Que brasileiro será você na Copa?

1527877197_005513_1527880902_noticia_normal_recorte1

Por Xico Sá, no El País

Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor…” O eco das arquibancadas de 2014 parece soar estranho no momento. Você vai torcer, secar ou não está nem aí para a seleção brasileira? Segundo meu instituto Databoteco, a indiferença domina o chão da praça. Nem o Pacheco, aquele personagem fanático inventado pela Gillete nos anos 1980, está alerta. Vai ter Copa? Pelo tanque vazio de esperança e o saco cheio da realidade, a brava gente parece indisposta a gastar galões de tinta verde e amarela pelas ruas do país.

Nem o Alzirão, tradicional sede da pátria em chuteiras no bairro carioca da Tijuca, está enfeitado neste momento. Tampouco há bandeirolas na praça central de Nova Olinda (CE), onde fiz a farra de criança, na Copa de 70, no meio de uma multidão que tentava enxergar em uma TV de 14 polegadas, os lançamentos do Gerson, o canhotinha de ouro.

A polarização, óbvio ululante, ajuda a entornar o caldo da feijoada. Não tem jeito, caríssimo Juan Arias, a política envenena a nação até na alegria da Copa, ao contrário da sua sensata torcida pela unanimidade aqui nas páginas do EL PAÍS. Há quem se recuse a vestir a camisa canarinho da CBF, modelo oficial dos manifestoches do impeachment -farsa épica dramatizada na pedagogia do samba da Paraíso do Tuiuti.

Ah, bobagem, meu bem, dizem outros: não misturo futebol e política, mesmo sendo contra tudo que está aí no cenário e no horizonte, vou vibrar sim pelo hexacampeonato, faz mais um pra gente vê, menino Jesus. É apenas uma competição de futebol, sem essa de mané-pátria-em-chuteiras.

Há quem simplesmente ainda não superou o trauma do 7×1 e desconfie, mesmo depois de todo discurso da autoajuda publicitária do Tite, da capacidade da equipe. A turma do “sei não, viu…”

Nessa feira patriótica de Acari, tem “de um tudo”. A patota da “intervenção militar” deve pedir a tortura para os secadores da seleção, esse bando de comunista, vai pra Venezuela, vai pra Cuba. Felipe Melo já como capitão do time Brasil na Rússia -o palmeirense é eleitor declarado de Jair Bolsonaro.

No túnel dialético do tempo, o debate nos leva novamente à Copa de 1970 disputada no México. A esquerda brasileira ficou na bola dividida. Para os mais radicais, torcer pelo timaço de Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivelino seria compactuar com a ditadura que arrepiava nos porões e censurava até livros sobre o cubismo -sim, o movimento artístico de vanguarda.

Uma moçada vermelha desobedecia, mesmo sob vigilante patrulha ideológica, a cartilha gauche das boas maneiras. Em artigo recente na revista Carta Capital, o jornalista Nirlando Beirão faz um bate-bola comparado e com estilo das duas situações, recomendo a leitura: “Para alguém que torceu a favor em 1970, chancelar em 2018 a hipocrisia, a burrice e a vulgaridade que passaram a exalar da pátria em chuteiras é missão ironicamente mais dolorida que da época da ditadura. Em 1970, o povo ainda desabafava no futebol uma alegria asfixiada, mas esperançosa. Em 2018, o futebol exprime a mediocridade turbulenta de um país que perdeu o rumo – em parte pela cegueira suicida de seu próprio povo. Uma gente sempre disposta a culpar ‘os políticos’, mas prestes a confirmar de novo, em outubro, os piores pilantras no Parlamento de Brasília.”

Você vai torcer ou secar? Eis a questão da hora. O caso não é simples ou esquemático. Guarda uma complexidade que lembra o drible do elástico nos pés do Rivelino. Há quem passe a régua no boteco: coxinha se esgoela pelo time da CBF; esquerdopata é do contra. Juízo, torcida brasileira, como prega o amigo Vladir Lemos no programa Cartão Verde, na TV Cultura. Conheço esquerdistas mais vermelhos do que Lênin dispostos a torcer pelo escrete canarinho – “afinal de contas a velha URSS e sua gloriosa camisa CCCP já eram”, fazem troça da história.

