Coluna: A elegância está de volta

Torço por Paulo Roberto Falcão no comando técnico do Internacional. Pelo fato cristalino de que é sempre bom ver um ex-craque cuidando de um time de futebol. Por tabela, no sentido oposto da coisa, era a mesma razão para não torcer por Dunga no escrete. Não podia acabar bem – como se viu – um projeto entregue a volante brucutu, escravo dos resultados e do estilo bate-estaca. A opção feita pelo Internacional e anunciada ontem poderia ser uma saudável contribuição para o estágio atual do futebol brasileiro.
Acontece que nem sempre as coisas são tão cartesianas assim quando o assunto é futebol. Vem daí a minha desconfiança de que Falcão, nessa segunda incursão no ofício de treinador, não vai longe. A cobrança por vitórias e títulos, inteiramente normal em clubes de massa, pode atrapalhar sua reentrada na profissão.
Articulado e culto, um cavalheiro dentro e fora dos gramados, Falcão certamente tem muito a ensinar e contribuir, mas talvez precise aprender a conviver com as novas regras impostas pelo mercado da bola. À distância, parece um peixe fora d’água, pouco preparado a conviver com o costumeiro festival de pressões e golpes baixos próprio do relacionamento com dirigentes, atletas e agentes.
Como Zico, Junior e Leonardo, Falcão pertence a uma geração de boleiros que cultivou a classe e a educação como normas de convivência, em todos os aspectos. Como técnico, terá que se nivelar às escaramuças normais de um clube de futebol. Por sorte, escolheu o Internacional, onde deu seus primeiros chutes, construiu portentosa carreira e cuja torcida o venera desde sempre. O problema é que coração de torcedor é um território misterioso. Se o time vai bem, aplaude e endeusa a todos. Diante do fracasso, o treinador é o primeiro a ser colocado no pelourinho.
Há, ainda, outro aspecto a considerar. Falcão passou os últimos 20 anos trabalhando do outro lado do balcão. Como comentarista, nunca foi ferino nas análises, nem mesmo polêmico. Preservou sempre a diplomacia na hora de emitir opiniões, toureando temas mais ácidos.
Ainda assim, deve ter deixado escapar críticas e reparos à atuação deste ou daquele jogador, confraria que nem sempre assimila o julgamento de um ex-companheiro. O recente imbróglio entre Ronaldo Fenômeno e Neto serve como exemplo dessa animosidade disfarçada.
Num cenário ideal, Falcão seria aposta certeira para treinar qualquer time no Brasil e no mundo. No mundo real, nem mesmo o profissionalizado Inter está imune às picuinhas e ao imediatismo que balizam o mundinho do futebol. Mais do que a elegância dos ternos, Falcão precisará ter nervos de aço para agüentar o tranco.  
 
Outro Paulo, também craque, é personagem de uma novela de final imprevisível, que se arrasta há três meses. Trata-se do nosso Ganso, em conflito com a diretoria do Santos. No meio, como intruso, o Corinthians. Pairando, acima de tudo isso, uma discussão feroz em torno de valores contratuais e cifras milionárias. Seja qual for seu destino, Ganso não pode esquecer a velha lição: mostrar ao dinheiro quem realmente manda. 

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 13) 

10 comentários em “Coluna: A elegância está de volta

  1. Não vou me surpreender se o Ganso, do jeito que está sendo traíra e mal agradecido com o Santos, acabe se bandeando justamente para o Corínthians. Lamentavelmente, não faltará gente para apoiar sua atitude antiprofissional, apenas pelo fato de ele ser jogador papa-xibé…

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  2. Gerson, vc disse tudo. Acrescento apenas a infelicidade dos que buscaram comparações com o Renato. Aprendi que l kg de pedra pesa tanto quanto l kg de algodão, a diferença está na qualidade da massa.

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    1. Meu caro Tavernard, também entendo como descabida qualquer comparação entre Falcão e Renato. Estilos diferentes em tudo e óbvio reconhecimento mundial do futebol do primeiro.

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  3. Gerson, a coluna de hoje está riquíssima em temas para refletir. O perfil ideal dos “professores”, a natureza do mercado da bola, o ambiente hostil do exercício da profissão, o corporativismo dos jogadores, tudo isso sem esquecer a citação tangencial de outro mestre gaucho ao receitar “nervos de aço” ao Falcão. Enfim, não obstante n’alguns aspectos, como sempre, atraia minhas divergências, merece os parabéns de sempre, pela costumeira excelente articulação das idéias.

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    1. Gerson, duas coisas:
      (a) uma indagação: como você fazia para conciliar o sentimento de torcer pela Seleção, de torcer para que o Escrete alcançasse os resultados positivos que a levariam ao título, com o sentimento de não torcer pelo pelo Dunga?

      (b) uma observação: de fato, às vezes, não raras, a realidade tromba com o ideal e o esmaga. Um exemplo é Felipão, um assumido ex-brucutu dos gramados e um Ogro em plena atividade, teve sucesso máximo à frente da Seleção. O Parreira outro que nunca foi nem treinador de futebol também obteve resultado máximo na Seleção. O próprio Zagallo cujos detratores dizem que não foi lá um jogador muito brilhante (mesmo tendo jogado na Seleção), é um terceiro exemplo de professor que obteve resultado máximo no comendo de uma Seleção que herdou de um outro comandante que não tenho notícias de que tenha sido um craque com a bola nos pés e que há notícias seguras de que também sabia ser brucutu quando queria.

      De minha parte, nada obstante tenha torcido pelo sucesso destes três (meio a contragosto quanto ao Felipão pelo fato dele ter barrado o Romário), não considerava nenhum deles bons treinadores. De todos os comandantes da Canarinho que pude acompanhar, o meu preferido era o Maestro Telê Santana, o tal Fio de Esperança, da época em que jogava bola. Torci por ele mesmo quando ele barrou o Leandro e acabou perdendo o Renato Gaúcho na esteira. A propósito, os resultados obtidos pelo Telê é mais uma prova de que o futebol é muito pouco cartesiano.

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  4. Falcão vinha ha bastante tempo pensando em comecar de novo, se vai valer a pena, somente os resultados irao dizer.

    Afinal de contas os times(adeptos) brasileiros acostumados a ganharem Copos tds os anos sao muitos exigentes.
    Agora convenhamos diplomas tem saido aos montes para novos professores, mas cade eles???

    Entao curtamos a finura do gerente Falcão a beira da relva, por mais curta que seja, prefiro isto ,do que certos xaropes e seus rotulos mal acabados.

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