos desse nome, como eram Bené, Moreira, Da Costa, Alcino, Neves, João Tavares, Quarenta e outros”.

Boa fase do Vasco faz emergir o velho Luxa

Vanderlei Luxemburgo é reconhecidamente um treinador competente. Sabe montar times e ler um jogo como poucos. Ontem, por exemplo, mexeu no time do Vasco no 2º tempo contra o Internacional, após o sufoco inicial.

A mudança de posicionamento reequilibrou a marcação e o time acabou chegando ao gol (Marrony) no reinício da partida. Depois disso, armou uma retranca que lhe valeu a terceira vitória consecutiva no campeonato.

Luxa é conhecido também por não segurar a língua afiada. Na entrevista pós-jogo, depois de algumas boas frases de efeito, ele se melindrou ao ser indagado sobre se vive uma “fase de recuperação” na carreira.

Respondeu ao repórter que, pela carreira vitoriosa, não pode sequer ser perguntado sobre isso. Acrescentou ainda que é hoje um dos mais bem sucedidos técnicos do futebol mundial.

Então, tá…

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 21)