O jornalista Juca Kfouri tem um texto antológico sobre o assunto. Ninguém conseguiu resumir com sabedoria e elegância, e em apenas 30 linhas, a parada. O argumento foi publicado em 05 de junho de 2014, na Folha de S. Paulo, sob o título shakespereano “Torcer ou não torcer”. Jovens, ao Google. Antes, porém, deixo uma amostra grátis do breve tratado:

“Então, dizia nossa esquerda, cada gol da seleção atrasa em dez anos a revolução brasileira. Militante da ALN, a Ação Libertadora Nacional de Carlos Marighella, o que meus colegas desconheciam, passei a ser visto como alienado e sustentei discussões para mostrar que não permitiria que a ditadura roubasse o que eu tinha de mais íntimo, que minha paixão pelo futebol ou minha emoção sempre que ouvia o hino nacional não seriam usurpadas pelos que haviam assaltado o poder.”

Há quem torça de camisa da CBF, mesmo que pirata, e há quem adote a indumentária alternativa do “Lula Livre”, vermelha como a semente do pau-brasil, sopra um colega de trabalho, corintianíssimo como o ex-presidente.

O corvo Edgar, meu bicho de estimação, o maior agourento do futebol, seca explicitamente o time canarinho desde 2006. “Não tem acordo patriótico”, crocita o maldito, “esse Neymar virou um tremendo mascarado”. Tento domar a criatura no poleiro. Ele segue na mandinga, no escárnio e na blasfêmia. Nem o competente professor Tite, capaz de levar na lábia até a madre superiora, o comove. Que fazer? Vou convocar a dona Lúcia, a crédula e cândida brasileira que consolou Parreira e Felipão em 2014, para administrar gotas de otimismo a este cético miserável.

Xico Sá é autor de “Sertão Japão” (Casa de Irene edições) e “A pátria em sandálias da humildade” (ed. Realejo), entre outros livros. Na tv, é comentarista na “ESPN/Brasil”.

Criadores de feras

criadores

Por Fernando Brito, no Tijolaço

Matéria da Folha mostra que os blackblocs do fascismo ensaiam há tempos ações para provocar bloqueios no abastecimento de combustíveis e, com isso, criar um clima de desordem e comoção que ajude a tal “intervenção militar” com que tanto sonham.

Há três meses, “treinaram” fazer o bloqueio de bases de combustíveis da Petrobras, revela o jornal, com documentos  indesmentíveis.

Nada a estranhar, porque que o país vive sob a ação de grupos de extrema-direita só pode ser novidade para quem tiver chegado ontem ao Brasil e abrir o jornal de hoje.

O que é significativo nisso é que, ao menos até agora, estes grupos violentos vivem e proliferam diante da absoluta tolerância das instituições que deveriam confrontá-los, em nome da democracia: a imprensa, a polícia e o Judiciário.

Aliás, como já se disse aqui, estes funcionam mesmo como “chocadeiras” do ovo da serpente que eles próprios criaram, ao patrocinarem, há anos, o desmonte da regra fundamental do regime democrático: o respeito ao voto popular.

Ao transformarem o exercício da política numa atividade “bandida”, como reclamar que surjam, nas suas bordas, os “esquadrões da morte” do fascismo?

Não foram ele que criaram categorias morais como “lulopetismo bolivariano” ou os “nossa bandeira jamais será vermelha”, como se estas fossem causas dos governos Lula e Dilma, aliás ultraliberais no que tange ao exercício das liberdades públicas?

Não foi com Sérgio Moro, o “japonês da Federal” e os fundamentalistas da “Força Tarefa da Lava Jato” que aprendemos que se deveria exercer a ditadura da “cognição sumária” e das “convicções”?

Eles não nasceram sozinhos e não vivem sozinhos. E não sumirão num passe de mágica eleitoral.

A desgraça para nosso país é que estes grupos vieram para ficar e não vão desaparecer mesmo que meia-dúzia de lunáticos venha a responder por seus atos.

