Mês: junho 2018
A nova Copa

Por Edyr Augusto Proença
Será que nos animaremos para a Copa do Mundo? Creio que sim. Aguardaremos a primeira vitória e as ruas vibrarão. Com nossa alma de cachorro vira lata, como dizia Nelson Rodrigues, ergueremos os punhos gritando, diante do mundo “dobrem-se ao talento brasileiro!”. Ao menos no futebol. Não me lembro da primeira Copa em 1958. Tinha apenas quatro anos, mas havia um elepê contendo a narração de todos os gols da seleção. O irmão mais velho tocava sem parar. Um problemão. A transmissão chegava com má qualidade. Assim, meu pai trancou-se em seu gabinete, no apartamento, colocou fones de ouvido e passou a dublar a narração. Uma façanha.
Quanto a nós, ficamos proibidos sequer de falar, quanto mais correr e gritar em brincadeiras, para não atrapalhar seu trabalho. Imaginem as ameaças que recebemos. Enfim, certamente, a de maior envolvimento emocional foi a de 1982. Eram meus ídolos em ação, o Flamengo campeão do mundo, dando show de bola, até aparecer Paulo Rossi. Pessoas choraram pelas ruas. Baixo astral. Foi como tomar pirulito de criança.
O futebol começou a mudar. As contratações. Nossos craques, como Falcão, Zico, Sócrates, Júnior, Oscar, sei lá quem mais, foram encantar os europeus. E chegamos hoje, em que os clubes europeus são verdadeiras seleções com os melhores jogadores do mundo. O esporte globalizou. Isso me fez pensar. Tenho uma idéia. Quero dividir com vocês. Deixem todas as opiniões de lado, por um instante.
Quando as Copas começaram, há muito tempo atrás, as equipes viajavam de navio. As comunicações também eram difíceis. Então, os encontros eram surpreendentes. Escolas diferentes de futebol. Lembro que em 1958, todos aguardavam a seleção russa, que praticaria o futebol científico. Bem, Mané Garrincha acabou com tudo. Mas havia a Italia e seu ferrolho. Os ingleses e o jogo aéreo. Os húngaros geniais. E os brasileiros, que jogavam sambando. Até tinha sentido cantar o hino nacional antes dos jogos, como se fossem dois exércitos para a guerra. Hoje, tudo mudou.
Para a maioria de jogadores consagrados e ricos, a Copa é um torneio de verão, já que deviam estar de férias após estafante temporada, mas que paga bons prêmios, renova contratos de publicidade, enfim. O resto é propaganda. Experimentem passar uma semana fora do Brasil. Provavelmente não lerão ou assistirão nenhuma notícia daqui. Imaginem um jogador de futebol, distante de casa, treino e jogo, conquistas, riqueza, um, dois, quatro anos. Perdem a ligação, nem lembram da torcida brasileira. Chegam aos treinos de helicóptero.
Joga-se da mesma maneira, globalizada, hoje, no mundo inteiro. Minha idéia, preparem-se: cada seleção é escolhida entre melhores jogadores em ação em cada país. Nada de nacionalidade. A seleção será de jogadores vistos a cada jogo, em cada país. Sim, dirão que Espanha e Inglaterra, por exemplo, serão favoritas. Pode ser, mas a seleção brasileira, acho, jogará da maneira que jogamos aqui. Com os ídolos locais. Perdemos referencia.
Somente quem assiste a jogos internacionais por canais fechados, acompanha os craques brasileiros. A seleção nem faz amistosos por aqui. É mais barato reunir os jogadores na Inglaterra, por exemplo. Estranho? Ficamos mais fracos e não seremos mais o destaque? Pode ser. Mas será o espelho do futebol em cada país. Penso também que torceremos mais fervorosamente por craques aos quais assistimos durante a semana, em nossos campeonatos. Minha idéia. O que acham?
