Longe dos sonhos olímpicos

Por Gerson Nogueira

A Olimpíada já viveu dias melhores e eu já fui bem mais atento aos Jogos do que sou hoje. Antigamente, dedicava tempo e interesse a várias modalidades, com ênfase naquelas em que o Brasil tinha alguma chance. Hoje, sem mais aquele patriotismo olímpico, concentro esforços em jogos tecnicamente empolgantes de basquete, algumas lutas de judô e boxe, finais do vôlei feminino e grandes provas de atletismo e natação.

Por isso talvez já não sinta, como antes, frustração com os resultados da equipe brasileira. Habituado a ver o Brasil se posicionar sempre entre o 20º e o 25º lugar no quadro de medalhas, passei a achar mais ou menos normal qualquer desempenho.

Lembro que até os anos 80, quando ainda era forte a divisão entre o bloco soviético e o mundo ocidental liderado pelos norte-americanos, as disputas adquiriam uma conotação quase geopolítica. Em tempos de guerra fria, era até divertido ver a exasperação americana com as façanhas de Cuba nos esportes coletivos.

Os boicotes de Estados Unidos e então União Soviética, ambos de inspiração supostamente altruísta, faziam com que os Jogos tivessem desfechos inesperados.

Os resultados que castigam atletas brasileiros, alguns até favoritos, não irritam mais. Ontem, uma dupla alemã quase desconhecida levou o ouro em cima dos brasileiros mais cascudos da modalidade. Na semana passada, Fabiana Murer, que em Pequim já havia esquecido a vara, foi vítima de uma lufada de vento.

A simpática Maurren Maggi não passou nem perto da medalha. Os irmãos Hipólito não ganharam nada, de novo, mas seguem como promessas. Há, ainda, as tais medalhas consideradas certas, como a de César Cielo, cuja presença midiática cresceu na mesma proporção em que diminuíram seus feitos na piscina. Nenhuma surpresa, afinal o Brasil é assim e todos fazemos bem pouco para modificá-lo – e não me refiro só ao esporte.

Interessante é que a Olimpíada desnuda um aspecto quase tradicional em nossos atletas: a insegurança emocional, que se revela diante do menor sinal de pressão ou expectativa. Como já disse o fenomenal Alexander Popov, o Homem de Gelo, um dos reis das piscinas na era pré-Phelps, o torneio olímpico é diferente porque exige desempenho em grau máximo.

Só há um remédio para tanta amarelidão: a repetição de vitórias. Isto só virá com a massificação do esporte, quando quantidade vira qualidade. Atletas de qualquer modalidade sabem que o Brasil só cultua os vencedores, relegando os medianos e derrotados ao limbo da história. Estão cientes de que só os medalhados serão chamados para todos os programas esportivos e de amenidades da TV nas próximas semanas.

Alguns sonham a vida toda com essa questionável honraria. Outros sabem que, salvo exceções, somente a superexposição permite a captação de patrocínios e, por consequência, o acesso a treinamentos e métodos avançados disponíveis nos países do Primeiro Mundo.

Considero forçado e quase sempre cabotino esse discurso raivoso, quase clichê em ano de Olimpíada, deplorando a falta de política para o esporte e as comparações daí decorrentes. Um país tão jovem deve ter o esporte na agenda, mas não pode deixar de lado prioridades maiores, como educação e saúde. Quando essas áreas forem tratadas com a devida atenção, os campeões irão surgir naturalmente.

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O amigo e leitor Gil Mattos observa, a título de análise estatística, que nos últimos 12 anos em Brasileiros e Copas do Brasil o Remo acumula, em 66 jogos no Mangueirão, 32 vitórias e 21 derrotas no Mangueirão, com saldo positivo de 26 gols e aproveitamento de 55,05%.

No Evandro Almeida, o Remo foi praticamente imbatível nesses dois torneios: são 61 jogos, com 43 vitórias, 13 empates e 5 derrotas, com saldo de 83 gols e aproveitamento de 77,60%.

