Um velho amigo rubro-negro, que trabalha há anos no mundo do futebol, costuma telefonar sempre que escrevo um artigo enaltecendo o lado romântico e épico do esporte. Misto de crítica e benevolente compreensão, as intervenções buscam trazer-me para o mundo real, segundo sua própria definição. Nem sempre concordamos, mas, nas últimas semanas, certos acontecimentos fizeram com que lembrasse bastante de seus conselhos. Leio, por exemplo, que o Palmeiras está acumulando déficit mensal de R$ 5,6 milhões com o futebol profissional, o que resultará num acumulado superior a R$ 112 milhões no final da temporada.
As explicações para tamanho desperdicio de dinheiro surpreendem pelo tom simplório. Parceiro do grupo Traffic e capitaneado hoje por um ilustre economista, Luiz Gonzaga Belluzzo, que colaborou para a gestação do Plano Cruzado e deu boa parcela de contribuição ao Plano Real, o Palmeiras é o mais destacado candidato ao título brasileiro da temporada, objetivo a que se lançou com fúria extrema. Percebe-se a importância extraordinária que é dada à conquista pelo grau de irresponsabilidade nos gastos.
Os R$ 64 milhões mensais que o Palmeiras gasta com futebol dividem-se em salários de jogadores e comissão técnica (82%) e despesas diversas (18%). Só o técnico Muricy Ramalho ganha incríveis R$ 450 mil. O jogador Vagner Love, importado do Leste europeu, leva outros R$ 400 mil. É o orgulhoso autor de três gols desde que chegou ao Brasil. Além dos encargos trabalhistas, o clube resolveu adotar um sistema de premiação “por permanência na liderança”. Significa que cada rodada como ponteiro da tabela custa R$ 340 mil aos cofres palestrinos. Por força do acordo, até derrotas acabam sendo premiadas.
Tanto dinheiro para gastar sem freios gera muitas dúvidas. Entra em ação meu amigo realista para observar que não há mistério. O futebol brasileiro é inviável financeiramente, diz, calmamente. Os clubes que sobrevivem e se mantêm vencedores – São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Grêmio, Inter e Cruzeiro, principalmente – não executam nenhum plano de multiplicação dos recursos. Recorrem apenas ao velho expediente da sonegação fiscal e, em determinadas vezes, até ao caixa-dois. “Ou você acha que o título da Série A será capaz de devolver todos esses recursos que o Palmeiras está gastando para ser campeão?”, pergunta, desafiador.
Por aquelas ironias típicas da realidade brasileira, meu interlocutor assevera que estão mal das pernas os clubes que caíram na besteira de pagar o que devem e demonstram temor das garras do fisco. Quem seguiu sua vida, indiferente às montanhas de pendências em impostos e taxas, vai muito bem das pernas. É uma inversão completa de prioridades que se sustenta na lei das aparências, de difícil entendimento para quem não está familiarizado com as falcatruas e jeitinhos brazucas, conclui o atento personagem. Desconfio que ele está certíssimo.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 3)
Alguma diferença com o que ocorre em Remo e Paysandu?
O problema é que nossos times não têm a força política e econômica que Palmeiras, São Paulo, Corínthians, Vasco etc para empurrar as dívidas com a barriga…
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A ideia é exatamente essa, Cleiton. Partir de um exemplo nacional, maior, para catucar as coisas daqui – tão ou mais graves que as de lá, embora em escala financeira menor.
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A imprensa lá de baixo adora jogar um confete no Luiz Gonzaga Belluzzo. Sei não, mas dirigente de futebol (assim como político) quando é muito elogiado, hum…
Quando assumiu, lembro de que o gênio faria uma administração consciente, responsável, “pé-no-chão” como dizem por aí. Tal como Fausto, quero ver quando chegar a conta. Provavelmente vai estourar no colo de outro.
Quanto ao nosso Pará, acho que estamos realmente na roça. Não tenho mais ânimo nem para esculhambar.
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E o pior, é que o título (se é que é mesmo o título que eles almejavam com gastos desta envergadura), nesse momento, já parece experimentar alguma ameaça.
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