Na Europa, a questão é resolvida de maneira drástica. Quando os clubes não pagam seus jogadores, a classe entra em greve e paralisa campeonatos. Até na Argentina e no Uruguai esse posicionamento é comum, pela força dos sindicatos de atletas profissionais. No Brasil, porém, apesar da história gloriosa, as cinco Copas do Mundo ganhas pela Seleção e todo o prestígio dos nossos boleiros, reina a mais completa desmobilização sindical, contribuindo para atrasos no pagamento em quase todos os clubes nacionais.
As exceções são saudadas com fogos e fanfarras. Pelo que se tem notícia, apenas São Paulo, Internacional, Grêmio e Cruzeiro pagam rigorosamente em dia seus contratados. Não há empenho para ajustar a contabilidade dos clubes e predomina a idéia, tão arcaica quanto cínica, de que futebol deve ser encarado como uma forma de arte.
Na verdade, futebol é uma atividade profissional como qualquer outra e movimenta rios de dinheiro – para alguns, pelo menos –, daí não haver justificativa aceitável para tanto desrespeito aos direitos trabalhistas mais elementares. Fica a impressão, quase certeza, de que o crônico atraso salarial nos clubes virou um aleijão, herança direta da era amadorista quando os boleiros eram pagos com vales e agrados diversos.
Pois surgiu finalmente alguém interessado em botar um freio nessa velha prática. E de onde menos se esperava. A Federação Paulista de Futebol vai instituir, para o Campeonato Paulista do próximo ano, um item no regulamento que deve reduzir bastante os atrasos de pagamentos.
A proposta da FPF prevê que times inadimplentes com seus atletas perderão pontos na competição. Um item no regulamento exige que o clube caloteiro seja julgado pelo Tribunal de Justiça Desportiva, podendo perder pontos e até ser rebaixado. A idéia é impedir que os clubes cometam as costumeiras loucuras financeiras, contratando muito acima de suas posses.
Segundo a própria federação, a maioria dos clubes já aceitou a mudança no regulamento, mas ainda não houve a assinatura do acordo da nova cláusula. Depois, a entidade buscará o aval do Ministério do Esporte, pois o Estatuto do Torcedor veta mudanças em regulamentos de campeonatos durante dois anos consecutivos.
Curiosamente, o Guarani já estaria rebaixado para a Série C do Campeonato Brasileiro se a medida for encampada pela CBF. Com três meses de salários atrasados, teria contabilizado 12 pontos negativos no torneio – descontados os 27 pontos ganhos até o momento.
Pode não ser a melhor das soluções e exige ajustes, mas é um começo para tentar instaurar ordem no caos em que vivem os clubes brasileiros de todas as divisões. Flagelados por sucessivas gestões incompetentes (ou simplesmente desonestas), as verdadeiras locomotivas do nosso futebol precisam ser cada vez mais fiscalizadas. Sob pena de desaparecerem, em pouco tempo, por falência absoluta.
Um dos principais jogadores do Paissandu está há cinco meses sem receber salários. Apesar da situação, brilhou no domingo contra o Araguaína, comandou o time em campo e tem se mantido em digno silêncio, para não conturbar o ambiente do clube na Série C. Não é o único na fila para receber, mas é o caso mais agudo.
Direto do blog
“Bem que o Luís Omar poderia levar o jogo para o Mangueirão e criar uma promoção de venda de carnê para os três jogos em casa por R$ 50,00 a arquibancada. Seria receita antecipada garantida. Tem de aproveitar este momento de lua-de-mel da torcida com o time. Cadê o setor de marketing para bolar esta ou outra promoção?”
Do Jairo Miranda, torcedor alviceleste e marqueteiro nas horas vagas.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 20)