Números eloquentes – e preocupantes. Reforçam a ideia de que o futebol do Pará só fez regredir nos últimos anos.

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Na quarta-feira, ao comentar a espetacular virada da seleção feminina de vôlei sobre a Rússia, mencionei uma data errada. Na verdade, as russas derrotaram as brasileiras há oito anos, nos Jogos de Atenas, num jogo traumático pelas circunstâncias: a seleção venceu bem os dois sets iniciais, permitiu a reação e acabou superada por 16 a 14 no tie-break. Como se vê, o triunfo de terça foi uma revanche completa. Ontem, o time de Zé Roberto se qualificou para a segunda final olímpica consecutiva.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 10)

7 comentários em “Longe dos sonhos olímpicos

  1. Na mosca, num pais como o Brasil a prioridade de investimento não pode ser no sonho olímpico. Pena que o que é mesmo prioritário também não tenha merecido investimento sério, profundo e verdadeiramente compromissado com o resultado…

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  2. Sinceramente, também perdi a vontade de assistir com mais frequência os jogos Olímpicos. Hoje, só assisto, quando dá, jogos em que o Brasil já está na disputa por medalha. Confesso que, anos atrás, acompanhava e muito quase todas as modalidades.
    – O esporte brasileiro, em geral, precisa de mais investimento e qualificação profissional, há muito tempo.

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  3. Isso porque a prática esportiva universalizada não existe e não é integrada ao sistema educacional de níveis iniciais, médio e superior como nas potências olímpicas. Michael Jordan, por exemplo, maior jogador da história do basquete, é tem curso superior em Geografia. Como se sabe, o mundo do esporte às vezes é cruel com atletas, que podem encerrar prematuramente a carreira por conta de contusões graves, doenças ou outras ocorrências. No Brasil é o contrário, pois a primeira coisa que o camarada faz para se dedicar a alguma modalidade esportiva visando se tornar um grande atleta é abandonar os estudos.

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  4. Isso porque a prática esportiva universalizada não existe e não é integrada ao sistema educacional de níveis iniciais, médio e superior como nas potências olímpicas. Michael Jordan, por exemplo, maior jogador da história do basquete, tem curso superior em Geografia. Como se sabe, o mundo do esporte às vezes é cruel com atletas, que podem encerrar prematuramente a carreira por conta de contusões graves, doenças ou outras ocorrências, e é aí que a formação profissional oriunda de uma educação formal adquirida nos bancos de escolas e universalidades preenche as lacunas do desatino. No Brasil é o contrário, pois a primeira coisa que o camarada faz para se dedicar a alguma modalidade esportiva visando se tornar um grande atleta é abandonar os estudos. E sobre isso joga todas as suas fichas, sabendo inclusive dos altos riscos de um encerramento prematuro da carreira que pode deixá-lo “sem chão”, desamparado.

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  5. Gerson e amigos sei que e difícil assistir a competições quando nosso time não consegue bons resultados, mas vejamos. Uma atleta ganha medalha de bronze no boxe e é obrigada a comprar a passagem de volta pra sua cidade porque o Brasil só da passagem até são Paulo, aqui quando os atletas ganham todos querem ajudar e tudo mais, mas ninguém reconhece que pro atleta chegar em Londres ele teve que vencer outros tantos, nos EUA há campeonatos escolares, municipais, estaduais e federais, todos com atletas apoiados pelo governo, logo há criação de atletas, aqui pegamos pegamos os que ganham e ajudamos, e os que perderam são entregues ao limbo. E e claro que um atleta brasileiro sente mais que um americano, porque eles sabem que só a vitoria fará eles mudarem de vida. Agora realmente não temos como esperar mais de um pais que não consegue resolver problemas da educação e saúde, que dirá do esporte!!!!

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  6. Realmente no brasil não se prioriza a pratica esportiva, mas com todas as adversidades em estruturas paea se obter um melhor rendimento os brasileiros se superaram e irão bater o recorde de medalhas, já ganharam 12 e disputam no minimo mais 04 (já garantidas), chegando a no minimo 16, superando o ano de 2008

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