(Publicado em O Diário do Pará, Caderno TDB, Coluna Cesta e opiniaonaosediscute.blogspot.com em 15.06.18)
Clássico termina com 6 gols e show particular de CR7
América do Sul quer expulsar Nunes do Conselho da Conmebol
A Conmebol quer a cabeça do presidente da CBF, Antonio Carlos Nunes. O voto do Brasil no Marrocos para sede da Copa de 2026 – quando o combinado era votar na América do Norte – não foi digerido pela entidade que manda no futebol sul-americano. Ao que tudo indica, a crise só vai ter fim quando o Coronel Nunes, como gosta de ser conhecido, deixar o Conselho da Conmebol. Na CBF, a possibilidade de tirar o Coronel Nunes do Conselho é tida como quase impossível. Afinal, ele é o presidente – e ele teria que assinar a própria saída.

O Conselho é formado pelos 10 presidentes das associações nacionais de futebol da Conmebol. É a instância que toda todas as decisões importantes da entidade – como, por exemplo, apoiar formalmente os EUA na disputada pela Copa de 2026. Cada integrante do conselho recebe um salário mensal de US$ 20 mil.
A Conmebol já recebeu pedidos de desculpas por parte de outros dirigentes da CBF, como o vice-presidente Fernando Sarney e o diretor-executivo Rogério Caboclo. Mas espera mais do que isso. A próxima reunião do Conselho da Conmebol será em agosto, na Bolívia, e é correto afirmar os outros nove países do continente não querem ver o Coronel Nunes por lá.
Isso já aconteceu no dia da abertura da Copa do Mundo, quando Nunes foi impedido por seus pares da CBF de ir a um evento da Conmebol que teve a presença do presidente da Fifa, Gianni Infantino. Nas reuniões da Conmebol, isso não pode acontecer – alguém tem que ir.
Embora o Coronel Nunes não tenha violado nenhuma regra escrita, a Conmebol ameaça até abrir uma investigação em seu Comitê de Ética para investigá-lo. Seria mais um constrangimento para a CBF, que passou os últimos três anos tentando explicar ao mundo porque seu então presidente, Marco Polo Del Nero, não viajava para o exterior.
A Conmebol está disposta a repetir com Nunes a mesma fórmula adotada nos três anos em que Del Nero era presidente da CBF, mas não saía do Brasil – aceitou outro representante brasileiro no Conselho da entidade. O escolhido foi Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista. Se tal solução for repetida, a Conmebol espera que Rogério Caboclo assuma o lugar de Nunes. (Do Globo Esporte)
Grupo A – Rússia lidera após primeira rodada
Um país que passa a acreditar apenas em culpa, nunca em inocência, está condenado ao desastre

Por Reinaldo Azevedo, na Folha SP
A esquerda d’antanho gostava da tese mixuruca de que o futebol é que era o ópio do povo. A disputa nos distrairia de nossos reais problemas e serviria à manipulação ideológica —o futebol e também as… revistas em quadrinhos! Procurem saber o que é um livro hediondo, literalmente do século passado, chamado “Para Ler o Pato Donald”. Aqueles conceitos tortos, essencialmente errados, do que seriam “alienação” e “consciência” estão aí, vulgarizados até em memes, mas, desta feita, pela direita xucra.
O Brasil que sabe a escalação do Supremo, mas não a da seleção, é só um país infeliz, de patos com complexo de rottweilers nada amorosos.
Um país que passa a acreditar apenas em culpa, nunca em inocência, está condenado ao desastre. Nesse ambiente, as garantias legais são tidas como elementos procrastinadores da Justiça. As defesas dos indivíduos contra a força coativa do Estado, base de qualquer regime democrático, se dissolvem na paixão justiceira. Do habeas corpus à presunção de inocência, tudo se rende no altar do combate à corrupção, real ou suposta. Nosso gol é prender pessoas. Nosso talento é punir.
Projeção estatística aponta final Brasil x Alemanha, com vitória alemã

Uma má notícia para a Seleção Brasileira na Copa da Rússia. A equipe é a terceira colocada no ranking das prováveis campeãs, com 13,27% de probabilidade de levar a taça. Em segundo lugar, está a Bélgica, com 13,93% de chance. E, em primeiro lugar, está a Alemanha, a vilã do 7 a 1 na Copa de 2014, com 17,57% de chance de vencer o torneio.
