Por Edmilson Caminha (**)
Determinados personagens me fascinam: pelo poder que exerceram, pela beleza que tiveram, pelo talento com que brilharam – mas, principalmente, por uma certa vocação para a tragédia, pelo sofrimento e a desventura a que, de uma ou de outra maneira, foram condenados. Getúlio Vargas, Leila Diniz e Nelson Rodrigues são exemplos. Talvez ao direito à glória corresponda, como imposto, a provação do infortúnio, o padecer da infelicidade.
Heleno de Freitas viveu uma dessas histórias. Para seus pais provavelmente ninguém discorreu sobre a origem do nome, o passado grego repleto de mitos e dores. Chamaram-no assim sem que soubessem que nele reencarnaria um deus, a reinar grandioso no futebol brasileiro da década de 40. Mestre de uma geração, à arte de Heleno deve o Botafogo tardes inesquecíveis, noites que ficarão para sempre na memória do clube. A cada bola que transforma em gol, a explosão da torcida realizava , por segundos, o ideal da fraternidade humana, entre beijos, abraços e sorrisos de pessoas que se olhavam pela primeira vez. Senhor do estádio, o ídolo era quase indiferente à multidão que o amava, certo de que nascera para ganhar, vivia para vencer. Um gol era, apenas, o prenúncio do seguinte.
Buscava a perfeição com a ânsia dos grandes criadores, com o desespero dos que a procuram como sonho. Nele, o artista e o homem travavam luta de morte, a que sobrevivia, sem forças, um ser machucado e infeliz. Não lhe interessava menos do que a vitória, fosse numa final de campeonato ou num treino de apronto. Por ela, brigava primeiro com o marcador, depois com os companheiros, com o juiz e até com a escolta policial, nas muitas vezes em que saiu expulso. Um dia, cabeceia para o fundo das redes a bola que lhe viera em lançamento primoroso. O ponta-esquerda corre para abraçá-lo mas desiste quando ouve: “Na próxima, vê se chuta mais devagar pra não me partir a cabeça.” Jamais se punha a serviço do grupo, da união de forças, da comunhão de espíritos que se exalta no futebol: todos, no campo, trabalhariam em função dele, para que pudesse fazer do jogo uma obra de arte. Os adversários também pois eles é que se ofereciam à violência dos chutes, ao desconcerto dos passes, à desmoralização dos dribles, ao holocausto dos gols.
Na época em que os homens podiam ser bonitos, mas não muito, Heleno de Freitas desfilava sua beleza no Cassino da Urca e nas boates de Copacabana – para o fascínio das mulheres, a revolta dos namorados e o pavor dos maridos. Razão bastante para que o apelidassem de Gilda, sucesso de Rita Hayworth nas salas de cinema. Era despontar na boca do túnel para que os torcedores do contra começassem a gritar: “Gil-da! Gil-da! Gil-da” Cabelo cuidadosamente penteado, elegantíssimo no preto-e-branco do uniforme, lá estava o belo da tarde, o dono da noite, a fazer de conta que não era com ele. Mas sofria, ante o coro a sugerir dezenas de vezes preferência que não tinha. Talvez por isso as muitas paixões que viveu, as tantas mulheres que amou, várias mais sedutoras do que Gilda, mais deslumbrantes do que Rita Hayworth, aventuras que acabariam por roubar-lhe a saúde e precipitar-lhe o fim.
Do sanatório em Barbacena jamais sairia, presa da loucura que lhe trouxera a sífilis. A cabeça rodando no olho do furacão, julgava-se ainda o grande Heleno, pronto para entrar no derradeiro minuto, fazer três gols e virar a partida. Nas profundezas da noite, recebia a bola, passava por um, por dois, o estádio em pé, passava por três, vai Heleno!, e ficava frente a frente com o goleiro, a cara do enfermeiro asqueroso que o perseguia, o jaleco imundo como alvo a destruir com o chute mais potente do planeta, a bola a trezentos quilômetros por hora furando a rede para se perder no silêncio da escuridão. Acorda molhado de suor, senta-se na cama e chora baixinho enquanto o dia amanhece.
Assim morreu Heleno de Freitas, louco e só. Idade: 39 anos.
(*) Inventário de Crônicas – 1997 – Thesaurus Editora
(**) Jornalista, professor de língua portuguesa e de literatura brasileira.