
POR ANDRÉ FORASTIERI, no Linkedin
Sexta de manhã no Poupatempo da Praça da Sé, uma semana atrás. Perdi faz dois meses minha carteira, cartões, grana, foto do filho, RG e carteira de motorista. A bobeada me valeu duas visitas ao centro de São Paulo, ambas – surpresa! – prazerosas.
Na primeira levei Tomás e juntos fizemos as identidades. Vai pra cá, pega uma fila, pega outra, toca piano – tudo fica mais leve e todo mundo fica mais simpático quando tem um moleque de cinco anos com você. Foi bem rápido. E ainda sobrou tempo para um turismo básico pelas redondezas. O moleque foi conhecer a Praça e a Sé. Eu não lembrava de nada, então foi como a primeira vez para mim.
Foi a primeira igreja em que ele entrou na vida. Achou bem interessante. Eu que já entrei em um monte não me impressionei tanto. Me perguntou o que o guerreiro medieval que ilustra uma parede em um mosaico esquisito, com barba de Rei Arthur e espada na mão, tem a ver com São Paulo, a cidade. Eu não soube responder.
Na segunda visita, uma semana atrás, fui sozinho e portanto preparado para uma empacada radical. Levei agenda, revista e livro. Um homem prevenido vale por dois e não se entedia fácil. Foi providencial. A visitinha durou três horas.
Não tenho um A para reclamar dos funcionários do Poupatempo. O povo é rápido e eficiente. O processo é que é surreal. Para que preciso ir até lá para tirar a segunda via da carteira de motorista, considerando que não é preciso assinar nada nem tirar a impressão digital? Deveria ser possível fazer por carta. Até porque foi por Fedex que eu recebi ontem a minha nova. Graças à Valderez, que compartilha com minha mãe nome e gentileza.
A demora acabou sendo boa. Porque no tempo que passei lá, estava offline total. Então consegui ler uma coisa que eu precisava ler, por razões de trabalho, e estava empurrando com a barriga. Foi útil. E porque quando acabou a peregrinação, decidi que estava merecendo um agradinho e acabei garimpando um agradão.
Na saída estava um sol gostoso de inverno, céu azul e brisa estimulante. Fui dar uma banda pela Rua do Carmo. É um prédio mais bonito que o outro – o da Escola Fazendária devia ser tombado, se já não é – e uma loja mais maluca que a outra – uma portinha só vende essências, outra só tem folhinhas e calendários…
A praça na frente da Igreja do Carmo estava cheia de barraquinhas. Tinha roupa, sapato, bibelôs estrambóticos, um peruano desafinando uns boleros, DVD pirata e badulaques evangélicos. Minha favorita se dedica a apontadores feitos de metal, em formas diversas – Torre Eiffel, Ópera de Sidney, veículos variados. Comprei um em formato de avião-radar Awac para dar de presente para o meu filho.
Desesperado de fome e a dois metrôs de distância do meu trabalho, chequei as opções mais rápidas em volta da Sé. Foi a primeira vez que entrei em um Giraffas. Comi um Tri Giraffão, cheese salada, batata frita e Coca Zero, treze reais, 1118 calorias segundo avisa o próprio Giraffas, num aviso pregado na parede.
Demorou um pouco mais do que fast food normal – “é que é feito tudo na hora”, explicou a moreninha de aparelho. E por isso é mais gostoso, entoa o slogan da rede. É mesmo. Melhor que um Big Mac, que não como faz uns vinte anos e nunca mais comerei.
O Giraffas surpreende pela convivência pacífica entre fast food gringa e slow food brazuca. Porque, você sabe, um almoção brasileiro é demorado pra fazer e demorado pra digerir. As mocinhas vão educadamente enchendo as bandejas, essa tem filé de frango, arroz e feijão; essa hambúrguer; essa bife; aquela nuggets.
Empanturrado com meu Tri Giraffão, fui atrás do meu agradinho. Livros, que mais? O sebo virando a esquina era pequerrucho. Encontrei edições originais de dois livros obrigatórios de Paulo Francis, O Afeto que se Encerra e Nu e Cru. O primeiro é de memórias e chave na minha vida. O segundo, uma coletânea de artigos preciosos. Comprei para dar de presente para uma jornalista amiga e jovem. Se fosse milionário, dava os dois para cada calouro de jornalismo do país.
Perguntei pro moço que espanava um livros velhos, tem livro em inglês aqui? Tem, subindo a escada. Cheio de batata frita e com hora para trabalhar, relutei uns segundinhos, mas encarei.
Era só uma estante. Livro sobre Ilhas do Pacífico, livros técnicos, Morris West. Lá embaixo, a surpresa: The Economist Style Guide, letras prateadas sobre a capa preta e dura.
O livro é uma versão expandida do manual que os profissionais da The Economist usavam em 1986. Minha versão é a atualizada, de 1993. Você pode e deve discordar do conservadorismo polido advogado pela revista. Mas não há nada parecido no planeta em termos de análise concisa e coloquial, semana após semana, desde priscas eras – 1843.
Não estrago o prazer de quem decidir comprar, entregando o ouro sobre os verbetes. Só digo que além de utilíssimo para quem queira escrever bem em inglês ou qualquer língua, é uma delícia de ler.
Deve ser porque eles seguem o conselho do autor de “1984”, que citam de cara na introdução. Vão me perdoar a tradução tosca:
“As Seis Regras para escrever bem de George Orwell:
1. Nunca use uma metáfora ou qualquer figura de linguagem que você não está habituado a ver impressa.
2. Nunca use uma palavra longa se a curta resolve.
3. Se for possível cortar uma palavra, corte sempre.
4. Nunca use o passivo se pode usar o ativo.
5. Nunca use uma frase estrangeira, palavra científica ou jargão se você conseguir imaginar um equivalente coloquial.
6. Quebre qualquer uma dessas regras se a alternativa for escrever algo pavoroso.”
O Economist Style Guide emenda uma sétima regra. É dica de Henry Hazlitt, lenda do jornalismo americano, que todos devemos seguir, jornalistas ou não. Mais fácil dizer do que fazer: “escrever de maneira genuína é escrever como qualquer um fala – qualquer um que tenha perfeito comando das palavras, e que discurse com facilidade, força e perspicácia, abandonando qualquer floreio pedante”.
Alguma disposição de sair às ruas, alguma capacidade de observação, algum respeito pelas lições de quem fez antes e melhor – o que mais você precisa para se intitular jornalista?
(Publiquei essa croniqueta em setembro de 2009. Sempre é hora de falar de Orwell, e portanto aqui está… e mantenho as outras recomendações: Francis, The Economist, e vamo pra rua, que a vida tá lá fora!)
Hehehe boas dicas, as vezes eu critico os jornais que usam umas palavras que só indo no dicionário pra saber o significado.
Mas é valido.
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Pois é, o bom jornalismo prega a linguagem simples, de fácil entendimento.
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