Por André Barcinski
Anteontem, escrevi aqui no blog sobre o Fora do Eixo. No mesmo dia, li na “Folha” uma entrevista do grande Miranda, produtor musical e jornalista, em que ele elogiava a cena musical do Pará e descia a bordoada na MPB de Seu Jorge, Ana Carolina e Jorge Vercilo: “Virou MPB de barzinho.” (leia a íntegra aqui).
O produtor afirma que a cena paraense se sustenta e cita artistas como Lia Sophia, Aluê, Gang do Eletro e Dona Onete. Miranda não pode ser considerado um analista isento – é curador de eventos musicais no Pará e produziu o primeiro disco de Gaby Amarantos – mas viaja muito pelo país, conhece de perto as cenas musicais de diversos estados e sua opinião é relevante.
O que leva a uma questão que levantei ontem: existe cena musical independente no Brasil? Existem artistas que sobrevivem fora do circuito corporativo de festas de peão, rodeios, festivais patrocinados por cerveja ou por estatais?
Não vou a Belém há anos e conheço a cena local apenas por reportagens. Não sei se artistas paraenses conseguem sobreviver de sua música. Se a cena paraense se sustenta, como diz Miranda, então palmas para ela.
Já sobre as cenas de Rio e São Paulo, continuo achando que só existem na imaginação otimista de alguns. Falo de uma cena autossustentável, em que artistas vendam músicas e shows, tenham locais para tocar e um público que pague por isso.
Não estou dizendo que não existem artistas relevantes e que façam bons trabalhos. Claro que existem. A maioria dos artistas batalha e muito para divulgar sua música. O problema, a meu ver, é que se criou uma dependência tão grande dos artistas em relação a eventos bancados com verba pública, que ninguém consegue criar uma “cena” de verdade, que ande com as próprias pernas.
Esses dias, conversei com um amigo que toca numa banda de rock independente e faz o circuito de casas de show e baladas alternativas. Ele me dizia estar cansado de tocar às 3 da manhã para um público muito mais interessado em encher a cara e xavecar do que na música. Cachês decentes, só quando toca no SESC ou em algum centro cultural público. E o SESC, como sabemos, faz um trabalho ótimo, mas é bancado por um imposto compulsório, tem muito dinheiro, e pode cobrar ingressos muito baixos.