Os pais do punk rock

Por André Barcinski

Finalmente consegui assistir a “Oil City Confidential”, o documentário de Julian Temple sobre o grupo inglês Dr. Feelgood. Está passando na TV a cabo e é imperdível. Temple, autor de filmes sobre os Sex Pistols e o Clash, dessa vez centra as atenções em uma banda idolatrada por essas duas, mas que, ironicamente, acabou eclipsada pelo surgimento do punk.

O Dr. Feelgood foi o maior expoente do “pub rock”, um movimento efêmero, porém muito influente, que surgiu na Inglaterra no início dos anos 70. Em reação ao virtuosismo do rock progressivo e ao exibicionismo do glam rock, diversas bandas adotaram uma postura de “volta às raízes”, tocando rock primal, influenciado pelos pioneiros do blues americano.

Essas bandas encontraram seu público em pequenos pubs enfumaçados, onde multidões de espremiam para tomar cerveja, suar e dançar ao som de Kilburn & The High Roads, Eddie and the Hot Rods, Ducks Deluxe, Stranglers, Nick Lowe, e, claro, Dr. Feelgood. O grupo foi formado na Ilha de Canvey, sudeste da Inglaterra. “Aqui é realmente o fim da linha”, diz um entrevistado. “Tanto que a parada seguinte, se houvesse uma, seria na Bélgica.”

Chamar Canvey Island de “fim de mundo” é um insulto ao mundo. A ilha parece um cenário de filme do Mad Max, com praias rochosas, quarteirões inteiros em ruínas e o espectro cinzento de uma gigantesca indústria petroquímica no horizonte (daí o nome “Oil City”). O filme passa um bom tempo em Canvey Island. Fica claro que o isolamento e a desolação do local foram fatores que influenciaram demais o som agressivo e saudosista do Dr. Feelgood.

O Dr. Feelgood era liderado por uma dupla carismática e talentosa: o vocalista Lee Brilleaux e o guitarrista Wilko Johnson. Ao vivo, a banda era imbatível. Brilleaux era uma presença fortíssima no palco, e nem precisava se mexer muito para comandar o público. Wilko, ao contrário, corria de um lado para o outro como um alucinado, fitando a platéia com o semblante de um assassino serial. O grupo parecia quatro neandertais no meio de uma overdose de anfetaminas.

O Dr. Feelgood caiu nas graças de muita gente que viria a formar a nata do punk e pós-punk inglês. Mick Jones e Joe Strummer (cuja banda, The 101’ers, era da mesma cena de pub rock), eram fãs. John Lydon também. Os Ramones abriram shows do grupo. E não dá para negar que Andy Gill, do Gang of Four, tirou muito de sua presença de palco e do estilo “staccato” de sua guitarra vendo Wilko Jonhson em ação.

Por dois ou três anos, o Dr. Feelgood foi uma sensação na Europa. Lotava ginásios e vendia muitos discos. Mas os egos gigantes de Brilleaux e Wilko eram demais para uma banda só, e eles acabaram rachando. Daí, em 1976, veio o punk, soterrando o pub rock e tornando aquele saudosismo obsoleto do dia para a noite. Sorte nossa que Julian Temple teve a idéia de ressuscitar a banda nesse filme. É uma história e tanto

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