A previsão é do Grupo de Modelagem Estatística no Esporte (GMEE), que reúne estatísticos das universidades de São Paulo (USP) e federais de São Carlos (UFSCar) e da Bahia (UFBA). Eles acertaram os primeiros e segundos colocados das últimas três copas (2006, 2010 e 2014). (Do portal Terra)
Rock na madrugada – Nirvana, Pennyroyal Tea
Um pequeno aperitivo

POR GERSON NOGUEIRA
A Copa começou ontem, a festa foi meio chinfrim como toda festa de abertura, mas o povo sabe que o grande jogo desta primeira semana é mesmo Portugal x Espanha, que acontece hoje à tarde. Mundiais de futebol têm dessas coisas. Normalmente, o anfitrião enfrenta uma garapa logo na estreia para não desanimar a torcida. A Rússia encarou a Arábia Saudita e aproveitou a moleza. Marcou 5 a 0, placar que pode definir a vaga à próxima fase, mesmo sem ter feito uma exibição primorosa.
O jogo até que foi movimentado, com dois gols muito bonitos, o segundo e o quinto, mas é óbvio que os donos da casa não têm bala na agulha para ir muito longe. Passar da primeira fase já é um grande feito, capaz de animar a taciturna galera russa.
Costumo ver abertura de mundiais sem muita empolgação, pois todo mundo sabe que é um confronto definido pela organização com o intuito de alavancar as esperanças do torcedor. Nada de botar uma carne de pescoço logo na estreia, o que seria mais complicado porque a Rússia não atravessa um bom momento em termos futebolísticos.
A grande equipe do grupo A é o Uruguai, com Luiz Suárez e Cavani no ataque. Óbvio que é melhor começar a competição com o ainda ingênuo time árabe como adversário. Hoje, uruguaios e egípcios se enfrentam e poderemos ter uma ideia mais realista sobre a correlação de forças na chave.
Muito além do cotoco cuidadosamente planejado pelo cantor pop Robbie Williams, de carreira titubeante e músicas xaroposas, a cerimônia que inaugurou o torneio dá bem a medida do que se pode esperar nas próximas quatro semanas. A torcida vibra, comemora gols como qualquer outra, mas é torcida de Copa do Mundo.
Não há o saudável exagero natural das plateias que acompanham times de futebol pelo mundo. Os argentinos chegaram cantando suas músicas de endeusamento a Messi e Maradona, mas não é o suficiente para dar ao torneio algo parecido com o barulhinho bom da Copa de 2014 no Brasil, a competição que bateu todos os recordes mundiais de animação, apesar da existência de um grupelho de pascácios reclamando contra a existência do futebol.
Na Rússia, é improvável que isso se repita, como também não deve ser possível ver torcidas arrebatadas, apoiando e empurrando seus times. Pela educação mostrada pela plateia da abertura, esta deve uma Copa sem arroubos dos fãs. Vai depender exclusivamente da qualidade dos jogadores.
Cristiano Ronaldo e Iniesta têm a imensa responsabilidade de mostrar ao mundo, no clássico de hoje, que o torneio terá bons jogos pela frente. Como é a primeira rodada do grupo B, é quase certo que os times serão bem menos agressivos do que poderiam. O instinto de preservação fala mais alto. De qualquer maneira, Portugal e Espanha têm condições de fazer o melhor confronto deste alvorecer de campeonato.
Na outra partida da chave, Marrocos e Irã se digladiam com a convicção serena de que estão na Rússia para disputar três jogos e depois voltar para casa, pois ambos são candidatos óbvios à eliminação na 1ª fase.
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Humildade pode ser o ponto de partida para grandes avanços
Houve quem imaginasse que os testes do Papão na semana, com a volta ao sistema 4-5-1, eram apenas ensaios livres. Dado Cavalcanti está deixando claro que a mudança é pra valer. Diego Ivo e Edimar serão os zagueiros e o time terá laterais de ofício, Mateus Silva e Carlinhos.