Só a restauração da política como elemento de convívio e solução dos conflitos sociais, algo que estamos a anos-luz de distância, o pode fazer, e lentamente.

E isso tem de começar por algo que parece hoje inatingível: devolver os mecanismos punitivos e policiais ao seu papel secundário na vida brasileira.

Em tempos de Inquisição, não se reclame da selvageria que se injeta na sociedade.

Responsável pelo apagão dos combustíveis, Parente pede para sair

Dd7cFfQVwAAfis0

Pedro Parente pediu demissão na manhã de hoje (1º) do cargo de presidente da Petrobras. O comunicado foi divulgado em nota pela empresa, antes mesmo de ser encerrada a reunião do comandante da estatal com o presidente Michel Temer. Ambos estavam reunidos no Palácio do Planalto desde as 11h. Na foto acima, Parente confraterniza com o juiz Sergio Moro e a esposa deste, em recente evento para empresários promovido pelo ex-prefeito de S. Paulo, João Dória (PSDB).

“A Petrobras informa que o senhor Pedro Parente pediu demissão do cargo de presidente da empresa na manhã de hoje. A nomeação de um CEO interino será examinada pelo Conselho de Administração da Petrobras ao longo do dia de hoje. A composição dos demais membros da diretoria executiva da companhia não sofrerá qualquer alteração. Fatos considerados relevantes serão prontamente comunicados ao mercado.”

SUS perde recursos e médicos ‘engajados’ se mantêm em ruidoso silêncio

DekyH18W4AIXd2-

Os médicos que se manifestaram tão raivosamente contra seus colegas cubanos e contra a presidenta Dilma Rousseff se diziam preocupados com a qualidade da saúde pública no Brasil. Pois Dilma foi golpeada, mas o programa Mais Médicos é hoje um sucesso, ganhando a adesão de médicos brasileiros em todos os Estados.

Enquanto isso, Temer cortou recursos do SUS para bancar a redução nos impostos do diesel. Podemos então esperar que aqueles mesmos médicos altruístas e engajados voltem a ocupar as ruas do Brasil em protesto?

A questão é simples: quando se trata de interesse direto da categoria, como o medo da concorrência estrangeira, todos saem às ruas para protestar. Quando o problema é de interesse público, o silêncio prevalece. 

Galeria do rock

pink_floyd_15

Nesta data, há 46 anos, o Pink Floyd começava a gravar o mítico “Dark Side of the Moon”, nos estúdios Abbey Road, em Londres. Concluída a gravação em janeiro de 1973, o disco foi lançado em março de 1973. Os primeiros seis dias foram concentrados na canção “Us and Them”, começando com Richard Wright no órgão Hammond.

A importância de Alan

bol_sex_010618_11.ps

POR GERSON NOGUEIRA

Ninguém sabe ao certo como será a escalação do Papão para enfrentar o Boa Esporte, hoje, na Curuzu. Dado tem tentado preservar o esquema com três zagueiros, mesmo quando não usa especialistas na função. Contra São Bento e Avaí, designou Nando Carandina para se posicionar entre Diego Ivo e Edimar. Não deu muito certo.

De certeza mesmo só a presença de Alan Calbergue no meio-campo, mostrando entrosamento com os companheiros e desembaraço crescente na movimentação com e sem a bola. Graças a essa evolução, ele foi o principal jogador da equipe, sexta-feira, em Florianópolis.

Com características de armador, Alan mostra-se capaz de executar uma função cada vez mais preciosa e decisiva no futebol moderno: a de segundo volante. É aquilo que no passado dinossauros como Gentil Cardoso e Carlos Froner chamavam de centro-médio. Como diz o próprio termo, trata-se do meio-campista que não é inteiramente defensivo e nem tão ofensivo.

A tarefa de ligar meio e ataque, após receber a bola que sai da defesa, é um dos segredos do sucesso. Quem conta com um jogador capaz de dar um trato categorizado aos passes, sem deixar de marcar quando necessário, tem meio caminho andado para envolver o adversário.

Por tão importante, a tarefa é de difícil execução e não pode ser entregue a volantes botinudos, acostumados somente ao desarme primitivo e cuja capacidade de passar é ínfima. O PSC tem volantes que se atrapalham até no simples recuo de bola, como o veterano Cáceres, que deu de bandeja o gol que abriu caminho para a derrota na Ressacada.

