América do Sul avança, mas é só o começo
Para surpresa de muitos, o combalido futebol sul-americano está dando um passeio aqui na África do Sul. É cedo para fazer rufar os tambores, mas é fato que a campanha dos cinco representantes desmente todas as previsões de uma Copa dominada pelos europeus e com forte participação dos times africanos. No fechamento da primeira fase, a América do Sul está na lideranças de seus respectivos grupos e três seleções, justamente as mais tradicionais, Argentina, Brasil e Uruguai, já se classificaram antecipadamente às oitavas de final. O Chile, que caiu no grupo da favoritíssima Espanha, depende de um empate apenas para seguir em frente.
Além disso, as cinco seleções estão sobrando nos confrontos dentro dos grupos, conservando-se invictas até o momento. Em doze confrontos, são dez vitórias, três empates, o que perfaz um total de 33 pontos ganhos em 36 disputados. Aproveitamento excelente, marca acachapante. Claro que é apenas a primeira fase, convém manter certa prudência, mas essa performance sinaliza para um domínio sul-americano nas fases seguintes.
Diego Maradona, em entrevista, anteontem, avaliou que o segredo das cinco seleções do continente está na forma de disputa das eliminatórias, por pontos corridos. O sistema privilegia o mérito técnico e a regularidade, ao contrário da divisão por grupos que vigora na Europa, criando situações absurdas, como Portugal obrigado a se classificar na repescagem. Concordo com a tese, pois a América do Sul escolhe de fato suas melhores seleções. Maradona chegou a citar o Equador, sexto colocado nas eliminatórias, como um time capaz de fazer boa figura na Copa.
Outra possível explicação para o êxito inicial das “cinco irmãs” pode ser o calendário praticado nesses países, onde os campeonatos (com exceção da Argentina) não se baseiam no modelo europeu, que divide o ano em duas temporadas, exigindo de seus clubes e jogadores esforço total nos meses que antecedem a Copa. Um outro fator muito temido no mundial sul-africano era o climático, mas sua influência até o momento tem sido mínima, com evidentes benefícios para as equipes da América do Sul, ao contrário do que se imaginava antes. Por fim, é preciso considerar a forma física e técnica de alguns dos grandes jogadores do planeta. Os ingleses, muito cotados antes do torneio, tinham em Rooney, Lampard e Gherrard suas grandes esperanças, mas nenhum deles se sobressaiu até aqui. A Alemanha trouxe Podolski, Klose e Ozil, mas também não se consolidou na disputa, apesar da boa estreia. A Itália veio desprovida de grandes nomes e a Holanda, também apontada como favorita, tem vários astros (Sneijder, Van Persie), mas seu principal regente, Robben, ainda não jogou. Há, por fim, a decepção proporcionada pela França, eliminada ontem com apenas um ponto assinalado na disputa.
É grande, portanto, a possibilidade de um renascimento sul-mericano para o mundo do futebol. Afinal, na Copa da Alemanha, em 2006, nenhum de seus representantes conseguiu atingir as semifinais do torneio.
Bafanas inocentes, Parreira aliviado
Quem acompanhou a decisão do grupo A pode perceber a preocupação dos organizadores com a eliminação precoce da África do Sul, que depois se
confirmaria. No primeiro tempo, com 2 a 0 no placar e um francês expulso, ficou a impressão de que a seleção conseguiria o milagre da classificação, contando com a categórica e honrosa colaboração uruguaia, que fazia sua parte frente ao México. Bastou, porém, começar o tempo final para perceber que aos Bafanas falta ainda aquele instinto matador que caracteriza os times vencedores. Desperdiçou boas chances de fazer o terceiro e permitiu que o fraquíssimo esquadrão francês descontasse, o que redobrou o grau de dificuldades matemáticas para obter a vaga. Parreira, muito questionado através da imprensa nos últimos dias, sai pelo menos com um troféu pessoal: ganhou sua primeira partida em Copas treinando outra seleção que não a
brasileira.
Uruguai em vantagem no mata-mata
Os dois primeiros confrontos de mata-mata já definidos incluem duas seleções sul-americanas. A Argentina terá um osso duro de roer contra o México, domingo à tarde. Toda a estratégia ofensiva do time de Maradona será posto à prova pela aguerrida seleção mexicana. No outro duelo, entre Uruguai e Coréia do Sul, vejo amplas vantagens para a Celeste Olímpica, que tem aliado à tradicional garra com alguns momentos de bom futebol, pelos pés de Forlán e Suárez.
Briga de cachorro grande
Circulou com insistência a informação de que a Globo resolveu amaciar discurso em relação a Dunga, temendo a pecha de vilã caso algo de errado aconteça com a Seleção nas fases de mata-mata. Apesar dos evidentes exageros do treinador no treinador com os jornalistas, há prudência no gesto da emissora, pois nas derrotas a torcida costuma carimbar quem esteja pelo caminho. Foi assim com a Nike em 1998 e com Roberto Carlos e seus meiões em 2006. A dúvida é saber para que lado pende, a essa altura, o todo-poderoso presidente da CBF. Já há quem jure que, por trás da truculência verbal de Dunga, está a cabeça grisalha de Ricardo Teixeira. O tempo se encarregará de clarear as coisas nesta batalha que promete ter desdobramentos depois do dia 11 de julho, qualquer que seja o resultado.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 23)