Contra o CSA, amanhã, o meio-de-campo também terá jogadores de marcação bem definidos – Nando Carandina e Renato Augusto. Os meias serão Alan Calbergue e Pedro Carmona. Na frente, Cassiano e Mike.
Pode dar certo, desde que os laterais funcionem como apoiadores do ataque e os meias sejam participativos, entendendo-se por isso a preocupação em alimentar o ataque. Cassiano precisa ser acionado constantemente, com jogadas que facilitem sua movimentação na área.
Dado admite com a reformulação do time que o 3-5-2 deu o que tinha de dar. Foi responsável pela surpreendente campanha vitoriosa no começo da Série B, mas aos poucos acabou perdendo força e vitalidade, passando a ser neutralizado pelos adversários.
A ideia de voltar a ter uma linha defensiva de quatro é interessante porque atesta humildade, virtude tão necessária e rara. Quando percebeu que o sistema usado não estava mais funcionando, o técnico não hesitou em buscar alternativas.
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Joias do pensamento futeboleiro
“Um 0 a 0 é como um domingo sem sol”.
“Jogamos como nunca, perdemos como sempre”.
“Nenhum jogador é tão bom como todos juntos”.
“As finais não se jogam, se vencem”.
“A bola é feita de couro, o couro vem da vaca, a vaca come grama, então você tem que saber jogar a bola na grama”.
Don Alfredo Di Stéfano, craque argentino (1926-2014)
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Enfim, a Copa ganha um comentarista de alto calibre
José Trajano, velho batalhador das grandes causas, anunciou triunfalmente ontem que seu programa “Papo com Zé Trajano”, que vai ao ar de segunda a sexta na TVT, canal 441, HD Rádio Brasil Atual 98,9, das 18h15 às 19h, terá Luiz Inácio Lula da Silva como comentarista.
Torcedor inveterado, o ex-presidente Lula aceitou falar sobre os jogos da Copa no programa do Zé. O aplicativo para smartphones é disponibilizado na Play Store e na AppStore.
(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 15)
Capa do Bola – sexta-feira, 15

Globo e o jornalismo ‘esquenta’ torcida

Por Joaquim de Carvalho, no DCM
Faz só quatro anos. O adolescente de pés descalços, com a camisa rubro-negra, provavelmente de algum time de várzea da periferia de São Paulo, pinta guias e sarjetas de verde e amarelo. Era véspera da Copa do Mundo, e o jovem, Gabriel Jesus, já se destacava nas categorias de base do Palmeiras. Hoje ele está na Rússia, para disputar sua primeira Copa do Mundo.
Gabriel é um vencedor.
Pena que jovens da periferia já não estão mais tão entusiasmados com a Seleção Brasileira quanto ele quatro anos atrás, e ruas não estão sendo enfeitadas como antes. Para os brasileiros, esta será uma Copa do Mundo triste. Talvez a mais triste da história. Nas ruas, a cena contrasta com a empolgação forçada dos profissionais da Globo.
No Jornal Hoje da véspera da abertura da Copa, apresentadora e repórter se aproximaram perigosamente do ridículo ao mostrar a “empolgação” da torcida. “A Seleção Brasileira só vai entrar em campo no próximo domingo, mas em muitas cidade, aí no Brasil, a torcida já está superanimada”, anunciou a apresentadora Sandra Annemberg, direto de Moscou.
Em seguida, um desfile de clichês e imagens forçadas que, no máximo, despertam um sentimento profundo de vergonha alheia: “Modéstia a gente não vê por aqui”, começa a narrar a repórter Renata Capucci. Uma entrevistada diz, com sorriso amarelo: “Esta rua está sempre assim, sempre alegre”.
Depois, segue-se uma sucessão de fake news, provavelmente um recorde: máquinas trabalhando a todo vapor para garantir as encomendas de camisa amarela, disputa em comércio popular para garantir “pelo menos um adereço verde e amarelo”.
“É tradição, é reunião, é curtição!”, conta a repórter, que acrescenta: “os moradores passaram noites em claro desde março, para fazer bonito na Copa. A reportagem termina com a frase: “Confiança, a gente por aqui”.
