O vinho amargo para festejar a prisão de Dirceu

Por Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo

Colunistas da mídia estão festejando com sua habitual hipocrisia estridente a decisão do Supremo de ontem de mandar prender boa parte dos réus. Dirceu preso era o sonho menos deles do que de seus patrões. Num momento particularmente abjeto da história da imprensa brasileira, dois colunistas chegaram a apostar um vinho em torno da prisão, ou não, de Dirceu.

joaquim_barbosa_pesquisa_presidente.jpg.620x350_q85_ltrbx-600x338Você vai ler na mídia intermináveis elogios aos heróis togados, aspas, comandados pelo já folclórico Joaquim Barbosa.

Mas um olhar mais profundo, e menos viciado, mostra que o Mensalão representou, na verdade, uma derrota para a elite predadora que luta ferozmente para conservar seus privilégios e manter o Brasil como um dos campeões de desigualdade social.

Por que derrota, se a foto de Dirceu na cadeia vai estar nas manchetes?

Porque o que se desejava era muito mais que isso. O Mensalão foi a maneira que o chamado 1% encontrou para repetir o que fizera em 1954 com Getúlio e 1964 com João Goulart. Numa palavra, retomar o poder por outra via que não a das urnas. A direita brasileira, na falta de votos, procura incansavelmente outras maneiras de tomar posse do Estado – e dos cofres do BNDES, e das mamatas proporcionadas por presidentes serviçais etc etc.

A palavra mágica é, sempre, “corrupção” – embora nada mais corrupto e mais corruptor que a direita brasileira. Sua voz, a Globo, sonegou apenas num caso 1 bilhão de reais numa trapaça em que tratou a compra dos direitos de transmissão de uma Copa como se fosse um investimento no exterior. Foi assim como o “Mar de Lama” inventado contra Getúlio, em 1954. Foi assim com Jango, dez anos depois, alvo do mesmo tipo de acusação sórdida e mentirosa.

E foi assim agora.

Por que o uso repetido da “corrupção” como forma de dar um golpe? Porque, ao longo da história, funcionou. O extrato mais reacionário da classe média sempre foi extraordinariamente suscetível a ser engabelado em campanhas em nome do combate – cínico, descarado, oportunista – à corrupção.

A mídia – em 54, 64 e agora – faz o seguinte. Ignora a real corrupção a seu redor. Ao mesmo tempo, manipula e amplia, ou simplesmente inventa, corrupção em seus adversários.

Agora mesmo: no calor da roubalheira de um grupo nascido e crescido nas gestões de Serra e Kassab na prefeitura, o foco vai se desviando para Haddad. Serra é poupado, assim como em outro escândalo monumental, o do metrô de São Paulo.

Voltemos um pouco.

A emenda que permitiu a reeleição de FHC passou porque foi comprado apoio para ela, como é amplamente sabido. Congressistas receberam 200 000 reais em dinheiro da época – multiplique isso por algumas vezes para saber o valor de hoje — para aprová-la.

Mas isso não é notícia. Isso não é corrupção, segundo a lógica da mídia.

O caso do Mensalão emergiu para que terminasse como ocorreu em 1954 e 1964: com a derrubada de quem foi eleito democraticamente sob o verniz da “luta contra a corrupção”.

Mas a meta não foi alcançada – e isso é uma extraordinária vitória para a sociedade brasileira. No conjunto, ela não se deixou enganar mais uma vez. O sonho de impeachment da direita fracassou. Ruiu também a esperança de que nas urnas, sob a influência do noticiário massacrante, os eleitores votassem nos amigos do 1%: Serra conseguiu perder São Paulo para Haddad, um desconhecido.

O que a voz rouca das ruas disse foi: estão tentando bater minha carteira com esse noticiário. O brasileiro acordou. Ele sabe que o que a Globo — ou a Veja, ou a Folha – quer é bom para ela, ou elas, como mostram as listas de bilionários brasileiros, dominadas pelas famílias da mídia. Mas não é bom para a sociedade. E por estar acordado o brasileiro impediu que o Mensalão desse no que o 1% queria – num golpe.

Por isso, o vinho que será tomado pela prisão de Dirceu será extremamente amargo.

5 comentários em “O vinho amargo para festejar a prisão de Dirceu

  1. Pois bem, já que se insiste nesta dicotomia superada, é preciso dizer pro articulista que quem está no poder atualmente, como, aliás, sempre esteve, inclusive nestes últimos 11 anos, é a direita. Direita igual ou pior a que já governara antes.

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  2. Também é preciso dizer para o articulista que a Veja, a Globo, a Folha e quejandos só cumprem o papel que delas se espera. Quem, na verdade, falha, decepciona e engana a comunidade é o governo de direita que aí está.

    As citadas, e outras mais do mesmo naipe, cumprem o seu papel histórico de denunciar as verdadeiras irregularidades cometidas pelos governos seja de qual partido for e independentemente da tendência, sempre que eles, os governos, não adquirem o silêncio no valor que elas consideram justo.

    Foi assim no governo sarney, no governo collor, no governo itamar, no governo fhc, e também está sendo nos governos lulla e no governo dilma. E foi assim também antes dos governos citados sempre que não houve a aquisição referida.

    Na atualidade quem está falhando é o governo que aí está, eis que foi ele quem foi eleito pra mudar o quadro. E o que fez na primeira oportunidade se juntou a todos aqueles que antes cometiam as maiores barbaridades. Isto é, a mídia só está fazendo o que sempre fez. O governo petista que foi eleito pra fazer diferente é que até agora não fez nada de diferente, muito ao contrário.

    A propósito, o articulista reclama do rumo que está tomando o caso Cassab que vem derivando para atingir também o prefeito petista. Mas, ele deve lembrar que o petismo tem seguido na esteira do psdb inclusive neste aspecto das malfeitorias.

    Por exemplo, reclama do mensalão da reeleição, mas, assim que teve oportunidade, produziu um igualzinho, inclusive usando o mesmo arquiteto. Quer dizer, então, não é de se estranhar que as investigações evoluam pra mostrar que na sequencia do Cassab, o Haddad viesse e passasse a usar o mesmo sistema, inclusive com os mesmos arquitetos.

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  3. Se reclama da pirotecnia no julgamento do Mensalão. Mas é a imprensa que faz seu papel. Não tinha como não ser assim, pela GRAVIDADE e o VOLUME de dinheiro desviado. Os réus estão sendo julgados pelo STF devido ao Foro privilegiado (É uma garantia para eles) não é vontade do Barbosa ou da direita facista. É Lei. Por exercerem cargos federais do alto executivo cai no tapetão do Supremo. Não há nada que justifique ou se quer amenize o MENSALÃO que comprava os legisladores federais para votar de acordo com os interesses do Executivo. Isto é um contexto. Viramos a notícia agora que se informe os casos de desvios de verba estaduais (São Paulo, Pará, Distrito Federal, etc.) e municipais dos políticos do PMDB, PSDB, DEM, Arrudas, etc. tão graves quanto, que, inclusive, alguns deles estão sendo julgados nos tribunais estaduais que boa parte da imprensa não quer divulgar

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