Alan joga mais à frente da marcação, mas sabe fazer recomposição quando a situação exige. Para hoje, contra um adversário presumivelmente fechado, deverá ser usado mais como um apoiador das jogadas de ataque, com liberdade para tentar chutes de fora da área. Bem, pelo menos é o que se espera que Dado venha a fazer, depois das últimas atuações de Alan.

——————————————————————————————

Remo libera atletas, mas Geandro segue imexível

A liberação de atletas sem bom aproveitamento é prática comum nos clubes. Ocorre principalmente por ocasião da troca de técnicos. É normal, portanto, a saída de Adenilson, Martony e Andrei, jogadores que não vinham mais sendo aproveitados pelo Remo na disputa da Série C.

Ao mesmo tempo, soa legítima a intenção do técnico Artur Oliveira de permanecer com Rodriguinho, que integrava a lista de dispensados. Habilidoso, o meia teve momento de grande brilho no Re-Pa pelo Parazão, quando fez um golaço acertando disparo perfeito na gaveta esquerda da trave de Marcão.

Continuou na reserva e não teve novas oportunidades com Givanildo. Artur, que o viu em ação contra o Bragantino, tentará resgatar o futebol do meia, aproveitando-o junto com Rafael Bastos na meia-cancha, para reforçar as ações ofensivas.

Chama atenção, porém, a insistência em permanecer com o volante Geandro, o menos qualificado dos que integram o elenco. Teve rendimento inferior até a Felipe Recife, já dispensado.

Em tempo: no treino de ontem, Artur fez mudanças radicais na formatação e na postura tática do time para o jogo contra o Salgueiro. Colocou Ninho na lateral direita, Moisés e Mimica no meio da zaga e Bruno Maia na lateral esquerda. O meio-campo ganha cinco integrantes: Dudu, Dedeco, Leandro Brasília, Rodriguinho e Rafael. Na frente, Eliandro.

Pode dar certo, do meio para a frente. O Remo vinha usando um esquema suicida nesta Série C, com um trio atacante inofensivo. A dúvida é saber como Artur irá fechar a avenida pela esquerda, que permitiu o segundo gol do ABC na partida passada.

—————————————————————————————

Fernandinho quer preencher “vazio do povo”

Depois das declarações descerebradas de Renato Gaúcho e Eduardo Batista sobre política, eis que o pensador contemporâneo Fernandinho, aquele mesmo que infelicitou miseravelmente o Brasil nos 7 a 1 para a Alemanha na Copa 2014, rompe o silêncio para dizer que o futebol “às vezes preenche um vazio do povo”. Epa, epa…

Segundo o volante, ante as decepções da vida política, o futebol cumpriria um papel. “Nós, jogadores, sabemos de tudo isso, das dificuldades que eles enfrentam. Queremos dar um pouco de alegria”, arrematou.

Tomara que desta vez ele esteja pensando na alegria da torcida brasileira. Na última Copa, Fernandinho deu imensa satisfação à torcida germânica com lambanças decisivas em pelo menos cinco gols da histórica peia aplicada pela seleção campeã do mundo.

—————————————————————————————-

Guerrero e o precedente aberto na luta contra o doping

A anistia concedida ao peruano Paolo Guerrero, exclusivamente para disputar a Copa do Mundo, surpreendeu pelo inusitado em casos do gênero. Rigorosos ao extremo no combate ao doping, os organismos de fiscalização acabaram por abrandar as regras, levando em conta uma suposta preocupação com a idade do jogador e com os apelos de diversos outros atletas. Nunca, que eu lembre, o tribunal de apelação cedeu a esse tipo de influência e pressão.

Ganha o torneio com a presença de um atacante de qualidade como Guerrero, mas o precedente pode ser perigoso. Maradona, por exemplo, foi excluído em plena Copa do Mundo de 1994, com direito a execração pública. O paraense Jobson, menos famoso e prestigiado, pegou um gancho de três anos, mesmo sem comprovação efetiva de doping.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 01)