A Copa do Mundo era talvez um momento único em que brasileiros se uniam de fato. Algo mudou, e talvez para sempre. Alguns podem dizer que é só esporte, não precisa ser levado tão a sério assim.
Errado.
O escritor e jornalista Nélson Rodrigues já dizia que a Seleção é a pátria de chuteiras, um patrimônio cultural, Marilena Chauí escreveu sobre o esporte e o considerou um espaço democrático privilegiado: com poucas regras, iguala a todos no conhecimento.
A diferença está na habilidade, mas isso não faz do jogador um ser superior. Mais ou menos como Gabriel na foto em que pinta a rua: os atletas em campo são a extensão de quem está fora, legítimos representantes. No caso dele, uma situação privilegiada: passou da calçada para o gramado, da arquibancada para o vestiário.
Para infelicidade de Gabriel Jesus, o que mudou em quatro anos foi a alma do Brasil. Mudança que pode ser mensurada pelo comentário de um vendedor ambulante do Recife. Entrevistado sobre o movimento da venda de camisas, ele disse que a camisa amarela encalhou, mas a azul tem saído.
A amarelinha da Seleção virou adereço de golpista ou manifestoche. De qualquer forma, uma peça que nos cobre de vergonha.
Por que tanta gente vai torcer contra a Seleção Brasileira na Copa?

É normal, sobretudo em época de Copa do Mundo, ouvir de alguns amigos e familiares que eles não estão nem aí para a seleção. Que preferem torcer pelo time do coração, que estão mais preocupados com eleição. Também não é novidade o discurso de inferiorização e pessimismo em torno dos 23 selecionados, que, de certa maneira, reflete a descrença nos rumos do país, traduzido por Nelson Rodrigues como “o complexo de vira-lata”.
Isso sem contar os brasileiros que, por diferentes razões, escolhem apoiar outra seleção. Mas, às vésperas do Mundial na Rússia, é impossível ignorar que o índice de rejeição e impopularidade da seleção brasileira atingiu patamares raramente observados. Muito além das reações de quem detesta futebol, esnoba o talento de Neymarou só empunha a bandeira em nome do seu clube, há gente de sobra disposta a secar, amaldiçoar e torcer contra o time que um dia foi o símbolo de orgulho da nação.
Para quem gosta de bola e de Copa, chega a ser irritante escutar sermões do tipo “o país nessa situação e o povo preocupado com futebol”, “só querem saber de pão e circo”, “enquanto você grita gol, estão roubando nosso dinheiro em Brasília”, “que o Brasil caia na primeira fase”, “que venha outro 7 a 1” e por aí vai… Porém, o descrédito popular que tem colocado em xeque o poder da seleção de mobilizar massas e unificar a identidade nacional a cada quatro anos não é fruto exclusivamente do mau humor dos que não enxergam a poesia que emana dos gramados. As causas transcendem o campo de jogo.
A última pesquisa de torcidas do Datafolha, divulgada em abril, mostra que o número de pessoas que não se interessam por futebol no país aumentou de 31% para 41% em relação a 2010, quando a seleção ainda era comandada por Dunga. Praticamente o mesmo percentual de brasileiros que desprezam a Copa do Mundo.
Chama a atenção que, no “país do futebol”, de acordo com pesquisa da MindMiners, 54% dos torcedores consultados dizem acreditar que uma eventual conquista do Mundial pela seleção não vai melhorar a autoestima do brasileiro. E o mais sintomático: 58% entendem que os episódios que levaram ao indiciamento dos três últimos presidentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) afeta, de alguma forma, a vontade de torcer pela seleção.
Tempos atrás, as suspeitas de ilícitos envolvendo cartolas eram tratadas como folclore no Brasil. Até que uma investigação do FBI desatou o Fifagate e implicou figuras como Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, menos de um ano depois do 7 a 1. Em compasso com os escândalos de corrupção na política, a entidade que controla nosso futebol sucumbiu na mão de dirigentes que, durante a Copa de 2014, exigiam patriotismo dos jornalistas e torcedores que criticavam as atuações do time de Felipão. E segue sem ter a exata dimensão de como a imagem associada a mandachuvas corruptos contribuiu para abalar a confiança dos brasileiros na seleção.

Seleção que, inevitavelmente, acabou castigada por seguidas administrações primitivas e nebulosas na CBF. Há décadas o esporte nacional é gerido à base da troca de favores, politicagem barata e interesses comerciais sustentados pela lógica da propina. Por mais vitoriosa que seja sua história em campo, não há instituição que passe incólume a tantas mazelas fora das quatro linhas. O que ajuda a explicar a perda de apelo não só da seleção, mas do futebol brasileiro como um todo.
Desconsiderando os comerciais de TV que apelam ao ufanismo, é cada vez mais raro presenciar demonstrações de amor à seleção. O que também dá uma medida do ódio. Por trás dele, irrompem jatos de frustração e raiva represadas pelo legado às avessas que a realização da Copa deixou para o país. Dos estádios superfaturados ao vexame contra a Alemanha, tanto o cético em relação a futebol quanto o torcedor mais apaixonado amargaram alguma dose de ressentimento. Havia caminho para uma reconciliação ao menos afetiva após Tite assumir a seleção e resgatá-la do fundo do poço. Mas, ao longo dos últimos quatro anos, dirigentes da CBF estavam mais preocupados em se livrar dos escândalos de corrupção do que em reaproximar o “brasileiro comum” do futebol.
A elitização tomou conta dos estádios, torcedores mais pobres foram afastados das arquibancadas, e a seleção virou produto cobiçado por empresas e patrocinadores que não veem problema em atrelar sua marca a uma entidade devassada pelas denúncias de corrupção. No meio desse processo de distanciamento, a camisa amarela da seleção ainda sofreu com a apropriação por grupos de manifestantes que a utilizaram como instrumento político. Neste cenário de Fla x Flu ideológico, uma parte da população agora sente ojeriza pelo uniforme com o escudo da CBF. Rejeição que, para muitos, se estende à seleção. Pela primeira vez no período democrático, o Brasil acompanhará uma Copa diante de tamanha polarização das correntes políticas, já que, em 2013, nos protestos que antecederam a Copa das Confederações, e em 2014, nas manifestações contra o megaevento, a pauta de reivindicações era bem mais difusa e menos identificada com determinada ala de militância.
Entre o apreço e o desdém por símbolos nacionais, a crise de credibilidade da seleção brasileira também respinga nos jogadores. A maioria deles joga no exterior, tem poucos vínculos com torcedores locais – algo acentuado pela falta de empenho da CBF em promover jogos com preços acessíveis no país – e falha ao não se esforçar para romper o estigma de cidadãos alienados, que, sob o status de personalidades globais, quase sempre resumem engajamento social a ações de caridade. Naturalmente, uma hora ou outra, torcedores como os que engrossaram o sarcástico protesto “um professor vale mais que o Neymar” se revoltam ao ver os ídolos reduzidos à figura de meros popstars.
Há quem interprete o desleixo pela seleção como um sinal de maturidade do brasileiro, que, supostamente, não se deixa mais enganar por “pão e circo” – como se fosse impensável conciliar a paixão pelo futebol com senso crítico. Todavia, é bem provável que, com o início dos jogos na Rússia, ainda mais se o Brasil mantiver o bom nível de atuação, o clima de Copa se espalhe tal qual em 2014, quando o grito de “não vai ter Copa” deu lugar a euforia nas ruas. Mas não resta dúvida de que os acontecimentos desde o Mundial passado, principalmente os escândalos de corrupção na CBF, arranharam a imagem do nosso futebol e, por tabela, a da seleção. Aquele que torce contra a pátria de chuteiras não é menos brasileiro que aquele que comemora fervorosamente cada gol anotado pelos comandados de Tite. Pois nada tem a ver com antipatriotismo.
O “torcer contra” é, acima de tudo, uma resposta dos que não se sentem representados pelas instituições que se apropriaram da seleção. Um direito tão legítimo quanto o de quem prefere torcer a favor, apesar das contraindicações.
(Por Breiller Pires, no El País)